Graça III - O que é a Graça?

Cornelius R. Stam

     Aos culpados em todos os lugares Deus está a oferecer "a remissão das ofensas [ou, o perdão dos pecados], segundo as riquezas da Sua graça" (Efé. 1:7).
 

     Que maravilhosa mensagem para proclamar!
Que privilégio poder dizer a pecadores que "Deus estava em Cristo [no Calvário] reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação" (II Cor. 5:19). Quão glorioso sussurrar aos ouvidos dos condenados que eles podem ser "justificados gratuitamente pela Sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus!" (Rom. 3:24).

     O leitor crê nestes factos e regozija-se neles?

     Esta mensagem foi plenamente proclamada por Paulo, o apóstolo da graça, mas esteve praticamente perdida durante muitos séculos. O legalismo, o ritualismo e a superstição quase obscureceram completamente a maravilhosa mensagem da salvação pela graça, apenas por meio da fé. Graças a Deus, hoje está a ser de novo recuperada. À medida que os dias se tornam cada vez mais tenebrosos a luz da Sua Palavra resplandece cada vez mais radiosa e homens de Deus de todo o mundo erguem-se para proclamar de novo o mistério revelado a Paulo - o propósito de graça da parte de Deus para um mundo perdido, arruinado. Esta bendita verdade requer uma vez mais ampla atenção.

     Os que proclamam o Evangelho da graça de Deus na sua plenitude certamente que podem esperar ter reacções de Satanás, pois Satanás odeia a graça. Ele opõe-se ferozmente ao restabelecimento do mistério. Veja-se como ele se opôs e perseguiu implacavelmente aquele a quem Deus Se revelou em primeiro lugar! Mas se Paulo pôde sofrer “trabalhos e até prisões” (II Tim. 2:9) —  se ele pôde voluntariamente renunciar à sua própria vida por causa da proclamação desta mensagem gloriosa, decerto que nós também devemos querer participar das aflições do Evangelho de acordo com o poder de Deus (II Tim. 1:8).

     Contudo não se deve supor que Satanás se opõe sempre à verdade do mesmo modo. Se ele não pode ser bem sucedido como leão rugidor, ele surgirá como anjo de luz. Ele sugerirá que certamente um Deus de amor não condenará para sempre os que rejeitam Cristo. Na verdade, ele sustentará que os pecadores não são totalmente responsáveis, pois Efésios 1:11 não nos diz que Deus “faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade?” Por conseguinte, ele argumenta que Deus salvará todas as pessoas. 

     Um crente humilde e equilibrado disse-me certa ocasião, “Se Satanás não te impedir de aceitares a mensagem da graça, ele tentará fazer com que a adulteres!”

     É exactamente isto que ele está a fazer hoje. À medida que o movimento da graça cresce em todo o mundo, Satanás procura substituir a oferta graciosa de reconciliação da parte de Deus (II Cor. 5:20), com o ensino anti-bíblico da reconciliação universal – a falsa ilusão de que todos, sem excepção, serão salvos. “Isto”, diz ele, “é graça – admirável graça.”

     Mas a reconciliação universal NÃO é graça, seguramente. Na realidade, é a tentativa de Satanás de subverter toda a doutrina da salvação pela graça. Isto ele fá-lo, não negando as Escrituras, mas pervertendo-as.


A NATUREZA DA GRAÇA

     Há duas frases significativas em Efésios 2 que lançam luz clara sobre o carácter, a natureza, da graça. Encontram-se nos versículos 2 e 3, que falam dos perdidos como “filhos da desobediência” e “filhos da ira”.

     Meditemos momentaneamente nestas frases: "filhos da DESOBEDIÊNCIA"—"filhos da IRA."

     É perante este quadro negro, tenebroso, que lemos a seguir,

     “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

     "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos),

     "E nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

     "Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça, pela Sua benignidade para connosco em Cristo Jesus” (Efé. 2:4-7).

     Segundo estas passagens claras das Escrituras o significado de graça é a misericórdia e benignidade de Deus para com quem não merece.


A QUESTÃO DO PECADO

     Será difícil apreciarmos o significado da graça a menos que reconheçamos a culpa do homem e a ira de Deus sobre o pecado.

     Porque Efésios 1:11 declara que Deus “faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade” alguns supõem que poderá haver alguma desculpa para o pecador. Este versículo e outros semelhantes são frequentemente utilizados para ilibarem o homem da sua responsabilidade diante de Deus.

     Os apologistas da Reconciliação Universal usam isto como base para os seus argumentos de que todos serão salvos. Argumentam que o homem é simplesmente manipulado por Deus, apesar de terem cuidado em não dizê-lo tão claramente. O livre arbítrio do homem é chamado “fantasma” uma vez que tudo, mesmo o pecado, é obra da vontade de Deus. O pecado, dizem eles, foi introduzido por Deus de modo a podermos conhecer a alegria da salvação. E, argumentam que, uma vez que o pecado teve a sua origem com Deus, é simplesmente justo que Ele salve os homens dele.

