A chamada "Grande Comissão"


Cornelius R. Stam     Quão familiar se tem tornado o termo “a grande comissão”!  Duma forma geral é grandemente usado numa referência às instruções que o Senhor, antes de partir, deu aos onze, como se encontram registradas nos quatro Evangelhos e nos Actos (Mat. 28:18-20; Marcos 16:15-18; Lucas 24:46-48; João 20:21-23; Actos 1:7-8).  Geralmente supõe-se que esta chamada “grande comissão” incorpora a “guia de marcha” que nosso Senhor deu para a Sua igreja hoje.  Contudo, a razão porque se supõe assim, é porque a maioria dos ministros da Palavra, em vez de exporem, interpretarem e explicarem estas instruções com vista a levarem-nas a cabo fielmente, ficam satisfeitos e escolher e separar determinadas frases dela para sermões devocionais.  

 

     Tudo o que a maioria dos membros da igreja ouve da chamada “grande comissão”, é o “Ide” e o “eis que estou convosco” de Mateus, o “todo o mundo” e “toda a criatura” de Marcos, o “vós sois testemunhas” de Lucas, o “assim como o Pai me enviou, assim Eu também vos envio a vós” de João e o “recebereis a virtude do Espírito Santo que há-de vir sobre vós” de Actos.


A ESCOLHA DE COMISSÕES

     Aqueles que, contudo, vão para além das frases escolhidas e examinam o registo no seu contexto, deparam com grandes dificuldades na aceitação da “grande comissão” como nossa guia de marcha.  O legalismo de Mateus 28:20 (cf. 21:1-3), a salvação baptismal e os sinais miraculosos de Marcos 16:16-18, o “começando por Jerusalém” de Lucas 24:47 e Actos 1:8, e a autoridade para perdoar pecados de João 20:22-23, é tudo tão obviamente incompatível com o evangelho da graça de Deus, que os ensinadores bíblicos Fundamentalistas têm sido forçados a escolher registos individuais da comissão que se adaptem a esta dispensação, de acordo com o grau de dificuldade que têm experimentado no harmonizar os vários mandamentos com a presente verdade.  Naturalmente que isto tem contribuído muito para a confusão que prevalece entre os Fundamentalistas nos nossos dias.  

     Comparativamente, são poucos os crentes que estão cientes do facto dos nossos líderes espirituais nunca terem concordado quanto a qual das cinco passagens atrás referidas incorpora a nossa comissão para hoje, porém a discórdia tem sido profunda.  

     O Dr. A: C: Gaebelein, por exemplo, cria que a comissão de Mateus não é a nossa comissão.  Ele escolheu Lucas 24:46-48 como “a comissão Gentílica”.  O falecido Dr. H. A. Ironside, contudo, defendia o registo de Mateus como sendo “a nossa guia de marcha”, ao passo que o Dr. I. M. Haldeman, por outro lado, enfatizava a comissão em Marcos.  O Dr. Wm. L. Pettingill discordava deles todos e escreveu: “A comissão sob a qual a igreja é suposta operar é a de Actos 1:8”.  

     Dos escritos do Dr. Ironside, o chamado “Arcebispo do Fundamentalismo” 1 pode ser assumido que quase todos os Fundamentalistas concordam que a comissão de Mateus 28 é a nossa comissão.  Nos seus escritos ele parece atónito com qualquer outra conclusão e implica que só os Bullingeristas questionariam o caso.  Referindo-se à comissão de Mateus, ele diz:  

     “As pessoas que nunca investigaram o Bullingerismo e os seus sistemas afins crer-me-ão dificilmente quando digo que até a Grande Comissão, sob a qual a igreja tem actuado durante 1900 anos, e que ainda é a nossa autoridade para missões de amplitude mundial, é, segundo esses ensinadores, uma comissão com que nada temos a ver, que não tem de forma alguma qualquer referência à Igreja ... No entanto, tal é o seu ensino”  (Manejando Mal a Palavra da Verdade - Wrongly Dividing the Word of Truth, P. 17).  

     Posteriormente,  no mesmo livro ele chama esta interpretação ‘absurda’, ‘grotesca’ e ‘iníqua’!  (Manejando Mal pp. 17-18).  

