A fé dos quais imitai (II)

Os salvacionistas da ilha do diabo

     Seria impossível encontrar obreiros mais dedicados ao trabalho nas prisões do que o grupo de homens do Exército de Salvação Francês, dirigido por Charles Péan, que pregam o Evangelho da redenção na colónia penal da Guiana Francesa.

A Ilha do Diabo, que pertence afinal a um minúsculo arquipélago de ilhotas a dez milhas de distância da costa sul-americana, e rodeada por um mar perpetuamente agitado, infestado de tubarões. Ouvimos falar muito nessa ilha no começo deste século, pois foi aí que o capitão Dreyfus esteve muito tempo encarcerado. É uma ilha de demónios sob forma humana, com a cabeça rapada e vestidos de pijama vermelho e branco. Há seis mil demónios desses, enjaulados e vigiados por trezentos guardas. O sol torna-os nervosos e irritáveis; a humidade e as noites quentes originam fraqueza e neurastenia. É o antípoda dos terríveis acampamentos prisionais russos no frio implacável do Árctico. «É uma comunidade», diz M. Péan. «que exala um cheiro sufocante de podridão». Estes homens têm desprezo de si próprios, odeiam-se a si próprios, não se podem suportar a si próprios. Têm pouco que fazer. O clima não estimula ao trabalho. São impotentes para fugir à tirania dos vícios contrários à natureza que os obcecam.

     À noite jogam à batota de faca na mão, sob a protecção dos guardas. Se não fossem estes, roubar-se-iam e matar-se-iam uns aos outros. A sua lâmpada de casino é uma lata velha de sardinhas, com azeite dentro e um farrapo de trapo a servir de torcida.

     A bebida é a causa inicial da queda da maioria. «Porque o fizeste?» [assassinar], «M'sieu, j’étais saoul» [estava bêbado, senhor]. Fora a um café e levantara uma desordem sanguinolenta por causa do jogo; resultado, quinze anos na colónia penal. São também alcoólicos hereditários, M. Péan verificou numa secção que oitenta por cento eram filhos de alcoólicos ou sifilíticos. E assim são condenados a prisão perpétua por causa das vidas de embriaguez dos seus pais. Muitas vezes vivem acabrunhados por um sentimento de injustiça social que os oprime. Sentem-se predestinados para o mal. A própria colónia é uma perfeita fábrica de desmoralização para os que nela ingressam relativamente decentes. O inferno, eis o epíteto mais apropriado para a descrever, com o seu eterno fogo de vício, de remorso e de impenitência.

     Quando termina a pena, muitos, talvez a maioria, têm de viver na Guiana como presos libertos. Estes «libérés» estão perdidos, sem força de vontade. Ninguém quer nada com eles por causa dos seus vícios,. indolência e instabilidade. Roubam ou andam a pedir para viver. Se não recebem nada, cuidado! É fácil partir-se o vidro duma janela ou incendiar-se uma loja.

     Em 1933, o Exército de Salvação Francês mandou alguns dos seus oficiais a explorar o terreno. Quantos pensariam em descer a este inferno para erguer os homens até Cristo e à luz do dia? As dificuldades, pondo de parte as de ordem moral, eram inúmeras — chuvas torrenciais, sarças que se multiplicam interminavelmente, insectos. Um desses oficiais conta de enormes aranhas, do tamanho de um ovo, que espalham pequenos aranhiços pelos quartos; de sobrados negros de formigas que devoram as aranhas; de uma dolorosa erupção cutânea ocasionada pelo pó que reveste as asas de certas borboletas. Os salvacionistas não são derrotistas. Adquiriram uma propriedade abandonada chamada Montjoly, reuniram um grupo de ex-presidiários e desbravaram o terreno com foices e machados.

     Os homens interessaram-se. Ficaram atónitos ao verem que os oficiais trabalhavam ao lado deles, comiam com eles e dormiam com eles em redes. Algumas semanas depois, o lugar estava irreconhecível. Havia um esplêndido jardim, um chiqueiro para suínos, uma galinheira; também uma pescaria na praia, uma represa natural que retém o peixe, que é apanhado quando desce a maré.

     Para dirigir e ensinar os ex-presidiários a cantar havia discos com hinos evangélicos. Fizeram-se conversões, «Passei uma semana esplêndida», relata um, «A minha conduta comprovará a realidade da minha conversão». A bebida é a grande pedra de tropeço. Traz-se rum a ocultas; para o obter, muitos dão as suas roupas. «Onze vezes perdoámos a Marcel a sua embriaguez; é bom operário, mas escravo deste vício terrível». Falando de outros pobres corrompidos que dão os primeiros passos na vida cristã e escorregam de novo para o vício do álcool, o oficial diz:

     —«Sem o amor de Deus seria impossível amar homens assim. Estremeço quando deixo os meus pensamentos volverem-se para este lugar infecto». Mas pedem ao tenente que não os abandone.

     O tenente descreve uma reunião:

     —«Criminosos com o cabelo rapado, peito nu, mangas arregaçadas deixando ver os braços tatuados. Um traz um quadro minúsculo, admiravelmente bem feito, da mulher e do filho, em dois medalhões. Outros, têm dizeres como «Filho das Dores», ou «Ai, minha mãe! Se visses agora o teu filho!» Ouvem em silêncio, de rosto impassível. O oficial lê o versículo: Fez-me uma parede em roda, «a parede que vos cerca e vos oprime não é a de qualquer casa ou acampamento. É a vossa própria carne que vos abrasa e vos mantém cativos».

