Nós somos Hiper-dispensacionalistas?



Erros do dispensacionalismo



     Há muitos anos, H. A. Ironside publicou um folheto intitulado Manejando Mal a Palavra de Verdade no qual ele colocou Charles Baker e Cornelius R. Stam no mesmo saco que E. W. Bullinger. Desde então, fomos rotulados como tendo as mesmas visões extremas que Bullinger. Homens que nunca olharam para o que realmente ensinamos continuam a espalhar a calúnia iniciada por Ironside nos anos 30 do século passado. Além disso, é muito mais fácil rotular-nos como "hiper" e despachar-nos assim do que dar respostas com base nas Escrituras.

     Isto aconteceu, por exemplo, na edição de julho / agosto de 1999 da revista Uplook (publicada pelos chamados Irmãos). No seu artigo a respeito de Questões Sobre Dispensacionalismo, eles apresentaram uma excelente visão geral do dispensacionalismo. Na verdade, concordamos com a maioria do que foi escrito. Mas depois, um escritor teve que adicionar esta afirmação:

     Uma última palavra. Como todas as coisas boas, o estudo das dispensações pode ser adulterado. Há alguns cristãos que levam o dispensacionalismo a tal extremo que aceitam apenas as Epístolas Prisionais de Paulo como aplicáveis à igreja hoje. Como resultado, eles não aceitam o batismo ou a Ceia do Senhor, uma vez que ambos não são encontrados nas Epístolas Prisionais. Eles também ensinam que a mensagem do Evangelho de Pedro não era a mesma que a de Paulo ... Essas pessoas ocasionalmente chamadas de ultra-dispensacionalistas ou Bullingeritas (seguidores de um ensinador chamado E. W. Bullinger). A sua visão extrema do dispensacionalismo deve ser rejeitada." 1

      A este artigo seguiu-se o seguinte trecho do livro de Ironside: 2

     "O que é o Bullingerismo ou Ultra-dispensacionalismo? Este sistema foi defendido pela primeira vez há alguns anos pelo Dr. E. W. Bullinger (1837-1913), que foi formado no King's College de Londres e era clérigo na Igreja da Inglaterra. Tais pontos de vista têm sido amplamente divulgados através das notas da Companion Bible que ele editou. As posições do Dr. Bullinger são gritantemente opostas ao que é geralmente aceite como ensino ortodoxo. Este movimento tem sido veiculado nos nossos dias por defensores inflamados como Cornelius Stam, J. C. O'Hair e Charles Baker. [Ênfase minha]

     "Há uma série de doutrinas que se destacam no Ultra-dispensacionalismo. Primeiramente, insiste-se que os quatro Evangelhos são inteiramente judaicos e não têm nenhuma mensagem real para a igreja. Em segundo lugar, é defendido que no livro dos Atos não temos a Igreja, o Corpo de Cristo, mas que a palavra ekklesia (igreja), como é usada nesse livro, refere-se a uma Igreja completamente diferente da referida nas Epístolas Prisionais de Paulo. Em terceiro lugar, disputa-se que Paulo não recebeu a sua revelação especial do mistério do Corpo antes da sua prisão em Roma, e que só as suas Epístolas Prisionais revelam esta verdade e são, estritamente falando, a única parte das Sagradas Escrituras dadas aos Membros do Seu Corpo. Todas as outras epístolas de Paulo são relegadas para uma dispensação anterior e eram para instrução da chamada Igreja Judaica daquele tempo. Em quarto lugar, as ordenanças cristãs, tendo sido dadas antes de Paulo, supõe-se que não têm nenhuma verdadeira relação com a economia atual, e, portanto, são relegadas para o passado, podendo vir a ter de novo lugar na futura Grande Tribulação.

     "Além destes pontos, há muitas outras coisas antibíblicas que são defendidas por Bullinger. Muitos defendem aguerridamente o sono da alma entre a morte e a ressurreição, a aniquilação dos ímpios, a salvação universal de todos os homens e demónios, a negação da Filiação eterna do Senhor Jesus Cristo e a negação da personalidade do Espírito Santo. Todas estas doutrinas maléficas encontram solo favorável no Bullingerismo ou no Ultra-dispensacionalismo".

