José Fontoura (1921 - 1996 )
José Fontoura foi, provavelmente, o pregador mais eloquente que, até hoje, ouvi pregar na língua de Camões. Foi um erudito, um verdadeiro autodidata que podia ombrear com qualquer catedrático.
As suas exposições bíblicas que fazia do Evangelho eram únicas, exímias. A bênção era tão grande que tínhamos por hábito gravar sempre em áudio as suas mensagens, a fim de reproduzi-las posteriormente em pequenos ajuntamentos que fazíamos com os nossos colegas de escola, isto, para além de trazermos muitos deles aos cultos para escutarem o som do Evangelho por seu intermédio.
A qualidade, a excelência da apresentação que fazia do Evangelho incendiava sempre em nós o desejo de que lhe fosse dada oportunidade de pregar nos grandes órgãos de comunicação social, como a Televisão. O orador era tão excelente, e tornava tão gloriosa a mensagem que anunciava que, no nosso entender, esta merecia uma audiência bem mais ampla.
José Fontoura foi também um mestre, um doutor das Escrituras. Era um estudioso profundo das mesmas. Os estudos da Palavra de Deus que fazia eram um deleite. Era um prazer, assistir aos estudos bíblicos que fazia e também conversar com ele em privado sobre as Escrituras. A bênção era tanta que chegámos a perguntar-lhe: “Porque é que o irmão não escreve sobre isso?” É que além de eloquente, erudito, culto e muito conhecedor das Escrituras, era um bom escritor. Foi pena que tivesse escrito tão pouco.
Nasceu aos catorze dias do mês de Novembro de 1921, no lugar do Palhal, freguesia da Branca, concelho de Albergaria-a-Velha, distrito de Aveiro e partiu para o Senhor, no leito da sua casa, em Cacia, no dia 29 de Dezembro de 1996.
Da história da sua vida tão cheia destacamos excertos da sua biografia surgida no Refrigério:
“Seguiu o catolicismo com sinceridade, até aos 17 anos de idade. Por, então, sofrer grandes desilusões desertou e embrenhou-se na obscuridade do ateísmo, até aos 20 anos. Procurou viver a sua juventude o mais intensamente que pôde, evitando, todavia, os caminhos da imoralidade, avisado pelas misérias físicas e morais que via. Aos poucos começou a temer o seu futuro temporal, por não descortinar o real sentido da vida. Mercê disso foram acudindo à sua mente os primeiros pensamentos de suicídio.
"Eram frequentes os encontros, casuais, e as "discussões" entre ele e um crente da mesma terra. O crente que nunca se dava por vencido, insistia em o convidar para ele ouvir o Evangelho quem lhe falasse melhor. E foi para se livrar daquele "maçador" que este jovem escutou o Evangelho numa igreja, sem o desejar.
“Teve início uma semana de conferências especiais, em Estarreja, no dia 11 de Setembro de 1942. Joaquim Silvério Vieira, de Lisboa, pregou sobre a ressurreição de Lázaro. A contenda do Espírito de Deus com o raciocínio do jovem ateu, na primeira metade da mensagem, foi tremenda e decisiva. Antes que o pregador terminasse, Fontoura estava reconciliado com Deus, pois havia recebido Cristo como Salvador e Senhor na sua vida. No outro dia já encorajado pelo Senhor, apresentou-se no ensaio de uma revista, porquanto o teatro de amadores era uma das suas grandes paixões. Apresentou-se, não para ensaiar e sim despedir. O espanto foi geral. Ninguém podia acreditar, por muitos motivos. Nessa mesma noite o novo crente experimentou a primeira prova da sua fé com perseguição. Nas noites seguintes voltou às conferências.
“Pouco passava de um mês, após a conversão, quando ele assentou praça no Exército. No fim da recruta, seguiu num corpo expedicionário para a Ilha Terceira - Açores. Estava em curso a Segunda Guerra Mundial. Não existia na ilha uma igreja evangélica e nenhum dos seus camaradas era crente. Para escapar à corrupção reinante entre os militares e o meio civil, o nosso irmão conduziu-se como um velho. Por causa do seu testemunho ele foi transferido da Secretaria do Comando para o Depósito de Abastecimentos do batalhão. Foi uma recompensa do Senhor. Desde então não houve mais roubos nas rações, os militares receberam boa alimentação e em quantidade, razão porque ele era mais respeitado do que alguns oficiais.
“Negociado o acordo secreto sobre o arrendamento dos Açores entre os Governos português e britânico, Fontoura regressou ao Continente e ao emprego.
“Os militares seus conterrâneos que tinham ido e retornaram antes do irmão Fontoura, ao saberem da sua conversão garantiram que ele se perderia naquele ambiente de tentações e voltaria "curado". Uma vez que isso não se confirmou, os sinais de maior endurecimento tornaram-se evidentes. Quando ele se cruzava com as pessoas e as cumprimentava, elas voltavam a cara para outro lado e cuspiam ruidosamente.
