Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXXI – Atos 17:16-34 (6)

Acts dispensationally considered

 

O ALTAR AO DEUS DESCONHECIDO

     Na verdade, o original não diz que Paulo tivesse visto ou observado as suas devoções, mas que ele havia observado os objetos da sua devoção e que entre eles se encontrava "um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO".[1] (Ver. 23). "Esse pois que vós honrais, não o conhecendo", disse o apóstolo, "é o que eu vos anuncio." Há aqui uma evidente alusão à acusação deles no versículo 18, pois a palavra "anuncio" no verso 23 é a mesma que "pregador" no versículo 18. Eles disseram: "Parece que é pregador de deuses estranhos [Lit demónios ou divindades]." Ele agora responde: "Eu anuncio o verdadeiro Deus [Gr. Theos, Deus] a quem vocês adoram como desconhecido." Assim ele declara-se "não culpado" da acusação de introduzir divindades estranhas.

      Com que delicadeza, e ainda assim com que ousadia, o apóstolo se refere à idolatria que o envolve, mesmo usando até uma inscrição no altar como seu texto! [2] Este altar - e os escritores antigos dizem que há outros como ele - expressava sensação de incerteza que deveria perturbar necessariamente a mente dos pagãos. Instintivamente conscientes das limitações da sua adoração de ídolos (Veja Rom.1:19-21) e procurando evitar a ira de qualquer deus ou deuses ainda desconhecidos e não reconhecidos, eles erigiram altar, para que nenhum deus pudesse puni-los pela sua negligência em adorá-lo. Reconhecendo isso, e aproveitando o facto de que eles tinham dedicado altar ao desconhecido, Paulo : "É que eu vos anuncio".[3] 

     Continuando esta ênfase, o apóstolo proclama aos seus ouvintes o Deus,[4] aquele que fez o mundo [o universo ordenado] e todas as coisas nele. Paulo não passou um momento provando a esses filósofos que Deus existe ou que Ele criou o universo ou mesmo que Ele é o Senhor do mesmo. Ele assumiu tudo isso: "O Deus que fez o mundo …, sendo Senhor do céu e da terra ..."

     Ele podia bem tomar essa posição. Eles tinham reconhecido que não O conheciam; Paulo poderia dizer com autoridade que ele O conhecia. Além disso, o apóstolo sabia muito bem que a sua idolatria era uma expressão da sua rejeição da luz que Deus lhes havia dado. Eles, como os pagãos em outros lugares, eram culpados de "deter", ou suprimir, "a verdade em injustiça" (Romanos 1:18).

     “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

     “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas,[5] PARA QUE ELES FIQUEM INESCUSÁVEIS” (Rom. 1:19,20).

    Assim, numa frase curta o apóstolo tratou com os Estóicos, que alegavam que o universo era Deus, e com os Epicureus, que supunham que quaisquer deuses que possam existir estavam muito longe de se preocupar com este planeta. E, com muito tato, repreendendo a idolatria que ambos inconsistentemente praticavam, ele continuou a salientar que, atendendo ao facto de Deus ter feito o universo e ser o Senhor do mesmo, Ele "não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tão pouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois Ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas" (versos 24,25; cf. Sal. 50: 7-15).

     Paulo usa aqui alguns argumentos e exatamente algumas palavras que Estêvão usou perante o Sinédrio numa defesa que o próprio Paulo, então Saulo, sem dúvida tinha ouvido (At 7:48-50). É notável que tenha sido necessário dizer aos líderes de Israel as mesmas coisas que foi dito a estes filósofos pagãos. Eles tinham perdido a lição que David tinha aprendido (Sal. 51:16,17) olhando para o templo e altares e os próprios sacrifícios  como sagrados. No entanto, o propósito da dispensação mosaica era mostrar-lhes que não apenas a lei moral, mas a lei cerimonial era impotente para salvar o pecador (Heb. 10: 4).

     Mas se os sacrifícios designados por e para Deus, não tinham em si poder algum para salvar, quanto menos os sacrifícios que os pagãos ofereciam aos deuses da sua própria escolha!

     Assim, o apóstolo, numa combinação de tato e ousadia concedidas por Deus, expôs a loucura e o pecado da sua idolatria, e os seus argumentos devem ter sido mais impressionantes devido à localização do Areópago, pois como ele falou da colina, tendo o céu aberto acima deles, a planície abaixo e o mar ao longe, todos devem ter falado do Deus a quem ele proclamou como o Criador e Sustentador de tudo.

     A palavra "de um só", no versículo 26, significa, sem dúvida que, de uma pessoa, Deus fez "todas as nações dos homens … para habitar sobre toda a face da terra" e é uma refutação da noção Ateniense de que diferentes nações deviam ser representadas por diferentes deuses.

