Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXII - ACTOS 13:44-52
PAULO VOLTA-SE PARA OS GENTIOS
“E, no sábado seguinte, ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a Palavra de Deus.
“Então os Judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja, e, blasfemaram, contradiziam o que Paulo dizia.
“Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era necessário que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e vos não julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os Gentios.
"Porque o Senhor assim no-lo mandou; Eu te pus para luz dos Gentios, para sejas de salvação até aos confins da terra.
“E os Gentios, ouvindo isto, alegraram-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.
“E a Palavra do Senhor se divulgava por toda aquela província.
“Mas os Judeus incitaram algumas mulheres religiosas e honestas, e os principais da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fora dos seus termos.
“Sacudindo, porém, contra eles o pó dos seus pés, partiram para Icónio.
“E os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo”. - Actos 13: 44-52.
A HISTÓRIA DE BARJESUS RESTABELECIDA
E agora a história de Barjesus prova ter sido representativa da situação então existente quando é estabelecida numa maior escala. Os Gentios pedem para ouvir a Palavra de Deus. Os Judeus, invejosos da sua própria posição, procuram desviá-la deles. Os Judeus, por conseguinte, são entregues a juízo, enquanto que os Gentios recebem a verdade e se regozijam nela.
O facto de no sábado seguinte quase toda a cidade se ter reunido para ouvir Paulo, suporta a tradução do Vers. 42 da Versão de Almeida, em como foram os Gentios tementes a Deus na sinagoga que pediram a Paulo para se dirigir a eles. A reunião de quase toda a cidade foi evidentemente resposta ao anúncio de que ele o faria.
A OPOSIÇÃO JUDAICA
Contudo, como era costume, isto atiçou a inimizade dos Judeus. Ao dirigir-se a eles na sua sinagoga. Paulo, com poucos Gentios presentes, era uma coisa, mas ao dirigir-se a uma enorme multidão Gentílica era outra. Esquecendo-se de que eram os agentes, não apenas os objectos, das bênçãos de Deus, encheram-se de inveja ao verem aquela grande multidão. Tinha sido desde há muito esta, a atitude deles no que aos Gentios dizia respeito. (Ver Lucas 4:27,28; Actos 21:29-31; 22:21,22).
E agora, assim como Barjesus fez no caso de Sérgio Paulo, os Judeus procuraram desviar os Gentios da fé, contradizendo “o que Paulo dizia” e blasfemando.
O eles contradizerem e blasfemarem constituiu um caso particularmente sério à luz do aviso do Senhor de que todo o que blasfemasse ou falasse contra Ele poderia ser perdoado, mas todo aquele que blasfemasse ou falasse contra o Espírito Santo nunca seria perdoado, nem naquele século, nem no futuro (Mat. 12:31,32). Certamente que aquilo não era porque o Espírito Santo era um membro da Trindade mais importante que o Pai ou o Filho, mas simplesmente porque o Espírito Santo era o Terceiro membro da Trindade a tratar com eles. Eles tinham rejeitado o Pai no Velho Testamento. Depois o Pai enviou o Filho e eles rejeitaram-NO, contradisseram-NO e blasfemaram d’Ele. Agora o Filho iria enviar o Espírito Santo e, “Cuidado”, diz o Senhor, pois “se o contradisserdes ou blasfemardes d’Ele, nunca sereis perdoados”.
O Espírito Santo veio em Pentecostes, confirmando poderosamente o testemunho dos apóstolos a respeito de Cristo, mas os incrédulos Judeus, especialmente os líderes, opuseram-se amargamente, contradizendo e blasfemando. Agora, aqui em Antioquia na Pisídia, encontramo-los a fazer a mesma coisa. Mais tarde, em Corinto os Judeus “resistiram e blasfemaram” (18:6) de novo, e apesar desta fraseologia preciosa não ser sempre usada, é o que os encontramos a fazer desde Jerusalém a Roma. Foi assim que aquela geração rebelde em Israel cometeu o pecado imperdoável, nunca perdoado. Contudo, como nação, Israel é tipificada por Barjesus que foi cego “por algum tempo” (Actos 13:11 cf. Rom. 11:25,26).
Face à amarga oposição dos Judeus, à proclamação da verdade por Paulo, e à avidez dos Gentios em a receber, não havia senão um caminho a tomar; deveriam voltar-se ousadamente dos Judeus para os Gentios. Deveriam trazer o Evangelho aos Gentios a despeito do facto dos Judeus o terem rejeitado. E isto harmonizava perfeitamente com o propósito há muito escondido pelo qual Deus levantou Paulo, pois como poderia o propósito revelado de Deus de abençoar os Gentios por meio da multiplicada semente de Abraão ser cumprido por intermédio desta geração da semente de Abraão, que rejeitou Cristo e se encheu de inveja quando os Gentios revelaram interesse n’Ele?
