Biografia de Viriato Dias Sobral - 24 AGO 1908 / 27 JUN 1992

Viriato Sobral

      Pequena biografia de Viriato Dias Sobral - efectuada com base em duas entrevistas (uma no primeiro semestre de 1985 e outra no segundo de 1987) conduzidas por C.M.O.:

     Talvez o leitor gostasse de ter conhecido um daqueles verdadeiros homens de Deus de que a Bíblia nos fala, ter vivido naquele tempo, convivido com ele, para sentir mais fortemente a presença de Deus numa vida humana - a sua total entrega a Ele. Mas tudo isso, pensará, é doutros tempos, estará desactualizado; Deus já não "toca" em ninguém assim.

     Talvez seja este o seu pensamento. Se for esse o caso, olhe à sua volta e repare com atenção se não encontra em nenhum homem as evidências do "vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim" (Gál. 2.20).

     A pequena biografia que se segue procura relatar a vida de um homem de Deus dos nossos tempos. Mas atenção, não procure nas linhas que se seguem o relato aprofundado de toda uma existência. O que vai ler, são apenas algumas espigas da imensa seara que foi esta vida dedicada a Deus.

     Vamos à "ceifa"!

     Por amor a Cristo, ao Qual entregou a sua vida, percorreu muitos quilómetros. E fê-lo, para que a mensagem da salvação pudesse chegar a muitos, pecadores como ele o fora outrora.

     Viriato Dias Sobral tinha cerca de 17 anos, quando se tornou uma alma nascida de novo. E esse acontecimento teve lugar longe da sua terra natal: Branca, no distrito de Aveiro.

     Vivera lá, em casa de seus pais, um lar verdadeiramente piedoso, onde se praticava o Cristianismo como é conhecido no meio Católico. Ele mesmo, fora sempre fiel à doutrina Católi­ca. Havia sido criado no temor a Deus. Sincero, buscava a salvação procurando fazer tudo o que estava ao seu alcance para ter paz com Deus. Essa paz, alcançou-a quando reconheceu que era pecador, e que nenhuma(s) obra(s) o levaria(m) à sua salvação, pois somente aqueles que crêem, se salvam (Efé. 2.8-10; Rom. 4.4,5; Tito 3.4-7). 

     O Senhor Jesus Cristo entrou na sua vida, quando ele se encontrava nos Estados Unidos da América, para onde emigrara com 17 anos, a fim de trabalhar. Nessa altura, a sua ambição era ganhar dinheiro, que lhe permitisse gozar as coisas do mundo. Pela graça de Deus, nunca chegou a entrar nos prazeres baixos e ruinosos, que este mundo de perdição oferece.

     O seu primeiro contacto com o evangelho deu-se através dum português. Certa ocasião, fora convidado para ir a sua casa. Uma vez lá, viu um livro sobre uma mesa e quando lhe pegou, ficou impressionado por se tratar da Bíblia. Ele gostava de a ler, mas tinha a ideia de que só aqueles que estudavam no Seminário a poderiam compreender. Aquele crente disse-lhe que não. Explicou-lhe que qualquer pessoa a podia ler, compreender e aceitar. Não era necessária qualquer preparação prévia. 

     Algum tempo depois, numa livraria, adquiriu um Novo Testamento, que começou a ler. Havia também, entretanto, a convite desse crente português, começado a deslocar-se à Igreja Presbiteriana, onde assistia aos cultos.

     Por esta altura, depois de ter feito umas economias, começara a estudar, tendo deixado o trabalho a tempo inteiro.

     Certa noite, quando já deitado lia uma vez mais o Novo Testamento, Deus na Sua graça e misericórdia convenceu-o, através do Espírito Santo, daquilo que era e do que Cristo havia feito por si. Naquele mesmo instante desceu da cama e, ajoelhando-se, clamou a Deus que o salvasse. Naquele momento pareceu-lhe que o céu se tinha aberto e havia sido arrebatado. Tendo dado graças a Deus, deitou-se. No outro dia, quando saiu pela manhã, tudo lhe pareceu novo, até as pessoas.

     Depois da sua conversão, foi aceite como membro na Igreja Presbiteriana. Foi baptizado por as­persão (algumas gotas derramadas na cabeça). A começar pelo pastor, aquela era uma igreja 100% modernista.

     Como qualquer jovem, tinha magicado os planos para a sua vida. Queria concluir o curso de germânicas, empregar-se, casar, constituir família. De longe a longe, iria visitar os seus familiares. Mas esses planos, devido à intervenção divina na sua vida, começaram progressivamente a tornar-se inseguros, desfazendo-se completamente. O Senhor tinha outros desígnios, que ele na altura não compreendeu; só mais tarde.

