Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIV - ACTOS 15:1-3

O CONCÍLIO EM JERUSALÉM

A CONTENDA EM ANTIOQUIA


     “Então alguns que tinham descido da Judeia ensinavam assim os irmãos: Se vos não circuncidardes, conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos.

     “Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns de entre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.

     “E, eles sendo acompanhados pela igreja, passavam pela Fenícia e por Samaria contando a conversão dos Gentios, e davam grande alegria a todos os irmãos.” - Actos 15:1-3.

     Chegamos agora ao registo da primeira grande controvérsia entre os seguidores de Cristo – a colisão inevitável entre os crentes em Jerusalém e os crentes em Antioquia. Veremos como ela foi usada por Deus para, de uma vez por todas, pôr fim à dúvida que havia na autoridade de Paulo como o apóstolo da nova dispensação.

     A informação que Pedro deu aos seus irmãos em Jerusalém a respeito da conversão de Cornélio e da sua casa não consumou a questão. Na altura a explicação de Pedro tinha parecido satisfazê-los e, pelo menos, eles “apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade, até aos Gentios deu Deus o arrependimento para a vida” (Actos 11:18). Mas isso tinha sido há já algum tempo considerável (Actos 15:7) e alguns tinham agora começado a albergar dúvidas quanto ao estado legal de tais Gentios. Será que Cornélio e a sua casa teriam o direito de permanecer incircuncidados? Será que o caso deles seria um caso excepcional? Quem é que tinha o direito de revogar a lei que o próprio Deus tinha estabelecido? Além disso, a tal lei, dada a Israel, declarava o princípio e reforçava a prática do isolamento nacional. Estaria, agora, certo que os Judeus considerassem homens incircuncidados como povo de Deus, juntamente com eles, mesmo apesar deles terem abandonado a idolatria, adorarem Cristo, e revelarem isso na sua conduta?

     Estas e outras questões semelhantes preocupavam naturalmente alguns, pois apesar de Pedro ter, na verdade, sido enviado a uma casa de Gentios e ter testemunhado das evidências da salvação deles, ele só podia explicar que tinha sido enviado “nada duvidando”, acrescentando: “Quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” E também não lhes tinha sido dada qualquer revelação de que a lei, “a parede de separação que estava no meio”, tinha sido abolida pela cruz.

     As dúvidas destes crentes Judeus foram sem dúvida agravadas pelo facto de que grande número de Gentios ter agora sido ganho para Cristo sob o ministério de Paulo e Barnabé, que estavam a estabelecer igrejas entre eles nas quais nem a circuncisão nem a lei Mosaica tinham qualquer lugar.

     Finalmente, haviam alguns que não se podiam conter por mais tempo, decidindo-se, por si mesmos, viajar para Antioquia e corrigirem lá os convertidos.

     Deveria ser notado que com eles não se tratava meramente duma questão de comunhão: evidentemente encontravam-se genuinamente interessados1 com a salvação destes Gentios, pois eles começaram a ensinar-lhes. “Se vos não circuncidardes, conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos”. Eles não olhavam para a circuncisão meramente como um sinal do concerto Abraâmico, mas como aquilo que tinha sido ordenado por Moisés, o principal rito do Judaísmo, indispensável aos direitos e privilégios da qualidade de membro na nação favorecida, e por isso mesmo necessária à salvação.2

     Mas, com toda a sua sinceridade evidente nesta questão, eles encontravam-se errados, pois eles intentaram esta missão sem a devida autoridade, e, como era de esperar, em vez de clarificarem as coisas em Antioquia, transtornaram-nas. Depois o assunto foi finalmente esclarecido em Jerusalém, quando a igreja ali escreveu aos Gentios a respeito destes irmãos:

     “ ... que saíram de entre nós VOS PERTURBARAM com as palavras e TRANSTORNARAM AS VOSSAS ALMAS, NÃO LHES TENDO NÓS DADO MANDAMENTO” (Actos 15:24).

     Quando anos mais tarde os Judaízantes procuraram impor a circuncisão e a lei sobre os Gálatas, Paulo escreveu quase a mesma coisa a respeito deles:

     “ ... mas há alguns que VOS INQUIETAM e querem TRANSTORNAR O EVANGELHO DE CRISTO” (Gál.1:7).

     Apesar de alguns ensinadores Bíblicos por quem nutrimos o mais elevado respeito defenderem que estes Judaízantes pregaram um evangelho espúrio e falso, nós não concordamos com esse pensamento, pois então, sem dúvida que, o apóstolo teria dito em Gál 1:6,7: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis ... para outro Evangelho. O qual não é Evangelho” ou “o qual não é de forma alguma Evangelho” ou “o qual não é sequer Evangelho”. O que é que ele disse que era? O qual não é outro”.

     Ora é verdade que Thayer e outros dizem que o “outro” do versículo 6 (heteros) significa “outro de espécie diferente”, enquanto que dizem que o “outro” do versículo 7 (allos) significa “outro da mesma espécie”, exprimindo o primeiro diferenciação e o último adição.

     Apesar disso alguns dos nossos melhores escolásticos do Grego parecem hesitar aqui e alguns dão mesmo motivo para suspeitar que a sua interpretação tenha sido fortemente influenciada pelo seu fundo teológico. Assim W.E. Vine, no seu Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário Expositivo das Palavras do Novo Testamento) diz que esta distinção “deve ser observada em numerosas passagens” (o sublinhado é nosso) enquanto que Vincent, no seu Word Studies (Estudos da Palavra), diz: “Um Evangelho diferente não é outro Evangelho. Não há senão um Evangelho”.

