Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXI - ACTOS 13:25-13:1-3 (Cont.)

QUANDO PRINCIPIOU A PRESENTE DISPENSAÇÃO?

     Muitos ensinadores bíblicos capazes crêem que o Corpo, ou a nova dispensação, teve o seu início histórico na passagem que aqui temos estado a considerar (Actos 13). Geralmente falando, sustentam este ponto de vista tendo por base o facto de Paulo ter sido separado aqui para iniciar o seu ministério Gentílico, da fraseologia indicar o começo dum novo programa, e do nome de Saulo ter sido mudado para Paulo em relação ao incidente para o qual todos os dispensacionalistas olham como dispensacionalmente significante.

     Contudo, à luz do contexto bíblico não temos sido convencidos de que estes argumentos sejam válidos ou, mesmo correctos, na sua maioria.

     Primeiro, esta passagem diz tanto acerca do princípio do Corpo e duma nova dispensação quanto Actos 9. De facto já salientámos nada menos que oito desvios significantes da velha dispensação antes de Actos 13.

     Depois, Paulo não foi aqui separado para principiar o seu ministério Gentílico. Ele já tinha trabalhado há um tempo considerável entre os Gentios nesta cidade pois, como mostrámos, a palavra “Gregos” na nossa versão de Actos 11:20 é “Gregos” (Gentios) e não “Judeus Gregos” como muitos pensam. O contexto mais lato confirma amplamente isto, pois foi esta igreja que os Judaízantes procuraram colocar debaixo da lei (15:1) e cuja liberdade como um corpo de Gentios Paulo foi a Jerusalém defender (Actos 15:1-3; 7:10,13-19,23-31).

     Depois ainda, esta “separação” de Saulo não foi a sua chamada como apóstolo ou ministro entre os Gentios. Ele já tinha sido chamado ao ministério pela “revelação de Jesus Cristo” (Actos 26:16-18; 22:17-25; Gál. 1:11,12). Esta “separação” não foi senão o Espírito a guiar a igreja em Antioquia para consagrar à “obra” para a qual ele tinha já sido chamado, isto é, ir aos “Gentios de longe”. Paulo, como os doze, foi designado apóstolo pelo Senhor Jesus Cristo, e não primariamente pelo Espírito Santo. Na realidade, uma comissão pessoal por Cristo era o pré-requisito do apostolado (Rom. 1:5; I Cor.9:1).

     Porém, a mera citação de Actos 13:2 trás à nossa mente uma outra questão pertinente: Se esta passagem assinala o começo da nova dispensação introduzida por Paulo; a dispensação da qual ele, proeminentemente é apóstolo, porque é que ele não é mencionado ou porque é que pelo menos não lemos: “Apartai-me a Paulo e a Barnabé (como seu adjutor)” em vez de : “Apartai-me a Barnabé e a Saulo”?

     Esta passagem não se refere apenas a Paulo, ou até mesmo a Paulo e a Barnabé, como se depreende de muitos comentários. A passagem diz: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo”. Foi Barnabé quem primeiro trouxe Saulo ao ministério entre os Gentios (Actos 11:25,26) e “Barnabé e Saulo” são de novo referidos nessa ordem até Actos 13:13, onde lemos de “Paulo e os que estavam com ele”. Contudo, duas vezes em Actos 14 e também duas vezes em Actos 15, encontramos “Barnabé e Paulo” com Barnabé mencionado novamente em primeiro lugar. Por conseguinte, não cremos que a fraseologia desta passagem indique que uma nova ordem ou dispensação esteja a ser aqui introduzida.

     Mais ainda, nós não lemos que o nome de Saulo tivesse sido mudado para Paulo. Se tivesse sido, e a mudança significasse uma mudança de dispensação, então, parece-nos, que teria sido mudado para Paulo, e Paulo teria sido mencionado só, ou pelo menos em primeiro lugar, no versículo 2, onde o “Apartai-me” é também suposto significar a introdução da nova dispensação. Mas é no versículo 9, depois de “Barnabé e Saulo” já terem principiado o seu ministério em Pafos, que lemos que Saulo “também se chamava Paulo”. É inteiramente possível ele ter sido chamado Paulo desde a sua juventude pelos Gregos e Gentios pois, lembremo-nos, ele era um cidadão Romano.

     O facto de, a partir de Actos 13.9 em diante Lucas, pelo Espírito, o chamar Paulo e desde há muito o seu nome preceder constantemente os de Barnabé e de Silas, quando é mencionado juntamente com o deles, certamente que é significativo, mas não necessariamente significativo no que diz respeito ao início histórico do Corpo de Cristo, pois nenhum daqueles factos aconteceu quando ele foi “apartado” da igreja em Antioquia. O que tudo isto significa é simplesmente a ascendência de Paulo sobre os outros, como ministro de Deus para os Gentios.

     Nós cremos que a conversão e a chamada ao apostolado de Paulo assinala o início1 da nova dispensação e do Corpo de Cristo. Nós cremos que a sua conversão é o lugar natural, lógico e Escriturístico para o seu início, pelas seguintes razões:

     1. Assim como os doze apóstolos representavam as doze tribos de Israel assim também Paulo, como um apóstolo, representa o Corpo de Cristo, cuja singularidade é constantemente enfatizada nas Escrituras (Rom. 12:5; I Cor. 12:13; Ef. 4:4, e etc).

     2. Isto é especialmente uma vez que Paulo, como o Corpo, era dois num. Ele era Hebreu e Romano (e intensamente ambas as coisas) numa só pessoa ( Fil. 3:5; Actos 16:37; 21:39; 22:25,28; 25:9,11). Além disso ele era um inimigo, reconciliado com Deus pela abundante graça. Nisso ele é o representante natural do Corpo unido, composto de Judeus e Gentios reconciliados com Deus pela graça (Ef. 2:16).

