Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIV - ACTOS 15:4-5
PAULO E O SEU GRUPO CHEGAM A JERUSALÉM
“E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos, e lhes anunciaram quão grandes coisas Deus tinha feito com eles.
“Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinha crido, se levantaram, dizendo que era necessário circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés”. - Actos 15:4-5.
UM CALOROSO ACOLHIMENTO
Assim como Paulo e o seu grupo tinham sido “acompanhados pela igreja” em Antioquia, assim, também agora, foram “recebidos (Lit. bem-vindos) pela igreja” em Jerusalém. As duas visitas anteriores de Paulo a Jerusalém tinham sido breves e acompanhadas de perigo considerável. Na sua primeira visita após a sua conversão os discípulos tinham desconfiado dele e os Gregos tinham tramado a sua morte, de tal forma que se lhe tornara necessário deixar a cidade (Actos 9:26-30). A sua segunda visita foi feita na altura em que “Herodes estendeu as mãos sobre alguns da igreja”, matando Tiago, o irmão de João, e aprisionando Pedro, com a intenção de o matar depois da Páscoa (Actos 11:30; 12:2-4:25). Evidentemente que Paulo nessa altura não viu nenhum dos doze apóstolos.
Mas agora as coisas em Jerusalém estavam diferentes. Os seguidores do Messias na cidade estavam-se a multiplicar novamente (muitos deles tendo regressado dos lugares para onde tinham sido espalhados na “grande perseguição” de 8:1) e pareciam não mais temerem os líderes descrentes, planeando até efectuar o seu próprio concílio precisamente na mesma cidade. Também a genuinidade da conversão de Paulo a Cristo não fora posta em dúvida. Qualquer que fossem as objecções que alguns possam ter tido para com o seu ministério ele foi reconhecido e calorosamente acolhido pela igreja em geral como um servo de Cristo notado e cheio de sucesso.
Deve ter sido uma experiência impressionante ouvir Paulo e os seus amigos, soldados veteranos de Cristo, relatarem as “coisas que Deus tinha feito com eles”.
O NÚMERO DE SESSÕES REALIZADAS
Não se deve supor que o apóstolo e o seu grupo apareceram simplesmente em cena, e o concílio foi logo realizado e a questão respeitante aos Gentios discutida e esclarecida. Um problema tão importante não poderia ser resolvido assim tão simplesmente. Houve pelo menos duas, provavelmente três e talvez mesmo quatro reuniões separadas.
Na epístola aos Gálatas, Paulo explica que uma preliminar conferência privada foi primeiro realizada com “os que estavam em estima” (2:2). É possível que Actos 15:4,5 não se refira à reunião da igreja, mas a fraseologia da passagem conjuntamente com o facto de que não teriam sido muito bem-vindos pela igreja se a chegada não tivesse sido pública, leva-nos a crer que foi uma reunião pública e que depois disso os Fariseus se ergueram para objectar e “os apóstolos e os anciãos” se reuniram então para considerarem o assunto (Vers.6). A reunião dos apóstolos e anciãos, então, seria a terceira reunião, seguida por uma quarta, assistida por “toda a multidão ... os apóstolos e os anciãos com toda a igreja” (Vers.12,22).
A REUNIÃO PRELIMINAR
O apóstolo Paulo, apesar de profundamente consciente da sua chamada e comissão divinas, e apesar de determinado a nada ceder do que fosse essencial, actuou com aquela prudência e consideração que sempre o caracterizaram. É assim que o encontramos a explicar na sua carta aos Gálatas que ele se reunira primeiro privadamente com “os que estavam em estima”1 para lhes comunicar pessoalmente o Evangelho que ele pregava entre os Gentios, a fim de que a sua jornada não fosse em vão (Gál.2:2).
Os que não vêem, ou que negam, que uma revelação adicional foi dada a Paulo, devem estudar cuidadosamente o registo, pois ele ensina enfaticamente que a sua mensagem era algo novo e distinto daquilo que os doze tinham pregado.
Primeiro, o apóstolo declara distintamente que “(eles) nada me comunicaram” enquanto que ele “lhes expôs” novas verdades (Vers.2,6).
Segundo, ele chama a essas verdades “o Evangelho que prego entre os Gentios”, indicando com isso que não era a mesma mensagem que eles pregavam entre os Judeus. Terceiro, o facto de que ele comunicou este Evangelho primeiramente aos líderes, para que não acontecesse ele correr, ou, corresse em vão, indica claramente que ele estava a procurar fazer-lhes ver isso.
Quão contrário à Escrituras, à luz de tudo isto, defender, como alguns defendem, que Paulo estava simplesmente a “comparar” a sua mensagem com a dos líderes em Jerusalém, para se certificar de que estava a pregar a mesma mensagem que eles?
Aparentemente, os resultados desta reunião preliminar eram encorajadores, pois Actos 15:4 descreve aquilo que foi evidentemente um público bem-vindo por toda a igreja, em que Paulo e Barnabé relataram “quão grandes coisas Deus tinha feito com eles”. Que reunião deve ter sido! Quem não teria sido tocado ao ouvir estes homens de Deus valorosos contarem as suas experiências ao anunciarem as boas novas da graça de Deus aos pagãos! E que este foi o tema do seu registo é evidente no vers.5.
Apesar da multidão ter, sem dúvida, vibrado ao ouvir o que Deus tinha estado a fazer entre os Gentios haviam certos crentes Fariseus presentes que estavam longe de estar satisfeitos. Eles achavam que os Gentios se deviam aproximar de Deus por meio da nação de Israel salva; que deviam ser circuncidados e guardar a lei de Moisés, ou, a sua fé seria vã. Isaías 56:6,7; 60:1-3; Zac.8.13,23 e muitas outras passagens do Velho Testamento não ensinavam isso? Como é que os Gentios podiam agora ser salvos à parte de Israel, da circuncisão e da lei? Foi porque alguns dos crentes Fariseus se ergueram para apresentar estas objecções que foi necessário uma reunião especial dos apóstolos e anciãos.
1 Aqueles de quem os homens faziam muito. A razão para o apóstolo usar aqui este pensamento ainda será visto adiante.