     Aparentemente, o ‘Arcebispo do Fundamentalismo’  encontrava-se tão decidido a combater os ‘Bullingeristas’ que se esqueceu que muitos dos seus colegas, incluindo o Se. J. N. Darby, o chamado fundador dos Plymouth Brethren - Irmãos de Plymouth - (com quem o Dr. Ironside esteve associado muitos anos) negava enfaticamente que a comissão de Mateus fosse a nossa.  Citaremos aqui Darby e outros colegas do Dr. Ironside: 

     Dr. James M. Gray: “Esta é a Comissão do Reino ... não a Comissão Cristã” (Christian Worker’s Commentary - O comentário Cristão do Obreiro, p. 313).  E diz mais, no mesmo Comentário: “O cumprimento da Comissão do Reino foi interrompido, porém esta comissão será reatada antes do Senhor vir libertar Israel nos últimos dias” (mesma página).  

     Dr. Wm. L. Pettingill: “O evangelho de Marcos, como o de Mateus e o de Lucas, é primariamente um livro que tem a ver com o Reino, e eu estou satisfeito por nenhum deles encerrar a guia de marcha para a Igreja - nem mesmo a chamada “Grande Comissão” de Mateus 28:18-20-2 (Bible Questions Answered, p. 100 - Respostas a Perguntas Bíblicas).  

     Dr. Arno C Gaebelein: “Esta é a Comissão do Reino ... Há-de vir o tempo em que esta grande comissão aqui, será levada a cabo por um remanescente de discípulos Judaicos” (Gospel of Matthew, Vol. 2, p 323 - O Evangelho de Mateus).  

     Sr. Darby:  “A execução da comissão aqui em Mateus foi interrompida ... de facto, no presente, deu lugar a uma comissão celestial, e à Igreja de Deus” (Collected Writings - Escritos Coligidos, p. 327).  

     Assim, não tem havido concórdia geral quanto à comissão de Mateus ser para nossa obediência.  Porém, o facto triste é que apesar de muitos dos colegas do Dr. Ironside discordarem com ele quanto à comissão de Mateus, eles também discordavam entre si acerca da “grande comissão”, que incorpora a nossa guia de marcha.  Todavia todos eles parecem concordar em manterem-se afastados da comissão em João 20:21-23, ao passo que Roma, baseando-se nesta passagem, clama ousadamente ter autoridade para perdoar pecados.  A igreja Fundamentalista ainda não conseguiu dissipar estas dificuldades.  

     Pensemos nisto!  Nesta data tão avançada, mais de dezanove séculos depois de nosso Senhor ter dado estes mandamentos, a igreja está em discórdia quanto ao que é que exactamente Deus quer que o Seu povo faça e ensine!  Não fechemos os olhos para este facto, mas enfrentemo-lo de modo a podermos remediá-lo, pois, senão, como é que poderemos obedecer à nossa “guia de marcha” se não soubermos qual é?  “Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?”  

     Mesmo entre os que se têm regozijado na compreensão do mistério ainda vemos os efeitos deste erro de se supor que o Senhor, num curto intervalo de tempo entre a Sua ressurreição e ascensão, deu aos mesmos homens comissões diferentes, pretendendo que outros começassem, numa futura data, a levar a cabo uma ou mais destas comissões - e tudo sem que no registo houvesse qualquer explicação desse “propósito”!  

     Notando que os apóstolos nunca foram além da sua própria nação, tanto quanto as Escrituras nos revelam, concluíram que “os confins da terra” em Actos 1:8 deveriam ser traduzidos por “confins da terra (da Palestina)” e que “todas as nações” em Mateus 28:19 significa apenas as nações Gentílicas.  Assim, dessas duas comissões (como eles as vêem), ambas dadas pelo Senhor aos onze antes da Sua ascensão, presumem que a de Actos 1:8 é para eles obedecerem, enquanto que a de Mateus 28:19 não é para ser levada a cabo por eles, mas por outros no futuro.  É também argumentado que, segundo o registo de Lucas (24:47), “o arrependimento e a remissão de pecados” seria para ser pregado entre todas as nações Gentílicas, “começando por” Jerusalém.  

     Porém tudo isto é complicar aquilo que é simples.  

     É verdade que a palavra Grega ge em Actos 1:8 pode ser algumas vezes traduzida por terra da Palestina, mas na grande maioria dos casos deve ser traduzida por terra (globo terrestre), e não terra (da Palestina).  Mais, fraseologia semelhante é por exemplo encontrada em Mat. 12:42 onde lemos que a Rainha de Sabá  veio “dos confins da terra (ge)” ouvir a sabedoria de Salomão, e em Marcos 13:27, onde nos é dito que os anjos serão enviados a reunir os eleitos de Deus “desde os quatro ventos, da extremidade da terra (ge)”.  Decerto que a Rainha de Sabá não viajou para Jerusalém meramente dos confins da terra da Palestina, nem “os quatro ventos” podem designar apenas essa terra.  

