Pedro tinha competência para interpretar a “Grande Comissão”?

 Cornelius R. Stam

     O registo de Marcos sobre a comissão do Senhor dada aos onze afirma claramente:

     "Quem crer e for batizado será salvo" (Marcos 16:16).

     Quanto aos descrentes, o batismo, é claro, nem sequer entrou no seu caso, e por isso o registo continua dizendo: "mas quem não crer será condenado".

      Esta passagem foi sempre um problema para os Fundamentalistas que se apegam à prática do batismo na água e negam a revelação especial entregue a Paulo para a presente dispensação. O resultado tem sido alguns mudarem o significado desta passagem, enquanto outros afirmam que os últimos doze versículos de Marcos 16 não estão nos originais inspirados.

Mudar esta passagem para que diga: "Quem crer e for salvo deve ser batizado" é simplesmente perverter e deturpar a Palavra de Deus escrita. Se um ministro no púlpito pode fazer isto de ânimo leve a uma passagem, é preciso ter cuidado com ele, pois também pode fazê-lo com outras passagens.

     Quanto ao argumento de que a porção final do Evangelho de Marcos não consta no original, respondemos que não se pode olhar para essa alegação sem se concluir que faz parte do texto inspirado.

     Primeiro, deve ser lembrado que nós não temos os manuscritos originais da Bíblia. Em segundo lugar, os manuscritos que temos contêm essa parte do texto na proporção de 300 para 1. Terceiro, os manuscritos Codex Vaticanus e Sinaiticus, que não a contém, deixa espaços revelando que foi omitida. Em quarto lugar, temos traduções anteriores aos nossos manuscritos mais antigos que a contêm. Em quinto lugar, temos os escritos dos pais que viveram ainda mais remotamente, que contêm citações desta porção do texto.

     Contudo, a evidência mais conclusiva, é a evidenciada no testemunho de Pedro em Pentecostes. É claro que Pedro estava a operar sob a "grande comissão" nessa altura.

     É claro que ele também podia interpretar melhor a comissão do que nós. O Senhor já lhes havia aberto "o entendimento para compreenderem as Escrituras" (Lucas 24:45). Com os olhos assim abertos, os apóstolos aprenderam as instruções especiais de Cristo durante quarenta dias antes da Sua ascensão (Atos 1: 3). E para encimar tudo, lemos que "todos foram cheios do Espírito Santo" (Atos 2:4).

     Certamente que sob tais condições, Pedro não poderia interpretar mal a sua comissão. Os termos estabelecidos em Marcos 16:16 são omitidos da sua oferta de salvação? Ele altera ou minimiza algo? Na realidade, não! Ele enfatiza-os quando ele diz aos seus ouvintes compungidos: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo" (Atos 2:38).

     Certamente que Pedro, cheio do Espírito, ensinado durante quarenta dias por Cristo, com o entendimento aberto para o plano revelado de Deus, não exigiria o batismo na água para a remissão de pecados se ele não tivesse sido instruído para tal. Aqueles que têm procurado eliminar o registo de Marcos da comissão dada aos onze (mais tarde doze) têm que encarar este facto adicional. É triste dizer que alguns também deturpam estas palavras de Pedro ao substituírem com reticências ou um "etc.", as palavras "para perdão dos pecados".

     Pedro também interpretou corretamente o resto da comissão de Marcos, que diz "E estes sinais seguirão aos que crerem", pois ele prometeu "o dom do Espírito Santo" (o poder milagroso) que se seguiria ao arrependimento e ao batismo. A menos que os Fundamentalistas estejam prontos a interpretar e a proclamar a mensagem de Marcos 16: 15-18 como Pedro fez, eles devem reconhecer que devemos operar, não sob a chamada grande comissão dada aos onze, mas sob a comissão muito maior dada pelo Senhor ascendido a Paulo e a nós (2 Coríntios 5:14-21); comissão em que o batismo na água não tem qualquer lugar, mas em que é tema toda a suficiência de Cristo e a sua obra consumada.

- Cornelius R. Stam

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