“Certo dia, à hora do almoço, no refeitório, estudava ele o Novo Testamento com mais dois crentes. Um amigo deles aproximou-se e avisou o irmão Fontoura acerca de um plano, urdido da parte da manhã, contra a sua vida. Referenciou os nomes dos três conjurados, que ele ouviu sem eles saberem. Era sexta-feira, dia de reunião. O nosso irmão fazia o trajecto para a igreja, de noite, através de uma zona arborizada e sem casas. Esperá-lo-iam aí, para o matar. Todos se compenetraram da gravidade do momento.
“O nosso irmão recusou a ideia de ficar em casa e não teve a veleidade de se arvorar em herói da fé. Ao longo da tarde admitiu a possibilidade de ir por outro caminho.
Mal chegou a casa, dirigiu-se ao calendário, porque na manhã daquele dia não tinha podido ler a folhinha. "Não temas as coisas que hás-de padecer ... Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida". - Apc.2:10. Era a palavra que lhe faltava. Foi, sem trocar caminho. A eternidade revelará o que levou estes inimigos a desistirem dos seus sinistros intentos. Os anos passaram, e hoje o seu nome é recordado e respeitado pelas gentes da sua terra.
“A sua alma assemelhava-se a uma esponja enxuta, sedenta de um maior conhecimento do Senhor e dos valores espirituais eternos. O irmão Sobral, que o tinha ajudado muito no período da sua ausência nos Açores com as suas cartas, iniciou uma pequena escola bíblica para futuros pregadores, no Palhal. Resultou desse esforço que depressa este irmão começasse a visitar as igrejas, numa área cada vez mais dilatada, e expusesse a Palavra que ia recebendo da parte de Deus. Ao mesmo tempo, irmãos e igrejas, cá e no estrangeiro, oravam pela sua consagração à Obra, se o Senhor lhe mostrasse ser essa a Sua vontade. O primeiro sinal foi dado por uma irmã inglesa, que mandou um cheque, para lhe ser entregue no dia da sua eventual consagração. O dia chegou em Julho de 1945, na igreja que está no Palhal.
“O irmão Fontoura foi viver com a família Sobral, em Espinho. O seu ministério ia-se estendendo a distâncias cada vez maiores, consoante se confirmavam e desenvolviam os seus dons. Em Janeiro de 1949, casou com Lila Marques Pereira, filha de Manuel Marques Pereira, que foi o pregoeiro - sofredor do Baixo Vouga por muitos anos.
"O novo casal fixou residência em Cacia, onde permaneceram até à partida de ambos para a eternidade. Deus contemplou-o com dois filhos - Ruben e Normando. Ambos servem o Senhor, um nas horas livres e outro em tempo inteiro.
“Este irmão foi abrindo novos trabalhos e cooperando com o irmão Sobral e outros obreiros. Nesta já longa carreira tem-se visto confrontado com situações difíceis. Em S.João de Loure, freguesia rural de Albergaria-a-Velha, ele abriu um trabalho. As almas convertiam-se. Num Domingo terminada a missa, o padre saiu para a porta do templo e ordenou ao povo que expulsasse os protestantes, vivos ou mortos. "Podeis matá-los" - disse ele - "porque para eles não há lei que os proteja". Três vezes seguidas, em noites de reunião, o povo acorreu em massa com toda a sorte de alfaias agrícolas. Informadas, as forças da GNR de Albergaria acudiram prontamente. Mas o povo, incitado pelo padre, dispunha-se a um confronto com as Forças da Ordem. Salazar, a quem Fontoura telegrafou, comunicou ao Governo-Civil de Aveiro e este, por seu lado, ordenou a toda a GNR desde Coimbra até Albergaria, que interviesse em força, se a ordem não fosse imediatamente restabelecida. Salazar também escreveu ao irmão Fontoura para o tranquilizar. O povo deixou de se amotinar, é certo, mas o ódio ficou-lhe no coração. No decorrer desta grave crise, Deus praticou milagres bem dignos de uma descrição detalhada. Os cabecilhas foram julgados, mas Fontoura perdoou.
“À medida que os filhos iam medrando cresciam as preocupações do nosso irmão pelo futuro espiritual deles. .... O Senhor atendeu a sua preocupação e ele iniciou reuniões de jovens, juntamente com sua mulher, nas igrejas sob sua responsabilidade. Desde então muitos jovens têm sido salvos nestas reuniões.
“Deus tinha reservado outra missão para o Seu servo, que ele nunca previra, também na área da juventude. Em 09 de Agosto de 1971, chegou ao Palhal, acompanhado por D.Lila, os filhos e um pequeno grupo de jovens. Improvisaram o primeiro Acampamento, com extrema pobreza e sem nenhum plano.
“O plano na verdade, existia, mas nas mãos de Deus. Estes Acampamentos, feitos num pedaço de paraíso, continuaram a ser dirigidos pelo Irmão José Fontoura até ao ano da sua partida ...”



