Graça II - O Desvendar e Refulgir da Graça

A MAIOR REVELAÇÃO DE TODOS OS TEMPOS
Ao Apóstolo Paulo foi confiada a maior revelação de todos os tempos: "o mistério," o segredo do Evangelho e eterno propósito de Deus (Col. 1:25,26). A ele foi dada "a dispensação da graça de Deus" (Efé. 3:1-3). O seu ministério substituiu o de Pedro e os onze quando, perante a continuada rejeição a que Israel votou Cristo e o Seu reino, ele tornou-se no apóstolo das nações (Rom. 11:13). O reconhecimento solene deste facto foi feito pelos líderes dos doze (incluindo o próprio Pedro) ao darem a Paulo e Barnabé as dextras da comunhão, reconhecendo a comissão divina de Paulo para ir aos Gentios, e concordando, dali em diante, em restringir o seu próprio ministério a Israel (Gál. 2:2,7,9).
Em relação a esta comissão Paulo foi também o ministro divinamente nomeado da Igreja da presente dispensação, "o Corpo de Cristo" (Col. 1:24,25).1 Nenhum outro escritor da Bíblia tem uma única palavra a dizer sobre "a Igreja que é o Seu [de Cristo] Corpo." Nenhum dos outros apóstolos a menciona. Não apenas procuraremos em vão tal fraseologia nos seus escritos, como procuraremos em vão qualquer discussão sobre o assunto, pois eles não tratam da Igreja de que os crentes hoje são membros. Contudo Paulo, que escreveu mais livros da Bíblia do que qualquer escritor, trata consistentemente destas verdades que dizem respeito à “Igreja que é o Seu Corpo” (Efé. 1:19-23).
A REVELAÇÃO PERDIDA DE VISTA
Todavia esta grande revelação, e verdades gloriosas associadas, tem sido grandemente perdida pela Igreja professa.
A Igreja de Roma ignora os factos que declarámos acima, apesar de eles estarem claramente expostos nas suas próprias traduções da Bíblia. Ela insiste que a verdadeira Igreja de hoje é uma perpetuação da que foi fundada por Cristo quando na terra; um reino a ser estabelecido na terra, sobre o qual Pedro e os onze foram nomeados para serem líderes e administradores durante a Sua ausência. E mesmo apesar do nosso Senhor nada ter dito de uma ausência prolongada ou de qualquer sucessão de tais líderes, Roma declara que o seu presente papa é sucessor de Pedro e, como tal, Vigário de Cristo e Chefe supremo da Igreja na terra. Em conformidade com isto ela defende que está a trabalhar para cumprir a “grande comissão” dada a Pedro e aos onze, requerendo o baptismo na água para o perdão dos pecados e reclamando possuir poderes miraculosos.
Mas o Protestantismo, apesar de se gloriar da liberdade da tirania de Roma, não tem, de jeito nenhum, emergido inteiramente das sombras dos séculos das trevas. Ele ainda sofre de uma ressaca Romana. Apesar de renunciar à autoridade papal, ele ainda adere ao ensino Romano de que a Igreja de hoje é uma perpetuação da igreja a que o Senhor se referiu em Mateus 16:16-18 e que é o reino de Deus na terra (v. 19). Ele também procura levar a cabo a “grande comissão” dada a Pedro e aos onze, embora a meio gás, pois não consegue clarificar se o baptismo na água é ou não necessário para a remissão de pecados, estando também confuso e discordando relativamente à possessão de poderes miraculosos do que chama de “grande comissão” – se é possível possuí-los ou não.
Sob Deus, Martinho Lutero, abalou a Europa até aos fundamentos com um restabelecimento parcial da verdade Paulina, mas a Igreja Protestante tem feito pouco para avançar com esse restabelecimento, de modo que em vez de reconhecer o carácter distinto da posição de Paulo como nosso apóstolo, a maioria dos Prostestantes pensam que ele é simplesmente um dos apóstolos, em parceria com Pedro e os onze. Ao dar um passo tão curto no afastamento de Roma, a Igreja Protestante tem assumido uma posição muito fraca, pois se Paulo deve ser considerado como sendo um dos doze, Roma pode facilmente provar que Pedro, não Paulo, foi designado seu chefe (Ver Mat. 16:19; Actos 1:15; 2:14,38; 5:29, etc.).
