ATOS 15 explicado CORRETAMENTE

Atos 15 explicado corretamente

 

ATOS 15:1-12

O CONCÍLIO EM JERUSALÉM

A CONTENDA EM ANTIOQUIA

            “Então alguns que tinham descido da Judeia ensinavam assim os irmãos: Se vos não circuncidardes, conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos.

            “Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns de entre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.

            “E, eles sendo acompanhados pela igreja, passavam pela Fenícia e por Samaria contando a conversão dos Gentios, e davam grande alegria a todos os irmãos.”

- Atos 15:1-3.

            Chegamos agora ao registo da primeira grande controvérsia entre os seguidores de Cristo – a colisão inevitável entre os crentes em Jerusalém e os crentes em Antioquia. Veremos como ela foi usada por Deus para, de uma vez por todas, pôr fim à dúvida que havia sobre a autoridade de Paulo como o apóstolo da nova dispensação.

A informação que Pedro deu aos seus irmãos em Jerusalém a respeito da conversão de Cornélio e da sua casa não consumou a questão. Na altura a explicação de Pedro tinha parecido satisfazê-los e, pelo menos, eles “apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade, até aos Gentios deu Deus o arrependimento para a vida” (Atos 11:18). Mas isso tinha sido há já algum tempo considerável (Atos 15:7) e alguns tinham agora começado a albergar dúvidas quanto ao estado legal de tais Gentios. Será que Cornélio e a sua casa teriam o direito de permanecer incircuncidados? Será que o caso deles seria um caso excepcional? Quem é que tinha o direito de revogar a lei que o próprio Deus tinha estabelecido? Além disso, a tal lei, dada a Israel, declarava o princípio e reforçava a prática do isolamento nacional. Estaria, agora, certo que os Judeus considerassem homens incircuncidados como povo de Deus, juntamente com eles, mesmo apesar deles terem abandonado a idolatria, adorarem Cristo, e revelarem isso na sua conduta?

            Estas e outras questões semelhantes preocupavam naturalmente alguns, pois apesar de Pedro ter, na verdade, sido enviado a uma casa de Gentios e ter testemunhado das evidências da salvação deles, ele só podia explicar que tinha sido enviado “nada duvidando”, acrescentando: “Quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” E também não lhes tinha sido dada qualquer revelação de que a lei, “a parede de separação que estava no meio”, tinha sido abolida pela cruz.

            As dúvidas destes crentes Judeus foram sem dúvida agravadas pelo facto de que grande número de Gentios ter agora sido ganho para Cristo sob o ministério de Paulo e Barnabé, que estavam a estabelecer igrejas entre eles nas quais nem a circuncisão nem a lei Mosaica tinham qualquer lugar.

            Finalmente, haviam alguns que não se podiam conter por mais tempo, decidindo-se, por si mesmos, viajar para Antioquia e corrigirem lá os convertidos. Deveria ser notado que com eles não se tratava meramente duma questão de comunhão: evidentemente encontravam-se genuinamente interessados[1] com a salvação destes Gentios, pois eles começaram a ensinar-lhes. “Se vos não circuncidardes, conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos”. Eles não olhavam para a circuncisão meramente como um sinal do concerto Abraâmico, mas como aquilo que tinha sido ordenado por Moisés, o principal rito do Judaísmo, indispensável aos direitos e privilégios da qualidade de membro na nação favorecida, e por isso mesmo necessária à salvação.[2]

            Mas, com toda a sua sinceridade evidente nesta questão, eles encontravam-se errados, pois eles intentaram esta missão sem a devida autoridade, e, como era de esperar, em vez de clarificarem as coisas em Antioquia, transtornaram-nas. Depois o assunto foi finalmente esclarecido em Jerusalém, quando a igreja ali escreveu aos Gentios a respeito destes irmãos:

            “... que saíram de entre nós VOS PERTURBARAM COM AS PALAVRAS E TRANSTORNARAM AS VOSSAS ALMAS, NÃO LHES TENDO NÓS DADO MANDAMENTO” (Atos 15:24).

            Quando anos mais tarde os Judaizantes procuraram impor a circuncisão e a lei sobre os Gálatas, Paulo escreveu quase a mesma coisa a respeito deles:

            “... mas há alguns que VOS INQUIETAM e querem TRANSTORNAR O EVANGELHO DE CRISTO” (Gál. 1:7).

            Apesar de alguns ensinadores Bíblicos por quem nutrimos o mais elevado respeito defenderem que estes Judaizantes pregaram um evangelho espúrio e falso, nós não concordamos com esse pensamento, pois então, sem dúvida que o apóstolo teria dito em Gál 1:6,7: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis ... para outro Evangelho. O qual não é Evangelho” ou “o qual não é de forma alguma Evangelho” ou “o qual não é sequer Evangelho”. O que é que ele disse que era? O qual não é outro”.

            Ora é verdade que Thayer e outros dizem que o “outro” do versículo 6 (heteros) significa “outro de espécie diferente”, porém dizem que o “outro” do versículo 7 (allos) significa “outro da mesma espécie”, exprimindo o primeiro, diferenciação e o último, adição.

            Apesar disso alguns dos nossos melhores escolásticos do Grego parecem hesitar aqui e alguns dão mesmo motivo para suspeitar que a sua interpretação tenha sido fortemente influenciada pelo seu fundo teológico. Assim W.E. Vine, no seu Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário Expositivo das Palavras do Novo Testamento) diz que esta distinção “deve ser observada em numerosas passagens” (o itálico é nosso) enquanto que Vincent, no seu Word Studies (Estudos da Palavra), diz: “Um Evangelho diferente não é outro Evangelho. Não há senão um só Evangelho”.

            Mas Vincent aqui está errado, pois não é verdade que a Bíblia apresenta apenas um só Evangelho. É-nos explicitamente dito qual foi o Evangelho que Deus pregou a Abraão, quando lhe disse: “Todas as nações serão benditas em ti” (Ver Gál. 3:8). E certamente que este Evangelho (ou boa notícia) era diferente do Evangelho (ou boa notícia) que nós agora somos comissionados a pregar. E decerto que “o Evangelho da circuncisão” era diferente do “o Evangelho da incircuncisão” (Gál. 2:7), mas os homens têm caído tão baixo no dividir ou manejar bem a Palavra da Verdade e têm seguido de tal forma a tradição, que a Bíblia só apresenta apenas um Evangelho e Vincent pensava, sem duvidar, que um Evangelho diferente não poderia ser de forma alguma um Evangelho. Mas se era isso que Paulo queria dizer, porque é que ele não disse “um diferente Evangelho, o qual não é Evangelho”? Porque é que ele inseriu a palavra allos, outro?

            Quanto à alegada distinção que ocorre em “numerosas” passagens, onde está a base para afirmar tal coisa? Temos visto algumas delas, e notamos o seguinte:

            Algumas vezes heteros, e allos são usadas alternadamente, como, por exemplo, em Mat. 19:9 e Lucas 16:18, onde o repudiar a mulher e o casar com outra está em causa.

            Algumas vezes heteros significa adição em vez de diferenciação como em Atos 2:40, “muitas outras palavras”; Mat. 8:21, “outro dos Seus discípulos”; Gál. 1:19, “outro dos apóstolos”; Atos 20:15; “no dia seguinte” (lit. “a seguir”).

            Por outro lado, algumas vezes allos expressa diferenciação em vez de adição como em Mat. 2:12, “partiram ... por outro caminho”, Marcos 12:9, “dará a vinha a outros”; João 4:38, “Vós não trabalhastes; outros trabalharam”; Atos 4:12, “em nenhum outro há salvação”; Atos 19:32, “uns ... clamavam de uma maneira, outros doutra”; Gál. 5:10, “nenhuma outra coisa sentireis”.

            Nesta relação os que argumentam que a nossa palavra heterodoxo deriva da palavra Grega heteros, deveriam notar que a nossa palavra outro deriva semelhantemente da palavra Grega allos e ambas indicam diferença, ainda que a primeira provavelmente duma maneira mais forte.

Thayer diz: “Todo o heteros é um allos, mas nem todo o allos é um heteros”. Porém aqui ele encontra-se tão errado como Vincent, pois a mesmíssima passagem diante de nós é uma prova de que nem todo o heteros é um allos, pois o apóstolo diz: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis ... para outro (heteros) Evangelho. O qual NÃO é outro (allos)”.

            Por conseguinte não vemos nenhuma base para a teoria que diz que os Judaizantes em Antioquia e na Galácia proclamavam um Evangelho espúrio ou que o tal Evangelho que eles proclamavam não era de forma alguma um Evangelho, pois de outro modo Paulo tê-lo-ia dito.