Assim chegamos agora a um outro desvio do programa profético, tão claramente patenteado que nos admiramos como pode ser possível não o ver. Examinaremos cuidadosamente a passagem:
“Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: ERA NECESSÁRIO QUE A VÓS SE VOS PREGASSE PRIMEIRO A PALAVRA DE DEUS ... “ (Actos 13:46).
Assim, para que possamos compreender plenamente a declaração dos apóstolos, perguntemos primeiro: Porque seria necessário que a Palavra de Deus fosse primeiro pregada aos Judeus? A resposta é, porque segundo o concerto Abraâmico e toda a profecia, eles deveriam ser os canais de benção para os Gentios. Pedro, na sua mensagem Pentecostal, tinha tornado isso muito claro, ao dizer aos “varões Israelitas”:
“Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com os nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
“Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Actos 3:25,26).
Então era necessário pregar primeiramente a Palavra de Deus aos Judeus, porque de acordo com o concerto e com a profecia eles deveriam ser o canal por meio do qual Deus abençoaria os Gentios. Mas continuemos com a declaração de Paulo aos Judeus em Antioquia:
“Era necessário que a vós se vos pregasse primeiro a Palavra de Deus, MAS ...”
Não indicará este “mas” uma mudança no programa, um desvio (ainda que um desvio temporário) do procedimento resumido na profecia?
Indicará isso que Deus foi forçado a alterar os Seus planos devido à rejeição a que Israel votou Cristo? De modo algum, pois o apóstolo informa-nos – e prova-o – que este desvio do Seu programa profético tinha sido planeado, mas guardado em segredo, “desde antes da fundação do mundo” (Ef. 1:4; 3:1-11; Col. 1:24-27).
Significará então isso que Deus não podia conservar ou não cumpriria a Sua palavra? De modo algum. Primeiro, este mesmo Paulo, pelo Espírito, insiste que todo o Israel ainda será salvo e as promessas do concerto serão cumpridas (Rom. 11:25-28). Assim o desvio do programa profético prova ser apenas temporário sendo somente uma interrupção do mesmo. Segundo, esta geração da semente de Abraão falhou em não se tornar uma bênção para os Gentios, não devido à infidelidade de Deus para com eles, mas devido a eles próprios terem recusado aceitar a bênção para si. Paulo é mais enfático quanto a isto, quando diz:
“MAS, VISTO QUE A REJEITAIS, E VOS NÃO JULGAIS DIGNOS DA VIDA ETERNA, EIS QUE NOS VOLTAMOS PARA OS GENTIOS”.
Esta passagem perdeu alguma força na tradução. A palavra “rejeitais” no original envolve, associada a ela, o pensamento de violência. Enquanto os Gentios desejavam vivamente a verdade, os Judeus tinham-na rejeitado violentamente. Também as palavras “vos não julgais dignos” significam que pela sua oposição violenta à Palavra de Deus e pela sua blasfémia contra ela eles tinham “passado sentença sobre si mesmos” de que eram “indignos” da vida eterna. A palavra “indignos” é forte, tendo associada a si o pensamento de vileza e desonra. Finalmente a exclamação “eis” confirma o facto de que algo de sensacional está a ocorrer quando Paulo anuncia que ele se voltará dos Judeus para os Gentios.
Os que ainda questionam que temos aqui um desvio do programa profético deveriam cuidadosa e francamente responder às seguintes questões. A salvação aqui está a ser enviada aos Gentios porque Israel aceitou Cristo, ou porque O rejeitou? Vai para os Gentios na base do concerto Abraâmico ou por graça? Vai segundo a profecia ou segundo o mistério?
Não há senão uma resposta para cada uma destas questões. Paulo em Antioquia da Pisídia desviou-se da linha profética e fez algo nunca profetizado pois a bênção dos Gentios por meio da rejeição de Israel a Cristo nunca é predita nas Escrituras proféticas (Ver Rom. 11:11,12,15,25,32,33).
Temos aqui o âmago daquilo a que Paulo por toda a parte denomina como “o mistério” – Deus enviando salvação e bênção aos Gentios por meio de Cristo a despeito da falha do Seu povo, na verdade, por meio da sua queda. (Rom. 11:11-15). Deus não foi surpreendido com a falha humana. O que parecia um obstáculo provou não ser senão o meio pelo qual Ele introduziu o Seu propósito e graça eternas.
A respeito deste mistério precioso o Dr. H. A. Ironside disse:
“Possamos nós entrar mais plenamente naquilo que é tão precioso para o Seu grande coração de amor” (Mysteries of God – Mistérios de Deus, P. 60).
“Os ministros de Cristo devem ser despenseiros dos mistérios de Deus, e não meramente pregadores do que as pessoas tantas vezes chamam de ‘o simples Evangelho’” (Ibid., P.15).
E William R. Newell acrescentou o seu testemunho:
“Tenhamos graça para defendermos vigorosamente esta grande mensagem hoje, quer dos seus inimigos, quer dos seus reais amigos que ainda a não vêem claramente; que, como Pedro (Gál. 2), por temer os outros, são propensos a comprometer e a modificar o Evangelho do Cristo” (Paul vs. Peter – Paulo versus Pedro, P.15).