     Algum tempo depois, teve a alegria de levar a primeira alma a Cristo. Alfredo Bettencourt, Português também, que ainda perdido chegou a pôr em causa a veracidade da Bíblia. Achava que esta havia sido corrompida pelos Protestantes. Foram, então, ambos falar com um padre, por sugestão do irmão Sobral. Desse encontro veio a resultar a sua conversão, porque o padre dissipou-lhe as suspeitas; disse-lhe que a Bíblia era a verdadeira Palavra de Deus. Começou então a lê-la, como tal, e pouco tempo depois aceitou Cristo como seu único Salvador.

     Depois, o irmão Alfredo, sem que alguém lhe dissesse alguma coisa, pôs de lado o violino - instrumento pelo qual tinha uma grande paixão, mas que receava tomasse o lugar devido a Cristo. Durante algum tempo, foram juntos à Igreja Presbiteriana, até que o irmão Alfredo se mudou para outra cidade. Mais tarde, veio a saber que ele já pregava quando, junta­mente com outros crentes, realizavam reuniões ao ar livre.

     O irmão Sobral evangelizou os seus  pais por carta, chegando a enviar-lhes uma Bíblia em português. Estes reagindo, escreveram-lhe dizendo que regressasse, que poderia concluir o curso em Coimbra. Achando que estava errado, ameaçaram-no que se não mudasse de ideias, não o receberiam em casa e o deserdariam. Isso em nada o preocupou. Pediu a guia do Senhor para responder. Quando o fez, disse-lhes que não era mais que o seu Senhor, que não tinha onde reclinar a cabeça - Mateus 8:20: «E disse Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça». Disse-lhes que era um privilégio, para ele, ser como o seu Senhor, que tinha vindo para os Seus e não fora recebido. E no que dizia respeito à herança, nenhum receio. A herança que ele buscava, era incorruptível e incontaminável, e essa estava-lhe reservada no céu, conforme promessa do Senhor. 

     Continuava a estudar no Colégio, Presbiteriano também, em Bloomvillle (New Jersey).

     É lá que conhece um alemão, filho de Protestantes. Rolf Binder de seu nome. O irmão Sobral e um outro alemão, que estava lá a tirar um curso, evangelizaram-no.

     Certa noite, no dormitório onde ambos estavam, ouviram-se choros e lamentos, vindos do quarto de Binder, que era por baixo do seu. Um outro estudante americano, foi lá e encontrou Binder lavado em lágrimas. Pediu que o deixassem só com o Senhor, aceitando-O como Salva­dor nessa mesma noite.

     Tornaram-se muito amigos. Reuniam-se muitas vezes para orarem. Trabalhavam ambos nas horas livres para poderem custear os estudos. A sua permanência nos Estados Unidos nunca custou um único centavo a seus pais. Faziam muitos serviços: bater carpetes, cavar quintais, arranjar canteiros, pintar casas, etc. ... Muitos desses trabalhos eram arranjados através do Colégio, para onde as pessoas telefonavam a saber se não haveria um estudante interessado em fazer "isto ou aquilo". O irmão Sobral chegou a fazer a limpeza das casas de banho no Colégio. Era raro não terem calos nas mãos.

     Foi também com o irmão Binder, que certa ocasião, perto do Colégio, encontraram um local chamado Salão Evangélico. Tinha o horário das reuniões na janela: Domingo de manhã, Escola Dominical e Partir do Pão (apelidavam assim a Ceia do Senhor); Domingo à noite, Pregação; Terça à noite, Estudo Bíblico e Quinta à noite, Edificação. Combinaram, e deslocaram-se lá na Terça-Feira seguinte. Ficou deveras impressionado. Em contraste com a Igreja Presbiteriana, onde entrava vazio e assim saía, recebeu ali muito "alimento". Naquele estudo - estudavam Filipenses - pôde ver o que era saciar a fome espiritual que sentia. Através de alguns irmãos que participavam, viu o que era conhecer a Bíblia. Ali, en­sinava-se a Palavra de Deus duma maneira que satisfazia a alma. Era uma congregação indenominacional, o que lhe agradava em virtude de não pretender seguir nenhuma denominação.

     Continuaram a deslocar-se lá, e aqueles irmãos, de início, ficaram um pouco de "pé-atrás", dado eles serem oriundos dum Colégio modernista. Depois, quando se aperceberam que eles eram verdadeiramente nascidos de novo e que tinham fome e sede das Escrituras, acarinharam-nos muito.

