Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXXII – Atos 18:1-22 (2)

ÁQUILA E PRISCILA
Ainda sozinho na sua chegada a Corinto, o apóstolo precisava de alojamento e de emprego remunerado. Ele não tinha uma junta ou comissão financeira a que pudesse solicitar fundos. A igreja em Antioquia não havia subscrito as suas despesas. Os crentes deixados para trás em Filipos haviam enviado ofertas "uma e outra vez" para aliviar a sua "necessidade", mas enquanto ele continuava a viajar eles não tinham “tido oportunidade", sendo cada vez mais difícil localizá-lo (Fp 4:10,15,16).
Os Judeus defendiam que um pai que não ensinasse ao seu filho uma arte ensinava-o a ser um ladrão, e há muitas evidências de que de todos os homens, Paulo era o mais consciencioso sobre matéria financeira. Assim, nós encontramo-lo em várias ocasiões a trabalhar com as mãos para suprir as suas necessidades e às vezes até as necessidades dos que estavam com ele (Atos 18:3;20:34; I Cor. 4:11,12; I Tes. 2:9; II Tes. 3:8).
Na provisão feita para o apóstolo, nesta altura, encontramos uma bela ilustração da providência de Deus ao usar a ordem aparentemente natural dos eventos para cumprir os Seus propósitos. Mesmo antes de Paulo partir “de Atenas" para Corinto, "Cláudio tinha mandado que todos os Judeus saíssem de Roma", e foi assim que Áquila e Priscila, refugiados de Itália, estavam já em cena, esperando, por assim dizer, que Paulo os chamasse e pudessem suprir-lhe alojamento e emprego.
Em relação ao decreto de Cláudio, o historiador romano Suetónio diz que Cláudio expulsou os Judeus de Roma porque "eles estavam constantemente a provocar tumultos sob o seu líder Chrestus". Sabemos que Cristo já estava no Céu, por isso este Chrestus pode ter sido alguma outra pessoa, no entanto também sabemos que Cristo causou tumultos onde quer que fosse pregado, de modo que Cláudio ou Suetónio, podem ter confundido posteriormente tal tumulto que se levantou sob a Sua liderança.
É claro que o registo diz apenas que Áquila e Priscila haviam "vindo da Itália", pelo que poderia ser gratuito concluir que eles necessariamente viveram em Roma. Embora o drástico decreto de Cláudio se tivesse estendido apenas a Roma, sem dúvida afetou negativamente os Judeus em todas as partes da Itália.
No entanto, a última parte do versículo 2 da nossa passagem parece particularizar a primeira, e sabemos que não muito tempo depois disto Áquila e Priscila são encontrados em Roma (Rom. 16:3), pelo que parece provável que esta fosse a sua residência.
A questão que surge naturalmente nas nossas mentes é se Áquila e Priscila eram crentes em Cristo no tempo em que Paulo os encontrou ou se foram ganhos para Cristo depois através de Paulo. Não podemos, provavelmente, determinar isso com certeza, pois enquanto, por um lado, o registo afirma que Áquila era Judeu e que Paulo se juntou ao casal "porque ele era do mesmo ofício", deve ser observado por outro lado, que é improvável que Lucas deixasse de mencionar a sua conversão, se isso tivesse ocorrido sob o ministério de Paulo. Além disso, Áquila tinha residido no Ponto e, provavelmente, em Roma, e Cristo havia sido pregado em ambos os lugares (Atos 2:9 cf. 1Ped. 1:1; Rom. 1:8). De facto, como já assinalámos, existe a possibilidade distinta de terem sido expulsos de Roma por causa de um tumulto levantado acerca de Cristo.
É um facto singular que Áquila nunca seja mencionado separado da sua esposa, e também que, em três de cinco vezes, o nome dela preceda o dele. Talvez Priscila fosse mais velha ou um pouco mais capaz ou enérgica do que o seu marido, mas nunca a encontramos a atuar independentemente dele. Evidentemente, ambos eram maduros em caráter para poderem, por exemplo, mostrar posteriormente a um pregador tão popular e talentoso como Apolo "mais pontualmente o caminho de Deus" e ajudar Paulo na sua obra, realizando cultos pelo menos em duas das suas casas (Rom. 16:3-5; I Cor. 16:19).
Desde a sua chegada a Atenas, o caminho de Paulo tinha sido difícil. Atenas tinha sido muito frívola para considerar seriamente a sua mensagem e Corinto era devassa. Ele sair-se-ia melhor aqui? Ele não tinha nenhum companheiro humano para o ajudar e sustentar (Atos 17:15; I Tes. 3:1). Solidão e depressão ameaçavam-no.
Que conforto, então, deve ter sido a amizade e cooperação recém-adquiridos com Áquila e Priscila! Que conversas sérias eles devem ter tido quando Paulo os conduziu às preciosas verdades que eles nunca haviam conhecido antes! Que lugar sagrado casa deles se deve ter tornado para ele!
Em Atos 19:21 encontramos Paulo a anunciar sua decisão de visitar Roma. Teria sido isto resultado do seu contacto com Áquila e Priscila e dos seus relatos sobre as necessidades e as oportunidades ali?
Uma coisa é certa: Áquila e Priscila chegaram a compreender as gloriosas verdades confiadas a Paulo[1] e tornaram-se seus fiéis cooperadores. Em breve acompanhá-lo-iam a Éfeso (Atos 18:18,19) e, posteriormente, em Roma, eles receberiam as suas saudações como "meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida expuseram as suas cabeças" (Rom. 16:3,4).
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[1] E por isso foram usados para mostrar a Apolo "mais pontualmente o caminho de Deus” (Atos 18:26)!
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



