Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIV - ACTOS 15:6-11 (Cont.)
A BATALHA DE PAULO
Na primeira parte da reunião houve “grande contenda” (Vers.7). Contudo os que procuravam Judaizar os crentes Gentios e impor a circuncisão e a lei sobre eles, juntamente com os que “secretamente se tinham intrometido” para ajudarem a dirigir o assunto através de estratégia secreta, não conseguiram nada, pois o apóstolo Paulo, tinha a verdade e até as consciências da maioria dos seus adversários do seu lado.
Quão profundamente gratos devemos estar por lermos as suas palavras:
“AOS QUAIS, NEM AINDA POR UMA HORA CEDEMOS COM SUJEIÇÃO, PARA QUE A VERDADE DO EVANGELHO PERMANECESSE ENTRE VÓS” (Gál.2:5).
Quanto a Tito: “Não foi constrangido a circuncidar-se”1 Os Judaízantes não venceram aquela batalha.
O PROTESTO DE PEDRO
Chegamos agora à última menção de Pedro nos Actos. Ele aparece como “apóstolo da circuncisão”, mas para sancionar o apostolado de Paulo e para apoiar a sua exigência de que os crentes Judaicos deveriam deixar-se de impor a lei aos Gentios.
Ao ser examinado o registo é-se levado a perguntar: “Onde está Pedro?”. O Senhor já não lhe tinha tornado indubitavelmente claro de que os incircuncisos que cressem deviam ser aceites como são? Ele não relatara aos seus irmãos como é que, contrariamente à sua própria inclinação, ele fora enviado a Cornélio e à sua casa e como eles tinham sido gloriosamente salvos? Os seis irmãos não testemunharam as evidências sobrenaturais da conversão destes Gentios? Os seus irmãos não se apaziguaram e glorificaram a Deus quando ele acabara, ao reconhecerem: “Na verdade até aos Gentios deu Deus o arrependimento para a vida?” Porque é que ele agora encontrava-se em silêncio? Ele não era aquele a quem o Senhor designara como cabeça dos doze? Porque é que ele não diz nada para pôr termo a toda aquela disputa? Alguns argumentam contra o papado ao salientarem aqui que Pedro não presidiu, nem mesmo fez declarações, mas ele devia ter não só presidido como feito declarações. Será que as palavras do Senhor não tinham nenhum significado? Ele presidira e fizera declarações no princípio dos Actos (1:15; 2:14). Contudo o seu poder e dos outros apóstolos estava a declinar.
Pedro consentira a si mesmo ser afastado cada vez mais para segundo plano do seu lugar designado, mas num caso como este ele não podia ficar calado. Finalmente, depois de ter havido muita disputa, ele ergueu-se para protestar contra o movimento que visava impor a circuncisão e a lei aos crentes Gentios.
Primeiro ele relata os factos simples da obra de Deus no caso de Cornélio e da sua casa. Tinha-se passado algum tempo desde que Deus escolhera Pedro dentre os doze para que, como ele mesmo diz: “os Gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho, e cressem”. (Vers.7).
Assinalemos as palavras “minha boca”, pois são importantíssimas em relação a este concílio. Deus não tinha mandado os doze todos começarem agora a ir aos Gentios, pois Israel ainda não tinha recebido Cristo e sob o programa profético a salvação iria para os Gentios por meio da nação de Israel remida. Somente Pedro tinha sido enviado e somente a esta única casa. Ele não continuou a ministrar aos Gentios. Na verdade, como resultado deste concílio em Jerusalém ele e os outros apóstolos concordaram em restringir o seu ministério a Israel reconhecendo Paulo como o apóstolo de Deus para os Gentios (Gál.2:9).
Tudo isto enfatiza o facto de que Deus teve um único propósito ao enviar Pedro a Cornélio e à sua casa. Não fora em cumprimento do programa profético ou da “grande comissão” pois todos os doze estavam incluídos nesse programa e comissão. Assim, se o tempo para isso tivesse chegado todos eles teriam ido aos Gentios e manter-se-iam nessa tarefa. E Deus não estava a enviar os doze aos Gentios a despeito da rebelião contínua de Israel, pois a Paulo, não aos doze, é que foi confiada essa tarefa.