            Apesar da ênfase na diferença ser, talvez, usualmente algo maior no caso de heteros que no de allos, ambos os termos são sinónimos usados por Paulo, evidentemente, para revelar que o Evangelho que os Judaizantes tinham trazido aos Gentios era outro, ainda que num certo sentido não fosse outro. Quer isto dizer que, a diferença era de desenvolvimento e não de contradição, precisamente da mesma forma que Paulo torna claro que a graça não era uma contradição da lei (Rom. 3:31).

            Estes Judaizantes não eram antibíblicos; ele eram antidispensacionais. O que eles ensinavam encontrava-se nas Escrituras, mas não reconhecia a revelação adicional dada ao apóstolo Paulo e por seu intermédio. Eles procuraram colocar os Gentios salvos por uma mensagem de pura graça, sob o programa do reino com a sua circuncisão e lei – e perverteram assim o Evangelho de Cristo.

            Isto deveria constituir uma lição para nós, pois se pregarmos ou praticarmos aquilo que não pertence à presente dispensação, ainda que possa já ter sido, biblicamente, correto, também perverteremos o Evangelho de Cristo e colocar-nos-emos sob a maldição de Gál. 1:8,9, uma maldição que já confundiu e dividiu a maior parte da Igreja professa.

            Assim, tanto os apóstolos em Jerusalém como o apóstolo Paulo chamaram aos Judaizantes, perturbadores e transtornadores.

            “Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em [Paulo] com eficácia para com os Gentios” (Gál. 2:8) e a disputa daqueles Judaizantes de que os Gentios não poderiam ser salvos sem a circuncisão e a lei implicava que Paulo e Barnabé tinham estado a ensinar uma heresia que destruía as almas. Assim a comissão e o apostolado divinos de Paulo estavam a ser postos em questão e a sua proclamação da graça estava a ser ameaçada. Não é assim de admirar que “Paulo e Barnabé” tivessem “tido não pequena discussão e contenda contra eles” (Ver. 2).

            Como resultado da controvérsia que se levantou, ficou determinado “que Paulo, Barnabé, e alguns de entre eles, subissem a Jerusalém aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão” (Ver. 2).

            Duma forma geral todos concordam que esta visita de Paulo e Barnabé é idêntica à referida em Gál.2, mas uma vez que a concórdia não é unânime apresentamos algumas razões porque cremos ser assim.

            As únicas outras visitas registadas de Paulo a Jerusalém, a que Gál.2 se poderia referir, são as de Atos 11:30 e 18:22.

          Os argumentos contra a visita de Atos 11.30 ser idêntica à de Gál. 2 são os seguintes:

  1. Parece impossível ajustar os 14 anos de Gál. 2:1, no período de Atos 9:27 (a sua primeira visita após a sua conversão), a Atos 11:30.
  2. O propósito da sua visita em Atos 11:30 é declarado ser para levar “socorro” financeiro aos santos pobre da Judeia.
  3. Não existe nenhum registo do problema da circuncisão ter sido levantado então e é duvidoso que tenha sido levantado logo após o esclarecimento de Atos 11:18.
  4. Se o acordo de Gál. 2:9 tivesse sido feito durante a visita de Atos 11:18, antes do concílio de Atos 15, decerto que neste concílio ter-se-ia apelado para tal acordo. De facto, o concílio de Atos 15 teria então sido desnecessário.

Os argumentos contra a visita de Atos 18:22 ser idêntica à de Gál. 2 são os seguintes:

  1. O intervalo entre as visitas de Atos 9:27 e Atos 18:22 é, sem dúvida, consideravelmente maior que 14 anos.
  2. Não é verosímil que o problema da circuncisão dos Gentios tenha sido levantado de novo após a decisão escrita do concílio de Atos 15.
  3. Se tivesse sido levantado certamente que se teria apelado para a decisão prévia no concílio de Atos 15.

          Por estas razões e devido à similaridade geral dos registos de Atos 15 e de Gál.2, cremos que eles se referem à mesma visita. A principal objecção levantada contra este ponto de vista é que em Gál. 1:18-2:1 o próprio Paulo declara solenemente que depois da sua visita com Pedro, três anos após a sua conversão, ele não subira a Jerusalém para ver de novo os apóstolos senão “catorze anos depois”. Mas esta dificuldade não é insuperável, pois o argumento do apóstolo em Gálatas não é que ele tenha ido a Jerusalém tão espaçadamente, mas que ele tinha estado espaçadamente privado do contacto com os apóstolos,[3] e por conseguinte não poderia ter obtido deles o seu ensino. A omissão que ele faz da visita de Atos 11:30 na passagem aos Gálatas é evidentemente devida ao facto de ele não ter visto nenhum dos apóstolos nessa altura, e não indica falta de candura (Ver as nossas notas nas Pp. 70-73, sobre a visita de Atos 11:30, PAULO EM JERUSALÉM).

            Mas será que este enviar de Paulo aos apóstolos e aos anciãos em Jerusalém para esclarecer este assunto indica que ele estava sujeito a eles? De modo algum. Não foram somente os crentes em Antioquia que “resolveram” enviar, nesta altura Paulo a Jerusalém; o Senhor também o enviou, e para um propósito muito especial, como ele diz em Gál.2:2:

            “E SUBI POR UMA REVELAÇÃO, e lhes expus o Evangelho, que prego entre os Gentios...”

            Este caso não foi o primeiro, pois na sua primeira visita a Jerusalém, após a sua conversão, a sua vida tinha sido exposta de tal forma ao perigo, que “os irmãos” o tomaram pela mão e “o enviaram para Tarso” (Atos 9:30). Mas em Atos 22:17,18 o apóstolo explica como naquela mesma visita, enquanto orava no templo, ele foi arrebatado:

            “E VI AQUELE QUE ME DIZIA: DÁ-TE PRESSA, E SAI APRESSADAMENTE DE JERUSALÉM; PORQUE NÃO RECEBERÃO O TEU TESTEMUNHO ACERCA DE MIM”.

            Assim nestas duas ocasiões ele foi enviado, primeiro de Jerusalém e depois a Jerusalém tanto pelos irmãos, como pelo Senhor. E a relação dessas duas visitas também é significativa. Na primeira ocasião ele foi enviado de Jerusalém pelos irmãos para a sua segurança física, mas pelo Senhor por causa da incredulidade de Israel (Atos 22:18). Na segunda ocasião ele foi enviado a Jerusalém pelos irmãos para esclarecer um problema controverso respeitante à circuncisão, mas pelo Senhor para poder comunicar aos líderes em Jerusalém o Evangelho que ele tinha estado a pregar aos Gentios e para que eles pudessem reconhecê-lo oficial e publicamente como o apóstolo dos Gentios, enviado a proclamar “o Evangelho da incircuncisão” (Gál. 2:2,7,9).

            Paulo tinha plena autoridade da parte do Senhor inteiramente à parte dos doze. Ele tinha sido salvo e ordenado apóstolo no caminho para Damasco, longe de Jerusalém e dos doze. Ele também tinha sido enviado na sua primeira grande jornada apostólica da Antioquia da Síria, inteiramente à parte dos doze. Presentemente já tinha sido usado para voltar para o Senhor grandes números de Gentios, nunca necessitando uma única vez sequer, de receber instruções ou autoridade da parte dos apóstolos em Jerusalém. A razão porque ele, agora, era enviado a Jerusalém pelo Senhor não foi por amor dele, mas por amor deles e por amor do programa que agora estava a ser iniciado.

            Devemo-nos lembrar que os apóstolos em Jerusalém tinham sido originalmente enviados a “todo o mundo” e a “todas as nações” (Mat.28:19; Marc.16:15). Era sua esperança e expectação Israel receber Cristo, o Rei ressuscitado e assim a salvação e as bênçãos fluírem por meio de Israel para os Gentios. Mas Israel rejeitou o seu Rei e os há muito prometidos “tempos de refrigério”. O apedrejamento de Estevão foi, nas palavras de Sir Robert Anderson “a crise secreta” na história de Israel e, ao preparar-se para pôr de parte temporariamente Israel e suspender o estabelecimento do reino, Deus levantou um outro apóstolo e enviou-o a proclamar graça aos Gentios inteiramente à parte da instrumentalidade de Israel; não devido à nação de Israel ter aceitado Cristo, mas porque O rejeitou e contra Ele se rebelou.

            Este acontecimento afetou, naturalmente, a “grande comissão” aos onze. Sob este novo programa Paulo, não os apóstolos em Jerusalém, tornar-se-ia no apóstolo para “todas as nações” e “todo o mundo” e os apóstolos em Jerusalém, dali em diante, limitariam o seu ministério aos da circuncisão. Paulo compreendia perfeitamente isto, mas eles, também deviam compreendê-lo e reconhecê-lo, para que não operassem em propósitos cruzados.

