Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXII - ACTOS 13:16-23
A MENSAGEM DE PAULO
A HISTÓRIA DE ISRAEL RECORDADA
“E, levantando-se Paulo, e pedindo silêncio com a mão, disse: Varões israelitas, e os que temeis a Deus ouvi:
“O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais, e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egipto; e com braço poderoso os tirou dela;
“E suportou os seus costumes no deserto, por espaço de quarenta anos.
“E, destruiu sete nações, na terra de Canaan, deu-lhes por sorte a terra deles.
“E, depois disto, por quase quatrocentos e cinquenta anos, lhe deu juízes, até ao profeta Samuel.
“E depois, pediram um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, a Saúl, filho de Kis, varão da tribo de Benjamim.
“E, quando este foi retirado, lhes levantou, como rei, David, ao qual também deu testemunho, e disse: Achei David, filho de Jessé, varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade.
“Da descendência deste, conforme a promessa, levanto Deus Jesus, para Salvador de Israel.” - Actos 13:16-23.
Era uma sinagoga típica aquela em que Paulo agora se erguia para falar. Acenando com as mãos, o apóstolo apelou por ordem e pediu aos presentes que fizessem “silêncio”.
Será interessante comparar desde já a primeira mensagem registada de Paulo com a primeira mensagem registada de Pedro, pregada em Pentecostes. O sermão de Paulo incluía muito do que Pedro tinha dito em Pentecostes, mas a direcção e a conclusão não foram de modo algum as mesmas.
Para começar, Pedro pregara aos seus ouvintes: “Varões Judeus, e todos os que habitais em Jerusalém” (Actos 2:14) e terminara o seu sermão com as palavras: “SAIBA, POIS COM CERTEZA, TODA A CASA DE ISRAEL ... “ (Actos 2:36). Ele estava claramente a tratar com Israel como nação, em Jerusalém, a sede do seu governo.
Paulo não poderia dirigir-se assim aos seus ouvintes. Na verdade, quando, depois da sua conversão, ele retornou pela primeira vez a Jerusalém, o Senhor apareceu-lhe dizendo:
“Dá-te pressa, e sai apressadamente de Jerusalém; porque não receberão o teu testemunho acerca de MIM” (Actos 22:18).
Enquanto alguns supõem erradamente que as esperanças do reino de Israel foram postas de parte na cruz e que a Igreja de hoje, o Corpo de Cristo, principiou em Pentecostes com Pedro, outros supõem que Paulo, como Pedro, ofereceu durante o seu ministério nos Actos, o reino a Israel. Isto também é um erro, pois em parte alguma existe qualquer registo duma tal oferta por Paulo, embora na verdade ele tivesse confirmado o facto de que Cristo era o legítimo Rei de Israel.
Paulo não podia oferecer o reino a Israel, pois foi-lhe ordenado que saísse da capital de Israel. Como é que os Judeus numa sinagoga longínquissima da Palestina poderiam representar “a casa de Israel?” Como é que ele lhes poderia oferecer o estabelecimento do reino Messiânico? O que significaria uma tal oferta se Jerusalém e o governo de Israel persistia em rejeitar Cristo? Poderia Cristo vir reinar numa outra cidade?
Assim o apóstolo dirige-se aos seus ouvintes simplesmente como “Varões Israelitas, e os que temeis a Deus”. Mas, no ministério de Paulo, a última parte desta saudação reveste-se de maior significado que a primeira, pois a frase "os que temeis a Deus” usada como é juntamente com a frase “Varões Israelitas”, não se refere aos Judeus mas aos Gentios que, como Cornélio não se tornaram prosélitos do Judaísmo pela circuncisão, mas se uniram aos Judeus reconhecendo o Deus de Israel como o verdadeiro Deus (Ver Actos 10:1,2). Fora das Escrituras são frequentemente chamados “prosélitos da porta”, mas que eles eram Gentios e não Judeus é amplamente confirmado não somente pela comparação com o caso de Cornélio como também pelo uso do termo e pelas declarações relacionadas aqui em Actos 13 (Ver Vers. 16,26 e cf. Vers. 42,44,45). Pedro em Pentecostes não pregou assim aos Gentios (Ver Actos 10:28).
