Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXV - ACTOS 15:13-21
A LIBERDADE GENTÍLICA RECONHECIDA PELA IGREJA EM JERUSALÉM
TIAGO DECLARA A DECISÃO
“E, havendo-se eles calado, tomou Tiago a palavra, dizendo: Varões irmãos, ouvi-me:
“Simão relatou como primeiramente Deus visitou os Gentios, para tomar deles um povo para o Seu nome.
“E com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito:
“Depois disto, voltarei, e reedificarei o tabernáculo de David, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo.
“Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os Gentios, sobre os quais o Meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas.
“Que são conhecidas desde toda a eternidade.
“Pelo que julgo que não se deve perturbar aqueles, de entre os Gentios, que se convertem a Deus.
“Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue.
“Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue e cada sábado é lido nas sinagogas.” - Actos 15:13-21.
Finalmente, o Concílio conheceu o seu epílogo quando Tiago se ergueu para falar, evidentemente como o presidente da convenção.
Vários detalhes importantes na sua mensagem deviam ser cuidadosamente notados. Primeiro, na sua “resposta”, Tiago não se referiu ao que Paulo e Barnabé tinham acabado de dizer acerca da sua obra entre os Gentios, mas ao que Pedro, provavelmente numa outra reunião, dissera previamente sobre o seu ministério aos Gentios. Segundo, ao referir-se a Pedro, Tiago chamou-o Simão, usando o seu nome terreno em vez de Pedro, o nome que o Senhor lhe dera em relação à sua superioridade sobre os onze (Mat.16:17-19). Terceiro, ele assumiu a decisão final como tendo sido sua. As palavras “pelo que julgo que” deveriam ser: ”pelo que eu decido que”, e o “eu” no original é enfático. A posição de Tiago tinha-se tornado tão forte entre os crentes da Judeia que ninguém parecia recordar o facto de que o próprio Senhor tinha treinado e comissionado Pedro para a obra e o tinha designado seu líder. Todavia Deus estava graciosamente por detrás, controlando tudo.
Ao se referir atrás ao registo da visita de Pedro a Cornélio e à sua casa, Tiago salienta que isso estava em harmonia com (a palavra Grega para “concordaram” é sumphoneo, de com e som) a profecia. Ao citar Amós 9, ele salienta que “o tabernáculo de David” seria edificado “para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os Gentios, sobre os quais o Meu nome é invocado, diz o Senhor” (Vers.17).1
Se Tiago pretendia sustentar que a salvação dos Gentios sob Paulo era parte do programa do reino e que os Gentios deveriam estar sujeitos a Israel, talvez seja difícil de determinar. O certo é que ela não era um desenvolvimento do programa do reino, pois o remanescente anelante e os chamados Gentios de Amós tinham sido aludidos em relação à reedificação do tabernáculo de David, que ocorreria “naquele dia” isto é, o dia do Senhor. Decerto que o tabernáculo de David não estava a ser reedificado quando Tiago falou; na realidade a possibilidade dele ser reedificado nos seus dias estava-se a tornar cada vez mais remota.
Certamente que a passagem em Amós 9 não se está a cumprir nos nossos dias. Nem Tiago diz que se estava a cumprir então. Indubitavelmente dirigido por Deus, Tiago simplesmente disse que a conversão dos Gentios se encontrava em harmonia com (Gr. sumphoneo) o que os profetas tinham dito. Podemos muito bem dizer acerca da conversão dos Gentios hoje, que apesar dela não ser um cumprimento do programa profético, o facto permanece que Deus tinha prometido enviar salvação aos Gentios e que a enviou, a despeito, certamente, da recusa de Israel em se tornar o canal de bênção, mas enviou-a. Isto explica passagens como Actos 13:46,47 e Rom.15:8-16.
O facto salientado por Tiago de que Deus visitou “primeiramente” os Gentios por meio de Pedro, implica uma relação entre Cornélio e a sua casa e os Gentios mais tarde salvos sob Paulo. Apesar de ser verdade que no caso de Cornélio temos uma sombra da conversão dos Gentios por meio da nação de Israel remida, personificada em Pedro, contudo o facto é que Deus enviou Pedro a Cornélio, não sob a “grande comissão” mas por uma comissão especial, não porque Israel tivesse aceite Cristo e o programa profético pudesse agora continuar, mas porque Israel rejeitara Cristo e um novo programa estava a ser introduzido, e Pedro, o líder dos doze e da Igreja da Circuncisão fora o único escolhido para esta tarefa de modo a não haver dúvidas quanto a ele e de modo ao desenvolvimento desse programa sob Paulo (que já tinha sido levantado quando Pedro visitou Cornélio) poder ser plenamente certificado.
Sob Deus, então, o testemunho de Tiago não visava mostrar que o programa profético estava a ser cumprido, pois não era esse ainda o caso, mas que não era contrário ao propósito de Deus em salvar os Gentios, e se encontrava em harmonia com ele.
É triste ver Tiago usurpar a posição de Pedro e até a de Paulo,2 quando ele conclui: “Pelo que eu decido ...” (Vers.19). O que ele estava a propor não era decisão sua. Como os registos dos Actos e de Gálatas testemunham, tratava-se principalmente do resultado da batalha de Paulo e do protesto de Pedro. Mas na providência de Deus, a “decisão” de Tiago era notável. Impedia que os crentes Judaicos transtornassem os Gentios acerca da circuncisão e da lei, mas propôs escrever-se-lhes exortando-os a “absterem-se das contaminações dos ídolos, da prostituição3 do que é sufocado e do sangue” (Vers.20). Na base de Actos 15:28; 21:25 e Gál.2:5 não sentimos, como alguns sentem que isto ainda veio agravar a imposição da lei, mas que isto veio facilitar, certamente o caminho para uma comunhão melhor entre Judeus e Gentios e para que os Judeus descrentes não ficassem chocados e se não desviassem mais de Cristo. Pois, como Tiago disse:
“ ... Moisés desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, e a cada sábado é lido nas sinagogas” (Vers.21).
A sua fraseologia indica que uma vez passado aquele condicionalismo, a exortação não seria mais pertinente.
1 A Versão Almeida de Amós 9:11,12 traduz “restante de Edom”, em vez de “resto dos homens”, e “possuam” em vez de “busque” mas sem dúvida que em ambos os casos a última tradução é que se encontra correcta, como citada por Tiago nos Actos, pois enquanto no Hebraico Edom é adum, homem é Adam, e enquanto possuam é irsh, busque é drash. Em cada caso a diferença é tão leve que pode muito bem ter acontecido as palavras terem sido mal copiadas. Também a citação da passagem por Tiago encontra-se mais em harmonia com o resto da profecia que o texto de que foi traduzida na Versão Almeida.
2 Pois Tiago não tinha autoridade sobre os Gentios a quem Paulo ministrava.
3 Provavelmente não nas suas formas mais grotescas, mas em casos onde eles sentiam que os crentes Gentios podiam ser mais lassos.