            Ademais, sob esta nova dispensação a parede de separação que se encontrava no meio dos Judeus e Gentios seria gradualmente derrubada e, por conseguinte, seria necessário que os crentes Judeus reconhecessem os crentes Gentios como seus irmãos em Cristo. Certamente que isto não era senão o começo. Eles ainda não podiam compreender a sua completa unidade em Cristo e ainda se encontravam longe de se reconhecerem uns aos outros no que verdadeiramente eram: “UM SÓ CORPO em Cristo”, e todos “membros uns dos outros” (Rom. 12:5, cf. 1 Cor. 1:2; 12:13).

            Tudo isto, em adição ao facto de que deveria ser esclarecido de uma vez por todas e para todos que pelo menos os Gentios não deveriam ser obrigados a sujeitarem-se à lei de Moisés. De novo, isto não era senão um começo, pois o concílio em Jerusalém nem considerou sequer a questão de os crentes Judeus deverem ou não permanecer debaixo da lei. Eles assumiam que se encontravam, pois, nenhuma revelação tinha ainda sido dada por Deus em como eles deveriam ser libertados dela. Em Atos 21:20 eles ainda eram “todos zeladores da lei”.

            Assim, com o levantamento de Paulo e com o seu primeiro ministério entre os Gentios temos a transição gradual da velha dispensação, para a nova. Deus não revela tudo duma só vez, nem principia igrejas entre os Gentios que permaneçam sem relação com os crentes em Jerusalém. Dos Santos em Jerusalém é esperado que reconheçam a mudança no programa, para o acompanharem na sua evolução, e para que gozem da sua unidade com os santos Gentios.

            Dos que acompanhavam Paulo nesta jornada para Jerusalém só dois nomes são mencionados no registo sagrado: Barnabé (Atos 15:2) e Tito (Gál. 2:1). A escolha destes dois pode ter sido muito apropriada, pois Barnabé tinha pertencido, originalmente ao grupo em Jerusalém e era Levita de nascimento, enquanto que Tito era um Grego incircuncidado. Com estes dois e alguns outros, o apóstolo seguiu para Jerusalém.

            Anos mais tarde escreveu da prisão aos Filipenses como um soldado que guarda o tesouro mais precioso: “Eu fui colocado para defesa do Evangelho” (Fil. 1:17). Ele sempre teve que se erguer para defender a pureza destas boas notícias que lhe tinham sido confiadas: “O Evangelho da graça de Deus”. Agradeçamos a Deus por isso. A sua “discussão e contenda” com os Judaizantes em Antioquia estava a mostrar resultados, pois apesar de “atribulada”, a igreja ali ainda se colocou ao lado de Paulo e Barnabé, como é evidenciado pelo facto da igreja os ter acompanhado, quando começaram a jornada. Também deve ter encorajado Paulo e o seu grupo verem que as notícias deles sobre a conversão dos Gentios da Fenícia e Samaria “davam grande alegria a todos os irmãos” (Atos 15:3). Certamente que eles podiam ter navegado de Antioquia para Jope e evitado a região dos Cananeus e os odiados Samaritanos, mas a escolha desta rota pode muito bem ter sido uma asserção dos princípios pelos quais eles se erguiam.

 

PAULO E O SEU GRUPO CHEGAM A JERUSALÉM

   “E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos, e lhes anunciaram quão grandes coisas Deus tinha feito com eles.

   “Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se levantaram, dizendo que era necessário circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés”.

- Atos 15:4-5.

 

UM CALOROSO ACOLHIMENTO

            Assim como Paulo e o seu grupo tinham sido “acompanhados pela igreja” em Antioquia, assim, também agora, foram “recebidos (Lit. bem-vindos) pela igreja” em Jerusalém. As duas visitas anteriores de Paulo a Jerusalém tinham sido breves e acompanhadas de perigo considerável. Na sua primeira visita após a sua conversão os discípulos tinham desconfiado dele e os Gregos tinham tramado a sua morte, de tal forma que se lhe tornara necessário deixar a cidade (Atos 9:26-30). A sua segunda visita foi feita na altura em que “Herodes estendeu as mãos sobre alguns da igreja”, matando Tiago, o irmão de João, e aprisionando Pedro, com a intenção de o matar depois da Páscoa (Atos 11:30; 12:2-4:25). Evidentemente que Paulo nessa altura não viu nenhum dos doze apóstolos.

            Mas agora as coisas em Jerusalém estavam diferentes. Os seguidores do Messias na cidade estavam-se a multiplicar novamente (muitos deles tendo regressado dos lugares para onde tinham sido espalhados na “grande perseguição” referida em 8:1) e pareciam não mais temer os líderes descrentes, planeando até efetuar o seu próprio concílio precisamente na mesma cidade. Também a genuinidade de conversão de Paulo a Cristo não fora posta em dúvida. Qualquer que fossem as objecções que alguns pudessem ter tido para com o seu ministério ele foi reconhecido e calorosamente acolhido pela igreja em geral como um servo de Cristo notável e bem-sucedido.

            Deve ter sido uma experiência impressionante ouvir Paulo e os seus amigos, soldados veteranos de Cristo, relatarem as “coisas que Deus tinha feito com eles”.

 

O NÚMERO DE SESSÕES REALIZADAS

            Não deve ser suposto que o apóstolo e o seu grupo apareceram simplesmente em cena, e o concílio foi logo realizado e a questão respeitante aos Gentios discutida e esclarecida. Um problema tão importante não poderia ser resolvido assim tão simplesmente. Houve pelo menos duas, provavelmente três e talvez mesmo quatro reuniões separadas.

            Na epístola aos Gálatas, Paulo explica que uma preliminar conferência privada foi primeiro realizada com “os que estavam em estima” (2:2). É possível que Atos 15:4,5 não se refira à reunião da igreja, mas a fraseologia da passagem conjuntamente com o facto de que não teriam sido muito bem-vindos pela igreja se a chegada não tivesse sido pública, leva-nos a crer que foi uma reunião pública e que depois disso os Fariseus se ergueram para objetar e “os apóstolos e os anciãos” se reuniram então para considerarem o assunto (Ver. 6). A reunião dos apóstolos e anciãos, então, seria a terceira reunião, seguida por uma quarta, assistida por “toda a multidão ... os apóstolos e os anciãos com toda a igreja” (Vers. 12,22).

 

A REUNIÃO PRELIMINAR

            O apóstolo Paulo, apesar de profundamente consciente da sua chamada e comissão divinas, e apesar de determinado a nada ceder do que fosse essencial, atuou com aquela prudência e consideração que sempre o caraterizaram. É assim que o encontramos a explicar na sua carta aos Gálatas que ele se reunira primeiro privadamente com “os que estavam em estima”[4]  para lhes comunicar pessoalmente o Evangelho que ele pregava entre os Gentios, a fim de que a sua viagem não fosse em vão (Gál. 2:2).

            Os que não veem, ou que negam, que uma revelação adicional foi dada a Paulo, devem estudar cuidadosamente o registo, pois ele ensina enfaticamente que a sua mensagem era algo novo e distinto daquilo que os doze tinham pregado.

            Primeiro, o apóstolo declara distintamente que “(eles) nada [lhe] comunicaram” enquanto que ele “lhes expôs” novas verdades (Vers. 2,6). Segundo, ele chama a essas verdades. “o Evangelho que prego entre os Gentios”, indicando com isso que não era a mesma mensagem que eles pregavam entre os Judeus. Terceiro, o facto de que ele comunicou este Evangelho primeiramente aos líderes, para que não acontecesse ele correr, ou corresse, em vão, indica claramente que ele estava a procurar fazer-lhes ver isso.

            Quão contrário às Escrituras, à luz de tudo isto, contender, como alguns contendem, que Paulo estava simplesmente a “comparar” a sua mensagem com a dos líderes em Jerusalém, para se certificar de que estava a pregar a mesma mensagem que eles!

            Aparentemente, os resultados desta reunião preliminar eram encorajadores, pois Atos 15:4 descreve aquilo que foi evidentemente um bem-vindo público de toda a igreja, a quem Paulo e Barnabé relataram “quão grandes coisas Deus tinha feito com eles”. Que reunião deve ter sido! Quem não teria sido tocado ao ouvir estes homens de Deus valorosos contarem as suas experiências ao anunciarem as boas notícias da graça de Deus para os pagãos? E que este foi o tema do seu registo é evidente no Ver. 5.

