Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXVI (Cont.)
A questão pode muito bem ser aqui levantada: Paulo não estava a causar mais perturbação na assembleia do que Pedro e os outros teriam causado ao se separarem? Decerto que os ânimos se elevaram e as relações devem ter ficado tensas quando, aberta e publicamente, Paulo repreendeu o grande apóstolo de Jerusalém. Seria que Paulo se esquecera da dignidade da posição de Pedro; que Pedro tinha sido designado o chefe dos doze apóstolos pelo próprio Senhor; que ele tinha sido usado para conduzir milhares a Cristo antes mesmo que ele (Paulo) tivesse sido salvo? Estaria ele a praticar o que pregava e mais tarde escreveu, nomeadamente, que os crentes deviam andar
“Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade suportando-vos uns aos outros em amor.
“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef.4:2,3).
Não seria ele o causador da perturbação em Antioquia?
Não, porque a perturbação foi mais subtil do que aparentemente parece.
Deus estava a quebrar “a parede de separação” entre Judeus e Gentios, e dos apóstolos em Jerusalém nenhum conhecia melhor isto do que Pedro.
Tinha-lhe sido mostrado por uma visão de Deus que ele podia e devia comer com eles, e ajudara na causa de Paulo na disputa do concílio em Jerusalém ao lembrar este facto aos Judaízantes e ao declarar:
“E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós.
“E NÃO FEZ DIFERENÇA ALGUMA ENTRE ELES E NÓS, PURIFICANDO OS SEUS CORAÇÕES PELA FÉ” (Actos 15:8,9).
Pedro, então, conhecia e testificara da unidade dos crentes Judeus e Gentios em Cristo, mas agora ele estava a separar-se dos Gentios – e a fazê-lo hipocritamente por temer o grupo de Tiago. Ele pode-o ter feito na atitude mais benigna, com muitas desculpas e justificações para os Gentios, mas o facto permanecia que ele estava a causar divisão entre os crentes. E isto não era uma questão meramente local. Constituía um repúdio da decisão do concílio e da vontade revelada de Deus. O que seria se Paulo não tivesse falado! Vede o que não teria já acontecido! Se Paulo não tivesse falado ousadamente, uma divisão poderia ter-se iniciado ali, divisão que teria aberto uma brecha irreparável entre crentes Judeus e Gentios e negado a verdade do “um só corpo”.1
Num tal caso o silêncio não teria ajudado a guardar a unidade do Espírito, mas a quebrá-la. Ainda que Pedro se possa ter desculpado o mais apologeticamente e ainda que a repreensão aberta de Paulo possa ter parecido áspera, era Pedro que estava a causar a divisão e Paulo que se estava a esforçar por guardar a unidade do Espírito.
Há aqui uma lição para nós nos nossos dias. A Igreja professa, apesar de enorme no que concerne a números, está-se a desintegrar diante dos nossos olhos. Apesar de Deus dizer que “há um só corpo”, só nos Estados Unidos, há centenas de denominações. Caso após caso, os crentes “desviam-se e separam-se” dos outros crentes. Caso após caso, grandes homens espirituais da craveira de Pedro têm iniciado, e grandes homens espirituais da craveira de Barnabé têm sido arrastados. Não obstante está errado.
Qual deve ser a nossa atitude? Se falarmos afoitamente alguns lembrar-nos-ão que devemos esforçarmo-nos por guardar a unidade do Espírito, mas fixemos bem nas nossas mentes que, face às presentes divisões, o silêncio seria tão errado como as próprias divisões em si se cremos verdadeiramente que devemos ser um e especialmente conhecemos o remédio para as divisões – a base séptupla para a nossa unidade em Cristo (Ef.4:4,6).
No incidente em Antioquia, Pedro, e não Paulo, “era repreensível” (Gál.2:11). Ele tinha sido culpado de “dissimulação” e de “não andarem bem e direitamente” (Vers.13,14). Ele tinha-se “constituído a si transgressor” na sua tentativa de edificar de novo a parede que ele próprio ajudara a quebrar (Vers.18).
Ninguém conhecia tudo isto melhor que o próprio Pedro e, apesar da repreensão de Paulo poder ter-se inflamado no seu peito durante algum tempo, ele realizou durante todo o tempo que se Paulo não tivesse saltado para o suportar quando ele tropeçou, ele podia ter arrastado muitos consigo na sua queda. Assim, não somente Pedro recuperou da repreensão, mas a última pessoa que ele menciona nos seus escritos, exceptuando o Senhor Jesus Cristo, é “o nosso amado irmão Paulo” (II Ped.3:15).
O facto da dispensação da graça estar a despontar cada vez mais brilhantemente é revelado pela ascendência de Paulo sobre Pedro nas suas três reuniões registadas até aqui. Na primeira Paulo informou Pedro da sua chamada e comissão (Gál.1:18). Na segunda ele recebeu o seu reconhecimento público (Gál.2:19). Na terceira ele repreendeu-o como seu superior (Gál.2:14).
1 Apesar da analogia do “corpo” poder ainda não ter sido usada por Paulo, e, significantemente, não ser usada nos Actos, os crentes Judeus e Gentios eram de facto um Corpo em Cristo. Nos Actos a ênfase é colocada na rejeição de Israel e no quebrar da parede de separação.