     Também é verdade que frequentemente a frase “as nações” se refere às nações Gentílicas, especialmente quando a nação singular, Israel, está a ser discutida separadamente.  E é assim na natureza do caso.  Porém é um erro supor que a frase “as nações” se refere sempre às nações Gentílicas e um erro maior supor que a frase “todas as nações” se tem de referir necessariamente às nações Gentílicas.  

     Quando, por exemplo, lemos que “o Senhor está exaltado acima de todas as nações” (Salmo 113:4), que Deus “de um só fez toda a geração dos homens (todas as nações)” (Actos 17:26) e que “todas as nações virão, e se prostrarão diante de Ti (Cristo)” (Apo. 15:4), poderá Israel ser excluída?  

     Com toda a certeza que Israel está incluída nas “todas as nações” de Mateus 28:19, pois ainda não tinha sido trazida aos pés do Messias.  A nação de Israel também se encontra incluída nas “todas as nações” de Lucas 24:47 pois, notemos bem, o registo ali diz: “começando por Jerusalém”.  

     Nesta relação, talvez o ponto mais importante de todos a ser observado seja que na comissão de Mateus o Senhor disse aos onze apóstolos: “IDE”, precisamente como disse em Marcos 16:15 e em Lucas 1:8.  Porque regra de hermenêutica ou por que lógica temos nós o direito de excluir da interpretação deste mandamento precisamente aqueles a quem ele o deu?


A INCONSISTÊNCIA DE SE ESCOLHER COMISSÕES  

     Ao resolvermos esta dificuldade (levantada pelos homens) deverá ser notado em primeiro lugar que todas as instruções referidas foram dadas aos mesmos homens num período de quarenta dias, com nenhum indício de mudança de programa, nem com certas instruções para serem levadas a cabo então e outras mais tarde.  A controvérsia de que determinados daqueles registos contêm a comissão do reino e que outro, ou outros, contêm a comissão Gentílica, é por conseguinte forçada e contra-natural.  

     Argumentar que um ou mais destes registos se aplicam apenas a uma geração futura é, como dissemos, também forçar as coisas e contra-natural, pois não é logicamente possível excluir-se da interpretação directa destas passagens as pessoas a quem Ele deu as instruções.  Se bem que é verdade, é certo, que eles podem não ter completado a sua missão, quando contudo Ele lhes disse, “Ide”, queria evidentemente dizer que eles deviam obedecer às Suas ordens.  Na verdade seria estranho se eles compreendessem o Seu “ide” como significando que outros mais tarde deveriam ir.  

     Deverá a seguir ser notado que o legalismo de Mateus 28:20, a salvação baptismal e os sinais miraculosos de Marcos 16:16-18, o “começando por Jerusalém” de Lucas 24:47 e de Actos 1:8 e as instruções para se perdoar pecados em João 20:22-23, concorda tudo com o que os apóstolos fizeram como revela o Livro dos Actos.  

     Não existe nenhuma indicação de qual quer revelação a eles de que a morte de Cristo os tinha libertado da observância da lei de Moisés.  Eles continuavam unanimemente no templo diariamente (Actos 2:46) e tomavam parte na adoração ali (Actos 3:1), tendo o cuidado de não começarem uma nova seita aparte do Judaísmo, pois eles, que tinham aceitado o Messias, eram o verdadeiro Israel.  

     A pessoa que baptizou Saulo de Tarso era “um varão piedoso conforme a lei” (Actos 22:12) e em Actos 21:20 ainda encontramos Tiago a salientar “quantos milhares de Judeus há que crêem; E SÃO TODOS ZELADORES DA LEI”.  

     Antes do grande concílio de Jerusalém (Actos 15) não vemos os crentes Judeus concordarem que os Gentios deixariam estar debaixo da lei.  Se a igreja Judaica em Jerusalém permaneceria ou não sob a lei nem sequer foi discutido.  Foi claramente assumido que eles continuariam.  E isto porque os doze tinham sido comissionados a ensinarem a observância da lei, como já vimos.  

     Na verdade, no milénio, de que Pentecostes era em antegosto, a lei será ensinada em Jerusalém e Israel será zelosa em ouvir e obedecer.  

     Os apóstolos também ensinaram a salvação baptismal de Marcos 16:16, pois Pedro exigiu arrependimento e baptismo para a remissão de pecados (Actos 2:38).  Quanto aos sinais miraculosos de Marcos 16:17- 18, a leitura mais casual do princípio dos Actos revelará que estes abundavam.  O “começando por Jerusalém” de Lucas 24:47 e de Actos 1:8 também foi cuidadosamente observado e os pecados foram perdoados (instrumentalmente) por homens quando estes baptizavam os que criam (Actos 2:38; 22:16).  