            Apesar da multidão ter, sem dúvida, vibrado ao ouvir o que Deus tinha estado a fazer entre os Gentios, haviam certos crentes Fariseus presentes que estavam longe de estar satisfeitos. Eles achavam que os Gentios se deviam aproximar de Deus por meio da nação de Israel salva; que deviam ser circuncidados e guardarem a lei de Moisés, ou, a sua fé seria vã. Isaías 56:6,7; 60:1-3; Zac. 8.13,23 e muitas outras passagens do Velho Testamento não ensinavam isso? Como é que os Gentios podiam agora ser salvos à parte de Israel, da circuncisão e da lei? Foi porque alguns dos crentes Fariseus se ergueram para apresentar estas objecções que foi necessária uma reunião especial dos apóstolos e anciãos.

 

A REUNIÃO DOS APÓSTOLOS E ANCIÃOS

            “Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos, para considerar este assunto.

            “E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: Varões irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu, de entre vós, para que os Gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho, e cressem.

            “E Deus, que conhece os corações lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como, também, a nós.

            “E não faz diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé.

            “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais, nem nós podemos suportar?

            “Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles, também”.

- Atos 15:6-11.

            Os versículos 6 e 7 desta passagem são muitas vezes usados pelos Protestantes para provarem que o governo da “Igreja primitiva” não assentava na autocracia duma vontade única, mas na decisão deliberativa dos designados por escolha, ou na aprovação, do laicado. Contudo, na realidade, isto indicava, pelo contrário, um declínio na ordem Pentecostal na qual Pedro e os doze tinham recebido autoridade para representarem oficialmente Cristo durante a Sua ausência e todos os crentes estavam cheios do Espírito (Mat. 16:19; 18:18,19; Atos 2:4). O facto de eles terem de “considerar este assunto” juntos, trocando pontos de vista e sentimentos com “muita disputa” e apresentando o resultado à multidão indica que a era Pentecostal e o seu programa real se estavam a desvanecer. Contudo, veremos como o Espírito governou e dirigiu tudo estabelecendo o apostolado e a mensagem de Paulo.

 

OS PRESENTES

Um exame à lista dos presentes na reunião especial dos “apóstolos e anciãos” fornecer-nos-á uma resenha das dificuldades que Paulo enfrentou quando defendeu o seu apostolado, a sua mensagem e a liberdade dos Gentios.

            Primeiro estavam ali presentes provavelmente todos os doze apóstolos com a exceção de Tiago, o irmão de João, que tinha sido morto por Herodes. Depois também estava ali Tiago, o irmão de Cristo, que era um apóstolo no sentido secundário, embora não sendo um dos doze. Ele era um legalista rigoroso e um lutador obstinado pela letra da lei. Foi, sem dúvida, por esta razão que ele foi cognominado “Tiago o Justo”.

            A ascendência deste homem entre os doze apóstolos constituía um dos sinais do seu declínio e do ocaso do programa Pentecostal. Ele nunca foi nomeado um dos doze e muito menos o seu líder. Nem ele tinha qualificações para ser um deles, pois na altura em que eles seguiam a Cristo, ele ainda era descrente (Ver João 7:5 e cf. Mat. 19:28; Atos 1:21,22).[5] Todavia este homem exerceu uma influência crescente sobre os doze e até sobre Pedro, o líder dos doze designado por Cristo, provavelmente por ele ter sido irmão do próprio Senhor segundo a carne.

            Paulo testifica que logo na sua primeira visita a Jerusalém, após a sua conversão, quando ele esteve com Pedro durante quinze dias, ele não viu a nenhum dos outros apóstolos, a não ser a “Tiago, o irmão do Senhor”, que estava com Pedro. Mais tarde, quando ele escapou da prisão, Pedro pediu a alguns amigos para contarem o sucedido, não aos outros apóstolos, mas a Tiago, e aos irmãos (Atos 12:7). Aqui em Atos 15 este Tiago, e não Pedro, foi evidentemente, o moderador do concílio (Atos 15:19,20). Na verdade, mais tarde, em Antioquia, Pedro permitiu que fosse, ele próprio, intimidado por “alguns da parte de Tiago”, voltando as costas à luz que Deus lhe dera a respeito do seu relacionamento com os Gentios (Gál. 2:11-14). E na última visita de Paulo a Jerusalém nem Pedro nem qualquer dos outros apóstolos são mencionados. Nós lemos simplesmente que “Paulo entrou ... em casa de Tiago, e todos os anciãos vieram ali” (Atos 21:18). Este Tiago e o seu grupo, então, eram um poder com que deviam lidar, e estas circunstâncias explicam a caraterização que Paulo fez daqueles homens como “os que pareciam ser alguma coisa” e “que eram considerados como as colunas”, e a sua declaração: “quais tenham sido noutro tempo: não se me dá” (Gál. 2:6,9).

            Uma comparação de Atos 15:7 com Gál. 2:4,5 revelará que entre os presentes nesta reunião haviam também “falsos irmãos, que se tinham intrometido”, agindo secretamente para “espiarem” a liberdade que os Gentios gozavam em Cristo e para os escravizarem; homens intrometidos secretamente, para se infiltrarem na audiência e para usarem de persuasão política, ou de pressão ou de outros meios ilegítimos para influenciarem a decisão.

          Depois certamente que haviam os anciãos subordinados das igrejas da Judeia (Ver. 6).

            Representando os crentes Gentios havia Paulo, Barnabé, Tito e alguns outros (Atos 15:2; Gál. 2:1). A escolha de Barnabé e de Tito para acompanharem Paulo nesta ocasião foi, como dissemos, particularmente sábia. Barnabé era Judeu, Levita, que pertencera previamente à igreja em Jerusalém e vendera a sua propriedade, colocando o preço da venda aos pés dos apóstolos (Atos 4: 36,37). Ele compreenderia bem o ponto de vista deles. Tito, por outro lado, era Grego, trazido, sem dúvida, como exemplo da realidade da conversão Gentílica e também como um teste na eventualidade duma batalha com os legalistas da circuncisão, de tal modo que os Gentios pudessem ter provas práticas de que a circuncisão e a lei não deveriam ser colocadas sobre eles. Que experiência valiosa, esta experiência deve ter sido para Tito, quando mais tarde ele teve que se erguer contra os legalistas na ilha de Creta! (Tito 1:10,11).

 

A BATALHA DE PAULO

            Na primeira parte da reunião houve “grande contenda” (Ver. 7). Contudo os que procuravam Judaizar os crentes Gentios e impor a circuncisão e a lei sobre eles, juntamente com os que “secretamente se tinham intrometido” para ajudarem a dirigir o assunto por estratégia secreta, não conseguiram nada, pois o apóstolo Paulo, tinha a verdade e até as consciências da maioria dos seus adversários do seu lado.

Quão profundamente gratos devemos estar por lermos as suas palavras:

            “AOS QUAIS, NEM AINDA POR UMA HORA CEDEMOS COM SUJEIÇÃO, PARA QUE A VERDADE DO EVANGELHO PERMANECESSE ENTRE VÓS” (Gál. 2:5).

Quanto a Tito: “Não foi constrangido a circuncidar-se”[6] Os Judaizantes não venceram aquela batalha.

 

O PROTESTO DE PEDRO

            Chegamos agora à última menção de Pedro nos Atos. Ele aparece como “apóstolo da circuncisão”, mas para sancionar o apostolado de Paulo e para apoiar a sua exigência de que os crentes Judeus deveriam deixar de impor a lei aos Gentios.

            Ao examinarmos o registo somos levados a perguntar: “Onde está Pedro?”. O Senhor já não lhe tinha tornado indubitavelmente claro de que os incircuncisos que cressem deviam ser aceites como são? Ele não relatara aos seus irmãos como é que, contrariamente à sua própria inclinação, ele fora enviado a Cornélio e à sua casa e como eles tinham sido gloriosamente salvos? Os seis irmãos não testemunharam as evidências sobrenaturais da conversão destes Gentios? Os seus irmãos não se apaziguaram e glorificaram a Deus quando ele acabou, reconhecendo: “Na verdade até aos Gentios deu Deus o arrependimento para a vida?” Porque é que ele agora encontrava-se em silêncio? Ele não era aquele a quem o Senhor designara como cabeça dos doze? Porque é que ele não diz nada para pôr termo a toda aquela disputa? Alguns argumentam contra o papado ao salientarem aqui que Pedro não presidiu, nem mesmo fez declarações, mas ele devia ter não só presidido como feito declarações. Será que as palavras do Senhor não tinham nenhum significado? Ele tinha presidido e fizera declarações no princípio dos Atos (1:15; 2:14). Contudo o seu poder e dos outros apóstolos estava a declinar.

