Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIII - ACTOS 14:8-18

EM LISTRA

     “E estava assentado em Listra certo varão, leso dos pés, coxo desde o ventre de sua mãe, o qual nunca tinha andado.

     “Este ouviu falar Paulo, que, fixando nele os olhos, e vendo que tinha fé para ser curado.

     “Disse em voz alta: Levanta-te direito sobre os teus pés. E ele saltou e andou.

     “E as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a sua voz, dizendo, em língua licaónica: Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e desceram até nós. 

     “E chamavam Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo, porque este era o que falava.

     “E o sacerdote de Júpiter, cujo templo estava em frente da cidade, trazendo para a entrada da porta toiros e grinaldas, queria, com a multidão, sacrificar-lhes.

     “Ouvindo, porém, isto, os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram os seus vestidos, e saltaram para o meio da multidão, clamando,

     “E dizendo: Varões, porque fazeis essas coisas? Nós, também, somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades, ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto há neles;

     “O qual, nos tempos passados, deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos.

     “E, contudo, não se deixou a Si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações.

     “E, dizendo isto, com dificuldade impediram que as multidões lhes sacrificassem”. - Actos 14.8-18.


A CURA DO COXO

     Nada é dito acerca dos apóstolos entrarem em qualquer sinagoga em Listra. É-nos simplesmente dito que eles “fugiram para Listra e Derbe”, e que eles “ali pregavam o Evangelho” (Vers.6,7). Nem lemos de qualquer obra ser feita entre os Judeus ali. A moldura é totalmente pagã.

     Provavelmente não haviam Judeus suficientes na cidade pata terem uma sinagoga. Contudo não podemos dizer que não haviam nenhuns Judeus presentes, pois veremos já que um dos mais salientes futuros cooperadores de Paulo foi ganho para Cristo aqui nesta altura.

     Quando Paulo pregou o Evangelho em Listra, ele não podia ajudar, mas pôde reparar num dos seus ouvintes1 que escutava com particular interesse. Tratava-se dum coxo que era incapaz de andar desde o nascimento, e quando Paulo olhou atentamente para ele, percebeu que ele tinha fé para ser curado.

     Não é estranho ele ter concluído das palavras de Paulo que podia ser curado, pois devemo-nos lembrar que a nação de Israel ainda não tinha sido posta de parte completamente, e a era Pentecostal ainda não tinha conhecido o seu ocaso. O apóstolo contou naturalmente aos seus ouvintes o que tinha ocorrido recentemente: como Cristo tinha vindo à terra como Messias de Israel, as maravilhas que Ele operara e como fora rejeitado, mesmo depois de ter ressuscitado de entre os mortos e de ter operado ainda maiores milagres do Seu exílio no Céu – tudo isto, certamente, como um preâmbulo à sua mensagem especial de salvação pela graça por meio da fé.

     Assim, percebendo o desejo do homem e a sua fé na cura, o apóstolo dirigiu-se-lhe pessoalmente, dizendo em voz alta: “Levanta-te direito sobre os teus pés”. E imediatamente ele se ergueu sobre os pés e começou a andar.


OS LISTRIANOS SUPÕEM QUE PAULO E BARNABÉ SÃO DEUSES

     Foi um acontecimento admirável um indivíduo que nunca tinha dado um passo de repente erguer-se sobre os seus pés e começar a andar. O efeito que isso causou aos Listrianos foi instantâneo.

     Quando eles viram o que tinha sido feito, “Levantaram a sua voz ... em língua lacaónica”. Embora tivessem compreendido Paulo em Grego, eles agora fizeram aquilo que é tão natural quando a excitação atinge o ponto: ergueram as suas vozes e retroverteram para a sua língua nativa.

     As pessoas de Listra não eram idólatras do tipo dos da cultura Grega. Eles eram pagãos rudes, nada sofisticados. A restauração miraculosa do coxo convenceu-os de que o poder sobrenatural estava em acção, mas não conheciam o Deus verdadeiro que se tinha manifestado em carne para os salvar. Na sua cegueira pagã, pelo contrário, eles suponham que Paulo e Barnabé eram deuses que tinham descido a eles com a aparência de homens. Isto era o que eles exclamavam uns aos outros “em língua lacaónica” quando chamaram a Barnabé Júpiter, o suposto pai dos deuses e dos homens,2 e a Paulo Mercúrio, o suposto mensageiro dos deuses, “porque este era o que falava”.

     Pelos versículos 14,15 vê-se claramente que Paulo e Barnabé não compreenderam o que os Listrianos estavam a dizer. Decerto que se tivessem compreendido, eles teriam objectado imediatamente e provavelmente, a adoração do versículo 13 não teria sido tentada. Assim, os apóstolos ficaram evidentemente muito surpreendidos quando os Listrianos procuram oferecer-lhes sacrifícios.


A TENTATIVA DE OFERTA DE SACRIFÍCIOS AOS APÓSTOLOS

     Do registo parece que Paulo e Barnabé tinham saído da multidão retirando-se para os seus aposentos ou para algum outro lugar privado, ou talvez que por alguma outra razão a multidão os privou deles por bastante tempo. De qualquer modo, o sacerdote de Júpiter, cuja imagem ou templo se erguia à entrada da cidade,3 trouxe touros e grinaldas, e queria oferecer sacrifícios juntamente com o povo.