A EXTENSÃO DO MINISTÉRIO DE PAULO
Porque a Cristandade se desviou tanto da grande revelação Paulina, ela perdeu quase completamente a vastidão do seu ministério e influência, e o alcance que a sua mensagem teve no mundo conhecido.
Um exemplo disso encontra-se no que os estudiosos da Bíblia têm feito com Tito 2:11.
É geralmente — e correctamente — unânime que a epiphaneia nesta passagem implica um aparecimento claramente visível ou reconhecido, refulgente, e que a frase "todos os homens" não significa, portanto, cada indivíduo individualmente, mas todos os homens colectivamente; toda a humanidade. Mas poucos conseguem crer que sob o ministério de Paulo o Evangelho da graça de Deus resplandeceu sobre toda a humanidade, que a sua proclamação teve alcance mundial. Eles concluem que Paulo não podia ter querido dizer isso em Tito 2:11; que ele deve ter querido apenas dizer que a graça de Deus, trazendo salvação a todos os homens, se tinha manifestado.
Este problema parece ter sido um problema até para os tradutores desta passagem, pois os tradutores da Bíblia nunca estiveram de acordo quanto ao seu verdadeiro significado.
Segundo algumas traduções, como a Nova Tradução de Darby, o apóstolo quis dizer que a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens. Segundo outras, como a Autorizada (acima citada) ele quis dizer que a graça de Deus se manifestou a todos os homens, trazendo salvação. Outras ainda usam fraseologia cautelosa, mesmo ambígua, mas a maioria toma uma ou outra das perspectivas acima. A maioria, provavelmente, incluindo algumas das propensas a serem mais fieis nas suas traduções, ajustam-se substancialmente à Versão Autorizada, citada acima. Não podemos deixar de sentir que se não fossem as dúvidas dos tradutores sobre o que Paulo poderia ter querido dizer sobre a mensagem da Graça estar a refulgir para toda a humanidade, todos, ou quase todos, teriam traduzido a passagem substancialmente como a Versão Autorizada. Face a estas dúvidas é significativo que tantos o tenham traduzido como a Autorizada.
OS DOZE E A SUA COMISSÃO
Aparte da declaração de Paulo em Tito 2:11 há muitas evidências nas Escrituras de que a sua mensagem resplandeceu em todo o mundo conhecido. Contudo, antes de considerarmos esta evidência, consideremos primeiro que os onze, sob Pedro, foram previamente enviados a proclamar a toda a humanidade a mensagem que Deus lhes deu. Nos registos da sua “grande comissão” três diferentes termos são usados para enfatizar este facto:
"Portanto ide, ensinai todas as nações" (Mat. 28:19 cf. Luke 24:47).
"Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura [i.e., toda a criação]" (Marcos 16:15).
O leitor deve lembrar-se bem destes três termos: todas as nações, todo o mundo e toda a criação, pois vamos encontrá-los novamente em relação ao ministério de Paulo.
Os Doze (Matias no lugar de Judas) começaram a levar a cabo a sua missão de alcance mundial, mas nunca saíram da sua própria nação. Nós devemos associar sempre Actos 1:8 a Actos 8:1 ao estudarmos os Actos, pois Jerusalém, em vez de se voltar para o Messias de modo a que os apóstolos pudessem prosseguir com a sua “grande comissão”, começou uma "grande perseguição" contra a Igreja ali, resultando daí que "todos foram dispersos pelas terras da Judeia e da Samaria, excepto os apóstolos."
Os doze têm sido acusados muitas vezes de preconceito e infidelidade por terem ficado em Jerusalém nesta ocasião. Contudo, de facto, constituiu ser de uma rara coragem e fidelidade à sua comissão permanecer em Jerusalém enquanto a perseguição rugia ferozmente e as suas vidas corriam perigo. Eles permaneceram em Jerusalém pela mesma razão dos restantes terem fugido: porque Jerusalém não se estava a voltar para Cristo. A primeira parte da sua comissão ainda não se tinha cumprido, por conseguinte o dever levou-os a ficar ali.