     Como o irmão Sobral sentia estar no caminho certo, foi depois ter com o pastor da Igreja Presbiteriana, contando-lhe o sucedido. Este ficou bastante aborrecido, chegando a dizer­-lhe: "A maldição de Deus cairá sobre si". Esse aborrecimento ficara-se a dever aos planos que ele tinha para o irmão Sobral. Pretendia, quando ele terminasse o curso, torná-lo ministro­-pastor Presbiteriano, depois dum curso teológico.

     Deixou definitivamente aquela Igreja e tornou-se membro em comunhão com a assembleia que se congregava no Salão Evangélico. O seu "seminário" teve lugar ali, junto daqueles cerca de cinquenta crentes, onde muito estudou a Bíblia. Passado cerca de um ano de se reunir com eles, e depois de já ter evangelizado em casas particulares, onde regularmente realizavam reuniões, deu a sua primeira mensagem pública de evangelização. Fora convidado para dizer "duas palavrinhas", dando depois lugar a outro irmão, que pregaria de seguida. Mas uma vez no púlpito, haviam-lhe dado a indicação de prosseguir.

     Entretanto, ele e o irmão Binder continuavam a orar, para saberem qual a vontade do Senhor - qual o local onde O poderiam servir.

     Neste interim, o irmão Binder concluiu o seu curso, e achando ser dos desígnios divinos, parte para Fort Wayne (Indiana). Contactavam-se por carta, depois desta separação.

     Quanto ao irmão Sobral, embora gostasse de ficar na América, sentia a vontade do Senhor noutra direcção: no seu regresso. O distrito de Aveiro, onde não existia qualquer assembleia activa, preocupava-o, de tal modo, que perdera toda a vontade de estudar. Queria vir, pregar o evangelho.

     Neste entretanto, o irmão Arthur Ingleby, missionário em Portugal, deslocou-se aos Estados Unidos e passou por Bloomville. Sabedor do desejo do irmão Sobral em regressar, falou-lhe acerca dum projecto que tinha em mente, para a zona de Coimbra. Queria fazer um trabalho entre os estudantes, e assim espalhariam deste modo o evangelho por todo o país. Tinham orado por um jovem como ele. Naquela altura, o único trabalho existente na zona de Coimbra era muito pequeno. Limitava-se a pequenas reuniões organizadas pelo irmão inglês Dr. John Opie, no seu gabinete, na Universidade de Coimbra, onde leccionava inglês. Sem dom para tal e com muitas dificuldades em se exprimir, eram reuniões sem sucesso entre as almas.

     Conhecedores dessa sua vontade de regressar, os outros crentes questionavam-no sobre quando isso aconteceria. "Quando o Senhor quiser, eu vou" - era a sua resposta. Nunca divulgou a ninguém que não possuía dinheiro para tal.

     Certo dia, um dos crentes entregou-lhe, de uma oferta anónima, o dinheiro para a passagem. Tratou então de preparar o seu retorno a Portugal. Realizaram uma reunião de despedida, sem nada de espalhafatoso, e na qual lhe entregaram uma colecção de estudos realizados por Charles H. Mackintosh e ainda uma pequena ajuda ($ 40 dólares). Veio confiado no Senhor, sem qualquer promessa de ajuda financeira daquela assembleia, o que motivou regozijo por parte deles, dado que mais tarde o testemunho local poderia extinguir-se - o que veio efectivamente a acontecer alguns anos depois.

     Embarcou, e na doca em Lisboa, à sua chegada, esperava-o o irmão José Ilídio Freire, avisado pelo irmão Ingleby. Este irmão levou-o a conhecer alguns crentes em Lisboa, um dos quais lhe levantou as primeiras dúvidas na mente, quando o questionou se trazia licença para regressar aos Estados Unidos, em virtude de existirem muitas dificuldades em Portugal.

     Confiado no Senhor, prosseguiu. Seguiu-se uma breve passagem por Coimbra, onde esteve com o irmão Ingleby, irmão ao qual, entretanto, a mulher adoeceu gravemente, acabando por falecer.

     Regressou à casa natal, onde foi bem recebido. O pai, ao saber que a sua vontade era pregar o evangelho, sugeriu-lhe que guardasse para si essas ideias, porque a seu ver aquela gente não ia aceitar.

     Logo na primeira refeição, ao inclinar a cabeça para agradecer a Deus os alimentos, a sua mãe questionou-o se se sentia bem. O irmão Sobral explicou-lhe então que estava a dar graças a Deus. "Podias ter agradecido alto" - disse-lhe a mãe. A partir daí passou a fazê-lo.

