A fé dos quais imitai (I)

O DR. FREDERICK W. BAEDEKER

     O nome Baedeker evoca à nossa mente os manuais de capa vermelha que são o companheiro indispensável do turista na Europa. Mas existiu um outro Baedeker que foi também um guia para as regiões celestes e um caminheiro infatigável neste mundo. Foi o dr. Fre-derick W. Baedeker, evangelista pioneiro e colportor no império russo e no Próximo Oriente.

O pai era um cientista desinteressado do cristianismo. Baedeker alistou-se no exército prussiano, mas a saúde não lhe permitiu seguir a carreira das armas, Estudou depois pelas universidades, formando-se em Bonn. Seguiram-se viagens, lições na Austrália e em Inglaterra, e, finalmente, a conversão numa das reuniões dirigidas por Lord Radstock. «Entrei um orgulhoso ateu alemão; saí um humilde e confiante discípulo do Senhor. Deus seja louvado!»

A sua conversão coincidiu com uma cura maravilhosa; ele que, durante anos, tivera uma saúde precária, mal se atrevendo a passear com a mulher por causa do seu coração fraco, considerado por toda a família um candidato à morte, atirou os remédios por ares e ventos, esqueceu os achaques e renovou as forças no serviço para Cristo, que, durante quarenta. anos, nenhuma doença séria interrompeu. Confiou que o Senhor lhe daria tanto as forças físicas como as espirituais. No seu leito de morte, preocupava-o muito mais o estado espiritual da pessoa que o servia do que as suas próprias circunstâncias físicas. Morreu com oitenta e três anos, mas, mesmo assim, nos últimos dias da sua existência, visitou o continente em missões de evangelização. Se alguma vez houve um internacionalista foi o dr. Baedeker, Encontramo-lo pregando no salão espaçoso de um castelo austríaco; em Smirna, entre multidões de gregos, judeus e turcos; falando aos estudantes das universidades russas e finlandesas; ou aos socialistas revoltados de Munique e Zurique.

Em 1877 saiu de. Inglaterra para se dedicar durante três anos à pregação e distribuição da Bíblia na Rússia. Por um feliz acidente, conseguiu obter privilégios especiais e, durante dezoito meses, foi a única pessoa que usufruiu o direito de visitar as prisões da Rússia— todas elas — desde Varsóvia a Saghalien. A autorização era renovada de dois em dois anos, usualmente com privilégios um tanto mais extensos. Quando o governo soube que era ele quem pagava as despesas de viagem, reduziu os preços das passagens de comboio e o frete dos transportes de Bíblias, Na realidade, foi o dr. Baedeker quem desbravou o terreno para os colportores na Rússia, Como ilustração das contradições da vida russa, podemos acrescentar que era constantemente espiado nas ruas, hotéis e reuniões.

O dr. Baedeker trabalhou de início com o coronel Pashkoff, fidalgo endinheirado e oficial da Guarda Imperial, que acabou por ser banido da Rússia por pregar o Evangelho. Certa ocasião, Baedeker foi convidado a pregar, numa convenção de estundistas1 organizada em S, Petersburgo pelo coronel Pashkoff que alugou um grande hotel para os alojar durante uma semana.

