Porque ignorou Jesus a mulher cananeia?

Em Mateus 15:22-28, o Senhor Jesus ignora e depois recusa curar uma sincera mulher cananeia. Não é incomum um pregador apresentar uma desculpa para o motivo pelo qual o Senhor ignorou o clamor sincero da mulher cananeia em Mateus 15:22-23. No entanto, nem uma desculpa nem um pedido de desculpas precisam de ser apresentados. O Senhor sabia exatamente o que estava a fazer, tinha a certeza de que era o que devia ser feito, e explica a sua simples razão no versículo 26:
“Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.” - Mateus 15:26
Com certeza, qualquer igreja moderna sentir-se-ia ofendida com esta afirmação, se fosse proferida por um membro da sua congregação hoje. No entanto, eis o Senhor Jesus Cristo a fazer aqui uma afirmação tão frontal e franca.
A maioria dos expositores bíblicos não é capaz de pregar com confiança o sentido desta passagem porque é totalmente ignorante da natureza exclusiva do ministério terreno de Cristo.
No Antigo Testamento, Deus deixou claro que o “homem de dores” sofreria pelo “meu povo”, conforme relacionado com Isaías e a nação de Israel. O apóstolo João declara que Cristo veio “para o que era seu [Israel], e os seus não O receberam” (João 1:11). O Senhor Jesus ordenou aos Seus discípulos: “Não ireis pelo caminho das gentes [ou, Gentios]” (Mateus 10:5). Além disso, à luz posterior, podemos ler a informação do nosso apóstolo Paulo e ver que:
“Digo pois que Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais” – Romanos 15:8
O facto é biblicamente evidente: o Senhor Jesus não foi enviado aos Gentios, nem instruiu os Seus discípulos a irem a eles. Muitos ficam insatisfeitos com este simples facto. Contudo, ainda mais difícil de compreender para os que ignoram que o ministério terreno do Senhor Jesus Cristo foi exclusivamente para Israel, é o motivo pelo qual Ele ignorou aquela mulher.
A ascensão de Israel e a salvação dos Gentios
Um estudo casual da profecia dará a qualquer estudante principiante o entendimento de que Israel deveria ser a luz do mundo, e as nações viriam ao conhecimento e bênção de Deus através do brilho dessa luz.
Este facto não mudou quando Cristo apareceu, pois o Senhor não veio para abolir a lei nem para negar os profetas. Em vez disso, veio para os cumprir:
“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos salmos.” – Lucas 24:44
Isto significa que ainda era o plano de Deus, segundo as promessas e profecias, que o Senhor Jesus Cristo, como Messias, reinasse sobre a nação de Israel, que seria um reino de sacerdotes que ministraria às nações gentias.
Até ao momento em que Israel tivesse domínio mundial e poder vindo do Céu, não deveriam associar-se com os gentios nem fazer aliança com as nações impuras.
Milagres dados a Israel
De acordo com a profecia, com o estabelecimento do reino do Céu sobre a Terra, as enfermidades físicas seriam erradicadas (Isa. 33:24). Na verdade, fazia parte da lei de Deus que, se alguém não estivesse são e limpo, não poderia tornar-se sacerdote. Se toda a nação iria ser sacerdotal e ministrar aos Gentios, então teria de ser tornada sã.
O Senhor Jesus veio pregar: “É chegado [ou, está próximo] o reino dos céus” e começou a curar todos os enfermos (Mateus 9:35, Marcos 1:15). Conceder milagres de cura aos Gentios antes do tempo seria, em essência, negar as promessas que foram feitas exclusivamente a Israel.
Assim, quando uma mulher cananeia pediu ao Senhor Jesus que realizasse um milagre para tornar a sua filha sã, Jesus respondeu:
“Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.” – Mateus 15:26
A nação de Israel, os filhos, recebeu o pão da vida e a Palavra de Deus! Eram o povo escolhido de Deus e tinham uma posição superior nas promessas divinas. Deviam participar primeiro do dom celestial antes de a bênção alcançar as nações gentias, que Deus há muito entregara ao seu próprio caminho pecaminoso, à sua própria corrupção moral e espiritual (Romanos 1:28).
O Senhor Jesus estava pôr à prova a fé dela?
Faltando-lhes o entendimento dispensacional necessário para avaliar devidamente a situação, os tais expositores bíblicos frequentemente recorrem à mera extração de um princípio espiritual – perseverança. Explicam que o Senhor Jesus ignorou o pedido da mulher, como as nossas petições por vezes parecem ser ignoradas pelo Todo-Poderoso. Mas, se perseverarmos e nos humilharmos como a mulher cananeia, reconhecendo a nossa posição como cães, receberemos o que pedimos.
Embora este ensino pareça muito bíblico, é na verdade uma perigosa deturpação das Escrituras! A mulher gentia não estava a ser provocada pelo Senhor quando Ele a ignorou e depois lhe disse que não fora enviado aos Gentios a que ela pertencia. Ele estava a ser sincero e direto.
Aos que seguem a explicação da “prova de fé”, poderão explicar porque é que Jesus curava livremente as multidões sempre que estava numa cidade judaica, mas sempre que era abordado por um gentio, hesitava até que houvesse uma demonstração de fé? O facto é que o Senhor Jesus não curava por capricho, ou apenas porque “amou o mundo” (João 3:16). O Senhor Jesus curava como sinal do reino que se aproximava, e esses sinais eram para a nação de Israel, e não para os gentios (Mateus 11:4-5).
Além disso, a mulher gentia não teve o seu pedido atendido porque perseverou, mas porque demonstrou entendimento da ordem pela qual as bênçãos viriam.
Leia:
“Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.” – Mateus 15:26-27
Foi em resposta a esta concordância e à sua explicação de como os gentios receberiam a bênção que o seu pedido foi atendido.
Jesus responde em Marcos 7:29: “Por essa palavra, vai; o demónio já saiu de tua filha.”
Ela obteve o que pediu porque compreendeu e reconheceu a promessa feita aos gentios em Génesis 12:3 – a promessa de bênção à nação de Israel através do reconhecimento da sua posição diante de Deus, como mediadores exclusivos.
Porém, agora, nesta dispensação, já não há diferença entre Judeu e Gentio – ambos são uma nova criatura, em Cristo. Esta verdade fundamental torna esta dispensação completamente diferente daquela em que Jesus exerceu o Seu ministério terreno para com Israel.
- Grace Ambassadors