     Ainda nesse mesmo dia, expôs-lhes o caminho da salvação com toda a clareza. Demonstrou-lhes que não é a religião, nem a Virgem Maria, nem as obras, nem qualquer outra coisa, que nos leva à salvação. O refúgio dos pecadores está apenas no Senhor Jesus Cristo. Corriam as lágrimas pela cara abaixo de alguns dos presentes. Naqueles primeiros dias da sua estadia, evangelizou a sua família, à medida que ali se deslocavam para o visitarem. Poucos dias depois, a sua irmã Madalena converteu-se.

     Inquiriu a mãe sobre o valor da renda a pagar para ali permanecer. Embora ela não quisesse, fixaram um valor: € 0,75 (150$00) por mês. O irmão Sobral custeava assim a sua estadia e evitava que mais tarde os seus irmãos carnais dissessem que ali permanecera à custa deles.

     Vivia pela fé, não tendo trabalho secular. Apesar disso, nem um só mês deixou de pagar a renda. O Senhor sempre tocava o coração de alguém, crente ou não (Lucas 12.22-24). Todavia, aquela gente em redor, pensava que ele regressara cheio de dólares. Apresentava-se decentemente vestido, o que para a época, e ainda mais no meio rural, era sinal de riqueza.

     Começou então a evangelizar aquela zona. Por indicação do irmão José Ilídio Freire, reactivou as reuniões no Palhal e na Senhorinha. Deslocava­-se sempre a pé, dado não possuir sequer uma bicicleta. Demorava cerca de três horas da Branca à Senhorinha. Este trabalho, havia sido iniciado pelo irmão Marques Pereira, que muito sofrera a evangelizar aquelas almas. 

     Este irmão era gerente de escritório nas minas do Braçal, e no seu único dia livre, o Domingo, passava por aquelas aldeias em redor da Senhorinha com folhetos, a evangelizar. Muitas vezes, ao fazê-lo, fora perseguido e até apedrejado. O irmão Marques Pereira encontrava-se agora paralítico, e como tal, não podia deslocar-se, não havendo mais ninguém para o fazer.

     Entretanto o irmão Sobral recebe uma carta de Inglaterra, dum crente chamado Frank Smith, que tinha ouvido falar dele. Sentindo que era da vontade de Deus vir para Portugal como missionário, queria saber se era possível vir para junto dele. Quando o irmão Sobral perguntou à mãe se o irmão Smith podia vir para casa deles, ela respondeu-lhe: "Ó filho, se ele é como tu, pode com certeza!"

     O irmão Sobral foi esperá-lo a Leixões, e de­pois deslocaram-se ambos ao Porto, a casa do ir­mão Eric Barker, para aí tomarem um chá. Durante esse chá, o irmão Smith revelou o seu amor pelas almas. Quando o irmão Barker lhe deu a en­tender que isto aqui iria ser difícil, que os portugueses não eram como os ingleses, o irmão Smith respondeu-lhe: "Quanto a mim, não penso mais dos ingleses que dos portugueses. São todos iguais - pecadores que precisam da salvação". Foi uma entrada em Portugal verdadeira­mente espiritual.

     Por esta altura, já o irmão Sobral tinha com­prado uma bicicleta e o irmão Smith fez o mesmo.

     Passaram a deslocar-se juntos na evangelização e para as reuniões. Foi neste período, que certo dia, durante uma reunião no Palhal, a porta foi apedrejada e até um tiro dispararam contra ela, sem consequências para ninguém. 

     Passado cerca de um ano da chegada do irmão Smith, e depois de ter aprendido a língua progressivamente, a sua noiva, professora inglesa, veio ter com ele.

     O irmão Sobral acompanhou-os quando, depois de se terem casado, mudaram para Estarreja. Haviam come­çado aqui um novo trabalho, que por sua vez levaria à abertura dum outro. Ficou-se a dever a um irmão chamado Roque, que tendo-se convertido em Estarreja, mas sendo natural do Silveiro, os convida para irem a sua casa falar de Cristo. Isto irá dar origem a reuniões familiares, que se tornarão públicas numa casa velha, à qual sucederá um salão instalado numa casa comprada para tal.

     Tinha-se iniciado também, por esta altura, um trabalho em Albergaria-a-Velha.

     Mas é em Estarreja que, passado algum tempo, o irmão Smith recebe uma carta de Inglaterra. Era duma jovem crente chamada Ruth Denley. Esta, à semelhança do seu compatriota, desejava ser missionária.