O apóstolo principia a sua mensagem salientando que em toda a história dos filhos de Israel Deus trabalhou com eles e para eles infalivelmente.
Ele escolheu os seus pais (Vers. 17).
Ele exaltou o povo quando, como estrangeiros, habitaram no Egipto (Vers. 17).
Ele tirou-os do Egipto com braço “poderoso” ou elevado (Vers. 17).
Ele criou-os e suportou-os durante as suas vagueações e murmurações no deserto como o homem cria e suporta o seu filho1 (Vers. 18).
Ele destruiu os sete inimigos em Canaan (Vers. 19; cf. Deut. 7:1).
Ele dividiu entre eles a terra de Canaan (Vers. 19).
Ele deu-lhe juízes (Vers. 20) e quando isto não os satisfez.
Ele deu-lhes um rei segundo o seu coração (Vers. 21) e quando esse rei falhou para com eles.
Ele removeu-o (Vers. 22).
Ele deu-lhes um rei segundo o Seu coração (Vers. 22).
E agora, o Deus que, na Sua fidelidade, fez tudo isto por eles, “levantou Jesus, para a salvação de Israel” (Vers. 23).
Porém em profundo contraste com a infalível fidelidade de Deus a mensagem do apóstolo revela a extrema infidelidade do Seu povo.
Como o povo favorecido, tão maravilhosamente libertado, tão extraordinariamente preservado e abençoado, correspondeu duma forma tão indigna à benignidade e bondade de Deus! Durante quarenta anos eles duvidaram, murmuraram e lamentaram-se declarando precipitada e imprudentemente que antes queriam permanecer no Egipto! Durante quarenta anos eles puseram à prova e tentaram a paciência de Moisés – e de Deus. Este período da história de Israel é chamado “o dia da tentação no deserto”:
“Onde os vossos pais me tentaram, me provaram, e viram, por quarenta anos, as minhas obras” (Heb. 3:9).
E a respeito desta geração em Israel Deus disse:
“Por isso me indignei contra esta geração, e disse: Estes sempre erram em seu coração, e não conheceram os seus caminhos” (Heb. 3:10).
Quanto ao período dos juízes, a mera menção dele por Paulo, lembraria os seus ouvintes Judaicos, como nos lembra a nós, duma frase encontrada repetidamente no registo desse tempo: “E os filhos de Israel tornaram a fazer o que parecia mal aos olhos do Senhor”. Os ouvintes de Paulo conheciam bem a constante da história de Israel sob os juízes quanto: à apostasia, à disciplina divina, aos apelos por libertação e à graciosa intervenção de Deus, em constante recurso.
Finalmente, diz o apóstolo, “pediram um rei” (Vers. 21). Certamente que isto era a rejeição da teocracia em Israel. A respeito disto Deus disse: “ ... Antes a Mim me têm rejeitado, para Eu não reinar sobre eles” (I Sam. 8:7). Contudo Deus deu-lhes um rei que eles desejavam, até que ele falhou tão lúgubre e tristemente que Deus teve de o remover. Foi então que Deus ergue David como Salvador de Israel e aquele de cuja linha real o Salvador viria. E assim o apóstolo diz:
“Da descendência deste, conforme a promessa, levantou Deus Jesus, para Salvador de Israel” (Vers. 23).
Contudo Israel aceitou o seu Salvador-Rei? Não. A monarquia começara com o apelo: “Constitui-nos um rei!” (I Sam. 8:5) e terminou com o clamor: “Não temos rei senão o César!” (João 19:15). O pedido dum rei terminou com a traição e crucificação do rei, o há muito prometido Messias. Este constituiu o maior de todos os pecados de Israel e o apóstolo agora começa a imprimi-lo no corações e consciências dos seus ouvintes, juntamente com o facto de que Deus não os abandonara, que Cristo ainda estava pronto para ser o seu Salvador se eles O quisessem aceitar.
1 A versão de Almeida falha em exprimir a beleza do original. Há uma alusão evidente a Deut. 1:31.



