Sete Vezes Um Fracasso (IV)
A DISPENSAÇÃO DA PROMESSA
Foi nesse cenário que Deus escolheu Abraão (nessa altura ainda chamado Abrão) e disse-lhe:
“Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que Eu te mostrarei.
E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.
E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gén. 12.1-3)
No seu carácter estas promessas eram incondicionais e certamente serão gloriosamente cumpridas, mas não devido a alguma virtude em Abraão ou na sua semente multiplicada, pois o próprio Abraão fracassou logo no princípio ao não apropriar a promessa de Deus, como indica a frase de abertura de Génesis 12: “Ora o Senhor disse a Abraão …” Isto indica que Abraão tinha feito algo diferente do que Deus lhe tinha dito para fazer; assim devemos recuar à breve narrativa com que a Dispensação da Promessa principia:
“E tomou Terá a Abrão seu filho, e a Lot filho de Haran, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos Caldeus, para ir à terra de Canaã; e vieram até Haran, e habitaram ali.
E foram os dias de Terá duzentos e cinco anos; e morreu Terá em Haran.” (Gén. 11.31,32)
O modo preciso como Deus falara a Abraão não nos é dito, nem necessitamos de saber, mas pelo que nos é dito aqui não nos é difícil de imaginar. Abraão diz ao seu pai idólatra,1 e talvez a toda a sua família, que Deus lhe falou, instando com ele para que deixasse a sua terra, a sua parentela e até a casa de seu pai, para se dirigir para uma terra que Deus lhe mostraria. Pode-se imaginar a consternação que este anúncio terá provocado e como Terá terá replicado com o filho: “Estás a sonhar … Como é que podes deixar a tua própria carne e sangue? … Espera um mês ou meses mesmo, e pensa bem”, etc. finalmente, quando Abraão insiste em ir, que deve ir Terá diz: “Eu levar-te-ei”.
Ora Deus tinha claramente instruído Abraão: “Sai … da tua parentela e da casa de teu pai”, mas evidentemente Abraão rendeu-se à proposta final de Terá, e assim Terá, cujo nome significa impedimento “tomou Abrão … e Lot … e Sarai” e principiou a jornada para Canaã. Porém não avançou mais que Haran, “e habitou ali”. Na verdade, o pequeno grupo habitou ali até à morte de Terá, vinte e cinco anos mais tarde. Assim Abraão procrastinou vinte e cinco anos, fracassando todos aqueles anos a sua entrada em Canaã, a terra para a qual o Senhor o tinha chamado.
É esta a narrativa com que principia a Dispensação da Promessa. E como ela termina? Com Israel, a semente multiplicada de Abraão, fracassando a sua entrada em Canaã, a terra da promessa.
Em Deuteronómio 1, Moisés recorda como foi logo após Israel ter deixado o Egipto que ele lhes disse:
“Chegados sois às montanhas dos Amorreus, que o Senhor nosso Deus nos dará.
Eis aqui o Senhor teu Deus te deu esta terra diante de ti: sobe, possui-a, como te falou o Senhor Deus de teus pais; não temas e não te assustes” (Vers. 20,21).
Porém eles, como seu pai Abraão, tinham dado ouvidos à voz da incredulidade, como Moisés agora lhes recorda:
“Então todos vós vos chegastes a mim, e dissestes: Mandemos homens adiante de nós, para que nos espiem a terra, e nos dêem resposta por que caminho devemos subir a ela, e a que cidades devemos ir. (Ver. 22)
"Mas nem por isso crestes ao Senhor vosso Deus,
"Que foi adiante de vós por todo o caminho, para vos achar o lugar onde vós devíeis acampar: de noite no fogo, para vos mostrar o caminho por onde havíeis de andar, e de dia na nuvem” (Vers. 32,33).
Assim, a Dispensação da Promessa principiou com o fracasso de Abraão ao não entrar em Canaã e terminou com Israel tendo um fracasso idêntico.