     Ruth Sobral 


     Entretanto, o irmão Sobral havia começado a orar, para saber se o Senhor desejava que ele se casasse. E isto devia-se a este episódio: 

     Certo dia deslocara-se ao Palhal, a casa duma crente que vivia com o filho e a mãe, a fim de a confortar, dado que ela havia perdido o marido pouco tempo antes. Dessa sua visita, resultaram uns mexericos na zona, a saber, que eram como os padres, que andavam atrás de viúvas. Percebeu então que não poderia fazer sozinho o trabalho todo. Necessitava, se fosse essa a vontade do Senhor, de uma esposa. Havia escrito ape­nas a uma moça, e como não fora correspondido, entendeu não ser esse o desejo do Senhor.

     Foram esperá-la, e quando o irmão Sobral a encarou, teve a impressão - muito para além do pensamento meramente carnal - que ela era a escolhida de Deus para ele.

     Ele, que após se ter convertido tinha um grande desejo, ser como Paulo, livre para pregar, não mais pensara em namorar, até ter chegado aquele momento.

     Quando mais tarde lhe pediu namoro, disse-lhe que estava a orar por ela. A irmã Ruth também orava nesse sentido. As coisas conjugavam-se como que para confirmar qual a vontade do Senhor.

     Entretanto, Binder, que se encontrava na Alemanha, entrou novamente em contacto com ele. Es­creveu-lhe a dizer que gostava de vir para Portugal. Isso aconteceu alguns meses depois.

     Quanto ao irmão Sobral, casou-se num sábado. Nesse mesmo dia, o irmão Binder foi viver com eles para Estarreja.
      O irmão Smith, que os casou, havia-se entretanto mudado com a esposa para Coimbra. Ficaram junto do irmão Opie. Foram ali uma bênção. O irmão Smith abriu, ou contribuiu para a abertura de muitas igrejas na zona de Coimbra.

     Quanto ao casal Sobral, a melhor prenda de casamento tiveram-na no dia seguinte. Deslocaram­-se ao Silveiro, onde o irmão Sobral pregou. No final dessa reunião, três pessoas aceitaram o Senhor Jesus Cristo. Lua de mel não existiu, do mesmo modo que não existia dinheiro. Viviam pela fé.

     Por causa do casamento a irmã Ruth sofreu um verdadeiro anátema por parte da assembleia donde era originária - Brave Hill. Ela participou­-lhes que tencionava casar-se com o irmão Sobral. De lá, escreveram-lhe que não animavam a sua juventude a casar com estrangeiros. Foi o irmão Sobral que redigiu a resposta. Nela, relembrava-lhes o que acontecera a Miriam, quando o seu irmão Moisés se casara com uma negra. Ha­vendo-o criticado por isso, Deus castigou-a com a lepra. Os ingleses, muito ciosos da sua nacionalidade, cortaram definitivamente a ajuda que até ali concediam à irmã Ruth. Mesmo as amigas, que ficaram lá, deixaram de lhe escrever.

     Nunca em momento algum depois disso, a irmã Ruth se lamentou de ter casado. Sabia que havia sido essa a vontade do Senhor.

     Até ao momento em que o irmão Binder regressou à Alemanha - andava a sentir-se mal do coração e queria consultar um especialista - deslocavam-se sempre juntos. Foi nesse período, que a obra conheceu um novo desenvolvimento. Novos lugares de pregação abriram as portas: Cacia, S. João da Madeira, Ovar e Espinho.

     É para Espinho que, algum tempo depois, o irmão Sobral e esposa se mudariam - ponto "estratégico" para poderem ficar mais perto de todos os trabalhos.

     Mas os tempos continuavam difíceis. Permaneceram a viver pela fé, e numa dessas alturas de maior provação, o irmão Sobral recebeu um convite para se empregar no Consulado Americano, no Porto. Ora ao Senhor, para saber se devia ter um emprego secular e continuar a fazer a obra nas horas vagas. Tarefa bastante difícil, deslocar­-se sem carro a tantos sítios! Poucos dias depois, recebeu uma carta de uma assembleia na Es­cócia. Aquela missiva incluía um donativo (2 Libras), que tinha por fim suprir as necessidades deles.

     Não sabiam da existência daquela assembleia até então, e nunca viriam a ter qualquer novo contacto com aqueles crentes. Receberam aquela carta como indicação do Senhor de que ele não se devia empregar.