     Uma vez que o registo fala de “touros e grinaldas” no plural, concluímos que houve pelo menos dois, de modo a que os sacrifícios pudessem ser oferecidos tanto a Júpiter como a Mercúrio: Não é estranho que o sacerdote de Júpiter oferecesse estes sacrifícios, uma vez que aos olhos deles, Júpiter ocupava um nível mais elevado. Se “a entrada da porta” se referia à dos aposentos dos apóstolos (cf. Actos 10:17) ou se era a entrada da cidade, ou dum templo dedicado a Júpiter, talvez seja difícil de determinar com precisão, mas uma vez que “Júpiter ... estava em frente da cidade” depreendemos que a entrada da porta da cidade é a entrada aludida e que os sacrifícios seriam oferecidos à entrada da cidade, onde a estátua ou o templo de Júpiter se situava.

     A extrema repugnância do simples pensamento dos apóstolos poderem ser adorados como deuses – e assim usurparem o lugar de Deus  - é visto no registo do que eles fizeram e disseram ao tomarem conhecimento do que estava a ocorrer.

      “Rasgaram os seus vestidos” – “saltaram para o meio da multidão” – “clamando” – “Porque fazeis estas coisas?” – “anunciamos que vos converteis dessas vaidades”.

     Vemos aqui comparativamente que nosso bendito Senhor era Deus, manifestado em carne, pois ele aceitou a adoração de homens sem a isso se ter oposto. Contudo, Paulo e Barnabé revoltaram-se naturalmente ao serem adorados, protestando: “Nós também somos homens como vós, sujeitos ás mesmas paixões”. Entre os que têm visto o carácter distinto do ministério de Paulo e se têm regozijado na mensagem que ele proclamou, há alguns que têm ido a extremos, supondo que depois da sua conversão ele foi praticamente perfeito; que ele não errou em nada. Os tais devem pelo menos aceitar o seu próprio testemunho registado nesta passagem e a sua confissão inspirada em Rom.7:18,19: “Porque eu sei que em mim, isto é na minha carne, não habita bem algum ... Porque não faço o bem que quero, mas, o mal que não quero, esse faço”.4

     Por estes pagãos idólatras terem-no adorado e a Barnabé, o apóstolo não citou passagens da lei nem dos profetas: Ele simplesmente apelou para eles se “converterem daquelas vaidades ao Deus vivo”, o Criador e Sustentador de tudo. Os deuses deles eram meros ídolos – e pior: por detrás deles encontravam-se espíritos maus que recebiam adoração que os supersticiosos pagãos prodigalizavam.5

     “Nos tempos passados”, diz o apóstolo6o Deus verdadeiro, “deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos” (vers.16). A palavra gentes aqui (Gr. Ethnos) é geralmente traduzida por Gentios ou pagãos, como distintos dos Judeus, e refere-se às nações estranhas ao concerto de relacionamento com Deus: todas as nações excepto Israel. Decerto que não inclui aqui Israel, pois a eles foi-lhes entregue a lei e receberam ordens para andarem no caminho de Deus. Foram os Gentios que, desde Babel, tinham sido entregues a uma mente reprovada, uma vez que eles “não se importaram de ter conhecimento de Deus” (Rom.1:24,28).

     Mas isso aconteceu “nos tempos passados” diz o apóstolo. “Agora anunciamo-vos que vos convertais dessas vaidades a Deus”. Poderia haver algum testemunho mais poderoso do que o facto de Deus ter de novo começado a operar entre os Gentios? (cf. Actos 17:30). 

     Na verdade, apesar de tudo Deus, por meio da criação, tinha continuado a testemunhar aos Gentios acerca do Seu “eterno poder e Divindade” providenciando para eles comida e enchendo os seus corações de alegria,7 de tal modo que eles estavam “sem desculpa” por se gratificarem naquelas “vaidades (vers.16,17; cf. Rom.1:19,20) e agora deviam, sem demora, voltar-se para Deus (cf. I Tes.1:9).

     “E, dizendo isto, com dificuldade impediram que as multidões lhes sacrificassem" (Vers.18).

     É de supor que aquelas multidões agora tenham sido deixadas com um profundo sentimento de gratidão para com os apóstolos, ou pelo menos de respeito para com eles. Porém a natureza humana é volúvel, inconstante e traiçoeira.


1 Da forma verbal “ouvir”, depreende-se que provavelmente era um assistente regular dos discursos de Paulo. 

2 Talvez porque ele fosse o mais velho e mais venerável na aparência.

3
 O “cujo” do vers.13 refere-se a Júpiter e não ao sacerdote.

4 Outros têm argumentado que nós deveríamos “deixar Romanos 7 entrando em Rom.8” e vivermos “a vida vitoriosa”, mas os tais deveriam lembrar-se que Rom.7 e 8 foram escritos do mesmo assento – não se encontrando sequer separados por capítulos, no original.

5 O Salmo 82 é dirigido aos espíritos maus. Ef. 2:2 e 6:12 também se referem a eles.

6
 Nós achamos que as palavras em causa registadas são as de Paulo uma vez que, como sempre, ele “era o que falava”.

7 Esta bela figura de discurso descreve o sentimento de bem-estar que resulta de se ser bem alimentado. E num notável combinação cheia de tacto e de poder argumentativo ele, juntamente com Barnabé, unem-se a eles nisto. “Enchendo os nossos corações “ (Versão Revista Americana), diz ele, “de mantimento e de alegria”. Isto seria mais apto a ganhá-los e ao mesmo tempo impedi-los de o adorarem a ele e a Barnabé.

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