Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIII - ACTOS 14:1-7 (Cont.)
UMA CHAMADA À OUSADIA
Quase todas as perseguições dos Actos tiveram como origem as hostilidades dos Judeus. Provavelmente o caso de Demétrio (Actos 19:24) é uma excepção.
Em Icónio os Judeus incrédulos instigaram os Gentios, envenenando as suas mentes contra os crentes. Contudo, Paulo e Barnabé reconheciam a sua responsabilidade para com aqueles que tinham abraçado a verdade e para com aqueles que o poderiam fazer, e permaneceram corajosamente entre eles. Na verdade, da fraseologia do Vers.3 parece que eles tomaram a oposição dos Judeus como uma chamada à ousadia; um desafio para tornar a verdade conhecida onde ela estava a ser deturpada: “Detiveram-se, pois, muito tempo falando ousadamente acerca do Senhor ...” 1
Esta ousadia consistia numa proclamação directa – ainda que não completa – do Evangelho da graça de Deus por meio de Cristo quando comparado com o Judaísmo, ou mesmo com o Cristo doJudaísmo, dos crentes em Jerusalém (cf. Actos 13:38,39; 21:20). E isso é tão evidente que o Senhor “dava testemunho à Palavra da Sua graça, permitindo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios” (Vers.3).
Mas, pode ser perguntado, porque é que o Senhor quis dar testemunho “à Palavra da Sua graça” por meio de sinais e maravilhas? Nós cremos que a resposta é tripla, centrando-se à volta do facto de que Deus estava apenas a começar a tornar conhecida a mensagem da graça. Primeiro, os sinais miraculosos eram as credenciais de apostolado (II Cor. 12:12). Segundo, aqueles sinais foram operados primariamente por amor dos Judeus que os reconhecê-los-iam como prova de sanção divina (I Cor.1:22; Actos 15:12). Terceiro, foram operados, enquanto as esperanças do reino de Israel ainda não tinham sido oficialmente retiradas, “para obediência dos Gentios” (Rom.15:18,19). Esta última razão não contradiz I Cor.1:22, pois ali, em contraste com os Judeus, que requerem sinal, é dito que os “Gregos buscam sabedoria”. Os Gregos, intelectualmente, eram o mais elevado tipo de Gentios.
Assim o ministério dos apóstolos em Icónio continuou até que toda a cidade ficou dividida, uma parte unindo-se aos Judeus incrédulos e a outra parte a Paulo e a Barnabé. Assim a verdade causa divisão onde quer que ela seja apresentada, e os que diluem a mensagem entregue por Deus para que ela não cause divisão são simplesmente infiéis à Sua chamada, pois o nosso adversário opõe-se sempre à pregação da verdade. O Senhor Jesus e o apóstolo Paulo foram provavelmente os maiores “causadores de divisões” de toda a história, mas crentes débeis condenam frequentemente homens de Deus fiéis porque a pregação deles causa divisão. Na realidade, certamente que, não é a verdade mas a incredulidade nos corações de alguns que causa a divisão.
PAULO E BARNABÉ FOGEM PELAS SUAS VIDAS
A versão Autorizada Americana traduz “motim” por “assalto”. Se tivesse havido um assalto real ter-se-ia tornado supérfluo dizer que eles o sabiam (“sabendo-o eles”). A palavra significa, literalmente, um tropel, e significa um movimento violento ou uma acção impetuosa.
O que quer dizer é que houve sem dúvida um forte movimento da parte “dos Gentios, com os seus principais, para os insultarem e apedrejarem”.
O termo “insultarem”, no original, é muito forte, significando ultraje, afronta. Paulo usa a mesma raiz a respeito da sua própria vida antes da conversão em I Tim.1:13, onde é traduzida por “blasfema”, ou “injurioso”, e nós sabemos quão lubricamente ele perseguiu os seguidores do Messias (Ver Actos 8:3; 9:1,2). Em Icónio, então, houve um forte movimento apeado para insultar e ultrajar Paulo e Barnabé e apedrejá-los onde a hostilidade dos Judeus é de novo patenteada, pois o apedrejamento era uma forma de execução Judaica.
Foi quando Paulo e Barnabé se inteiraram de tudo isto que “fugiram para Listra e Derbe”. Seria uma loucura continuar em Icónio pois no mínimo dos mínimos o seu ministério público terminaria se eles permanecessem. Assim fugiram para Listra e Derbe e “ali pregavam o Evangelho”.
É tocante ver estes grandes homens forçados a fugirem pelas suas vidas, e emocionante e inspirador vê-los imediatamente a pregarem o Evangelho noutro lugar! Uma tal coragem provém de mais que um mero sentido de dever. O próprio Paulo diz que é oriunda duma grande apreciação do amor de Cristo, “Porque o amor de Cristo nos constrange”.