     Continuaram a espalhar o Evangelho, o que nem sempre foi fácil. Certa vez, o irmão Sobral correu perigo de vida. Quando realizavam uma reunião em Arrifana (junto a S. João da Madeira), juntaram-se à porta do salão mais de meia centena de homens, armados de cacetes e outros objectos. Eles - "adeptos" da santinha de Arrifana - queriam que acabassem com aquelas reuniões. O irmão Sobral explicou-lhes que estavam ali a pregar o Evangelho da graça de Deus, que aceitava quem queria, e que não estavam a atacar nenhuma santinha. Os homens começavam a formar um arco em frente da porta, quando apareceram quatro guardas que começaram a escoltar os crentes em direcção às Fontaínhas. Quando estavam quase a chegar, e porque a multidão enfurecida os fora "estrangulando" cada vez mais, o irmão Sobral ouviu gritar: "Passe para aqui, sr. Sobral, passe para aqui!" Ele desviou-se. Segundos depois, instalou-se a briga entre a multidão, que ainda atingiu o irmão Almeida (já na glória) com pontapés.

     Por fim, começaram a debandar. Só no dia seguinte ele soube que o Senhor utilizara um descrente para o avisar. Aproximava-se perigosamente, estando já muito perto dele, um homem segurando um punhal.

     Em muitos locais, como as Fontaínhas, sujeita­ram-se a gritos, insultos, pedradas, vidros partidos e fezes de animais atiradas contra o salão. 

     Apesar das pessoas não compreenderem o que isso era, continuavam a viver por fé. Numa ocasião, uma irmã no Silveiro deu-lhes um saquinho de feijão e um chouriço. Como não tinham mais na­da, e também não tinham dinheiro, a irmã Ruth fez com que aquilo desse para toda a semana. 

     Não se queixavam a ninguém. Quando se está de­pendente d'Ele para o suprimento das necessidades físicas, o Senhor supre-as graciosamente com toda a Sua vontade. Isso não implica que as provações desapareçam. Mas a Sua promessa é não nos deixar nem nos desamparar.

     Mantinha-se entretanto a permuta com o irmão Smith. Este deslocava-se ao Norte para pregar, e o irmão Sobral ia até Coimbra.

     Entretanto começava a Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, o irmão Binder ficou na Alemanha, quando lá se deslocara, por motivo de saúde. Tinha só levado uma pequena maleta, deixando cá o resto das coisas.

     Uma vez na Alemanha, foi incorporado nas forças armadas. O irmão Binder escreveu-lhe a dizer que trabalhava numa "fábrica de ferro", e depois seguiu-se um logo silêncio. Temia-se o “pior”. Por cá, oraram por ele, tendo a convicção de que estaria preso.

     Depois da guerra acabar, certo dia, o irmão Binder aparece-lhes à porta. Foi então que eles ficaram a saber o quanto o Senhor o ajudara. Estivera preso por ser objector de consciência. Hitler costumava mandar fuzilar quem assim se assumia. Quando estava para ser condenado à morte, e uma vez que não era contra Hitler nem contra o regime, mobilizaram-no para maqueiro. Como sabia inglês, francês e português, serviu também de intérprete. Deste modo, passara a guerra sem nunca combater. Porque as necessidades daquele povo eram muitas, alguns dias depois regressou à Alema­nha. Estavam sedentos da Palavra de Deus. Por lá, o irmão Binder e outro crente haviam arranjado uma grande tenda, na qual realizavam reuniões em vários locais. Muitas almas converteram-se. Este irmão foi o primeiro a organizar excursões de jovens crentes alemães a terras lusitanas.

     O irmão Friedrich Hilliges, bem conhecido dos irmãos em Portugal, participou como jovem nas primeiras excursões, tomando posteriormente a seu cargo, a organização das mesmas.

     Desenganem-se todos aqueles que pensam que por cá, ninguém foi preso por pregar o evangelho. Isso aconteceu a alguns, inclusive ao irmão So­bral, no tempo do regime salazarista.

     Ele foi preso como sendo comunista, com a acusação de ser um agente de Moscovo, disfarçado sob a capa da religião. Haviam-no já avisado de que não podia pregar. Ele continuou. Durante os oito dias que esteve preso, não deixou de anunciar o Evangelho, a todos os outros reclusos. Uma noite, o seu carcereiro levou-o para a cozinha, para ele e a mulher ouvirem a Palavra de Deus. Foi depois presente ao Juiz. Acompanhavam-no dois descrentes, que na semana anterior o haviam ouvido pregar, e que se tinham oferecido para lhe pagar a fiança.

     O Juiz perguntou-lhe: "Então não sabe que as ordens do senhor Presidente da Câmara são para se cumprir?" O irmão Sobral respondeu-lhe dizendo que, para o prenderem, tinham "saltado" por cima da Constituição. Ele tinha tanto direito de pregar, quanto os padres de rezar missa. O Juiz mandou-o então para outra sala, de onde saiu afiançado por € 0,75 (150$00) - valor este, que ele próprio pagou, não tendo de recorrer aos € 50 (10.000$00) que os dois beneméritos levavam.