     Eis aqui outro dos desvios da mensagem e programa do reino, que encontramos em Atos desde o levantamento de Paulo. O nosso Senhor, na Sua proclamação do reino, nunca foi mais longe na história humana do que David e Abraão.[6] Isto aconteceu porque os Gentios foram expulsos e o estabelecimento do reino Messiânico baseava-se nas promessas feitas a estes dois patriarcas. Por isso as Escrituras do Novo Testamento abrem com as palavras: "Livro da geração de Jesus Cristo, Filho de David, o Filho de Abraão".

     Paulo, por outro lado, remonta consistentemente a Adão, "o primeiro homem" e dele aponta para Cristo, "o segundo homem", "o último Adão" (I Cor 15:45-47). Ele mostra como "por um homem entrou o pecado no mundo" (Romanos 5:12). Até mesmo os filhos de Abraão têm que reconhecer que também são filhos de Adão, para que possam ser salvos por meio de Cristo, não como "o Rei dos Judeus", mas como Aquele que morreu por todos.

     “Porque, como pela DESOBEDIÊNCIA DE UM SÓ HOMEM, muitos foram feitos pecadores, assim pela OBEDIÊNCIA DE UM muitos serão feitos justos” (Rom. 5:19).

     Contudo, o facto de que "todas as nações dos homens" procederem de um, não visa encorajar a ideia moderna do "mundo único", pois o apóstolo prossegue dizendo que Deus determinou não apenas "os tempos já dantes ordenados", isto é, as temporadas do seu governo, como também "os limites da sua habitação" (Ver 26 e cf. Deuteronómio 32: 8). Quanto derramamento de sangue e caos têm resultado do fracasso das nações em reconhecer este facto!

     Mas isto, por sua vez, era para que "eles buscassem o Senhor". As nações não foram autorizadas a governar tanto quanto desejavam, nem em todo o território que desejavam. Deus determinou de antemão a duração e as fronteiras dos seus governos, para que eles pudessem reconhecer a sua dependência d’Ele, O "buscaseem" e O "tateassem" com a intenção de O "achar". É verdade, é claro, que "Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus", e o veredito foi: "Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus" (Salmo 53:2,3; Rom 3:11), mas isso não altera o facto de que eles deveriam fazê-lo e são culpados de não o terem feito.

     Isto, é claro, era uma refutação à filosofia Estóica de que o universo, incluindo o homem, era Deus. Mas, os Epicureus são também contemplados quando o apóstolo se apressa a acrescentar: "ainda que não está longe de cada um de nós; porque n’Ele vivemos, e nos movemos, e existimos" (Vers. 27, 28). E para substanciar esse facto, ele cita os seus próprios poetas, um dos quais havia dito:

     “Sendo nós, pois, geração de Deus”.[7] Paulo, certamente que não apoia aqui a falsa doutrina da "paternidade de Deus e irmandade do homem", pois ele trata aqui da criação, não da regeneração (Gén. 1:26,27; Luc. 3:38) e continua, concluindo:

     "Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens" (Ver. 29).

     Isto foi uma repreensão aos Estóicos e aos Epicureus. O seu argumento era que, se nós, seres vivos, racionais e morais, somos Sua geração, não devemos supor que Ele seja como um mero ídolo feito pelo homem a partir do ouro, prata ou pedra. Tudo isto deve ter sido tremendamente impressionante, rodeados como eles estavam pela falsa e desbotada glória dos seus ídolos e pela incomparavelmente maior glória da criação acima deles e à sua volta.

     Que evidência isto era da cegueira espiritual dos Atenienses, e que repreensão à sua ostentada e vangloriada sabedoria. Paulo teve que ensinar-lhes o próprio ABC da teologia: que havia um único Deus verdadeiro, que Ele era o Criador e Sustentador de todas as coisas, etc.. Com todos os seus ilustres filósofos e as suas afamadas escolas de aprendizagem, eles ainda eram idólatras supersticiosos, muito longe de concordarem sobre que deus adorar na sua cidade que era uma verdadeira Babel de confusão religiosa. Espiritualmente eles não tinham ido mais longe do que os pagãos de Listra (Atos 14:11-18).

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[1] Não há nenhum artigo no original, mas o Grego não o requer.

[2] Ele não poderia ter feito isso se a palavra Theos, em vez de dairnonion (demónios), não fosse usada neste altar singular.

[3] "Ele" como distinto dos outros deuses; "Eu" como distinto dos seus campeões. Ambas as palavras são enfáticas no Grego.

[4] O original contém o artigo definido.

[5] “Coisas que estão criadas” é o poyeema Grego, do qual a nossa palavra poema deriva, e indica a harmonia da criação.

[6] Uma vez Ele referiu-Se a Adão e Eva sem mencionar os seus nomes (Mt 19:4), mas isto sem qualquer referência ao reino.

[7] Ainda temos praticamente as mesmas palavras nos escritos de Aratus da Cilícia (província do próprio Paulo) e de Cleauthus de Listra, que Paulo talvez tenha referido.

 

 

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