     Todos os registos da chamada “grande comissão” concordam, então, com o que os apóstolos fizeram na realidade, como os Actos revelam, de tal forma que não existe nenhuma razão para se supor que determinados daqueles mandamentos era para eles obedecerem enquanto outros não.  

     A contenção de que a “fórmula” para o baptismo na comissão de Mateus difere da usada pelos apóstolos nos Actos não apresenta aqui qualquer dificuldade, pois não se encontra declarado nada que eles usariam uma fórmula, ou forma de palavras, quando baptizassem.  Em Mateus 28:19 é simplesmente declarado que eles baptizariam no nome (isto é, pela autoridade) do Deus trino, enquanto que nos Actos eles baptizaram no nome do Senhor Jesus.  Os que crêem que “n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” não encontrarão aqui qualquer dificuldade.  A dificuldade só se ergue quando se supõe que os apóstolos repetiriam certas palavras ao baptizarem.  Toda esta ideia da fórmula baptismal é uma tradição profundamente enraizada na tradição, mas completamente anti-bíblica.  

     Nem a promessa: “Eis que Eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos”, apresenta qualquer dificuldade, pois, lembremo-nos, esta presente dispensação é um período parentético da graça que então ainda era um segredo “oculto em Deus” (Ef. 3:9).


AS TRÊS GRANDES COMISSÕES

     Para se obter uma compreensão clara da nossa grande comissão, consideremos três grandes comissões que foram dadas pelo Senhor sucessivamente; uma antes da Sua crucificação, outra depois da Sua ressurreição e uma terceira depois da Sua ascensão.


UMA GRANDE COMISSÃO

     Tem sido posta uma grande ênfase no “Ide” da chamada “grande comissão”, mas esta não foi a primeira vez que o Senhor comissionou os Seus apóstolos a “ir”-  A Sua primeira grande comissão dada aos apóstolos é encontrada em Mateus 10:5-10:  

     “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: NÃO IREIS pelo caminho das Gentes, nem entrareis em cidade de Samaritanos; mas IDE ANTES às ovelhas perdidas da casa de Israel;  E, INDO, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.  Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demónios: de graça recebestes, de graça dai.   Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos,   Nem alforges para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordão; porque digno é o operário do seu alimento”.  

A isto nosso Senhor acrescentou instruções a respeito da sua conduta entre amigos e inimigos, e predisse algumas das aflições que eles seriam chamados a suportar.  Esta comissão cobre o capítulo 10 todo (Ver 11:1).  

     Certamente que esta comissão não é a nossa “grande comissão”, mas se nós estivéssemos entre os doze apóstolos quando estas directrizes foram dadas certamente que nós as teríamos considerado uma “grande comissão”.  

     O mandamento para que o ministério deles apenas fosse limitado exclusivamente a Israel não lhes deve ter parecido estranho, pois estava baseado no bem conhecido concerto Abraâmico que dizia que as nações seriam abençoadas através da semente multiplicada de Abraão (Gén. 22:17-18; cf. Actos 3: 25-26).  Além disso, os profetas tinham predito repetidamente que as nações encontrariam bênção e salvação por meio da nação de Israel já redimida.  Antes da nação de Israel ser salva a bênção não podia fluir para os Gentios (Is. 59:20 - 60:3; Zac. 8:13).  

     Então, era perfeitamente normal que o  nosso Senhor enviasse primeiro os apóstolos exclusivamente à casa de Israel.  Na verdade, ele declarou enfaticamente a respeito do seu próprio ministério: 

     “... EU NÃO FUI ENVIADO SENÃO ÀS OVELHAS PERDIDAS DA CASA DE ISRAEL” (Mateus 15:24).  

     Sem dúvida que isto foi tomado por certo por aqueles que reconheciam Israel como a nação escolhida.  O apóstolo Paulo, alguns anos mais tarde, olhando para trás, escreveu:  

     “Digo pois que JESUS CRISTO FOI MINISTRO DA CIRCUNCISÃO por causa da verdade de Deus, PARA QUE CONFIRMASSE AS PROMESSAS FEITAS AOS PAIS;   E PARA QUE OS GENTIOS GLORIFIQUEM A DEUS PELA SUA MISERICÓRDIA, como está escrito: Portanto eu te louvarei entre os Gentios, e cantarei ao Teu nome.  E outra vez diz: alegrai-vos, Gentios, com o Seu povo” (Rom. 15:8-10).  