Qual foi então o propósito especial de Deus ao enviar apenas Pedro (dos doze apóstolos) a esta única casa Gentílica? Foi 1) para que ao subsequente ministério de Paulo entre os Gentios pudesse ser dado reconhecimento pleno, 2) para que pudesse ser reconhecido que os Gentios seriam salvos à parte da circuncisão e da lei e, 3) para que os crentes em Jerusalém pudessem reconhecer os crentes Gentios como seu irmãos em Cristo.
É verdade que Pedro não tinha pregado o mistério ou o Evangelho da graça de Deus a Cornélio e à sua casa, mas pregara Cristo e como ele tinha proclamado a necessidade de fé em Cristo para a remissão de pecados, os seus ouvintes creram e foram salvos. Nesse momento o Espírito interrompeu a mensagem de Pedro e deu a esses Gentios o dom pelo qual Pedro e os seus amigos podiam saber que a salvação deles era genuína.
Os santos em Jerusalém, então, não podiam negar que Deus estava a operar entre os Gentios, pois o seu próprio líder tinha sido enviado a ministrar-lhes e agora testemunha que “Deus, que conhece os corações (Gr. ”conhecedor do coração”), lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós” (Vers.8).
Nesta relação Pedro observou (Vers.8) que Deus “não fizera diferença” entre Judeus e Gentios, ao purificar os corações destes Gentios “pela fé”2 Esta declaração de Pedro indica uma plena aceitação do que Paulo tinha argumentado na conferência privada com os líderes.
Deus proporcionou a Pedro esta experiência com Cornélio e a sua casa (significantemente depois do levantamento de Paulo) tendo em vista este preciso concílio, para que ele pudesse testemunhar os factos simples que observara e confirmar assim o ministério de Paulo. E porque é que os crentes Judaicos se haviam de queixar? Afinal, a nação de Israel , antes de poder ser salva, não tem de experimentar a circuncisão do coração e ser purificada pela fé? (Ver Jer.4:1,4; 9:26, cf. Actos 7:51; Rom.2:25-29).
Quão necessária era a experiência de Pedro para precisamente esta ocasião? Não se tratava dos apóstolos da circuncisão terem qualquer jurisdição sobre Paulo ou os Gentios, mas tratava-se do apostolado de Paulo entre os Gentios e da liberdade dos crentes Gentios em Cristo poder ser plenamente reconhecidos, para que não acontecesse os Judaízantes, gloriando-se na “autoridade” dos líderes em Jerusalém, incluindo mesmo o irmão do Senhor segundo a carne, continuarem a atribular os santos Gentios.
Ao ter relatado os factos básicos da sua experiência Pedro formula agora a questão:
“Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais, nem nós, podemos suportar?" (Vers.10).
Os Fariseus e os que os secundavam estavam a tentar impor aos Gentios um jugo que nem os seus pais nem eles tinham podido suportar. Na verdade, os Fariseus ao sentarem-se na cadeira de Moisés, ajudaram a tornar este jugo mais pesado (Mat. 23.1-4). Fazer agora prevalecer as suas vontades neste assunto, em vez de se renderem à vontade revelada de Deus, seria na verdade tentá-LO e ensaiar a sua própria derrota e condenação. De facto, agora seria errado os crentes Gentios aceitarem este jugo (Gál.5:1).
Ao terminar as suas observações, Pedro faz uma declaração notabilíssima:
“Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles, também” (Vers.11).
Ele não diz: “eles também serão salvos como nós” mas “nós também seremos salvos como eles”. Assim, longe da lei ser necessária à salvação deles, argumenta ele, não é realmente por ela que nós somos salvos, e isto ainda será demonstrado.
Esta é a última declaração registada no registo do ministério de Pedro nos Actos. Deveria ser comparada com as últimas palavras das suas epístolas. Ao explicar ali que Paulo tinha escrito algumas “coisas difíceis de entender”, ele terima:
“ANTES, CRESCEI NA GRAÇA E CONHECIMENTO DO NOSSO SENHOR E SALVADOR JESUS CRISTO. A ELE SEJA DADA A GLÓRIA, ASSIM AGORA, COMO NO DIA DA ETERNIDADE! AMÉN” (II Ped.3:18).
Tudo isto mostra quão errado é divorciar a experiência de Pedro na casa de Cornélio do subsequente ministério de Paulo, ao associá-la apenas ao programa do reino. Quão necessários eram esta experiência, o testemunho de Pedro a respeito dela, para o reconhecimento do posterior ministério de Paulo!
1 É este o sentido de Gál.2.3.
2 Actos 10:15 revela que a purificação dos Gentios é pela graça e aqui, por meio da fé.