E a respeito da ignorância geral acerca desta preciosa verdade, o Dr. Ironside escreveu de novo:
“Sem dúvida que o peso da vergonha jaz sobre os guias que, professando ser ministros de Cristo, são tudo menos despenseiros dos mistérios de Deus” (Mysteries of God – Mistérios de Deus, Pp.17,18).
Tivessem estes homens continuado nestas verdades e conduziriam a Igreja “mais plenamente ... naquilo que é tão precioso para o Seu grande coração de amor”.
Mas pode ser perguntado: Se temos aqui um desvio da profecia, porque é que Paulo acrescenta:
“PORQUE O SENHOR ASSIM NO-LO MANDOU: EU TE PUS PARA LUZ DOS GENTIOS, PARA QUE SEJAS SALVAÇÃO ATÉ AOS CONFINS DA TERRA” (Actos 13:47).
O apóstolo aqui não significa que os Gentios agora passam a receber a salvação segundo o programa resumido na profecia, pois ele tinha precisamente acabado de anunciar um desvio nesse programa. A bênção dos Gentios por meio de Israel terá de esperar por um dia ainda futuro.
Paulo simplesmente salienta aqui que Deus “pôs” Cristo para ser “uma luz para os Gentios” e “para salvação até aos confins da terra” e que Ele o seria, não obstante a rejeição de Israel. Uma vez que Israel recusou ser o canal de benção para as nações Deus agora abençoaria as nações directamente por meio de Cristo, aparte de Israel, e Paulo tinha sido “mandado” a proclamar este facto.
É verdade que este incidente em Antioquia da Pisídia não foi senão uma questão local, mas todavia era representativa. À nação de Israel tinha sido oferecido em cumprimento da promessa a Abraão, o elevado privilégio de ser o canal através do qual todas as nações da terra seriam abençoadas. Quando Israel rejeitou essa oferta, a salvação e a bênção foram enviadas aos Gentios simplesmente por graça, por meio da obra consumada de Cristo, e a nação de Israel, como Barjesus, ficou cega. Paulo tinha avisado os seus ouvintes na sinagoga Pisidiana para que tivessem cuidado que não viesse sobre eles o que já tinha começado a vir à nação como um todo. Mas eles não deram ouvidos ao aviso e, como os seus líderes, ficaram sem desculpa.
Os Gentios ficaram alegres por Paulo e Barnabé terem vindo a eles com o Evangelho e muitos deles foram genuinamente salvos. Na verdade, a verdade adquiriu tamanha raiz que foi “divulgada por toda aquela província” (Vers. 49). Contudo os Judeus moveram tal oposição e perseguição contra Paulo e Barnabé que eles foram finalmente forçados a deixar aquela região e a ir para Icónio, sacudindo primeiro o pó dos seus pés contra os seus perseguidores, como sinal de que a responsabilidade pela sua atitude era completamente deles e de que Deus julgá-los-ia pela sua rebelião (cf. Mat. 10:14,15, Marcos 6:11; Lucas 9:5).
Esta perseguição em Antioquia da Pisídia é sem dúvida aludida em II Tim. 3:11, onde o apóstolo escreve acerca de “perseguições e aflições tais quais me aconteceram em Antioquia em Icónio, em Listra: quantas perseguições sofri, e o Senhor de todas me livrou”.
Mas o Senhor não é apenas poderoso para libertar da aflição; Ele também é fiel para ajudar na aflição. Os discípulos que Paulo foi forçado a deixar para atrás ficaram longe de desanimados. Pelo contrário, “estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (Vers. 52). É sempre uma alegria sofrer por Cristo. Anteriormente os apóstolos da circuncisão em Jerusalém, ao serem açoitados da forma mais cobarde “retiraram-se, pois, da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus” (Actos 5:41). Mais tarde os Tessalonicenses “receberam a palavra em muita tribulação com gozo do Espírito Santo” (I Tes. 1:6). Na verdade, o apóstolo Paulo diz, pelo Espírito:
“Porque a vós vos foi CONCEDIDO, em relação a Cristo, não somente crer N’Ele como, também, PADECER POR ELE” (Fil.1:29).
Ele chama ao nosso presente sofrimento por Cristo “a comunhão dos Seus sofrimentos” e anela experimentá-los (Fil.3:10) “regozijando-se” neles porque são o cumprimento daquilo que ainda permanece das aflições de Cristo (Col.1:24).
Que pensamento abençoado! Apesar de Cristo ainda continuar a ser “rejeitado, pelos homens”, Ele ainda recusa em os julgar, e em graça permanece exilado no Seu Exílio Real, enviando-nos a nós, Seus embaixadores, a proclamar a reconciliação, e o leve sofrimento que suportamos é o Seu sofrimento – aquilo que ainda permanece das Suas aflições como o Cristo rejeitado. Quão doce é a comunhão dos Seus sofrimentos!