     Marquemos bem os detalhes desta promessa milenar.  É misericórdia para os Gentios e o cumprimento das promessas a Israel.  Na verdade os Gentios regozijar-se-ão com o Seu povo, mas não antes que o Seu povo venha a regozijar-se n’Ele.  Assim, o Senhor veio, primeiro de tudo, “salvar O SEU POVO dos seus pecados” (Mateus 1:21), e Ele, agora, estava a enviar os doze apóstolos como Seus cooperadores.  

     Em harmonia com tudo isto os doze foram comissionados a proclamar o reino dos céus como “tendo chegado” e foi-lhes dado poder para operarem milagres como sinais da bênção há muito prometida (cf. Is. 35:5-6).  Certamente que eles devem ter considerado isto uma grande comissão.  

     Para facilitar uma comparação desta comissão com as duas a ser consideradas a seguir, passaremos a salientar os detalhes ordenadamente:  

     1.  Sob esta comissão os apóstolos foram exclusivamente enviados à nação de Israel (Mateus 10:5-6; cf. 15:24 ; e Rom. 15:8).  

     2.  Sob esta comissão o reino estava a ser proclamado como “tendo chegado” (Mateus  10:7).  

     3.  Sob esta comissão foram dados aos apóstolos poderes miraculosos (Mateus 10:8). 

     4.  Sob esta comissão eles não deviam fazer provisões para o futuro (Mateus 10:8-10; cf. 5:42; Lucas 12:32-33).  

     5.  Sobe esta comissão o arrependimento e o baptismo eram requeridos para a remissão de pecados.  Apesar do baptismo na água não ser mencionado nesta passagem particular, é claro, depois duma observação atenta em outras passagens, que o Senhor e os Seus apóstolos, como João Baptista, proclamaram o reino e requereram o arrependimento e o baptismo para a remissão dos pecados (Ver Marcos 1:4 e cf. João 4:1-2).  

UMA COMISSÃO MAIOR 

     Depois da Sua morte e ressurreição o Senhor deu aos apóstolos (excepto a Judas Iscariotes) uma comissão maior.  Erroneamente, esta comissão tem sido chamada “a grande comissão”, “os últimos mandamentos do Senhor para nós” e “a nossa guia de marcha”.  Deste erro tem surgido muita discórdia sobre o baptismo na água, sinais físicos e políticos, etc.  

     Esta nova comissão não era de modo algum um desvio do programa profético; pelo contrário, era um desenvolvimento do mesmo.  

     Se examinarmos as passagens que contêm o mandamento de Nosso Senhor para se ir e pregar “o evangelho”, não encontramos lá qualquer indicação que Ele tinha em vista um evangelho diferente daquele que eles tinham estado a pregar.  E, lembrem-nos que esse evangelho (boas novas) dizia respeito ao Messias e ao Seu reino.  É específica e repetidamente chamado “o evangelho do reino” (Mateus 4:23; 9:35; 24:14; Lucas 9:2, 6; etc.).  

     Assumir que o Senhor os está a enviar a pregar e proclamar “o evangelho da graça de Deus” não tem qualquer justificação.  De facto, “o evangelho da graça de Deus” nunca foi pregado nem sequer mencionado antes de Paulo ter sido levantado e enviado a declará-lo (Ver Actos 20:24; cf. Rom. 3:21-28; Ef. 3:1-3).  

     Comparemos as comissões pré e pós ressurreição de nosso Senhor, lembrando-nos que ambas foram dadas ao mesmo grupo de homens:  

     1.  Assim como os apóstolos tinham sido enviados só a uma nação, eles agora eram enviados a todas as nações, começando por Jerusalém (Lucas 24:47; Actos 1:8).  Isto não era nenhum desvio do primeiro programa, mas um desenvolvimento do mesmo, pois o Senhor tinha tratado com a nação de Israel de tal maneira que eles podiam tornar-se uma bênção para todas as nações.  

 Agora era assumido que Israel aceitaria o Seu Messias ressuscitado e que o programa continuaria.  

     2.  Sob esta comissão o reino, primeiramente proclamado como “tendo chegado”, era agora oferecido para que Israel o aceitasse (Actos 2:36-39; 3:19-26).  De novo aqui o desenvolvimento do mesmo programa.  

     3.  Sob esta comissão foi dado aos discípulos de Cristo maiores poderes miraculosos do que antes (Marcos 16:17-18; João 14:12; cf. princípio dos Actos).  Temos aqui de novo um desenvolvimento do mesmo programa.  