     Foi libertado com a ordem de não pregar, mas ele anunciou o Evangelho naquela mesma noite.

vds1.jpg

     Confiados no Senhor, continuavam a servi-Lo.

     O seu primeiro carro, ao contrário do que muitos imaginavam, pois pensavam que recebia dinheiro dos vários locais onde pregava - foi o Senhor que lhes deu.

     Foi através de um jovem crente, da assembleia em Gastow (Inglaterra) que isso aconteceu. Já casado, deslocou-se à Grã-Bretanha para pregar, travando conhecimento com esse crente, que meses mais tarde lhe escreve, dizendo que como a sua mãe morrera, e lhe deixara algum dinheiro, enviava uma quantia de cerca de €50 (10.000$00) para comprarem um carro.

     Confiados que o Senhor os ajudaria no sustento do carro, compram um em segunda mão. Tiveram-no durante um ano, tendo depois concluído que não seria da Sua vontade continuarem com ele, e por isso venderam-no. 

     O irmão Sobral escreveu ao crente inglês contando-lhe a razão porque se desfizera do carro, comunicando-lhe que iriam utilizar o dinheiro dessa venda para a impressão de folhetos.

     Voltaram a deslocar-se a pé, de bicicleta, de autocarro e de comboio, até que alguns anos mais tarde, o Senhor concedeu-lhes outro carro.

     Teve também a alegria de ver os seus pais salvos. O seu pai converteu-se 4 ou 5 anos depois do seu regresso. Quando ele morreu testemunhou o que é ter Cristo no coração. Agonizando em dores e pressentindo a morte, levantou os olhos ao céu e esboçou um sorriso que impressionou todos os que ali se encontravam.

     Quanto à sua mãe, embora naquela altura quisesse ir para onde tinha ido o marido, não se decidiu por Cristo. Esse passo, só o deu cerca de 30 anos depois do retorno do filho dos Estados Unidos da América. Certa ocasião, quando o irmão Sobral se deslocou ao Palhal, passou por casa, como era seu costume, e a mãe, chamou-o à parte, ao quarto da costura. Ela tremia, como nunca a vira. Ela disse-lhe que se queria salvar. Uma vez mais ele explicou-lhe o caminho para o céu e naquela mesma hora, ela aceitou o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador. Durante todos aqueles anos decorridos, o irmão Sobral tinha orado pela salvação dela. Fez o mesmo pela sua irmã Maria, mas esta nunca se converteu.

     A sua existência foi uma vida cheia de trabalho, em nome do Senhor. Também a ele se ficaram a dever outras assem­bleias: Oleiros, Gulpilhares, Santiago de Riba­-Ul, Cucujães e Esmoriz. Ele ajudou muitos a erguerem-se como obreiros. À semelhança do que lhe ha­viam feito a ele nos Estados Unidos, sempre que via algum irmão com dom, ajudava-o, incentivava-o. Chegou a fazer reuniões particulares em sua casa, com os que tinham dom. Assim, com a sua supervisão e orientação, apoiavam-se e cri­ticavam-se (construtivamente) uns aos outros.

     A casa que o Senhor lhe concedeu teve ainda outras utilizações. Por lá passaram muitos missionários, e também crentes a darem os seus primeiros passos. Foi o caso, entre outros, do irmão José Fontoura. Viveu com eles quatro anos, após abandonar o trabalho secular e se dedicar a tempo inteiro ao Senhor. Foi durante a sua permanência em casa do irmão Sobral, que aconteceu mais um episódio desta vida de fé. Certa ocasião tiveram que se deslocar a Cacia. Como nenhum tinha dinheiro nem para a viagem, nem para o farnel, o irmão Sobral vendeu dois dicionários. Conseguiram desse modo, o dinheiro necessário para se deslocarem. Não pediam a ninguém, nem se lamuriavam.

     Foi também em sua casa que começaram - por volta de 1967 - as reuniões de jovens. Estas reuniões tiveram início como forma de juntar num só lugar os jovens oriundos de diferentes assembleias locais.

     Pela cave da sua casa, local onde se faziam estas reuniões, e durante largos anos, muitas almas passaram por ali. Não poucas vezes, e apesar de existirem perto de 80 cadeiras, fica­vam pessoas de pé e sentadas nos degraus da escada. O seu testemunho era poderoso, e por ele muitos foram influenciados. Grande número de crentes cresceu com ele no conhecimento da Bíblia.

