O Perigo de Uma Igreja Sem Lágrimas
Milhares e milhares de almas diariamente,
Passam à eternidade, uma a uma,
Imersas em culpa e trevas sem Cristo.
O que é que vais dizer, ó Igreja de Cristo,
Quando chegar o terrível dia do juízo,
E fores acusada da sua condenação?
Parte indispensável do evangelismo eficaz é aquele impulso espiritual a que chamamos “peso”. É a sensibilidade da alma para com os perdidos, uma atitude de quebrantamento, um coração despedaçado pelo destino dos impenitentes.
Há uma grande necessidade de um avivamento de lágrimas na Igreja. Quando sentirmos um peso suficientemente profundo pelos homens e mulheres perdidos a ponto de nos fazer chorar pelo seu estado, começaremos a vê-los vir a Jesus. Jeremias expressou um sentimento semelhante nesta passagem conhecida: “Ah, se a minha cabeça fosse uma fonte de água e os meus olhos um manancial de lágrimas, eu choraria noite e dia pelos mortos do meu povo!” (Jr 9.1).
À luz da alegria que há em Jesus, estas afirmações podem parecer surpreendentes. A Bíblia diz-nos que: “A alegria do Senhor é a nossa força” (Ne 8.10). A canção dos anjos foi: “Eis que vos trago novas de grande alegria” (Lc 2.10). “E houve grande alegria naquela cidade” é o registo das emoções que resultaram do grande avivamento em Samaria (At 8.8).
Porque é que, então, a igreja precisa de um “avivamento de lágrimas”? Qual a razão da oração patética de Jeremias? As lágrimas precedem sempre a alegria, e são seu pré-requisito. O peso vem antes da bênção. As lágrimas antecipam o triunfo. Os gemidos vão adiante da glória. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5).
Ministério Sem Lágrimas
Uma dos principais causas de termos igrejas estéreis e congregações sem alegria é o facto de termos ministério sem lágrimas. (Pode até haver contentamento e frivolidade e não haver a verdadeira alegria celestial.) Quando Sião sofreu as dores de parto, logo deu à luz seus filhos (Is 66.8). Paulo serviu a Deus com muitas lágrimas a fim de que Cristo fosse formado em multidões de vidas humanas. Enquanto não experimentarmos um surto de tristeza santa pelas almas, o nosso esforço para trazer o verdadeiro avivamento será vão. Já tentámos muitas coisas boas; temo-nos desgastado para melhorar a nossa organização e para produzir zelo sacrificial; mas ainda não vimos a manifestação do poder do Espírito Santo que tanto desejamos. Precisamos de lágrimas!
Quando Neemias recebeu a ordem de Deus para reconstruir os muros da cidade santa, ele testificou: “Tendo eu ouvido estas palavras... assentei-me e chorei” (Ne 1.4). Porque chorou ele? Será que foi porque captou uma visão das ruas da cidade arruinada, cheias de cadáveres? Será que foi porque temia pela sua própria vida, constantemente ameaçada pelos inimigos? Não! Ele viu a terrível apostasia do povo de Deus – e deu-nos a chave do avivamento: “Assentei-me e chorei”.
Quando Alexander Maclaren foi convidado para ocupar o púlpito de uma grande igreja baptista em Manchester, Inglaterra, ele reuniu-se com os seus diáconos e disse: “Cavalheiros, precisamos de acertar uma coisa antes de eu assumir essa posição. Vocês querem a minha cabeça ou os meus pés? Vocês podem ter uma coisa ou outra, mas não podem ter ambas. Eu posso andar por aí fazendo isto ou aquilo e tomar chá, se é o que querem; mas não esperem que lhes traga algo que possa sacudir esta cidade”.
Deus não chama homens para o púlpito a fim de serem pau para toda obra, entregando recadinhos. Ele chama-os para se prostrarem com o rosto em terra diante da Sua presença. Os diáconos atrás referidos entenderam a mensagem; mas quem é que se prostra rosto em terra diante de Deus hoje em dia?
Paulo afirma que “noite e dia não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um!” (At 20.31). Ele declara noutro lugar que procurava preencher o que restava das aflições de Cristo (Cl 1.24). Admitiu até que aceitaria o inferno, se dessa maneira pudesse ganhar a sua nação de Israel para Deus. Moisés preferia antes ser riscado do livro de Deus do que ver Israel castigado e condenado.
Aquele que, com coração partido, chora com frequência, não apostatará. Aquele que derrama as suas lágrimas em oração e estudo bíblico nunca se tornará fanático. Aquele que sai, com o coração a sangrar, para semear a preciosa semente do Evangelho, tem a certeza de que colherá almas para Deus. Aquele que geme com agonia pelas almas dos outros dará à luz filhos espirituais.
Quem chora hoje?
Hudson Taylor, fundador da China Inland Mission (Missão no Interior da China), conta que quando era estudante universitário, ficou encarregado de cuidar de um homem com um pé gangrenado. Era sua obrigação fazer o curativo no pé do homem todos os dias. Ele soube logo que o seu paciente não era Cristão, e que não entrava numa igreja há mais de quarenta anos. O ódio dele pela religião era tão grande que se recusou a entrar na igreja por ocasião do enterro da esposa.
O jovem Hudson decidiu falar a esse homem a respeito da sua alma cada vez que o visitasse. O homem afrontava-o e não permitia que ele orasse. O estudante persistiu em apresentar-lhe Cristo até que um dia disse para si mesmo: “É inútil”, e levantou-se para sair do quarto.
Quando chegou à porta, Hudson voltou-se e viu o homem a olhar para ele como se dissesse: “Como assim, hoje vais-te embora sem me falares de Cristo?” Aí, o jovem irrompeu em lágrimas e, voltando para perto da cama, disse: “Quer o senhor queira, quer não, eu preciso de libertar a minha alma. Permita–me que ore consigo.” O homem consentiu, começou a chorar e converteu-se.
O testemunho de Hudson Taylor sobre essa experiência foi: “Deus quebrou o meu coração a fim de poder, por meu intermédio, quebrar o coração daquele homem ímpio”.
Peça ao Senhor que lhe dê um coração sensível, e que faça dos seus olhos uma fonte de lágrimas, a fim de poder, com a compaixão de Cristo, buscar os que estão perdidos e próximos da morte.