     4.  Sob esta comissão toda a igreja Pentecostal tinha, agora, todas as coisas em comum.  Ler cuidadosamente Actos 2:44-45; 4:32-37 vejamos como isto também é um desenvolvimento do mesmo programa.  

     5.  Sob esta comissão o arrependimento e o baptismo eram requeridos para a remissão de pecados e em consequência disto o Espírito Santo dado imediatamente (Marcos 16:16-18: cf. Actos 2:38).  Temos uma vez mais, aqui, um desenvolvimento do mesmo programa.  

     Que erro chamar a isto “a grande comissão” e “a nossa guia de marcha”!  Quão patético é vermos crentes sinceros tentarem levar a cabo inutilmente esta comissão e estas ordens!  Mas ... pior que isso: Que confusão, divisão e pesar tem este erro trazido à igreja; isto, ... para não mencionar os efeitos sobre os perdidos que contemplam estupefactos este triste quadro.  

     Se esta comissão incorpora o programa de Deus para os nossos dias, como responderemos aos Adventistas do Sétimo Dia quando ensinam legalismo baseando-se em Mateus 28:20 e 23:23, ou à chamada “Igreja de Cristo” quando ensina que o baptismo é requerido para a salvação, tomando por base Marcos 16:16, ou aos Pentecostais, quando eles insistem que os milagres poderosas de Marcos 16:17-18 são os sinais de verdadeira fé, ou aos Católicos Romanos quando eles citam João 20:22-23 e insistem no direito de perdoar pecados?


A MAIOR COMISSÃO 

     “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já O não conhecemos deste modo.   Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura (criação) é: as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo.   E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou Consigo mesmo por Jesus Cristo, E NOS DEU O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO;   Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; E PÔS EM NÓS A PALAVRA DA RECONCILIAÇÃO” (II Cor. 5:16-19).  

     Se os registos da chamada “grande comissão” contivessem “os últimos mandamentos” do Senhor para nós, na verdade, eles deveriam ser “a nossa guia de marcha”, pois as últimas ordens dum capitão duma companhia são para ser obedecidas, mas não é verídica que “a grande comissão” incorpora “os últimos mandamentos” de nosso Senhor.  Depois da Sua ascensão o Cristo rejeitado falou de novo do Seu exílio no céu e deu uma maior comissão a Paulo e a nós.  O apóstolo fala repetidas vezes da dispensação da graça que lhe foi confiada pelo Senhor glorificado.  

     Para se determinar qual das comissões do Senhor é para os nossos dias, nós devemos formular duas perguntas:  

     1.  Porque é que Deus levantou Paulo, um outro apóstolo, algum tempo depois de Matias ter sido escolhido, segundo as Escrituras, e assim ter ficado completo o número dos doze?  

     2.  Porque é que, depois de terem sido mandados ir “por todo o mundo” (Marcos 16:15) para fazerem discípulos de “todas as nações” (Mateus 28:19), os apóstolos permaneceram em Jerusalém (Actos 8:1) e porque é que eles, por meio dos seus líderes concordaram mais tarde em restringir o seu ministério a Israel, enquanto Paulo ia aos Gentios (Gál. 2:9)?  Estavam eles todos deslocados da vontade de Deus, ou estava a ocorrer uma mudança dispensacional?  A única resposta que podemos dar é que estava a ocorrer uma mudança dispensacional.  

     No âmago da grande revelação dada a Paulo, jaz a graciosa oferta de reconciliação da parte de Deus, a um mundo em inimizade com o seu Filho e Consigo mesmo.  A proclamação desta mensagem gloriosa é a nossa grande comissão.  Porque, como vimos atrás, o apóstolo diz: “Deus ... pôs em nós (comissionou-nos, como diz outra versão) a palavra da reconciliação” (II Cor. 5:19).  

     Esta oferta de reconciliação, pela graça, por meio da fé, é o âmago do “evangelho da graça de Deus”.  Depois das nações, e igualmente a nação, se terem voltado contra Deus, Ele fez algo de maravilhoso.  Ele respondeu ao brutal homicídio de Estêvão, salvando Saulo, o líder da grande perseguição contra a igreja Pentecostal e a personificação do espírito de rebelião de Israel (e do mundo).  Assim, “onde o pecado abundou, superabundou a graça, PARA QUE ... A GRAÇA PUDESSE REINAR” (Rom. 5:20-21).  