      Mas se isto é verdade, então – Deus é o único pecador no universo! Então todos os pecados vis, horríveis que mancham as páginas da história e os mais monstruosos que os historiadores mais básicos não registam por pudor – todas estas atrocidades têm sido actos de Deus, que faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade.

     Mais, porque haveria Ele de me acusar de pecado quando toda a crueldade e injustiça, todo o adultério e infidelidade, toda a inveja e homicídio procederam não do meu coração, mas do Seu? Que injustiça condenar-me quando todas estas coisas são resultado da Sua vontade e eu não tenho qualquer vontade na matéria!

     Tais conclusões são extremamente chocantes para a mente espiritual. Quem poderia confiar num Deus assim? – um Deus que na realidade concebe e produz os pecados mais vis nas Suas criaturas de modo a elas poderem aprender a louvá-l’O por as libertar deles!

     Nós estamos bem conscientes de que a literatura Universalista não declara a questão tão explicitamente, mas o Universalista não pode negar que esta é a conclusão inevitável, quando não a interpretação óbvia dos seus ensinos.

     Graças a Deus, nem todos os que aceitam a Reconciliação Universal o fazem tão inteligentemente, mas avisamos os crentes sinceros para que não caiam nesta perversão das Escrituras e assim desonrem Deus. Ela é uma velha heresia que Satanás tem reavivado numa tentativa de deslocar a culpa do pecado da criatura para o Criador. É o Modernismo num outro disfarce. É chamada graça, mas é claro que não é a graça de Deus ensinada na Bíblia, pois a graça é a misericórdia e benignidade de Deus para com os culpados – os condenáveis.


O HOMEM É RESPONSÁVEL

     Quem teria pensado que um ensino maravilhoso de que todos serão salvos poderia tornar Deus no único pecador no universo? No entanto é a conclusão, impossível de escapar, a que um Universalista sincero tem de chegar. Tais heresias acontecem por se tentar sujeitar a revelação divina à razão humana.

     Argumenta-se que se Deus faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade tem necessariamente de se concluir daí que o homem não tem livre arbítrio da Sua parte. Mas isto é colocar a razão acima da revelação. Esquecem-se que, como alguém disse, “O oposto de uma verdade não é necessariamente uma inverdade. Pode ser uma outra verdade.”

     Ao argumento de que o termo “livre arbítrio” não se encontra na Bíblia, nós replicamos que nem o termo “soberana vontade de Deus” se encontra igualmente na Bíblia, mas ambas as doutrinas são claramente ensinadas ali, e é papel da fé curvar-se diante deste bendito livro. Arrazoemos com os homens sobre as Escrituras como Paulo fez (Act. 17:2), mas não tentemos reduzir as Escrituras à razão humana ou roubemos à nossa mensagem toda a sua vitalidade.

     Como podemos reconciliar, nas nossas mentes pequenas, a humanidade de Cristo com a Sua deidade, ou o humano e o divino na Bíblia, ou o facto de Deus ser três Pessoas e ainda assim ser indivisivelmente Um, ou a constante mudança na criação com a sua constância fixa? Nós não podemos explicar ou talvez mesmo compreender estes paradoxos, no entanto são factos, e estranhamente, estes opostos são como a corrente negativa e positiva na electricidade. Fazem o Livro pulsar vida e poder.  Porém tentemos explicar um ou outro destes opostos e o livro já não é a Palavra de Deus viva e poderosa.

     É claro que cremos em Efésios 1:11. Deus faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade. Mas usar este versículo para negar o livre arbítrio do homem seria tão contrário às Escrituras como usar Marcos 3:35 para negar a soberana vontade de Deus. Ali o Senhor disse, “Porquanto qualquer que fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe.”

     Se um homem não é livre de exercer a sua vontade, obviamente não pode ser acusado de desobediência, pois até no seu pecado ele está a obedecer à vontade de Deus. Se o criador de uma máquina prime um botão e a coloca em operação, essa máquina, não possuindo qualquer vontade própria, obedece à vontade do seu criador. As naves que regressam dos seus voos obedecem-lhe bem como as que não. Se a máquina falha a falta é dele. Ela não pode desobedecer-lhe porque não tem nenhuma vontade própria.

     Se esta é a posição do homem, o que é que Deus quer dizer com “filhos da desobediência,” e porque razão Ele haveria de Se irar com o homem? Porque é que os perdidos haveriam de ser chamados “filhos da ira?”

     Todavia o homem tem uma vontade própria. Ele é responsável. Ele tem sido desobediente. Para que ninguém negasse isto Deus deu a lei “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rom. 3:19).

     Efésios 1:11 deve ser lido em ligação com o Salmo 76:10, “Porque a cólera do homem redundará em teu louvor, o restante da cólera tu o restringirás.” A vontade do homem é livre mas a vontade de Deus é soberana. Em última análise a Sua vontade é feita. Até um sábio patrão usará as falhas e erros dos seus empregados para benefício. Não fará Deus o mesmo?


