A mensagem da reconciliação
No evangelismo moderno fala-se muito acerca da pregação do Evangelho, mas muito pouco Evangelho está a ser pregado. Muitos falam numa linguagem vaga acerca de Cristo – linguagem que omite completamente o que é chave. Muita da linguagem comum que hoje se usa para se “pregar o Evangelho” é, na melhor das hipóteses, confusa, e na pior das hipóteses herética. Decerto que este não é um campo em que se possa ser vago e impreciso. O evangelismo é como uma operação ao coração – exige total concentração; requer o máximo de precisão.
Hoje esta mensagem está a ser confundida com um evangelismo esquisito que pede ao homem que imagine o que deve fazer, sentir, experimentar ou render, a fim de encontrar paz com Deus. Quando acrescentamos algo à velha fórmula: “fé no sangue de Cristo,” perdemos tudo. Notemos como alguns apelos usados frequentemente, que procuram “apresentar o Evangelho” e ao mesmo tempo minorar “a ofensa da cruz”, estão destituídos de uma base adequada para a salvação:
“Dá o teu coração a Cristo” soa positivamente a romantismo. Mas nós não somos salvos por simplesmente cairmos de amores por Cristo. Nós somos salvos por crermos na Sua obra consumada no Calvário. E este apelo de forma alguma encoraja uma pessoa a descansar na suficiência da Sua obra como base para a aceitação de Deus.
Mais, a salvação não é a minha dádiva a Deus; é a Sua dádiva a mim: “um dom de Deus, não vem das obras para que ninguém se glorie” (Efé. 2:8,9; Rom. 6:23).
“Abandona e volta as costas aos teus pecados (isto é, arrepende-te)”. Este apelo é popular, contudo é uma declaração totalmente absurda!
Algum de nós deixou de pecar quando fomos salvos? Já deixámos mesmo? Certamente que não! A 1ª carta aos Coríntios só nos faculta amplas evidências de que o pecado continua um problema na vida de todo o crente, mesmo depois de ter sido justificado.
Porque é que, então, se há-de dizer aos descrentes para voltarem as costas aos seus pecados e abandonarem-nos a fim de encontrarem salvação em Jesus Cristo? Quanto melhor não é dizer-lhes que Deus os aceita precisamente como são, e que é Deus “que justifica o ímpio” (Rom. 4:5).
O abandono do pecado e a mudança do modo de vida tem claramente a ver com a conduta do crente depois da salvação. A ordem de Efésios 2:8-10 é clara e definida: primeiro somos salvos pela graça por meio da fé, totalmente à parte de qualquer mérito humano ou de obras; depois, como “feitura [ou, obra] Sua,” devemos andar nas “boas obras” que Ele criou para nós.
“Rende tudo a Cristo,” ou “Rende-te a Cristo,” também é costume ser dito. Não. Não. Foi Jesus Cristo que efectuou uma rendição plena quando rendeu a Sua vida no Calvário. É a Sua rendição que nos salva, não a nossa a Ele, seja de que forma for. Romanos 12:1 está escrito para crentes, não para descrentes.
“Faz de Jesus Cristo Senhor da Tua vida”. Isto também é obras para a salvação, pois esta é a obrigação do crente para com o seu Salvador depois de ser salvo. Há uma grande diferença entre reconhecê-Lo como Senhor (como em Rom. 10:9) e fazê-Lo Senhor da tua vida – por outras palavras, prometer obedecer-Lhe para o resto da vida. Primeiro Cristo deve ser Salvador das nossas almas, depois, então sim, Senhor das nossas vidas. Exortar o perdido para fazer de Jesus Cristo o seu “Salvador e Senhor” é misturar a salvação e o serviço e confundir coisas que diferem.
“Faz a tua decisão por Cristo” é um outro convite popular. Mas, mais uma vez, não é apresentada nenhuma base adequada para a salvação. Nós não podemos passar por cima do sangue derramado no Calvário e receber meramente Cristo (Heb. 9:22). Um convite que foque a pessoa de Cristo e ignore a Sua obra a nosso favor é perigoso.
“Já te entregaste a Cristo?” Isto também se ouve repetidas vezes quando são feitos apelos. Mas Deus não pede ao descrente que este Lhe faça qualquer entrega. Ele oferece a salvação como um DOM GRATUITO aos que confiam n’Aquele que morreu por eles.
Porquê tais termos?
Muitas outras frases atractivas de terminologia popular poderiam ser acrescentadas a esta pequena lista para ilustrar a falta de base adequada para que a fé repouse.
Vivemos dias de “manias” em que constantemente estamos sob a pressão e tentação de iludirmos a “ofensa da cruz” a fim de termos acesso a cada vez maiores audiências. Sem dúvida que esta é a principal razão porque o neo-evangelicalismo tem crescido nos nossos dias. É um sistema de compromisso que elimina principalmente os aspectos ofensivos da nossa mensagem para se conseguir atrair maiores audiências.
Certamente que “a ofensa da cruz” jaz no seu total desrespeito por todo o esforço e mérito humanos. Se compreendermos claramente a nossa miserável condição de perdidos, o horror da nossa inimizade contra Deus, a mais profunda raiz da nossa pecaminosidade, não acrescentaremos requisitos humanos ao Evangelho da graça de Deus.
Isto não é algo secundário, de somenos importância. As almas por quem Cristo morreu estão em jogo. Não há lugar para uma mistura de obras humanas; mas para o que Cristo fez por nós no Calvário.
É exactamente por isto que no meio da confusão teológica dos nossos dias, devemos ter o cuidado de manejar bem a Palavra da verdade a fim de conhecermos claramente e compreendermos plenamente a grande mensagem de Deus para hoje.
Nunca nos desviemos,nem para a direita nem para a esquerda, do modelo de mensagem que nos foi deixado. Façamos das cinco palavras benditas de 1 Coríntios 15:3 a nossa mensagem: “Cristo morreu pelos nossos pecados.” Cristo, no Calvário, sofreu totalmente a condenação dos nossos pecados – é esta a mensagem, a verdade para os perdidos crerem, a mensagem para os salvos tornarem conhecida e proclamarem ousadamente! A nossa mensagem ao mundo, como a de Paulo, deve ser “a pregação da cruz” (1 Coríntios 1:18).