            Pedro consentira a si mesmo ser afastado cada vez mais para segundo plano do seu lugar designado, mas num caso como este ele não podia ficar calado. Finalmente, depois de ter havido muita disputa, ele ergueu-se para protestar contra o movimento que visava impor a circuncisão e a lei aos crentes Gentios.

            Primeiro ele relata os factos simples da obra de Deus no caso de Cornélio e da sua casa. Tinha-se passado algum tempo desde que Deus escolhera Pedro dentre os doze para que, como ele mesmo diz: “os Gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho, e cressem”. (Ver. 7).

            Assinalemos as palavras “minha boca”, pois são importantíssimas em relação a este concílio. Deus não tinha mandado todos os doze todos a começar agora a ir aos Gentios, pois Israel ainda não tinha recebido Cristo e sob o programa profético a salvação iria para os Gentios por meio da nação de Israel remida. Somente Pedro tinha sido enviado e somente a esta única casa. Ele não continuou a ministrar aos Gentios. Na verdade, como resultado deste concílio em Jerusalém ele e os outros apóstolos concordaram em restringir o seu ministério a Israel reconhecendo Paulo como o apóstolo de Deus para os Gentios (Gál. 2:9).

            Tudo isto enfatiza o facto de que Deus teve um único propósito ao enviar Pedro a Cornélio e à sua casa. Não fora em cumprimento do programa profético ou da “grande comissão” pois todos os doze estavam incluídos nesse programa e comissão. Assim, se o tempo para isso tivesse chegado todos eles teriam ido aos Gentios e manter-se-iam nessa tarefa. E Deus não estava a enviar os doze aos Gentios a despeito da rebelião contínua de Israel, pois a Paulo, não aos doze, é que foi confiada essa tarefa.

            Qual foi então o propósito especial de Deus ao enviar apenas Pedro (dos doze apóstolos) a esta única casa Gentílica? Foi 1) para que ao subsequente ministério de Paulo entre os Gentios pudesse ser dado reconhecimento pleno, 2) para que pudesse ser reconhecido que os Gentios seriam salvos à parte da circuncisão e da lei e, 3) para que os crentes em Jerusalém pudessem reconhecer os crentes Gentios como seus irmãos em Cristo.

            É verdade que Pedro não tinha pregado o mistério ou o Evangelho da graça de Deus a Cornélio e à sua casa, mas pregara Cristo e como ele tinha proclamado a necessidade de fé em Cristo para a remissão de pecados, os seus ouvintes creram e foram salvos. Nesse momento o Espírito interrompeu a mensagem de Pedro e deu a esses Gentios o dom pelo qual Pedro e os seus amigos podiam saber que a salvação deles era genuína.

            Os santos em Jerusalém, então, não podiam negar que Deus estava a operar entre os Gentios, pois o seu próprio líder tinha sido enviado a ministrar-lhes e agora testemunha que “Deus, que conhece os corações (Gr. “conhecedor do coração”), lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós” (Ver. 8).

            Nesta relação Pedro observou (Ver. 8) que Deus “não fizera diferença” entre Judeus e Gentios, ao purificar os corações destes Gentios “pela fé”[7] Esta declaração de Pedro indica uma plena aceitação do que Paulo tinha argumentado na conferência privada com os líderes.

            Deus proporcionou a Pedro esta experiência com Cornélio e a sua casa (significativamente depois do levantamento de Paulo) tendo em vista este preciso concílio, para que ele pudesse testemunhar os factos simples que observara e confirmar assim o ministério de Paulo. E porque é que os crentes Judeus se haviam de queixar? Afinal, a nação de Israel, antes de poder ser salva, não tem de experimentar a circuncisão do coração e ser purificada pela fé? (Ver Jer. 4:1,4; 9:26, cf. Atos 7:51; Rom. 2:25-29).

            Quão necessária era a experiência de Pedro para precisamente esta ocasião? Não se tratava de os apóstolos da circuncisão terem qualquer jurisdição sobre Paulo ou os Gentios, mas era para que o apostolado de Paulo entre os Gentios e a liberdade dos crentes Gentios em Cristo pudessem ser plenamente reconhecidos, para não acontecer que os Judaizantes, gloriando-se na “autoridade” dos líderes em Jerusalém, incluindo mesmo o irmão do Senhor, segundo a carne, continuassem a atribular os santos Gentios.

            Ao ter relatado os factos básicos da sua experiência Pedro formula agora a questão:

            “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais, nem nós, podemos suportar? (Ver. 10).

            Os Fariseus e os que os secundavam estavam a tentar impor aos Gentios um jugo que nem os seus pais nem eles tinham podido suportar. Na verdade, os Fariseus ao sentarem-se na cadeira de Moisés, ajudaram a tornar este jugo mais pesado (Mat. 23.1-4). Fazer agora prevalecer as suas vontades neste assunto, em vez de se renderem à vontade revelada de Deus, seria na verdade tentá-LO e ensaiar a sua própria derrota e condenação. De facto, agora seria errado os crentes Gentios aceitarem este jugo (Gál.5:1).

Ao terminar as suas observações, Pedro faz uma declaração notabilíssima:

   “Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles, também” (Ver. 11).

            Ele não diz: “eles também serão salvos como nós” mas “nós também seremos salvos como eles”. Assim, longe da lei ser necessária para a salvação deles, argumenta ele, não é realmente por ela que nós somos salvos, e isto ainda será demonstrado.

            Esta é a última declaração registada no registo do ministério de Pedro nos Atos. Deveria ser comparada com as últimas palavras das suas epístolas. Ao explicar ali que Paulo tinha escrito algumas “coisas difíceis de entender”, ele termina:

   “ANTES, CRESCEI NA GRAÇA E CONHECIMENTO DO NOSSO SENHOR E SALVADOR JESUS CRISTO. A ELE SEJA DADA A GLÓRIA, ASSIM AGORA, COMO NO DIA DA ETERNIDADE! AMÉM” (2 Ped. 3:18).

            Tudo isto mostra quão errado é divorciar a experiência de Pedro na casa de Cornélio do subsequente ministério de Paulo, ao associá-la apenas ao programa do reino. Quão necessária foi esta experiência, e o testemunho de Pedro a respeito dela, para o reconhecimento do posterior ministério de Paulo!

 

BARNABÉ E PAULO TESTIFICAM

   “Então toda a multidão se calou, e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quão grandes sinais e prodígios Deus havia feito por meio daqueles, entre os Gentios.”

- Atos 15:12.

          Parece que neste ponto toda a igreja entrou de novo em cena e ouviu Barnabé e Paulo,[8] que relataram os sinais e maravilhas que Deus operara entre os Gentios por intermédio deles. Isto visava confirmar a estes ouvintes Judeus o facto do ministério deles ser de facto de Deus, pois “os Judeus pedem sinal” (1 Cor. 1:22) e esta era uma das razões porque no princípio foi dado a Paulo o poder para operar milagres.

            Em tudo isto Paulo tinha-se mostrado notavelmente refreado, pois sem dúvida que ele ter-se-ia antes esforçado por revelar as grandes realidades doutrinais que para ele se tinham tornado tão preciosas, mas a grande necessidade agora era que os crentes da circuncisão reconhecessem a sua comissão dada por Deus.

 


[1] Os “falsos irmãos” de Gál.2.4 entraram em cena mais tarde, em Jerusalém.

[2] E era, na verdade, o cerimonial básico requerido pela lei e aquilo que, como povo de Deus, os separava dos Gentios (João 7:22; Lev. 12:2,3; Gál. 5:3).

[3] “Nem tornei a Jerusalém, A TER COM OS QUE JÁ ANTES DE MIM ERAM APÓSTOLOS” (Gál.1:17).

[4] Aqueles de quem os homens faziam muito. A razão para o apóstolo usar aqui esta terminologia ainda será visto adiante.

[5] Evidentemente ele foi salvo na altura da crucificação (Atos 1:14).

[6] É este o sentido de Gál. 2.3.

[7] Atos 10:15 revela que a purificação dos Gentios é pela graça e aqui, por meio da fé.

[8] É significativo o facto de no Ver. 2, em Antioquia, é “Paulo e Barnabé”, enquanto que nos Vers. 12,25 em Jerusalém, é “Barnabé e Paulo”.

 

 

 

ATOS 15:13-35

A LIBERDADE GENTÍLICA

RECONHECIDA PELA IGREJA EM JERUSALÉM

TIAGO DECLARA A DECISÃO

 

   “E, havendo-se eles calado, tomou Tiago a palavra, dizendo: Varões irmãos, ouvi-me:

   “Simão relatou como primeiramente Deus visitou os Gentios, para tomar deles um povo para o Seu nome.

   “E com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito:

   “Depois disto, voltarei, e reedificarei o tabernáculo de David, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo.

