E-mail para o Apóstolo Paulo

Amado apóstolo,

     Estou escrevendo para colocá-lo a par da situação do Evangelho que um dia você ajudou a propagar a nós gentios, e que lhe custou a própria vida. As coisas estão muito difíceis por aqui. Quase tudo o que você escreveu foi esquecido ou deturpado.

     Você foi bastante claro ao despedir-se dos irmãos em Éfeso, alertando que depois de sua partida lobos vorazes penetrariam no meio da igreja, e não poupariam o rebanho [1]. Palavras de facto inspiradas, pois isso se concretiza a cada dia.

     Lembra-se que você escreveu ao jovem Timóteo, que o amor ao dinheiro era a “raiz de todos os males”[2]? Quero que saiba que as suas palavras foram invertidas, e agora se prega que o dinheiro é a “solução” de todos os males.

     Também é com tristeza que lhe digo que na nossa época ninguém mais quer ser chamado de pastor, missionário ou evangelista, pois isso é por demais humilde: um bom número almeja levar o título de apóstolo. Sei que no seu tempo, os apóstolos eram “fracos... desprezíveis... espectáculo para os homens... loucos... sem morada certa... injuriados... lixo e escória” [3]. Agora é bem diferente. Trata-se de uma honraria muito grande: cercam-se de criados que os admiram, quando viajam exigem as melhores hospedarias e são recebidos nos palácios pelos governantes.

     Eles não costumam pregar os seus textos, pois você fala muito da “Graça” e da “liberdade que temos em Cristo” [4]. Isso não soa bem hoje, pois a Igreja voltou à “teologia da retribuição” da Antiga Aliança (só recebe quem merece), e liberdade é a última coisa que os pastores querem pregar às suas ovelhas.

     Você não é bem visto por aqui, pois sempre foi muito humano, sem jamais esconder as suas fraquezas: chegou até a reconhecer contradições internas, dizendo que não faz o bem que prefere, mas o mal, esse faz [5]. Eles não gostam disso, pois sempre se apresentam inabaláveis e sem espinhos na carne como você. A presença deles é forte, a sua fraca [6], eles são saudáveis, você sofria de alguma coisa nos olhos [7], eles jamais recomendariam a um irmão que tomasse remédio, como você fez com Timóteo [8], mas aqui eles oram e determinam a cura – coisa que você nunca fez.

     Você dizia que por amor de Cristo perdeu “todas as coisas” considerando-as refugo [9]. As coisas mudaram, irmão. Agora cantamos: “Restitui, quero de volta o que é meu!”.

     Vivo numa cidade que recebeu o seu nome, e aqui há um apóstolo que após as pregações distribui lencinhos vermelhos encharcados de suor, e as pessoas levam-nos para casa, como fizeram em Éfeso, imaginando que afastarão enfermidades [10]. Sim, eu sei que você nunca ordenou isso, nem colocou como doutrina para a igreja nas epístolas, mas sabe como é o povo....

     Admiro a sua coragem por ter expulsado um “espírito adivinhador” daquela jovem [11], embora isso lhe tenha custado a prisão e açoites. Você não se deixou enganar só porque ela acertava o prognóstico. Hoje há uma profusão de pitonisas e prognosticadores no meio do povo de Deus, todavia esses espíritos não são mais expulsos, ao contrário, reunimo-nos ansiosos para ouvir o que eles têm a dizer para nós.

     Gostaria de ter conhecido os irmãos bereanos que você elogiou. Infelizmente, quase não existem mais igrejas como as de Bereia, que recebam a palavra com avidez e examinem as Escrituras “todos os dias para ver se as coisas são de facto assim”[12].

     Há momentos que a gente desanima e se sente fragilizado como Timóteo, o seu companheiro de lutas. Mas que coisa bonita foi quando você o reanimou insistindo para que reavivasse “o dom de Deus” que havia nele [13]. Estou-lhe confessando isso, pois actualmente 90% dos pregadores oferecem uma “nova unção” para quem fraqueja. Gosto desta sua exortação, pois você ensina que dentro de nós já existe o poder do Espírito, dado de uma vez por todas, e não precisamos de buscar nada fora ou nada novo!

     Os nossos cultos não são mais como na sua época. Onde a igreja se reunia na casa de um irmão, havia comunhão, orações, e a Palavra explanada era o prato principal.... as coisas mudaram: o culto agora é 'show', a fumaça não é mais da nuvem gloriosa da presença de Deus, mas do gelo seco, e a Palavra é só para ensinar como conseguir mais coisas do céu.

     O Espírito revelou-lhe que nos últimos tempos alguns apostatariam da fé “por obedecerem a espíritos enganadores” [14]. Essa profecia já se está cumprindo cabalmente, e creio que de forma irreversível.

     Amado apóstolo, sinto tê-lo incomodado no seu merecido descanso eterno, mas eu precisava desabafar. Um dia estaremos todos juntos reunidos com a verdadeira Igreja de Cristo. 

     Maranata!  
Pr. Daniel Rocha

 
[1] At 20.23; [2] 1Tm 6.10; [3] 1Co 4.-9-13; [4] Gl 2.4; [5] Rm 7.19; [6] 2Co 10.10;
[7] Gl 4.13-15; [8] 1Tm 5.23; [9] Fp 3.8; [10] At 19.12; [11] At 17.18; [12] At 17.11;
[13] 2Tm 1.6; [14] 1Tm 4.1.

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