     A conversão de Saulo foi o primeiro passo na introdução do reino da graça, pois ele escreve por inspiração:  

     “E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério;   A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e opressor; mas ALCANCEI MISERICÓRDIA, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade.   E A GRAÇA DE NOSSO SENHOR SUPERABUNDOU com a fé e amor que há em Jesus Cristo.   Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.   MAS POR ISSO ALCANCEI MISERICÓRDIA, PARA QUE EM MIM, QUE SOU O PRINCIPAL, JESUS CRISTO MOSTRASSE TODA A SUA LONGANIMIDADE, PARA EXEMPLO DOS QUE HAVIAM DE CRER NELE PARA A VIDA ETERNA” (I Tim. 1:12-16).  

     Assim, quando se tornou necessário pôr Israel de parte, Deus demonstrou as riquezas da Sua graça ao salvar o líder da rebelião e ao enviá-lo com uma oferta de graça a todos os homens em todo o lugar.  “A rejeição deles (Israel)” e “a reconciliação do mundo” andam juntas (Rom. 11:15).  

     “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA” (Rom. 11:32).  

     A mensagem da reconciliação também jaz na raiz da verdade a respeito do corpo de Cristo.  Na verdade é pela reconciliação de Judeus e Gentios com Deus, que o corpo é formado:  

     “E pela cruz RECONCILIAR ambos com Deus em UM CORPO matando com ela as inimizades (Ef. 2:16).  

     Disto segue-se que a mensagem da reconciliação é uma parte vital do mistério, pois a formação do corpo era um mistério até ser revelado a Paulo e por seu intermédio.  

     O propósito revelado de Deus era abençoar o mundo através da exaltação de Israel (Is. 60:1-3) e este propósito será ainda cumprido.  Mas o propósito oculto de Deus era abençoar o mundo através da queda de Israel, e este está agora a ser cumprido (Rom 11:11-12, 15).  

     A gloriosa verdade de que Deus introduziria um reino de graça (Rom. 5:21), rejeitando todas as distinções para salvar crentes Judeus e Gentios (Rom. 11:32), e reconciliá-los com Deus num corpo (Ef. 2:6), nunca foi uma única vez profetizada desde que o mundo começou, ainda que estivesse nos propósitos de Deus antes da fundação do mundo (Ef. 1:4-9).  

     A proclamação da gloriosa mensagem de reconciliação, pela qual o corpo é formado, é a nossa grande comissão.  Comparando-a com as outras duas comissões dadas aos doze, devemos notar o seguinte:  

     1.  Sob esta comissão nós, com Paulo, somos enviados a todos os homens sem distinção (II Cor. 5:14-21).  

     2.  Sob esta comissão o regresso de Cristo para julgar e reinar está suspenso, e é oferecida reconciliação aos inimigos de Deus em toda a parte (II Cor. 5:16, 19; cf. Rom. 11:25; Heb. 2:8-9).  

     3.  Sob esta comissão os poderes miraculosos foram retirados, passaram (Rom. 8:23; II Cor. 4:16; 5:1-2; 12:7-10; I Tim. 5:23; II Tim. 4:20).  

     4.  Sob esta comissão o “vendei tudo” e “não acumuleis”, que eram uma ordem, foram agora anulados (II Cor. 12:14; I Tim. 5:8).  Na verdade o apóstolo levou ofertas àqueles em Jerusalém que tinham vendido tudo e estavam agora em necessidade (Ver Actos 4:34 e cf. Actos 11:27-30; Rom. 15:26; I Cor. 16:1-3).  

     5.  Sob esta comissão, só a fé é requerida para a salvação (II Cor. 5:18-21;  Rom. 3:21,2428; 4:5; Ef. 2:8-10; etc.).  

     6.  Além de tudo isto, deve-se dar uma particular atenção às palavras:  

     “Assim que DAQUI POR DIANTE A NINGUÉM CONHECEMOS SEGUNDO A CARNE, E, AINDA QUE TAMBÉM TENHAMOS CONHECIDO CRISTO SEGUNDO A CARNE, CONTUDO AGORA JÁ O NÃO CONHECEMOS DESTE MODO”  (II Cor. 5:16).  

     Aqui, as palavras “daqui por diante” são de grande significado.  Não pode ser negado que antes disto os homens eram conhecidos ou reconhecidos segundo a carne.  O Senhor tinha instruído originalmente os Seus apóstolos a não irem aos Gentios ou aos Samaritanos, mas irem só “às ovelhas perdidas da casa de Israel” e insistiu que Ele mesmo foi enviado somente “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:6; 15:24).  Da mesma forma sob a Sua Segunda grande comissão, depois da Sua ressurreição, o Senhor tinha instruído os apóstolos a ministrarem primeiro ao povo da nação favorecida e Pedro foi chamado a dar uma explicação por ter ministrado à casa Gentílica de Cornélio.  