   “Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os Gentios, sobre os quais o Meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas.

   “Que são conhecidas desde toda a eternidade.

   “Pelo que julgo que não se deve perturbar aqueles, de entre os Gentios, que se convertem a Deus.

   “Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue.

   “Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue e cada sábado é lido nas sinagogas.”

- Atos 15:13-21.

            Finalmente, o Concílio conheceu o seu epílogo quando Tiago se ergueu para falar, evidentemente como presidente da convenção.

            Vários detalhes importantes na sua mensagem deverão ser cuidadosamente notados. Primeiro, na sua “resposta”, Tiago, provavelmente numa outra reunião, não se referiu ao que Paulo e Barnabé tinham acabado de dizer acerca da sua obra entre os Gentios, mas ao que Pedro dissera previamente acerca do ministério dele aos Gentios. Segundo, ao referir-se a Pedro, Tiago chamou-o Simão, usando o seu nome terreno em vez de Pedro, o nome que o Senhor lhe dera em relação à sua superioridade sobre os onze (Mat.16:17-19). Terceiro, ele assumiu a decisão final como tendo sido sua. As palavras “pelo que julgo que” deveriam ser: “pelo que eu decido que”, e o “eu” no original é enfático. A posição de Tiago tinha-se tornado tão forte entre os crentes da Judeia que ninguém parecia recordar o facto de que o próprio Senhor tinha treinado e comissionado Pedro para a obra e o tinha designado seu líder. Todavia Deus estava graciosamente por detrás, controlando tudo.

            Ao referir-se, atrás, ao registo da visita de Pedro a Cornélio e à sua casa, Tiago salienta que isso estava em harmonia com (a palavra Grega para “concordaram” é sumphoneo, de com e som) a profecia. Ao citar Amós 9, ele salienta que “o tabernáculo de David” seria edificado “para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os Gentios, sobre os quais o Meu nome é invocado, diz o Senhor” (Ver. 17).[1]

            Se Tiago pretendia sustentar que a salvação dos Gentios sob Paulo era parte do programa do reino e que os Gentios deveriam estar sujeitos a Israel, talvez seja difícil de determinar. O certo é que ela não era um desenvolvimento do programa do reino, pois o remanescente anelante e os chamados Gentios de Amós tinham sido aludidos em relação à reedificação do tabernáculo de David, que ocorreria “naquele dia”, isto é, o dia do Senhor. Decerto que o tabernáculo de David não estava a ser reedificado quando Tiago falou; na realidade a possibilidade de ele ser reedificado nos seus dias estava-se a tornar cada vez mais remota.

            Certamente que a passagem em Amós 9 não se está a cumprir nos nossos dias. Nem Tiago diz que se estava a cumprir então. Sem dúvida que dirigido por Deus, Tiago simplesmente disse que a conversão dos Gentios se encontrava em harmonia com (Gr. sumphoneo) o que os profetas tinham dito. Podemos muito bem dizer acerca da conversão dos Gentios hoje, que apesar dela não ser um cumprimento do programa profético, o facto permanece que Deus tinha prometido enviar salvação aos Gentios e que a enviou, a despeito, certamente, da recusa de Israel em se tornar o canal de bênçãos, mas enviou-a. Isto explica passagens como Atos 13:46,47 e Rom.15:8-16.

            O facto salientado por Tiago de que Deus visitou “primeiramente” os Gentios por meio de Pedro, implica uma relação entre Cornélio e a sua casa e os Gentios mais tarde salvos sob Paulo. Apesar de ser verdade de no caso de Cornélio temos uma sombra da conversão dos Gentios por meio da nação de Israel remida, personificada em Pedro, contudo o facto é que Deus enviou Pedro a Cornélio, não sob a “grande comissão” mas por uma comissão especial, não porque Israel tivesse aceite Cristo e o programa profético pudesse agora continuar, mas porque Israel rejeitara Cristo e um novo programa estava a ser introduzido, e Pedro, o líder dos doze e da Igreja da Circuncisão fora o único escolhido para esta tarefa de modo a não haver dúvidas quanto a ele e de modo ao desenvolvimento desse programa sob Paulo (que já tinha sido levantado quando Pedro visitou Cornélio) poder ser plenamente certificado.

            Sob Deus, então, o testemunho de Tiago não visava mostrar que o programa profético estava a ser cumprido, pois não era esse ainda o caso, mas que não era contrário ao propósito de Deus em salvar os Gentios, e se encontrava em harmonia com ele.

            É triste ver Tiago usurpar a posição de Pedro e até a de Paulo,[2] quando ele conclui: “Pelo que eu decido ...” (Ver. 19). O que ele estava a propor não era decisão sua.  Como os registos dos Atos e de Gálatas testemunham, tratava-se principalmente do resultado da batalha de Paulo e do protesto de Pedro. Mas na providência de Deus, a “decisão” de Tiago era notável. Impedia que os crentes Judeus transtornassem os Gentios acerca da circuncisão e da lei, mas propôs escrever-se-lhes exortando-os a “absterem-se das contaminações dos ídolos, da prostituição[3] do que é sufocado e do sangue” (Ver. 20). Na base de Atos 15:28; 21:25 e Gál. 2:5 não sentimos, como alguns sentem que isto ainda veio agravar a imposição da lei, mas que isto veio facilitar, certamente o caminho para uma melhor comunhão entre Judeus e Gentios e para que os Judeus descrentes não ficassem chocados e eles se não desviassem mais de Cristo. Pois, como Tiago disse:

            “... Moisés desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, e a cada sábado é lido nas sinagogas” (Ver. 21).

            A sua fraseologia indica que uma vez passado aquele condicionalismo, a exortação não seria mais pertinente.

 

OUTROS ACORDOS

            Examinemos o restante do registo de Gálatas e observemos que outros acordos foram também atingidos, evidentemente na reunião dos apóstolos e dos anciãos que sem dúvida tiveram importante influência na decisão de “Tiago”.

            Primeiro, Paulo salienta em Gál. 2 um facto que ele também bem pode ter procurado “fazer prevalecer” no concílio. O problema não devia ter sido apresentado por Tiago, que não era um dos doze, nem até mesmo por João, mas por Pedro.

            Comparando o ministério da circuncisão com o seu, o apóstolo diz:

            “Porque aquele que operou eficazmente em PEDRO para o apostolado da circuncisão esse operou também em mim com eficácia para com os Gentios” (Gál. 2:8).

            Mas com Tiago a dominar, Paulo refere-se aos líderes quatro vezes como aqueles que eram “de reputação”[4] dizendo acerca destes reputados que “embora tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem” (Ver. 6).

            E, como nós dizemos, Deus estava por detrás a dirigir tudo, pois o apóstolo declara que “eles viram” que “o Evangelho da incircuncisão” lhe tinha sido confiado a ele, como “o Evangelho da circuncisão” a Pedro (Ver. 7) e vemos os líderes da circuncisão e Paulo e Barnabé dando as mãos num acordo solene e importante:

            “E CONHECENDO TIAGO, CEFAS E JOÃO, QUE ERAM CONSIDERADOS COMO AS COLUNAS A GRAÇA QUE SE ME HAVIA DADO, DERAM-NOS AS DEXTRAS, EM COMUNHÃO COMIGO E COM BARNABÉ, PARA QUE NÓS FOSSEMOS AOS GENTIOS, E ELES À CIRCUNCISÃO” (Ver. 9).

            Os Judaizantes tinham posto em dúvida o apostolado de Paulo mas ele fora agora confirmado amplamente, pois temos aqui Tiago, o líder aprovado da Igreja Hebraica e Pedro, o líder designado de Cristo, juntamente com João, apertando todos as mãos a Paulo e a Barnabé num acordo solene e público do facto de Deus ter chamado Paulo e Barnabé para irem aos Gentios, e concordando restringirem o seu próprio ministério à circuncisão. Paulo tinha sido justificado!

            Este acordo é mais do que notável em face dos doze terem, no princípio, sido comissionados para irem a todas as nações, começando, certamente, por Jerusalém (Mat. 28:19; Mar. 16:15; Luc. 24:47; Atos 1:8). Mas como os apóstolos tinham ligado coisas que também tinham sido ligadas no céu, eles agora exercitam a sua autoridade pela última vez ao libertarem-se da comissão para ir a todo o mundo, e o que eles fizeram na terra foi ratificado no céu (Ver Mat. 18:18-20).

            Assim como havia uma exortação apensa à decisão quanto à lei no registo de Atos, assim também encontramos um pedido apenso ao acordo quanto ao apostolado de Paulo aqui em Gál. 2, pois o apóstolo acrescenta

            “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres;[5] o que também procurei fazer com diligência” (Ver. 10).