Os doze não permaneceram em Jerusalém porque eram preconceituosos relativamente à salvação dos Gentios. Há muita evidência bíblica contra esta ideia. Eles continuaram ali porque tinham uma compreensão clara do programa profético e da comissão que o seu Senhor lhes dera (Ver Lucas 24:45; Actos 1:3; 2:4). Eles sabiam que de acordo com o concerto e a profecia os Gentios seriam salvos e abençoados através da nação de Israel remida (Gén. 22:17,18; Isa. 60:1-3; Zac. 8:13). O nosso Senhor não tinha indicado nenhuma mudança neste programa. Ele trabalhou em perfeita harmonia com ele. Mesmo antes da Sua morte Ele insistiu que Israel estava primeiro no programa revelado de Deus, mandando os Seus discípulos não irem aos Gentios ou aos Samaritanos mas “antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mat. 10:6), e dizendo a uma Gentia que veio pedir ajuda: "Deixa primeiro saciar os filhos" (Marcos 7:27). E mais tarde, na Sua "grande comissão" aos onze, declarou especificamente que eles deveriam começar por Jerusalém (Lucas 24:47; Actos 1:8).
Certamente que Pedro manifestou o seu desejo de que a “comissão” sob a qual ele trabalhava trouxesse o cumprimento das profecias e do concerto feito com Abraão, pois ele disse aos “varões israelitas”:
" Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
“Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Acts 3:25,26).
E Paulo, apesar de não operar sob esta mesma comissão, deu posteriormente testemunho de que Israel tinha estado em primeiro lugar no programa de Deus, pois disse aos Judeus, em Antioquia, da Pisídia:
"Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a Palavra de Deus …" (Acts 13:46).
Foi somente quando Israel persistiu em rejeitar Cristo e o Seu Reino que Deus começou a pôr de parte a nação, levantando Paulo para ir aos Gentios com as boas novas da salvação “pela graça,” aparte dos concertos e profecias, e "por meio da fé," aparte das obras. Foi então que Paulo foi a Jerusalém "por revelação" e comunicou aos líderes ali o Evangelho que pregava entre os Gentios (Gál. 2:2). E esses líderes, incluindo o próprio Pedro, deram a Paulo e a Barnabé as dextras da comunhão como reconhecimento oficial do facto de Paulo ter sido escolhido por Cristo como apóstolo para as nações, e decidiram, dali em diante, restringir o seu ministério a Israel (Gál. 2:7-9).
Com este reconhecimento oficial do propósito divino os apóstolos em Jerusalém ficaram "libertos" da sua comissão original de fazer discípulos de todas as nações, e só Paulo podia dizer:
"Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, glorificarei o meu ministério" (Rom. 11:13).
Por vezes são apresentados argumentos da história da igreja para provar que os doze foram a território Gentílico; que não mais do que um ou dois deles morreu na Palestina. Mas mesmo que estes argumentos pudessem ser plenamente substanciados, isso não entraria no caso, pois o que quer que os apóstolos da Circuncisão pudessem ter feito depois do acordo de Gálatas 2, eles não tinham autoridade apostólica entre os Gentios, e depois da declaração de Actos 28:28 eles não tinham mais qualquer autoridade apostólica. O que qualquer um deles escreveu (das Escrituras) depois disso, eles simplesmente escreveram por inspiração do Espírito Santo, justamente como qualquer outro escritor da Bíblia.
Notemos bem, então, que Pedro e os onze, que originalmente tinham sido enviados a proclamar o Evangelho do reino a “todas as nações”, “”todo o mundo” e “toda a criação,” nunca completaram a sua missão. Na verdade, se eles o tivessem feito aquela dispensação teria chegado ao fim, pois o nosso Senhor tinha dito a respeito do período da tribulação (então iminente, mas mais tarde graciosamente protelada):
"E este Evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim" (Mat. 24:14).
Se, por conseguinte, ao derramamento do Espírito Santo se seguisse directamente o derramamento da ira de Deus (ambos preditos em Joel 2, e citados por Pedro em Actos 2) Israel ter-se-ia voltado para Deus em arrependimento e os doze teriam continuado a proclamar “o Evangelho do reino” a todas as nações. Aquela dispensação teria sido assim consumada; o fim teria vindo. Mas em vez de enviar imediatamente o juízo, Deus interrompeu o programa profético e revelou o Seu propósito secreto, enviando Paulo para proclamar a toda a humanidade “o Evangelho da graça de Deus” (Actos 20:24).
