O que fazer perante um "novo" ensino
"Cuidado com eles! Ensinam novas doutrinas!" - Ouvem-se alguns crentes. É triste vê-los reagir assim em relação a tudo o que para eles é novo; o artigo que se segue foi escrito em "BIBLIOTECA" - Primeiro Livro, Fascículo 6, em Novembro de 1942. Escreveu-o o seu editor, Stuart E. McNair (na foto), o conhecido pioneiro da obra de Deus quer em Portugal, quer no Brasil. Irmão muito amado e querido, estudioso e conhecedor profundo das Escrituras, ensinava os crentes a reagirem assim a qualquer "nova" doutrina Bíblica:
Temos ouvido afirmar, como se fosse um axioma indiscutível, que "o que é verdadeiro não é novo; e o que é novo, não é verdadeiro". Mas não é necessariamente assim, embora seja muito comum desconfiar de qualquer novidade. A natureza humana é muito conservadora, especialmente em assuntos religiosos. Por isso podemos perfeitamente compreender a oposição ao ensino de Jesus, de muita gente religiosa do Seu tempo. Não devemos pensar que os Judeus de então eram especialmente depravados ou iníquos: eram muito parecidos connosco, pois nós também não queremos aceitar qualquer ideia religiosa que nos pareça como novidade. E o ensino de Jesus era tão novo que chegou a ser revolucionário.
Para as criancinhas todas as ideias são novas, pois nascem sem nenhumas, e ensinamos a criança pequena a aceitar sem questão as ideias de seus pais. Há-de ser assim mesmo. A criança não tem capacidade nem inteligência para formar uma opinião, e o seu pai lhe diz: "é assim mesmo, e tu por enquanto não podes compreender porque é assim." Por isso necessariamente, cada criança segue a religião de seus pais.
Contudo, há-de chegar o tempo quando a criança deve ter convicções próprias, e crer, não porque assim disse o pai, mas por uma plena convicção, depois de cuidadoso estudo.
É verdade que a maioria da gente contenta-se de ter as suas convicções baseadas nos estudos dos outros. Aceita o que diz o médico (que estudou o assunto) sobre o valor dos remédios, ou o que diz um pregador predilecto sobre as verdades religiosas. Isso resulta em ter uma crença em segunda mão, baseada não sobre convicções, mas sobre prejuízos e simpatias.
O crente evangélico, embora recuse rever as suas convicções, geralmente pensa que o seu vizinho romanista deve rever as dele. O vizinho insiste que tal foi a religião de seu pai; que não quer novidades, etc., mas o crente continua a dizer-lhe que tudo deve ser examinado de novo, e os velhos erros renunciados de uma vez.
Há muitos assuntos bíblicos ainda discutidos pelos eruditos que merecem ser estudados novamente por qualquer crente inteligente, dando o devido valor aos argumentos de ambos os lados. Assuntos como o Baptismo; a Segunda Vinda - pré-milenar ou pós-milenar(?); o ministério na igreja; o sustento dos obreiros; a administração da Ceia; o governo na igreja; etc. Todos estes e outros, são assuntos em que há diversidade de compreensão e que merecem ser examinados e reexaminados de vez em quando. É sempre possível que o crente estudioso adquira uma opinião nova e mais bíblica sobre qualquer deles. Também pode acontecer ele ficar mais confirmado do que nunca na sua opinião anterior.
Um parecer religioso não tem valor por ser velho, mas por ser bíblico; mas há certas provas que podemos aplicar a quaisquer ensinos religiosos, novos ou velhos, porque os ensinos verdadeiros geralmente dão uma reacção positiva quando assim provados. Por exemplo: -
(1) - Esse ensino tende a desenvolver a espiritualidade de quem o aceita? Podemos, por exemplo, provar o sabatismo por esta experiência. O crente depois de adoptar o sabatismo, tende a ser mais espiritual, ou menos?
(2) - Esse ensino tende a aumentar o fruto do Espírito nos seus adeptos? Podemos provar o pentecostismo assim, visto que tanto fala do Espírito Santo. Porventura existe evidentemente nos meios pentecostais mais amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança do que nos outros grupos, ou, porventura, existem egoísmos e extravagâncias?
(3) - Esse ensino produz serviços altruístas? Doutrina que não promove serviço é infrutífera, e por isso suspeita.
(4) - Esse ensino aumenta o amor fraternal, não somente entre os que adoptam o ensino mas para com toda a família de Deus? É um ensino de concordância ou discordância?
(5) - Esse ensino engrandece a Cristo, tomando-O mais querido, mais indispensável, mais suficiente para quem adopta o ensino? Nesse caso é bem provável que o ensino esteja de acordo com a verdade.
(6) - Esse ensino engrandece o amor, longanimidade, justiça e santidade de Deus, ou apresenta-os de alguma maneira que ofende a consciência de um descrente sincero? Têm havido ensinos apresentados como bíblicos que chocam profundamente as consciências sensíveis, e que por isso podem necessitar de ser confrontados novamente com as Escrituras.
(7) - Esse ensino está de acordo com todo o sentido da Bíblia, ou tem apoio apenas num versículo? Por exemplo, que o lugar da futura bem--aventurança dos fieis é chamado "o seio de Abraão" tem apoio em somente um versículo (Luc. 16.23). Devemos por isso chamar sempre o céu "o seio de Abraão"? E como responder ao vizinho que queira saber se Adão foi para o seio de Abraão?
(8) - Um ensino, claramente bíblico, tem porventura necessariamente aplicação em todos os tempos? (Oferecer sacrifícios de animais ou circuncidar estará certo, hoje? No entanto tratam-se de ensinos claramente bíblicos!).
(9) - O ensino está de acordo com uma tradução mais exacta da Bíblia, ou uma tradução menos exacta? Por exemplo, algumas ideias antigas referentes ao "inferno" precisam ser modificadas quando usamos uma tradução mais exacta, "hades".
(10) - O ensino é trazido por um ensinador piedoso, espiritual e humilde? Nesse caso o mensageiro recomenda a mensagem.
Nem sempre os ensinos podem ser comprovados por todas estas dez provas. Um ensino errado pode talvez aguentar duas ou três delas, e nove ou dez podem não dar uma garantia completa. E no caso de uma ideia ser muito nova pode ser conservada sob observação por bastante tempo antes de ser totalmente aprovada. Não devemos ser levianos em abraçar as novidades.
Uma ideia qualquer pode ser muito nova para mim, e muito antiga para alguém mais instruído. Por isso não devo condenar o ensino por ser novo, uma vez que combina certamente com a letra e espírito da Palavra inspirada.



