Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXXVIII – Atos 20:13-38 (11)

A CHAMADA À FIDELIDADE
Voltamo-nos agora do futuro reservado para Paulo, para o futuro reservado para a igreja em Éfeso.
“Lobos cruéis” viriam de fora, não poupando o rebanho (Ver. 29). E, o que é sempre mais desconcertante, apóstatas surgiriam de dentro, falando “coisas perversas, para atrair os discípulos após si” (Ver. 30). Quão naturalmente prontos estão os crentes instáveis para seguir os tais, podendo aprender com o que aconteceu em Corinto, onde muitos procuraram seguir Apolo - que até recusou seguidores! No caso da igreja em Éfeso, a cujos anciãos Paulo estava agora a falar, é-nos dada ampla confirmação da verdade do seu aviso. Não demorou muito para que Himeneu e Alexandre tivessem “feito naufrágio” na fé, e tornando-se blasfemos (1 Tim. 1:19,20). E este Himeneu, juntamente com outro, Fileto, conseguiu “perverter a fé de alguns” (2 Timóteo 2:17,18). De facto, na sua última carta o apóstolo teve que escrever a Timóteo: “Bem sabes isto: que os que estão na Ásia[1] todos se apartaram de mim ...” (1 Tim. 1:15).
Paulo sabia bem que tais coisas aconteceriam; ele sabia que o mundo, a carne e o diabo iriam conspirar conjuntamente para derrubar o que ele tinha tão incansavelmente labutado para edificar. Assim ele exorta-os:
“Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós” (Ver. 31).
Os líderes Cristãos farão bem em tomar profundamente a peito esta exortação. As igrejas, por mais fiéis que sejam à Palavra e a Cristo, não permanecem naturalmente assim; afastam-se naturalmente da fé e do seu Autor. De facto, isso é verdade para cada um de nós individualmente. Nenhum de nós ouse confiar em si mesmo. Cada um deve olhar para Deus continuamente para obter graça a fim de permanecer fiel, pois as influências destrutivas, tanto dentro como fora, são fortes. É assim que o apóstolo declara aqui que ele “não cess[ou] de admoestar ... a cada um”[2] e exortou os anciãos da Igreja: "Portanto, vigiai" (Ver. 31) e "Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos ...” (Ver. 28).
Face à sua despedida deles, e face aos perigos espirituais que ameaçavam, o apóstolo agora conclui a sua exortação, recomendando-os a Deus e à Sua Palavra,[3] mas mais particularmente à “Palavra da Sua graça”, que diz ele, “é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados” (v. 32).
"A Palavra da Sua graça" era, é claro, a mensagem particular que Paulo fora encarregado de proclamar. Era a mensagem para a dispensação que estava a despontar agora, e seria esta mensagem que Deus usaria para estabelecê-los na fé, especialmente quando as suas glórias eram adicionalmente reveladas a Paulo e por seu intermédio nas suas epístolas.
Quão semelhante é esta bênção àquela encontrada numa carta que o apóstolo havia escrito recentemente:
“Ora, Àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto” (Rom. 16:25).
É porque a Igreja tem falhado em seguir estas instruções para a sua própria saúde espiritual e crescimento, que ela está tão fraca e doente hoje. Que Deus desperte o Seu povo para estas verdades e faça com que os crentes retornem com fé ao único grande corpo de verdade que pode estabelecê-los e edificá-los espiritualmente: “a Palavra de Sua graça”; “a pregação de Jesus Cristo conforme a revelação do mistério”.
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[1] É garantido que o "todos” aqui pode se referir a um certo grupo que Timóteo reconheceria, ou aos crentes na Ásia como um corpo. Em qualquer caso, é evidente que houve uma séria deserção generalizada.
[2] Veja também Col. 1:28.
[3] Não há nenhum pensamento de sucessão apostólica. O apóstolo não os confia a Timóteo, mas “a Deus e à Palavra da Sua graça”.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