     “Espere aí …!” Estará a pensar, “Eu não acredito nessas coisas!” Bem, nem eu, mas é essa a sua tática. Como a maioria das pessoas que creem que a Igreja, o Corpo de Cristo, começou em Atos 2, nós discordamos dos pontos de vista de Bullinger sobre o sono da alma, a aniquilação do ímpio, o universalismo e que o Corpo de Cristo não começou antes de Atos 28. Em suma, ou se acredita na sua interpretação de dispensacionalismo ou se é um extremista como Bullinger. Eles não reconhecem qualquer meio termo. E é a isto que nos opomos.

     Na citação acima, Ironside lista algumas das "doutrinas que se destacam" a que ele chama de "ultra-dispensacionalismo". Apesar de conveniente, este rótulo não aborda biblicamente as questões. Examinemos o que Ironside disse (e todos parecem repetir) e vejamos se concordamos ou não.

     “Primeiramente, insiste-se que os quatro Evangelhos são inteiramente judaicos e não têm nenhuma mensagem real para a igreja”: Nós não cremos que os quatro Evangelhos não tenham uma mensagem real para a igreja - Paulo diz que TODA a Escritura é proveitosa. No entanto, cremos (porque defendemos uma interpretação histórica literal da Bíblia) que o ministério terreno de Cristo estava em harmonia com o programa profético do reino de Israel (Mt 10: 5-6; 15:24). É claro que encontramos aplicações nos Evangelhos, mas dizer que a mensagem básica dos Evangelhos é dirigida ao Corpo de Cristo é não ser consistente nem literal. Como Scofield diz na sua Bíblia Anotada, "As Epístolas do Apóstolo Paulo têm um caráter muito distinto ... Só através de Paulo sabemos que a igreja não é uma organização, mas um organismo, o Corpo de Cristo; animado pela Sua vida, e dotado de um caráter celestial por vocação, promessa e destino. Só por ele conhecemos a natureza, o propósito e a forma de organização das igrejas locais e a conduta correta dessas reuniões. Só por ele sabemos que "nem todos dormiremos", que "os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro", e que os santos vivos serão "transformados" e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares na Sua vinda. E a Paulo também foi confiada a revelação das doutrinas da graça ... Paulo, convertido pelo ministério pessoal do Senhor na glória, é distintamente testemunha de um Cristo glorificado, Cabeça sobre todas as coisas para a igreja que é o Seu Corpo, como os Onze foram para Cristo na carne" [Nota: Edição original de 1909]. E se, de acordo com o dispensacionalismo tradicional, o Corpo de Cristo começou em Pentecostes, como é que pode ser encontrado retroativamente nos Evangelhos? A mensagem que Pedro pregou em Pentecostes foi uma oferta do reino milenar a Israel (Atos 2:22) condicionada ao seu arrependimento e reconhecimento de Jesus como seu Messias - algo que agora sabemos que só acontecerá depois da tribulação.

     “Em segundo lugar, é defendido que no livro dos Atos não temos a Igreja, o Corpo de Cristo, mas que a palavra ekklesia (igreja), como é usada nesse livro, refere-se a uma Igreja completamente diferente da referida nas Epístolas Prisionais de Paulo”: Pensaria que pelo menos eles compreendessem isto! Quanto à assembleia no livro dos Atos, nós temos ambas as "igrejas" mencionadas, dependendo do contexto. Se vê o Corpo de Cristo nos Evangelhos, está mais próximo de uma posição aliancista do que dispensacional. Se o Corpo é encontrado nos Evangelhos, então para ser consistente, também tem que ser encontrado igualmente no programa profético do Velho Testamento. Foi Bullinger (com quem nós não concordamos) quem disse que o Corpo de Cristo não começou antes do fim do livro dos Atos e que apenas as epístolas prisionais de Paulo são para nós hoje.

     “Em terceiro lugar, disputa-se que Paulo não recebeu a sua revelação especial do mistério do Corpo antes da sua prisão em Roma, e que só as suas Epístolas Prisionais revelam esta verdade e são, estritamente falando, a única parte das Sagradas Escrituras dadas aos Membros do Seu Corpo”: Nós também não estamos de acordo com Bullinger sobre este ponto. Nós dizemos que Paulo recebeu uma revelação especial (Gálatas 1:11-12), mas não concordamos que apenas as suas epístolas prisionais são aplicáveis a nós hoje. Paulo começou a receber a sua revelação especial do mistério imediatamente após a sua conversão em Atos 9.