FILHOS DA DESOBEDIÊNCIA E FILHOS DA IRA

     Há aqui um facto importante que tem sido geralmente ignorado. A palavra filhos implica pais. Mesmo quando não é usada com respeito a parentes de sangue ainda implica pais.

     Os que falam de Deus trazer o pecado e a morte ao mundo devem lembrar-se que Romanos 5:12 diz que “por UM HOMEM entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.”  Ora, Paulo ora para que os crentes pudessem ter percepção espiritual para apreciarem e apropriarem a sua unidade com Cristo. Este facto, apesar de ser uma verdadeira bênção, não nos é fácil, na nossa presente condição, de entender. Ma há uma verdade que deve ser muito fácil de nós entendermos – a nossa unidade, como seres humanos, com Adão. Como ser humano eu sou tão parte de Adão como o meu dedo é parte do meu corpo. Eu sou um ramo de Adão. Eu vim dele. Eu estava nele. Quando ele pecou eu pequei. Quando ele caiu, eu caí. Eu não tenho pecado apenas nos últimos anos. Eu não me tornei culpado apenas recentemente. Eu pequei em Adão. Eu sou parte de Adão. Eu nasci culpado (não desgraçado, mas culpado). A minha natureza pecaminosa não é um acidente, algo que recentemente aconteceu – é a natureza de Adão.

     Graças a Deus, é maravilhoso o facto de eu já estar “crucificado com Cristo.” Fui baptizado na Sua morte e ressurreição. “Se alguém está em Cristo nova criatura é” (II Cor. 5:17). Mas "a carne" é parte de Adão e tem a sentença de morte sobre ela.

     Há alguns anos, falando de um pobre bêbado, um amigo disse-me, “Mas como podes culpabilizá-lo? Olha para os seus pais.”  “Sim,” disse eu, “Devias ter conhecido os seus pais!” É claro que eu estava meramente a tentar salientar o facto de que tudo aponta para um só homem. Porém isso não iliba o homem da sua responsabilidade e culpa; cimenta-a e enfatiza-a. Se eu sou uma nova criação em Cristo, membro da Sua carne e dos Seus ossos (Efe. 5:30), então é até mais aparente que em mim mesmo eu seja membro de Adão, da sua carne e dos seus ossos. O meu pecado e culpa datam do tempo de Adão.


BEBÉS E ADULTOS

     Mas há um outro facto notável que devemos notar – um facto que não aparece à superfície destes versículos em Efésios 2. A palavra para filhos no Versículo 2 é diferente da usada no Versículo 3. A palavra para filhos no Versículo 3 é "teknon", que significa simplesmente “nascidos”. Não temos nenhuma palavra para esta na língua Portuguesa, mas os escoceses têm a palavra "bairn" (crianças, meninos, bebés). Ora Deus diz no Versículo 3 que nós éramos por natureza os “meninos da ira”. Mas a palavra no Versículo 2 é “huios”, que significa “filhos crescidos ou adultos”. Isto sugere imediatamente entendimento e responsabilidade. Notemos que esta palavra é usada em referência à desobediência do homem. Onde a desobediência humana está em causa os homens são chamados “filhos crescidos, ou adultos”. Deus deixa-nos sem desculpa. Ele diz, “Vocês sabiam o que estavam a fazer.” “Fostes desobedientes.” “Sois responsáveis.”

     Já reparou na construção de Romanos 5:12? "por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte," — E daí? Nós esperaríamos que continuasse assim, “Assim também a morte passou a todos os homens pelo pecado de um homem.” Todavia termina de modo bem diferente: “assim também a morte passou a todos os homens por isso que [porque] todos pecaram.”  Depois de nos dizer que o pecado entrou no mundo por um homem, ele coloca a culpa directamente sobre os filhos como igualmente sobre os pais porque todos têm pecado! Vê isto? Todos pecaram nele. Todos pecaram como resultado dele. Somos todos pecadores colectivamente e individualmente. Não há qualquer escape! Lamentamos que alguns que crêem na Reconciliação Universal tenham adulterado este versículo para encaixá-lo nas suas teorias.

     Não é um facto que quando se fala em desobediência, somos filhos crescidos? Nós sabíamos o que estávamos a fazer. Deus enfatiza este facto, pois temos de reconhecer a nossa culpa antes de Ele poder revelar graça.

     Romanos 5:12 lembra-nos que todos os detalhes da queda de Adão têm sido reactivados em toda a vida humana. Nós revelamos que somos de Adão porque somos todos Adãos individuais. Exactamente como no caso de Adão houve violação da vontade conhecida de Deus. Esta violação separou-nos de Deus. Depois veio a tentativa vã de auto-justificação! É por isso que Efésios 2:2 chama-nos incrédulos “filhos crescidos da desobediência.”

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