Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXII - ACTOS 13:38-41
A EXORTAÇÃO FINAL DE PAULO
“Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia a remissão de pecados.
“E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que nele crê.
“Vede, pois, que não venha sobre vós o que está escrito nos profetas.
“Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; porque opero uma obra nos vossos dias, obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar”. - Actos 13:38-41.
As palavras finais de grandes mensagens são muitas vezes as mais importantes de todas – e isso é precisamente o que acontece nesta mensagem. As palavras finais eram a conclusão para a qual o apóstolo caminhava desde o princípio, e mostram, clara e enfaticamente, com precisão, o que ele desejava que eles conhecessem.
Nós vemos a lei e os profetas serem referidos tanto no princípio como no fim desta reunião na sinagoga (Vers. 15,39,40).
No princípio a lei e os profetas são lidos e é perguntado a Paulo e a Barnabé se eles têm alguma palavra de exortação para o povo. Paulo tem uma palavra de exortação tanto da lei como dos profetas. Depois de mostrar como o Salvador, embora crucificado e rejeitado pelo Seu povo, se encontra de novo vivo, ele exorta os seus ouvintes dizendo que: Por meio de Cristo podem gozar o PERDÃO de pecados, pois POR ELE todos os que CRÊEM, são JUSTIFICADOS DE TODAS AS COISAS das quais eles NÃO poderiam ser justificados pela LEI DE MOISÉS.
E a isto o apóstolo acrescenta uma exortação final para que não desprezem a graciosa oferta, ao recear que eles se situem na posição de Israel rejeitando Cristo. “Vede pois que não venha sobre vós” ou, “que não vos encontreis na situação” daqueles a quem Deus agora fala da mesma forma como Ele falou em Hab.1:5 (embora a respeito dum assunto diferente).
Quão aplicáveis eram as palavras de Hab.1:5 à situação de Israel nesta altura! Eles tinham desprezado a benignidade de Deus e agora Deus estava a fazer uma obra que eles não podiam crer. Com efeito eles disseram: “Mas Ele NÃO pode salvar os Gentios sem nós! Então, e todas as promessas do Velho Testamento?” Ainda assim e apesar disso Ele estava a abençoar os Gentios sem eles – por meio de Cristo que eles tinham rejeitado, e eles só podiam “Ver ... e espantarem-se e desaparecer (ou morrer)”. Paulo agora exorta, especialmente os seus ouvintes Judeus para que se acautelem afim de que aquilo não venha sobre eles.
E assim o apóstolo, guiado pelo Espírito, usou a oportunidade para exortar os seus ouvintes tanto acerca da lei como dos profetas. Acerca da lei: “Não confieis na lei; confiai em Cristo”. Acerca dos profetas: “Não desprezeis o convite gracioso”.
Quão impressionante a diferença entre a primeira mensagem registada de Pedro, anunciada em Jerusalém, em Pentecostes, e a primeira mensagem registada de Paulo, anunciada nesta sinagoga da Pisídia!
Pedro tinha instado com Israel e com os seus líderes para que se arrependessem e aceitassem Cristo. Paulo diz agora a este grupo de Judeus dispersos e aos Gentios tementes a Deus: “Eles rejeitaram Cristo; Vós aceitai-O, para que não participeis da sua condenação”. Pedro tinha declarado que Deus ressuscitara Cristo de entre os mortos para O sentar no trono de David (Actos 2:29-31). Paulo declara agora que Deus ressuscitou Cristo de entre os mortos para que por meio d’Ele os homens pudessem receber justificação pela fé sem a lei (Actos 13:38,39). A presente esperança do estabelecimento terreno do reino desvanece-se e a dispensação da graça desponta.
Mas a diferença mais importante é vista nas duas conclusões.
O registo da mensagem Pentecostal de Pedro a “toda a casa de Israel” termina com o pedido:
“ARREPENDEI-VOS E CADA UM DE VÓS SEJA BAPTIZADO NO NOME DE JESUS CRISTO PARA REMISSÃO DE PECADOS ... “ (Actos 2:38).
A mensagem de Paulo termina com a declaração de que
“QUE POR ESTE SE VOS ANUNCIA A REMISSÃO DOS PECADOS.
“E DE TUDO O QUE, PELA LEI DE MOISÉS, NÃO PUDESTES SER JUSTIFICADOS, + POR ELE É JUSTIFICADO TODO AQUELE QUE CRÊ” (Actos 13:38,39).
Certamente que a mensagem de Paulo, e especialmente as suas palavras finais, constituem um desvio definido do programa da profecia e da “grande comissão”. Paulo não ofereceu o reino a estas pessoas. Ele ofereceu-lhes a salvação pela graça, para que não perecessem com a nação de Israel.
Nós temos sido frequentemente acusados de ensinarmos o erro ao salientarmos que Pedro, operando sob a “grande comissão” em Pentecostes, não proclamou “o Evangelho da graça de Deus” mas “o Evangelho do reino”. Apesar disso nada menos que um erudito da Bíblia como o Dr. James M. Gray, primeiro Presidente do Moody Bible Institute (Instituto Bíblico Moody), escreveu no seu Christian Worker´s Commentary (Comentário Cristão do Obreiro):
“Pedro dirigiu-se distintamente aos Judeus, e antes que a oferta final do reino lhes fosse retirada temporariamente, e ele ofereceu perdão na base do arrependimento e baptismo. Porém, Paulo falando aos Gentios como também aos Judeus, e proclamando o Evangelho da graça, distinto do do reino, ‘introduz pela primeira vez uma verdade que Pedro nunca declarara’ (P. 352).
1 A palavra remissão em Actos 2:38 significa deixar ir, libertar, mas a palavra justificado aqui em Actos 13:38 significa ser declarado justo, um enorme progresso no que respeita à remissão.