     “Em quarto lugar, as ordenanças cristãs, tendo sido dadas antes de Paulo, supõe-se que não têm nenhuma verdadeira relação com a economia atual, e, portanto, são relegadas para o passado, podendo vir a ter de novo lugar na futura Grande Tribulação”: Em relação às "ordenanças" da igreja, não há nenhum lugar nas Escrituras em que o batismo na água e a ceia do Senhor estejam ligados. A Ceia do Senhor é um memorial que somos instruídos em I Coríntios 11 a observar "até que Ele venha". Contudo, entendemos que o batismo na água é uma ordenança judaica e é algo que foi abolido durante o período de transição. Também é raramente salientado que nós não somos únicos a entender que o batismo na água não é para hoje. Outros grupos ao longo da história da igreja, como os Quakers (denominados Quacres em português), também chegaram a esta mesma conclusão.

     “Muitos defendem aguerridamente o sono da alma entre a morte e a ressurreição, a aniquilação dos ímpios, a salvação universal de todos os homens e demónios, a negação da Filiação eterna do Senhor Jesus Cristo e a negação da personalidade do Espírito Santo. Todas estas doutrinas maléficas encontram solo favorável no Bullingerismo ou no Ultra-dispensacionalismo”: Este é o pior tipo de culpa por associação, mas tenho certeza de que verá a implicação. Se acredita que a igreja começou no meio dos Atos, então, de acordo com eles, também acredita igualmente nesses pontos de vista extremos e não-bíblicos. Ao associarem-nos a essas crenças de seita, nós podemos ser desacreditados sem que alguma vez tenham que responder aos nossos argumentos bíblicos.

     É contra isso que nós estamos. Estas são as mesmas batalhas, mal-entendidos e falsas declarações que Cornelius R, Stam teve que combater durante mais de 60 anos - e nós devemos continuar a fazê-lo hoje se quisermos que o Evangelho da graça de Deus continue a avançar.

     No entanto, em vez de nos desencorajar, estas coisas devem nos motivar. Nós sabemos o que temos encontrado. Sabemos quão confusos estávamos. Podemos dizer honestamente que esta é uma abordagem literal às Escrituras mais consistente. Não precisamos mais de forçar o que a Bíblia diz claramente em versículos como Atos 2:38. Sabemos que lendo o Corpo de Cristo nos Evangelhos, roubamos-lhes o seu caráter peculiar do reino. Ao não entendermos a diferença, ou nós temos de fazer com que as declarações claras dos Evangelhos (como a distinção entre judeus e gentios e o batismo na água) se conformem às epístolas de Paulo (onde ele diz que não há diferença entre judeu e grego e que ele é O apóstolo dos gentios), forçando-as, ou temos de ler os Evangelhos nas epístolas de Paulo e torná-las conformes à mensagem dos Evangelhos (que é o que John MacArthur tem feito com a "Salvação do Senhorio").

     Nós não somos os radicais desesperados que os media teológicos nos tentam rotular. Nós estamos de acordo com a esmagadora maioria do dispensacionalismo tradicional. Os nossos dois principais pontos de discórdia são nós vermos o Corpo de Cristo começar com a conversão e chamada do Apóstolo Paulo e o batismo na água não ser uma exigência para esta dispensação.

     Mantenhamo-nos firmes na proclamação da mensagem única, revelada ao Apóstolo Paulo e por seu intermédio. É como contar aos outros sobre a nossa fé em Cristo. Nós sabemos o que ela tem feito por nós. Nós sabemos como ela dissipou a nossa confusão. Comuniquemos graciosa e ousadamente o que esta mensagem tem feito por nós.

__________________________
Notas:

1. William MacDonald, “Distinguindo Coisas Que Diferem,” Up-look, Julho/Agosto 1999, pp. 11-12.
2. Manejando Mal a Palavra da Verdade, H. A. Ironside, Loizeaux Brothers, New York, 1938.

- David M. Havard

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