Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIII - ACTOS 14:21-28
“E, tendo anunciado o Evangelho naquela cidade, e feito muitos discípulos voltaram para Listra, e Icónio, e Antioquia.
“Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que, por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.
“E havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando, com jejuns, os encomendaram ao Senhor, em quem haviam crido.
“Passando, depois, por Pisídia, dirigiram-se a Panfília.
“E, tendo anunciando a palavra em Perge, desceram a Atália.
“E dali navegaram para Antioquia, de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido.
“E quando chegaram, e reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles, e como abrira aos Gentios a porta da fé.
“E ficaram ali não pouco tempo com os discípulos.” - Actos 14:21-28.
O apóstolo Paulo não ficava, como muitos evangelistas modernos, satisfeito com “decisões para Cristo”. Tendo ganho pessoas para Cristo ele trazia-as diariamente no seu coração, orando por elas, escrevendo-lhes ou, se possível, visitando-as de novo para que elas pudessem ser estabelecidas ou confirmadas na fé.
Foi assim que Paulo e Barnabé começaram a retraçar as suas pisadas, ao regressarem a Antioquia da Síria pela mesma rota que tinham utilizado para chegarem a Derbe. Assim como eles chegaram a Derbe pelo caminho de Antioquia da Pisídia, Icónio e Listra, assediados com oposição e perseguição ao longo de todo o caminho, assim também eles agora principiaram a jornada do regresso de Derbe, pelo caminho de Listra, Icónio e Antioquia, confirmando as almas dos discípulos e exortando-os a continuarem na fé, explicando que “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (Vers.22). Este “importa” não indica uma necessidade inevitável, como se uma pessoa não pudesse ser salva se não sofresse, mas pelo contrário indica que é natural, sendo o mundo como é, que os crentes sofram quando entram, cada vez com mais intensidade, no reino de Deus1 e que não devem esperar outra coisa (Ver II Tim.3:12; Rom.8.17). Na verdade Deus permite estas coisas para manter os Seus filhos separados do mundo e unidos a Si.
Mas Paulo e Barnabé fizeram mais do que simplesmente exortarem os crentes naquelas cidades para continuarem na fé. Eles deram passos no sentido de estabelecerem assembleias organizadas em cada lugar. A palavra traduzida por “eleito” no versículo 23 significa votar apontando, ou, estendendo a mão. Daqui veio o significado do secundário:2 apontar pelo voto. Assim outras traduções traduzem esta palavra por “seleccionado” ou “apontado por voto” ou “seleccionado por exibição de mãos”.
À luz do carácter de Paulo e das suas epístolas é impensável que ele intentasse apontar arbitrariamente anciãos para aquelas assembleias de crentes, ou que mais tarde esperasse que Timóteo ou Tito fizessem o mesmo (Tito1:5). As muitas qualificações que os anciãos deviam possuir certamente que só podiam ser reconhecidos por aqueles que viviam entre eles, e o próprio facto desses líderes na obra serem homens de “boa reputação”, indica que Paulo meramente presidia à indicação e designação desses crentes, naqueles casos. Na verdade o bom senso ensina-nos que nenhum líder pode cumprir satisfatoriamente o seu ministério senão desfrutar do respeito e do apoio daqueles a quem ministra. O próprio Paulo, apesar de ter sido designado por Deus, teve este apoio humano (Vers.13.2-4).
Esta é uma lição que muitos pastores e anciãos precisam de aprender, sob pena de, devido à arbitrariedade, perderem a cooperação dos crentes nas suas congregações.
Mas estas medidas para estabelecer assembleias organizadas, ainda que necessárias, não eram suficientes. Assim como os apóstolos tinham principiado por confirmar as almas dos discípulos e por os exortar a que permanecessem firmes na fé, assim também não partiram até que com oração e jejum os encomendassem ao Senhor, em quem tinham crido (Vers.23).
Continuando a sua jornada de regresso Paulo e Barnabé passaram pela Pisídia e Panfília até à Atália, um porto de mar. Contudo, antes de navegarem de Atália, “anunciaram a Palavra em Perge” a escassas milhas de distância. Foi nesta cidade que João Marcos, “deixando-os, regressou a Jerusalém”, durante a primeira parte da sua viagem. É possível que devido às circunstâncias relacionadas com a partida de João eles não tenham anunciado o Evangelho ali naquela altura, tendo assim sido constrangidos a fazê-lo agora.
Finalmente, tomando um navio em Atália os apóstolos voltaram a Antioquia da Síria, “de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido”.
Que reunião não deve ter tido com a igreja ali, quando “relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles, e como abrira aos Gentios a porta da fé!” (Vers.27). E ficaram novamente “não pouco tempo”3 com os crentes em Antioquia, (Vers.28, cf. 11:26).
Notemos bem que a sua base de operações foi Antioquia e não Jerusalém. O regresso de Paulo e de Barnabé a Antioquia, e a sua segunda prolongada estadia ali veio confirmar ainda mais, que esta obra aqui era separada e distinta daquela que o Senhor confiou aos onze após a Sua ressurreição, a qual tinha o seu quartel general em Jerusalém; que a comissão de Paulo em ir às nações já tinha começado a invalidar a chamada “grande comissão”; que Deus estava agora a abrir a porta da fé aos Gentios a despeito do facto da nação de Israel a querer fechar-lhes – na verdade, ela própria não queria entrar.
1 O uso de Paulo deste termo não é nenhuma indicação de que ele tivesse oferecido o reino, isto é, o seu estabelecimento terreno, até ao fim dos Actos, pois mesmo depois disso ele fala de se entrar, ou de se não entrar no reino de Deus (Ef.5:5). O reino está agora no céu, investido no Cristo exilado.
2 Que é incorrecto. O significado correcto é, tal como o original indica, apontar a mão, indicando aos crentes aqueles que revelavam as características de genuínos anciãos ou pastores, levando-os assim a “reconhecerem” os tais – Nota do tradutor. Cf. I Tes.5:12.
3 Os cronologistas Bíblicos estimam ter sido um período de dois a seis anos.