     Mas Vincent aqui está errado, pois não é verdade que a Bíblia apresenta apenas um evangelho. É-nos explicitamente dito qual foi o Evangelho que Deus pregou a Abraão, quando lhe disse: “Todas as nações serão benditas em ti” (Ver Gál.3:8). E certamente que este Evangelho (ou boa nova) era diferente do Evangelho (ou boa nova) que nós agora somos comissionados a pregar. E decerto que “o Evangelho da circuncisão” era diferente do “o Evangelho da incircuncisão” (Gál.2:7), mas os homens têm caído tão baixo no dividir ou manejar bem a Palavra da Verdade e têm seguido de tal forma a tradição, que a Bíblia só apresenta apenas um Evangelho e Vincent pensava, sem duvidar, que um Evangelho diferente não poderia ser de forma alguma um Evangelho. Mas se era isso que Paulo queria dizer, porque é que ele não disse “um diferente Evangelho, o qual não é Evangelho”? Porque é que ele inseriu a palavra allos, outro?

     Quanto à alegada distinção que ocorre em “numerosas” passagens, onde está a base para afirmar tal? Temos visto algumas delas, e notamos o seguinte:

     Algumas vezes heteros, e allos são usadas alternadamente, como, por exemplo, em Mat.19:9 e Lucas 16:18, onde o repudiar a mulher e o casar com outra está em causa.

     Algumas vezes heteros significa adição em vez de diferenciação como em Actos 2:40, “muitas outras palavras”; Mat.8:21, “outro dos Seus discípulos”; Gál.1:19, “outro dos apóstolos”; Actos 20:15; “no dia seguinte” (lit. “a seguir”).

     Por outro lado, algumas vezes allos expressa diferenciação em vez de adição como em Mat.2:12, “partiram ... por outro caminho”, Marcos 12:9, “dará a vinha a outros”; João 4:38, “Vós não trabalhastes; outros trabalharam”; Actos 4:12, “em nenhum outro há salvação”; Actos 19:32, “uns ... clamavam de uma maneira, outros doutra”; Gál.5:10, “nenhuma outra coisa sentireis”.

     Nesta relação os que argumentam que a nossa palavra heterodoxo deriva da palavra Grega heteros, deveriam notar que a nossa palavra outro deriva semelhantemente da palavra Grega allos e ambas indicam diferença, ainda que a primeira provavelmente duma maneira mais forte.

     Thayer diz: “Todo o heteros é um allos, mas nem todo o allos é um heteros”. Porém aqui ele encontra-se tão errado como Vincent, pois a mesmíssima passagem diante de nós é uma prova de que nem todo o heteros é um allos, pois o apóstolo diz: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis ... para outro (heteros) Evangelho. O qual NÃO é outro (allos)”.

     Por conseguinte não vemos nenhuma base para a teoria que diz que os Judaízantes em Antioquia e na Galácia proclamavam um Evangelho espúrio ou que o tal Evangelho que eles proclamavam não era de forma alguma um Evangelho, pois de outro modo Paulo tê-lo-ia dito.

     Apesar da ênfase na diferença ser, talvez, usualmente algo maior no caso de heteros que no de allos, ambos os termos são sinónimos usados por Paulo, evidentemente, para revelar que o Evangelho que os Judaízantes tinham trazido aos Gentios era outro, ainda que num certo sentido não fosse outro. Quer isto dizer que, a diferença era de desenvolvimento e não de contradição, precisamente da mesma forma que Paulo torna claro que a graça não era uma contradição da lei (Rom.3:31).

     Estes Judaízantes não eram inescriturísticos; ele eram indispensacionais. O que eles ensinavam encontrava-se nas Escrituras, mas não reconhecia a revelação adicional dada ao apóstolo Paulo e por seu intermédio. Eles procuraram colocar os Gentios salvos por uma mensagem de pura graça, sob o programa do reino com a sua circuncisão e lei – e perverteram assim o Evangelho de Cristo.

     Isto deveria constituir uma lição para nós, pois se pregarmos ou praticarmos aquilo que não pertence à presente dispensação, ainda que possa já ter sido, biblicamente, correcto, também perverteremos o Evangelho de Cristo e colocar-nos-emos sob a maldição de Gál.1:8,9, uma maldição que já confundiu e dividiu a maior parte da Igreja professa.

     Assim, tanto os apóstolos em Jerusalém como o apóstolo Paulo chamaram aos Judaízantes, perturbadores e transtornadores. “Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão Esse operou também em “Paulo” para com os Gentios” (Gál.2:8) e a disputa daqueles Judaízantes de que os Gentios não poderiam ser salvos sem a circuncisão e a lei implicava que Paulo e Barnabé tinham estado a ensinar uma heresia que destruía as almas. Assim a comissão e o apostolado divinos de Paulo estavam a ser postos em questão e a sua proclamação da graça estava a ser ameaçada. Não é assim de admirar que “Paulo e Barnabé” tivessem “tido não pequena discussão e contenda contra eles” (Vers.2).



1 Os “falsos irmãos” de Gál.2.4 entraram em cena mais tarde, em Jerusalém.

2
 E era, na verdade, o cerimonial básico requerido pela lei e aquilo que, como povo de Deus, os separava dos Gentios (João 7:22; Lev.12.2,3; Gál.5:3).

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