O equipamento de viagem destes crentes dedicados resumia-se num pente e numa colher; tanto uma como outra coisa guardavam-na dentro das botas. Houve uma assistência de quatrocentos, seguindo-se reuniões esplêndidas. Alguns dias depois, Pashkoff dirigisse à sala onde se celebravam as reuniões (era no palácio da Princesa Lieven), mas, após longa espera, não apareceu ninguém. O hotel, como verificou também, estava vazio. Todavia, no dia seguinte apareceu um dos estundistas explicando que os quatrocentos convencionistas haviam sido todos presos e levados para a fortaleza de Peter-Paul, onde os interrogaram. Eram acusados de ideias revolucionárias; esclareceram que a única revolução que empreendiam era nos corações dos homens. As autoridades então muniram-nos de bilhetes e despacharam-nos de comboio para suas casas. Um deles, porém, teve a presença de espírito de levar o bilhete a uma estação próxima, podendo assim voltar para dar uma satisfação, Baedeker foi um dos maiores distribuidores de todos os tempos da Palavra de Deus. As longas viagens de John Wesley eram, em distância, meros passeios provincianos comparadas com as vastas peregrinações evangélicas do dr. Baedeker, «Um semeador saiu a semear». No seu diário tropeçamos constantemente com passagens deste género; «Despachei dezassete caixotes com Bíblias por terra, e outros quatro por mar». As numerosas e apinhadas prisões da Rússia despertavam-lhe um interesse muito especial, «Pouca gente faz uma ideia da grande multidão de pessoas que, em vários países, são enjauladas e manietadas como animais selvagens». Viajava, sempre desarmado, mesmo na Sibéria oriental, de população escassa, onde os viajantes se viam sujeitos a muitos perigos e dificuldades. O que sempre o ameaçou mais foi a doença e, no entanto, circulou incólume pelos hospitais a abarrotar de doentes, cujo ar era infestado pelo bafo fétido dos males mais perigosos. Abrigou-se à sombra do Salmo noventa e um.

Fala do mau cheiro, dos parasitas, da brutalidade que presenciou nas prisões, como, por exemplo, na de Tobolsk, que era indescritível, O médico-chefe tivera o tifo dezasseis vezes no espaço de treze anos.

A tuberculose e a varíola eram vulgares, «Tenho feito boas colheitas nas negras torrentes das prisões», escreveu uma vez. Mas eram almas que ele apanhava, não doenças.

Os piores presos eram os provenientes da grande ilha oriental asiática de Saghalien, marcados a fogo na testa e no rosto, com a cabeça semi-rapada e carregados de cadeias. Evangelizou estes criminosos, pregando a grupos de vinte, reunidos numa cela. enquanto as cadeias ressoavam incessantemente. Em Kitcheneff, visitou os cárceres subterrâneos, húmidos, frios e minados de parasitas. Na prisão de Kabarowka descobriu um crente, que já ali estava havia dois anos e meio, cuja única ofensa fora a de falar contra as imagens.

O dr. Baedeker procurava os encarcerados naquelas masmorras sombrias, aliviando-os das cadeias que os manietavam e untando-os com azeite e vinho. Menciona dois crentes que, quando os prenderam, foram despojados das suas roupas. O carcereiro apontou-lhes uma pilha de roupa velha da prisão, imunda de suor, infestada de piolhos, donde se exalava um fedor insuportável; tiveram que a vestir. Uma idosa crente evangélica a quem Baedeker encontrou, estivera encarcerada em onze prisões! Alguns eram condenados a prisão perpétua por se recusarem a aceitar a absolvição dos sacerdotes ortodoxos. Outros, ao acabarem de cumprir a pena de cinco anos exprimiam o seu regozijo por irem ser postos em liberdade; recebiam ordem para ficar mais cinco anos «por parecer que os primeiros cincos anos de internamento os não haviam mudado muito».   

Baedeker viajou centenas de quilómetros nas florestas da Sibéria sem encontrar um rosto humano. Pão, chá e, de vez em quando, um ovo e algum leite, eram a sua dieta nestas jornadas. De um lugar remoto da Sibéria escreve: — «O tratamento desumano e o isolamento transformaram os pobres exilados em autênticos demónios. Disparam sem avisar contra qualquer pessoa cujo vestuário ou dinheiro cobicem. Dizem eles que «é mais vantajoso abater um civil do que um guarda. Se matamos o guarda, lucramos uns cobres, se matamos um civil, apanhamos-lhe a roupa».

O guarda disse ao dr. Baedeker que por duas vezes apontaram a espingarda para o matar. A sua
única resposta foi: —«Esta gente precisa imenso do Evangelho e vou-lho anunciar». E foi, realizando reuniões esplêndidas.