     Homem de Deus como era, nunca aceitou nenhum dos convites que ao longo dos anos algumas denominações lhe dirigiram. A sua posição no meio da Cristandade era apenas uma: ajudar os crentes a compreenderem que aqueles trabalhos não tinham denominação porque eram crentes que se reuniam para o nome do Senhor Jesus Cristo. Procurou sempre ensinar, sem impor. 

     Ainda nos estados Unidos, certo dia, uma crente perguntou-lhe se achava que era pecado as mulheres pintarem-se. Ele perguntou-lhe: "Quando a irmã se pinta, qual é o seu intuito? Visa agradar a Deus ou aos homens?   Apesar de se pintar bastante, era uma crente sincera, e a pergunta penetrou nela de tal modo, que naquela noite deitou fora todas as tintas.

     Ele dizia muitas vezes: “Não obstante ser uma questão pessoal, quando se quer agradar a Deus, deve-se ser natural - quer se tenha uma tez pálida ou corada”. Foi assim que, ao longo dos tempos, ele procurou incutir nos crentes a importância de buscarem a vontade de Deus, sem nunca lhes dizer exactamente o que deveriam fazer. Isso, segundo ele, seria colocar, indirecta­mente, as pessoas debaixo da lei. Também salientava sempre que não se deveria cair extremo oposto. O filho de Deus, dizia, não anda com um aspecto negligente, sujo - mal arranjado.

     À medida que o tempo foi passando, foi "entregando" os trabalhos àqueles que o Senhor ia levantando. E não mais interferia na "gerência" dos mesmos. Se lhe pediam um conselho, dava-o. Mas não se intrometia. Cada assembleia era autónoma - só tinha que prestar contas à Cabeça, Cristo.

     Ele pregava nesses locais quando o convidavam, o que chegava a ser diariamente. Os crentes mostravam assim o quão reconhecidos estavam pelo seu trabalho. Seu - conforme ele muitas vezes dizia - apenas no privilégio que o Senhor lhe dava de ajudar as almas. O trabalho era do Senhor. E quando o trabalho é d'Ele, dizia ele, não morre com A ou B. Foi isto que ele sempre procurou interiorizar nos crentes.

     Apesar da tendência da obra, ao longo dos tempos, ser para piorar, ela só enfraqueceria e não prosperaria, segundo ele, se os crentes negligenciassem seguir o caminho do Senhor. A igreja singra quando os crentes se dedicam a Ele. “Muitos”, enfatizava ele, “abandonam a obra quando parecem prometedores, porque surgem interesses materiais ou carnais que se sobrepõem à sua atitude de buscar a glória de Deus”. E dizia mais, “Nestas ocasiões, alguns fraquejam, e outros são completamente inutilizados pelos prazeres, pelas grandezas, que os levam a colocar a espiritualidade de parte”. As pessoas, segundo ele, são naturalmente egoístas - só buscam a sua vontade.

     Alertou ainda que é importante que os crentes sejam despertados para evangelizarem as almas, mas avisou que não existindo amor por elas o esforço será inútil.

     Partiu, para junto de Deus, este homem que a muitos evangelizou, hospedou, ensinou línguas, ensinou a Bíblia e uma outra infinidade de coisas. Chegou a gravar mensagens em sua casa, emitidas depois a partir de Tanger - Marrocos, na Radio Trans-Mundial.

     O Senhor chamou-o. Deixou tudo aquilo que havia começado, em mãos capazes para darem continuidade. E o seu desejo era que ninguém ficasse desorientado com a sua morte, mas antes procedessem como ele, a partir do momento que se converteu: "Senhor, que queres que eu faça?". Aqueles que o fizerem sinceramente, poderão ficar certos que a sua ausência não vai impedir a manutenção e o crescimento da obra, conforme ele ambicionava.

     Senhor, obrigado por este Teu servo.
- L.M.F.
 

Leia também:
Viriato Dias Sobral (1908 - 1992)
Viriato Dias Sobral Com Cristo
Mas sendo ...

Sermões e Estudos

Carlos Oliveira 06MAR26
Tudo acontece a todos

Tema abordado por José Carvalho em 08 de março de 2026

Carlos Oliveira 06MAR26
Completamente ao contrário

Tema abordado por Carlos Oliveira em 06 de março de 2026

Carlos Oliveira 27FEV26
Comunicação

Tema abordado por Paulo Ferreira em 01 de março de 2026

Estudo Bíblico
1 Timóteo 2:15

Estudo realizado em 04 de março de 2026

ver mais
  • Avenida da Liberdade 356 
    2975-192 QUINTA DO CONDE 





     
  • geral@iqc.pt 
  • Rede Móvel
    966 208 045
    961 085 412
    939 797 455
  • HORÁRIO
    Clique aqui para ver horário