     3. Algumas passagens bíblicas, se não dizem literalmente, subentendem e claramente que a nova dispensação principiou com a conversão de Paulo. Passamos a citar:

     “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.

     “MAS POR ISSO ALCANCEI MISERICÓRDIA PARA QUE EM MIM, QUE SOU O PRINCIPAL2 JESUS CRISTO MOSTRASSE TODA A SUA LONGANIMIDADE, PARA EXEMPLO DOS QUE HAVIAM DE CRER NELE PARA A VIDA ETERNA” (I Tim. 1:15,16).

     Tem sido suposto que a conversão do apóstolo foi um exemplo, ou tipo, da futura conversão de Israel porque o Senhor apareceu a Saulo, como um dia aparecerá a Israel. Porém algumas circunstâncias relacionadas com a conversão de Paulo parecem longe de serem típicas da conversão de Israel, e I Tim.1:16 não diz que Cristo lhe apareceu como um exemplo mas antes que Jesus Cristo revelou-lhe toda a Sua longanimidade como um exemplo3 para aqueles que a partir dali creriam n’Ele para a vida eterna. Assim ele prefacia a sua declaração com as palavras: “E a graça de nosso Senhor superabundou”.

     Certamente que tudo isto deveria ser comparado com um versículo que trata especificamente com a introdução da nova dispensação. Referimo-nos a Rom. 5:20:

     “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; MAS ONDE O PECADO ABUNDOU, SUPERABUNDOU A GRAÇA”.

     A esta passagem muitas outras poderiam ser acrescentadas, todas elas confirmando o facto de que “toda a Sua longanimidade” e “as riquezas da Sua graça” caracterizam particularmente a presente dispensação (Rom. 3:24; Ef. 1:7; etc). E esta “graça ... superabundante” foi revelada primeiramente a Paulo na sua conversão, como “um exemplo” para aqueles que a partir dali creriam em Cristo para a vida eterna.

     É verdade que I Cor.15:8 Paulo fala dele próprio como alguém nascido “fora (lit. antes) do tempo devido”, mas esse facto associa-o mais intimamente aos membros do Corpo que a Israel. O “tempo devido” para a conversão de Israel, segundo a profecia, ainda é futuro, pois segundo a profecia os Gentios serão salvos por meio de Israel (Gen. 22:17,18; Rom 15:8,9). Nós, tanto Judeus como Gentios, somos salvos, como Paulo, antes do tempo devido, não na base de qualquer concerto, mas por pura graça; não segundo a profecia, mas segundo o mistério.

     4. Em Actos 9 a atenção centraliza-se totalmente em Paulo, primeiramente quando “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor” e depois quando gloriosamente salvo, comissionado e cheio do Espírito. A ênfase sobre Paulo não é de modo algum alterada. Não é “Saulo e Barnabé”, muito menos “Barnabé e Saulo”, mas tão somente Saulo.

     5. Talvez a indicação mais importante de que a nova dispensação principiou antes de Actos 13 e na conversão e chamada de Paulo ao apostolado, seja o número de significantes desvios do velho programa para o novo que ocorreram no período coberto entre Actos 9 e Actos 13.

     A chamada de Paulo como apóstolo, separado dos doze, é em si uma indicação de que Deus se encontrava a iniciar um novo programa: na verdade a chamada de Paulo foi o início desse programa.

     Mais desvios: Paulo não foi salvo como um Judeu arrependido procurando o baptismo para a remissão de pecados. Ele foi baptizado três dias depois da sua conversão. Depois Pedro foi enviado aos Gentios mesmo apesar de Israel não se ter ainda arrependido. O Espírito Santo interrompeu a sua mensagem e aqueles Gentios receberam a salvação e o dom do Espírito Santo à parte do baptismo (cf. Marcos 16:15-18; Actos 2:38). Eles foram baptizados depois de terem sido salvos e de terem recebido o Espírito Santo. Depois os Gentios foram salvos em Antioquia, não devido à conversão de Israel mas devido à perseguição em Jerusalém que induziu os discípulos à sua vizinhança. A seguir a “prosperidade do reino” (Actos 4:34,35) quebrou e os crentes Gentios em Antioquia enviaram socorro, “cada um segundo a sua prosperidade”, aos santos necessitados em Jerusalém. Depois Tiago foi morto à espada e o outro Tiago, o irmão do Senhor segundo a carne, começou a tomar precedência até mesmo sobre Pedro.

     Estas são algumas indicações distintas de que a velha dispensação já estava a principiar a desaparecer e que a nova já tinha principiado a despontar. Nos primeiros versículos de Actos 13, então, temos simplesmente um outro passo no desenvolvimento do ministério para o qual Paulo, já tinha sido chamado. Na verdade, no original, há uma partícula que se segue ao imperativo “Apartai-me” que não tem equivalência exacta em Português e que por isso tem sido desprezada ou ignorada pela maioria dos tradutores. A tradução mais aproximada seria provavelmente: “Apartai-me seguidamente a Barnabé e a Saulo”, como se fosse o passo seguinte num programa já revelado e fosse sem dúvida esperado pelos líderes da Igreja quando se comprometeram em oração e serviço para o Senhor.


1 Sublinhamos a palavra início pois até ao término dos Actos a velha dispensação é gradualmente substituída pela nova.

2 A mesma palavra que no vers. 15 – “Principal”, “Chefe”, “Líder”, ou “Guia”.

3
 Nota: Mesmo que os detalhes associados à sua conversão não são ditos serem um exemplo para nós, mas tão-somente a longanimidade e graça do Senhor para com ele.

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