PAULO E A SUA COMISSÃO
É claro que ninguém mesmo relacionado superficialmente com o Livro dos Actos ou das Epístolas de Paulo questionará o facto de que algures depois da comissão do Senhor aos onze, Paulo foi enviado, como apóstolo de Cristo, para proclamar a toda a humanidade “o Evangelho da graça de Deus.”
É significativo que os três termos empregues na chamada “grande comissão” para indicarem o seu alcance e âmbito mundial também são usados nas epístolas de Paulo em relação ao seu ministério. Só que, enquanto os doze nunca foram a "todas as nações," "todo o mundo" ou "toda a criação" com a mensagem deles, Paulo foi com a sua.
Ao terminar a sua epístola aos Romanos o apóstolo diz:
"Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto.
"Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé" (Rom. 16:25,26).
E aos Colossenses ele escreve a respeito da "verdade do Evangelho":
"Que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós …" (Col. 1:6).
"… esperança do Evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura [toda a criação] que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro (Col. 1:23).
Vários argumentos podem ser avançados para provar que “o Evangelho da graça de Deus” não alcançou realmente “todo o mundo” ou “toda a criação,” e nós não negamos que “todo o mundo” significa todo o mundo conhecido, e “toda a criação” significa igualmente toda a criação que eles conheciam. Mas o ponto é que o que quer que estas três frases signifiquem na chamada “grande comissão,” elas também significam nestas declarações de Paulo, pois os termos são exactamente idênticos no original.
Nós temos visto como os doze não levaram a sua mensagem a “todas as nações,” “todo o mundo” ou “toda a criação,” porque, por um lado Israel rejeitou-a e por outro lado Deus tinha um propósito secreto para revelar. Mas Paulo, a quem este propósito secreto foi revelado, diz que levou a sua mensagem a “todas as nações,” “todo o mundo” e “toda a criação.”
Enquanto os doze nunca saíram da sua própria nação para levar a cabo a sua comissão, está escrito que Paulo, durante a sua estadia em Éfeso, "todos os que habitavam na Ásia [Menor] ouviram a Palavra do Senhor Jesus" (Actos 19:10). Aos Romanos ele escreve: "desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o Evangelho de Jesus Cristo" (Rom. 15:19), e fala dos seus planos em ir à Espanha (15:24), planos que podem muito bem ter sido realizados entre os seus dois aprisionamentos. Até dos seus cooperadores foi dito: "Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui" (Actos 17:6). E aos Romanos ele diz novamente: "em todo o mundo é anunciada a vossa fé" (Rom. 1:8).
Com respeito a esta última declaração alguns argumentam dizendo que visto que Paulo ainda não tinha estado em Roma por essa altura, só podem ter sido os crentes da Igreja em Jerusalém a alcançarem Roma sob a sua “grande comissão.”
Nós não aceitamos isto como válido, pois apesar de terem estado "forasteiros Romanos" presentes em Pentecostes, não há nenhuma indicação que tivesse havido qualquer número substancial destes, ou que os presentes fossem sequer convertidos, muito menos que tivessem começado uma igreja em Roma. Assim, aqueles a quem Paulo escreveu em Roma dificilmente poderiam ter sido convertidos dos crentes da Circuncisão em Jerusalém. Eles tinham sido, sem dúvida, ganhos para Cristo através daqueles a quem Paulo tinha alcançado com “o Evangelho da graça de Deus.”
Isto leva-nos a reconhecer um outro facto importante. Temos visto de Mateus 24:14 que se os doze tivessem levado a sua mensagem a todo o mundo "o fim" daquela dispensação teria ocorrido. Isto prova ao mesmo tempo que Paulo não estava a trabalhar para cumprir a “grande comissão” para os onze e que ele não pregou o mesmo Evangelho que eles, pois nesse caso “o fim” teria ocorrido nos seus dias, uma vez que ele diz que a sua mensagem tinha chegado a "todo o mundo."
Nota final
1. Composto por Judeus e Gentios reconciliados com Deus em um só corpo pela cruz (Efé. 2:14-16; I Cor. 12:13). Comparar com a igreja do reino, que tinha o reino de Cristo em vista (Ver Mat. 16:15-18; 19:28; Actos 1:6; 3:19-21).
Continua!
- Cornelius R. Stam
- Cornelius R. Stam