            Poderia haver testemunho mais eloquente do colapso do programa do reino e do começo duma nova obra entre os Gentios do que o facto dos líderes em Jerusalém terem tido a necessidade de pedir ajuda financeira aos crentes Gentios? Ocorrera uma grande mudança desde o tempo em que todos eles tinham “um coração e alma” e em que nada lhes faltava (Atos 4:32,34).

            Paulo compreendia a situação, talvez melhor do que eles, e a sua sinceridade ao dizer que ele mesmo os ajudaria é evidenciada pelo facto dele já lhes ter trazido socorro da igreja em Antioquia (Atos 11:29,30) e de nas suas cartas o encontrarmos a levantar fundos das “igrejas da Galácia” (1 Cor. 16:1-3) das “igrejas da Macedónia” (2 Cor. 8:1-4) e das “igrejas da Acaia” (2 Cor. 9:2) para socorrer “os santos pobres ... em Jerusalém” (Rom. 15:26).

 

A CARTA PARA OS GENTIOS

             “Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja, eleger varões dentre eles e enviá-los com Paulo e Barnabé a Antioquia, a saber: Judas chamado Barsabás e Silas, varões distintos entre os Gentios.

            “E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos, e os anciãos e os irmãos dentre os Gentios que estão em Antioquia, e Síria e Cilícia, saúde.

             “Porquanto que ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, não lhes tendo nós dado mandamento.

            “Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns varões e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo.

            “Homens que já expuseram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.

            “Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais de boca vos anunciarão também o mesmo.

            “Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias.

            “Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação; das quais coisas fazeis bem se vos guardardes. Bem vos vá.”

- Atos 15:22-29.

 

UMA LIÇÃO SOBRE O GOVERNO DA IGREJA

            Esta passagem ensina uma outra lição importante sobre o governo da igreja. É verdade que Pedro tinha sido designado líder dos apóstolos, e que a ele, em particular, e a todos eles juntos lhes tinha sido dada grande autoridade na igreja do reino. No entanto é evidente do registo que essa autoridade não visava ser exercida duma forma ditatorial e arbitrária, especialmente no que concernia a assuntos vitais para toda a assembleia. Isto é claro dos registos na escolha de Matias (Atos 1:15-26) e na designação dos sete diáconos (Atos 6:2,3). E se isto foi assim nos dias em que “todos eles estavam cheios do Espírito Santo”, ainda mais seria agora que o programa Pentecostal estava a começar a desaparecer, pois embora o problema tivesse sido tratado na conferência dos “apóstolos e anciãos”, o resultado teria de ser submetido a toda a assembleia para a sua aprovação. Apesar de Tiago lhe ter chamado “a minha decisão” e mesmo que tivesse sido a decisão de Pedro, não teria sido decisão final e não o poderia ser, até ter sido aprovada por “toda a igreja”.

            Isto é importante em face de Roma se agarrar apenas a passagens que sustentam a autoridade dada a Pedro e de excluir completamente o “laicado” de ter qualquer parte nas suas decisões, quer estas sejam importantes quer sejam insignificantes. Na verdade, o clero não tem mesmo voz no seu governo. Cada um tem de aprender a sujeitar-se completamente ao seu superior, de tal forma que nenhum Católico Romano (com a exceção do Papa) é membro da Igreja Católica Romana na verdadeira acepção da palavra, nem lhe é dada qualquer voz na igreja, nem mesmo qualquer direito de saber o que é feito com o dinheiro com que contribui.

            No governo de algumas das nossas maiores denominações Protestantes também observamos os líderes agarrarem-se muito ao poder governamental da igreja, ao excluírem o laicado dos seus Sínodos.

            É obviamente verdade que o debate de uma questão importante por uma grande audiência, onde muitos dos que dela fazem parte podem ser espiritualmente imaturos e apenas poucos, geralmente, possuem capacidade de consideração madura, podem induzir a decisões erradas e desastrosas. Homens reconhecidos pela sua espiritualidade e habilidade são, ou deviam ser, escolhidos para esse fim, mas a medida da sua verdadeira autoridade é a da sua espiritualidade. Assim, em assuntos que afetem toda a igreja, o acordo atingido privadamente deveria ser a seguir submetido a toda a igreja para sua aceitação ou rejeição.

            Nós observamos isso no caso de Paulo e Barnabé entre os Gentios no capítulo 14, e vemo-lo de novo aqui, precisamente no concílio em Jerusalém. Evidentemente que o “laicado” não teve o direito de iniciar quaisquer medidas. Isso foi deixado a homens reconhecidos e aprovados por eles. Mas é claro que eles tiveram o poder de decidir sobre o que os seus líderes tinham acordado.

 

A DECISÃO TORNADA FINAL

            Depois de Tiago ter acabado de falar a decisão foi tornada final quando “os apóstolos e os anciãos com toda a igreja” concordaram dá-la a conhecer aos crentes Gentios. Isso agora tinha de ser feito de forma a que não ficassem dúvidas quanto à sua autenticidade e finalidade. Enviariam assim uma comissão de varões escolhidos do seu próprio grupo a Antioquia com Paulo e Barnabé, levando uma nota[6] escrita da decisão, que eles no seu conjunto podiam anunciar de boca. Essa comissão foi composta por Judas Barsabás, talvez relacionado com José Barsabás (Atos 1:23) tendo o mesmo sobrenome, e Silas. Ambos eram “líderes entre os irmãos” e a palavra deles seria respeitada.

            A comunicação foi dirigida especificamente aos irmãos Gentios “em Antioquia e Síria e Cilícia” (Ver. 23). Isto deve-se sem dúvida ao facto da questão acerca da circuncisão e da lei se ter espalhado pelas regiões à volta de Antioquia, onde Paulo laborava, provavelmente antes e possivelmente durante[7] a sua estadia de um ano em Antioquia (Atos 11:25,26 cf. Gál. 1:21,22).

            A decisão escrita do concílio foi em si uma grande vitória tanto para os crentes Gentios como para Paulo. Começando com uma calorosa “saúde”[8] da parte dos “apóstolos e anciãos e irmãos” em Jerusalém, explicava que alguns dentre si tinham ido a Antioquia, perturbando os crentes Gentios ali e “transtornando” as suas almas, e certificava-os de que tais indivíduos não tinham recebido nenhum mandamento deles para lá irem. O significado de “não lhes tendo nós dado mandamento” não é que a igreja em Jerusalém os não tenha comissionado a dizer o que disseram, mas que, não tinham sido comissionados a irem lá: “não lhes tendo nós dado mandamento”.

            Em comparação com estes perturbadores a carta continuava a falar de “varões escolhidos” enviados com “os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que já expuseram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” – esses homens “escolhidos” foram enviados para confirmar as suas declarações.

            Este testemunho gracioso do caráter de Barnabé e Paulo implicava claramente que as suas palavras seriam aceites e a sua autoridade respeitada pelos Gentios.

            Quanto à decisão do concílio, resumidamente escrito nesta carta alguns detalhes importantes devem ser notados.

  1. A igreja em Jerusalém não impôs a lei aos crentes Gentios.
  2. Eles não o poderiam fazer de forma alguma, pois não tinham qualquer jurisdição sobre eles, mas o ponto é que se o programa do reino tivesse continuado os Gentios teriam que se sujeitar a Israel. Ora a igreja em Jerusalém torna claro que não é esse o caso.
  3. As “coisas necessárias” em que a igreja em Jerusalém os exortava, não eram obras da lei que procuravam impor aos Gentios, mas coisas que eles sentiam que os crentes Gentios se deviam “abster” para não chocarem os Judeus com quem eles entravam em contacto. (Ver. 21).
  4. E mesmo esses detalhes não foram colocados em forma de mandamentos. Foi simplesmente sugerido que eles fariam “bem” absterem-se daquelas coisas mesmo que tal parecesse ser uma “carga”. Nós não cremos, como alguns creem, que Paulo concordou em sujeitar os crentes Gentios a certos requisitos legalistas e que mais tarde, depois repudiou o acordo (Ver Gál. 2:5; 5:1,3,9).