Uma outra ocasião, perdeu-se com o seu guia arménio nas florestas do Cáucaso, escapando por um triz. Teve ainda outras aventuras dignas de um Paulo de Tarso. Uma vez foi perseguido por um cão feroz, e caiu. O cão cheirou-o da cabeça aos pés e por fim afastou-se, não lhe fazendo mal algum. Este cão pertencia a uma raça conhecida pela sua ferocidade e era empregado para afugentar os estranhos de determinado terreno. Mesmo em cidades civilizadas, a sua vida corria perigo. Em Zurique, os livre-pensadores ameaçaram atirá-lo ao lago; em Dresden-Altstadt, ia perdendo a vida quando pregava. Em Basel, foi apedrejado quando falava nas ruas; em Gernsbach, a multidão perseguiu-o.

Por vezes, havia farta colheita de almas nas reuniões. No Cáucaso, o povo convertia-se às centenas a Cristo. Não raro, despertavam-no de noite, arrancavam-no mesmo ao leito de enfermidade, para pregar. Numa aldeia perto de Scbemacha, quando pedia aos assistentes que aceitavam Cristo como seu salvador para se porem de pé, a assistência levantou-se em peso, entreolhando-se espantada. Numa viagem dos Urais ao Pacífico, distribuiu doze mil exemplares da Palavra de Deus, pregando o Evangelho a mais de quarenta mil presos. Quando terminou esta tournée, desceu de barco o Amur, que separa a China da Rússia. «Durante quatro dias tive a China à mão direita e a Rússia à esquerda; orei muito por ambos estes países».

«Ontem tivemos trabalho pesado na grande prisão», escreveu certa vez, «Trabalhámos tanto tempo quanto pudemos; percorremos todos os cárceres, falámos com toda a gente e demos um livro a cada preso que sabia ler». Durante quinze anos labutou incessantemente na visitação das prisões. Só o trabalho de percorrer os corredores intermináveis, a tensão a que era sujeito o seu coração compassivo, as muitas conversações, tudo isto esgotaria alguém que não tivesse o alimento que os homens desconhecem. «Visitar as prisões e servir as pobres almas ainda algemadas pelo pecado e pelas trevas espirituais sabe-me, na realidade, melhor do que a comida dos anjos».

O Conde Tolstoi soube do ministério do dr. Baedeker nas prisões, que descreveu na sua novela «Ressurreição». Tolstoi, como ele próprio nos conta, teve uma juventude mundana, de devassidão inveterada, gastando o dinheiro no jogo. Seguiu-se uma mudança que, pelo menos, o tornou respeitável. Mas foi uma mudança que não implantou o Evangelho no seu coração. Era, pois, natural que o grande escritor sentisse pouca simpatia pelo grande evangelista que andava anunciando tão grande salvação. Quando os dois se encontraram, Tolstoi perguntou ao dr. Baedeker com que propósito viera à Rússia,

— «Para pregar o Evangelho nas prisões», replicou Baedeker. 

— «Não deviam existir prisões», tornou Tolstoi.

— «Enquanto houver pecado no mundo haverá também prisões», foi a resposta serena do evangelista.

— «Não devia existir pecado no mundo», retrucou Tolstoi.

— «Que quer dizer com isso»?, perguntou o dr. Baedeker.

— «Quero dizer que, se as pessoas fossem devidamente ensinadas, não haveria pecado», replicou o Conde.

O dr. Baedeker então citou Lucas 11:21-22;— «Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem; mas, sobrevindo outro mais valente do que ele e vencendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que confiava».  
                 .
— «De onde é essa citação?», perguntou Tolstoi com curiosidade.

— «Das Escrituras», foi a resposta. «Há um que é mais forte do que nós—o maligno—contra o qual somos impotentes. A minha mensagem para os presos da Rússia e para os pecadores de todas as partes do mundo é que existe Um que é ainda mais forte do que o maligno, que pode libertar os cativos e escravos de Satanás e transformá-los em filhos santos e amados de Deus».


1 Nome derivado do alemão «Stunde» —lição—e aplicado aos estudantes da Bíblia na Rússia. Vide Miguel Ivanoff, novela editada pela Livraria Evangélica, que ilustra as condições em que viviam estes entusiastas das Escrituras Sagradas. (N. do T.).

Ernest Gordon
The Moody Press

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