     Quanto a conhecer Cristo segundo a carne: não O tinham eles conhecido segundo a carne quando eles O apertavam (Marcos 5:31), quando Ele comia com eles (Lucas 15:2), quando Ele lhes tocava e os sarava?  (Lucas 4:40).  Não O conheciam eles segundo a carne quando O pregaram na cruz?  (João 19:16-18).  Não O conheciam eles segundo a carne quando Tomé foi convidado a palpar as feridas nas Suas mãos e no Seu lado?  (João 20:27).  Não testifica João que eles O “tinham visto, com os seus olhos, o tinham “contemplado” e O tinham “tocado”?  (I João1:1)-  Da mesma maneira eles não O conheceram segundo a carne depois da ascensão, quando Pedro declarou à casa de Israel que Deus O levantou da morte para O sentar no trono de David?  (Actos 2:30-31).  

     Porém Paulo declara agora por revelação: “Ainda que tenhamos conhecido também Cristo segundo a carne, contudo agora já O não conhecemos deste modo”.  Não indica isto uma mudança dispensacional?  

     Nós agora conhecemos Cristo como Aquele em quem toda a plenitude habita (Col. 1:19) mesmo toda a plenitude da divindade (Col. 2:9).  Nós conhecemo-l’O como Aquele que foi exaltado acima de tudo (Ef. 1:20-21; Fil. 2:9-11) e agora envia os Seus embaixadores a oferecer as riquezas da Sua graça a todos que quiserem recebê-las.  

     As primeiras duas comissões foram originalmente dadas a doze homens, porque as promessas a Israel, com as suas doze tribos, estavam em vista.  A terceira grande comissão foi originalmente dada a um homem porque havia um Deus, um mundo perdido, um Mediador e um corpo em vista.  

     Que elevada e gloriosa missão é para nós proclamarmos o evangelho da graça de Deus e a oferta da reconciliação!”  Como nos devemos apressar em realizar isto!  Como o amor de Cristo pelos Seus inimigos nos deve constranger a instar com os homens à reconciliação, enquanto é ainda “tempo aceitável”! (II Cor. 5:20-21).


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 1 E sem dúvida o líder Fundamentalista mais popular do passado quarto de século.

 2  Bullingerismo vem de Bullinger - afamado ensinador bíblico da passada geração, tido na generalidade como ultra ou hiper-dispensaacionalista, tendo no entanto sido considerado pela mesma crítica, e apesar disso, como “um grande ensinador, verdadeiramente um grande ensinador”, para utilizar os termos de James M. Gray ao referir-se a ele. - Nota do Tradutor.

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 QUESTIONÁRIO

 1.  Qual é a compreensão que geralmente se tem do termo “grande comissão?   2.  Qual a relação que se supõe esta comissão ter connosco hoje?   3.  Como são geralmente tratados de cima do púlpito os registos da “grande comissão”?   4.  O que é que acontece quando esses registos são estudados com a fim de se levar a cabo a “grande comissão”?   5.  Nomeia três líderes Cristãos salientes da passada geração que não criam que a comissão regista em Mateus é a nossa comissão.    6.  Dos tais líderes nomeia três que apresentavam registos diferentes da “grande comissão” para nossa obediência, e declara os registos escolhidos por eles.   7.  O que é que há de forçado e de contra-natural com o ponto de vista de que determinados desses registos contêm a nossa comissão, enquanto que os outros não?   8.  Como é que provarias que todos os registos da “grande comissão” se aplicavam directamente aos vivos que viviam então?   9.  Explica como é que todos os registos da comissão do Senhor se harmonizam com o que os apóstolos realmente fizeram, conforme o registado no livro dos Actos.   10.  A quem é que o Senhor mandou os apóstolos não irem na sua primeira grande comissão?   11.  A quem é que o Senhor disse que foi exclusivamente enviado naquele tempo?   12.  Porquê?   13.  Que evangelho é que os doze pregaram sob esta primeira comissão?   14.  Nomeia dois outros detalhes da 1ª grande comissão dada aos doze.   15.  Quando é que foi dada aos apóstolos a comissão seguinte?   16.  Explica como é que esta comissão não foi um desvio da primeira grande comissão, mas antes um desenvolvimento da mesma.   17.  Apresenta uma passagem das Escrituras que mostre qual é a nossa grande comissão.   18.  Quando e a quem foi dada primeiro esta comissão?   19.  Que evangelho é que nós devemos proclamar sob esta comissão?   20.  Apresenta três pontos de contraste entre a nossa grande comissão e a chamada “grande comissão”.

 

- C.R.Stam
In Coisas que Diferem 

 

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