            Devido à transição do programa do reino para a presente economia a decisão escrita do concílio era necessária tanto para estabelecer a liberdade Gentílica como para confirmar a autoridade apostólica de Paulo entre os Gentios. Contudo isso não substituiria a autoridade e a comissão de Paulo dadas por Deus. Ele não necessitava do concílio em Jerusalém para endossar o seu apostolado. Assim, apesar de ele aceitar esta decisão como estabelecimento satisfatório do assunto em questão, ele nunca se refere uma única vez sequer a esta carta nas suas epístolas, nem mesmo quando discutiu o assunto principal que foi tratado (Gál .2). De qualquer modo, Paulo encontrou razões mais elevadas porque os crentes Gentios – e até os Judeus – não deviam estar debaixo da lei (Rom. 7:2; Gál. 3:13; Col. 2:14) e motivos mais elevados para se absterem de tudo o que pudesse de qualquer forma prejudicar os outros, quer perdidos quer salvos (Rom. 14:13-15; 1 Cor. 8:1,4,7,9; 10:28-33; Gál. 5:13). Na verdade, mesmo no que dizia respeito à impureza e à imoralidade ele encontrou motivos mais elevados para a verdadeira santificação nas verdades de que eles tinham sido “comprados por bom preço” e de que os seus corpos eram membros de Cristo e templos do Espírito Santo (1 Cor. 6.15,19,20).

            Ainda assim, quanto se tinha conseguido nesta jornada em Jerusalém e quantas dificuldades tinham sido vencidas! Esta convenção testemunhava eloquentemente o facto de que a era Pentecostal com o controlo completo do Espírito Santo estava a desvanecer-se pois, como muitas convenções hoje, poderia ser desastrosa: reunidos em conferência encontravam-se alguns que evidentemente criam sinceramente que os Gentios deveriam ser circuncidados e guardar a lei. Depois haviam os “falsos irmãos”, como também a fraqueza de Pedro e a outra afirmação de Tiago. Na verdade, havia muita coisa de para recear, mas o Espírito Santo, por detrás, dirigiu tudo graciosa e poderosamente, até ao ponto de tanto Tiago como Pedro, com João, reconhecerem pública e oficialmente Paulo como o apóstolo dos Gentios e “toda a igreja ... reunida concordemente” escreveu aos Gentios como irmãos em Cristo, condenando os Judaizantes, defendendo Paulo, e declarando que eles concordavam que os Gentios se não sujeitassem à lei.

            A igreja em Jerusalém deve ter ficado profundamente consciente de que o Espírito Santo dirigiu, na sombra, pois na sua carta encontramos o forte clamor: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós ...”. O problema ficou tão definidamente assente que anos mais tarde os líderes em Jerusalém disseram a Paulo:

            “E, ouvindo-o eles, glorificaram ao Senhor, e disseram-lhe: Bem vês, irmão quantos milhares de Judeus há que creem, e todos são zeladores da lei” (Atos 21:20).

            Porém, em contraste acentuado:

            “TODAVIA, QUANTO AOS QUE CREEM DOS GENTIOS, JÁ NÓS HAVEMOS ESCRITO, E ACHAMOS POR BEM, QUE NADA DISTO OBSERVEM” (Ver.  25).

            A mensagem que temos estado a considerar contém a última menção de Pedro – e dos doze - no registo dos Atos. Ao ter confirmado o ministério e o apostolado de Paulo ele desaparece de cena para ser substituído totalmente por Paulo.

 

A DECISÃO REPUDIADA AGORA

            A despeito de todas as falhas manifestadas no concílio em Jerusalém, deve ainda ser dito que nunca desde essa altura tanta autoridade esteve presente numa reunião eclesiástica. Estavam ali os líderes dos doze, que o Senhor escolhera e comissionara como Seus representantes. Estava ali Paulo, chamado e comissionado pelo Senhor ascendido, e Barnabé, que com Paulo fora enviado pelo Espírito Santo para ministrarem entre os Gentios. Estavam também ali outros com maior ou menor grau de autoridade como representantes de Cristo. Depois também as Escrituras declaram enfaticamente que as decisões do concílio tinham sido dirigidas pelo Espírito Santo.

            No entanto quase todos os concílios da igreja têm, desde então, repudiado a decisão deste concílio. Apesar deste concílio ter reconhecido tão enfaticamente a revelação dada a Paulo para os Gentios, com uma mensagem que diferia da deles (Atos 15:9-11; Gál.2:2,7) e apesar de eles terem concordado plena e finalmente que os Gentios permanecessem debaixo da graça, quase sem exceção, a Igreja tem voltado as costas – à comissão Paulina e tem-se voltado para a chamada “grande comissão” dada aos onze, e concílio após concílio tem tratado de questões respeitantes à lei, batismo, milagres, e uma centena de outros detalhes que nunca teriam constituído problema tivesse a Igreja dado ouvidos às decisões deste concílio e escutado Paulo. Mesmo os Fundamentalistas têm hesitado e vacilado entre a comissão Paulina e a “grande comissão” em vez de se erguerem firmemente em terreno Paulino. Eis aqui a raiz causadora da divisão e confusão que reina presentemente entre si.

 

A ENTREGA DA CARTA

            “Tendo-se eles então despedido, partiram para Antioquia e, ajuntando a multidão, entregaram a carta.

            “E, quando a leram, alegraram-se pela exortação.

            “Depois Judas e Silas, que também eram profetas, exortaram e confirmaram os seus irmãos com muitas palavras.

            “E, detendo-se ali algum tempo, os irmãos os deixaram voltar em paz para os apóstolos.

            “Mas pareceu bem a Silas ficar ali.

            “E Paulo e Barnabé ficaram em Antioquia, ensinando e pregando, com muitos outros, a Palavra do Senhor.”

- Atos 15:30-35.

            De repente encontramos os apóstolos a regressar de novo a Antioquia! Sem dúvida que eles se apressaram a levar as boas notícias!

            Quão maravilhoso deve ter sido os crentes Gentílicos ouvirem a leitura da carta! E depois ouvir toda a história, ou uma boa parte dela, pelas bocas de Paulo e Barnabé por um lado e de Judas e Silas por outro!

            Quanto a Judas e Silas, eles ergueram-se em contraste direto com os Judaizantes que os tinham precedido. Os Judaizantes não tinham sido enviados e tinham vindo lançar dúvidas sobre a realidade da conversão dos Gentios para os “desmantelar” e os roubar. Judas e Silas, por outro lado, tinham sido oficialmente comissionados pela igreja em Jerusalém, tendo vindo encorajar os crentes Gentios e confirmá-los.

            Deveria ser aqui notado que “Judas e Silas” também eram “profetas” e como tal confirmaram os crentes Gentios em Antioquia. Assim, enquanto a necessária troca de argumentos para estabelecer um caso indicava que o controlo Pentecostal pelo Espírito dera lugar a uma nova dispensação, este ministério destes profetas mostrava que a transição ainda não estava completa. Os crentes Gentios necessitavam desta confirmação profética porque se encontravam no meio da transição. É isso que A.E. Bishop no seu livro Tongues, Signs and Visions (Línguas, Sinais e Visões) denomina “um desaparecimento gradual da dispensação então em vigor, à medida que com o passar dos anos a dispensação da graça tomava o seu curso normal”.

            Quando a missão deles acabou Judas voltou a Jerusalém mas Silas continuou em Antioquia. Uma grande obra estava a continuar em Antioquia. Nós apercebemo-nos da sua magnitude quando lemos que Paulo e Barnabé continuaram ali ensinando e pregando a Palavra do Senhor “com muitos outros”.

 

 


[1] A Versão Almeida de Amós 9:11,12 traduz “restante de Edom”, em vez de “resto dos homens”, e “possuam” em vez de “busque” mas sem dúvida que em ambos os casos a última tradução é que se encontra correta, como citada por Tiago nos Atos, pois enquanto no Hebraico Edom é adum, homem é Adam, e enquanto possuam é irsh, busque é drash. Em cada caso a diferença é tão leve que pode muito bem ter acontecido as palavras terem sido mal copiadas. Também a citação da passagem por Tiago encontra-se mais em harmonia com o resto da profecia que o texto de que foi traduzida na Versão Almeida.

[2] Pois Tiago não tinha autoridade sobre os Gentios a quem Paulo ministrava.

[3] Provavelmente não nas suas formas mais grotescas, mas em casos onde eles sentiam que os crentes Gentios podiam ser mais lassos.

[4] No Ver. 6 a frase “pareciam ser alguma coisa” e no Ver. 9 a frase “eram considerados como as colunas” deveriam ser traduzidas por “reputados” (Gr. doke) sucedendo o mesmo no Ver. 2 a “aos que estavam em estima”.

[5] Os seus pobres. Não havia motivo para pedir ajuda aos pobres do ministério de Paulo.

[6] Será interessante examinar essa nota. As suas várias partes parecem mostrar a influência de alguns dos líderes que evidentemente ajudaram a compô-la.

[7] Apesar de lermos em Atos 11:26 que “durante um ano” ele e Barnabé “se reuniram” com os crentes em Antioquia, isso parece incluir muitas viagens.

[8] O Gr. Watro significa literalmente, “Desejamo-vos alegria”.

 

- C. R. Stam

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