     O primeiro recruta do Exército foi feito nesta colónia. Heron era um desordeiro que calcorreava as ruas do Havre. Entrou por acaso numa reunião. O juvenil tenente, quando encarou aquele rosto embrutecido, sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. No fim da reunião viu-o ajoelhar-se à frente, soluçando. «Sou um grande pecador», dizia. No dia seguinte foi com ele às autoridades. Confessou um crime que cometera e foi deportado por toda a vida para a Guiana. Doze anos depois foi perdoado e ingressou no Exército de Salvação, sendo o seu primeiro soldado na Guiana Francesa, Sabem o que ele disse? Ouvi, vós que credes na «bondade natural do homem»: «Oxalá eu tivesse conhecido o Filho do homem, que me salvaria, antes de conhecer os filhos dos homens, que me perderam».

     Os oficiais salvacionistas visitam os presos incomunicáveis. Ao saírem de uma reunião, onde o De Profundis (Salmo 130), gravado num disco, servira de texto, passaram por uma carroça onde se encontrava um cadáver coberto de sangue. Seguiam-no dois assassinos algemados; um guarda fechava o préstito. O pensamento de muitos voa para lares arruinados pelo seu pecado, para crianças reduzidas a uma vida de vergonha. Seis soluçam nos assentos. Muitos destes penitentes apresentam uma notável transformação no seu comportamento e uma delicadeza de sentimentos extraordinária em bagnards. Depois de uma reunião, M. Péan ouviu, através o tabique, a seguinte discussão:

     — «Se vocês soubessem como se é feliz quando nos convertemos ...

     — «Então que sentes?»

     — «Não posso explicar. É como se tivéssemos feito mal a alguém e lhe fôssemos pedir perdão. Sentimo-nos felizes».

     — «Sabem», continuou o mesmo, «que estes fulanos do Exército destroem o nosso passado, asseguram-nos o presente e preparam-nos um futuro?»

     — «Já repararam que o tenente nunca se zanga?», acrescentou outro.

     — «E não esperam que alguém nos levante!», interpolou um outro ainda. «Descem até nós. Baixam-se a viver connosco e a ajudar-nos».

     — «Além disso, deixaram a França e os seus queridos por nossa causa. Ouviram-no dizer no domingo que a sua filhita de três anos faz oração por nós? E a mulher—acham que é agradável para ela?»

     — «Se nos desejavam ajudar podiam mandar-nos só dinheiro, mas vieram e deixaram tudo!»

     — «Ó Paulo, é o mesmo que veio em 1928?» (Referia-se à primeira viagem do tenente, para inspeccionar o presídio).

     — «É, sim, é o mesmo homem. Viu tudo, foi a toda a parte.»

     «E mesmo assim, depois de ver tudo, ainda voltou! Não preciso de ir às reuniões; basta-me pensar que eles deixaram tudo para vir aqui.» Em menos de dois anos, estes dois salvacionistas restabeleceram o seu trabalho em bases razoavelmente firmes. O restaurante, Maison de France, imprime senhas para refeições. Os comerciantes compram-nas para as dar aos presos libertos que andam a pedir.

     Este processo evita que o dinheiro se desvie para o taberneiro, pois esta comuna de St. Laurent é em grande parte mantida pelos quinhentos mil francos de rum que se vendem anualmente a estes miseráveis.

     Em St, Laurent, os salvacionistas abriram um centro com alojamentos para passar a noite, sala de descanso e uma oficina de carpintaria.

     Tem havido conversões notáveis com muitos corações transformados. M. Péan foi recentemente chamado para a França, Dirigiu-se a Montjoly para se despedir dos presos que se tinham dedicado à agricultura. Quando se ia embora, reparou que cinco, dez, vinte ex-presidiários se aproximavam dele.

     «Que me quererão eles?, pensei com os meus botões. Um do grupo deu um passo em frente. Fora criado nas ruas, sofrera uma prisão aos doze anos, ingressou mais tarde na Legião Africana onde, num acesso de embriaguez, matou um camarada, sendo deportado para a ilha do Diabo durante vinte anos. (M. Péan interrompe-se para dizer: Senhores distiladores de álcool: contemplai uma vítima da vossa indústria!) A mão dele tremia ao ler um pequeno discurso redigido pelos colegas. Enquanto o escutava, M. Péan observava aqueles trinta ex-presidiários, todos eles trabalhando na fazenda, com os rostos sulcados pela disenteria, os olhos brilhando de malária e de emoção. Aqui e além um deles limpava furtivamente uma lágrima.

     — «Tenho um pedido a fazer», balbuciou François quando acabou. «Antes de partir, desejo pedir-lhe, em nome dos meus camaradas e no meu próprio nome, licença para o abraçar».

     Péan prossegue: «Lançou-se nos meus braços e desatou a chorar. Pobre homem! Jamais soubera o que é afeição, Depois continuou: — Sou muito mau, como vê, para me atrever a orar ao bom Deus, mas pedimos ao nosso tenente do Exército de Salvação aqui que o faça por nós para que tenha boa viagem!»

     «E vi então trinta homens caírem de joelhos na floresta enquanto o oficial pedia a Deus bom sucesso para a minha travessia.» 

Ernest Gordon
The Moody Press

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