Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIV - ACTOS 9:3-7
UMA LUZ DO CÉU
“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.
“E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, porque Me persegues?
“E ele disse: Quem és Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
“E ele, tremendo e atónito, disse: Senhor que queres que faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.
“E os varões que iam com ele pararam, espantados, ouvindo a voz, mas não era vendo ninguém.” - Actos 9:3-7.
Que quadro nós agora contemplamos! O perseguidor cruel dos seguidores do Messias encontra-se já perto de Damasco, ameaçando matar com todo o fôlego, quando de repente, brilha à sua volta uma luz que excedia o resplendor do sol ao meio-dia.1 Admirado e confundido, ele e todos os que com ele estavam caíram por terra, quando uma voz do céu lhe fala na língua Hebraica.2 É a voz do próprio Jesus que Saulo odiara e perseguira tão amargamente. É espantoso como Ele fala a Saulo! É espantoso que Ele não o mate! Vejamos como Ele arrazoa com ele graciosamente! “Saulo, Saulo, porque Me persegues? Duro é para ti recalcitar contra os aguilhões”.3
Como o boi se rebela em vão contra o aguilhão, e todo o seu conflito só serve para aumentar a sua angústia, assim também a rebelião de Paulo contra Deus e o Seu Cristo, para além de fútil, servia somente para vexá-lo mais e mergulhá-lo mais em profunda tribulação.
“E ele disse: Quem és Senhor?
“E disse o Senhor: Eu sou Jesus a quem tu persegues”.
Notemos a paciência e amor com que o Senhor fala ao Seu inimigo. Não existe uma palavra severa, nem qualquer sinal de amargura.
A Sua atitude conciliatória é representativa da dispensação da graça. Em vez de esmagar Saulo, Ele pergunta: “Porque Me persegues?”
E assim, num momento, o Senhor conquista o coração do líder da rebelião do mundo contra Ele. Num momento a vida de Saulo é gloriosamente transformada e aquele que tinha respirado ameaças e mortes contra Cristo entra numa vida árdua e de sofrimento e vai mesmo até à morte por Ele.
Saulo depois foi instruído para ir a Damasco, onde lhe seria dito o que devia fazer, isto é, o que devia fazer a seguir, porém na sua própria narração do evento mais tarde perante Agripa, ele conta como recebera primeiro aqui a sua grande comissão do próprio Senhor.
“Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te, e põe-te sobre os teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha, tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda; livrando-te deste povo, dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam a remissão dos pecados pela fé em Mim.” (Actos 26:15-18).
Tanto a cidadania Romana de Paulo como também a Hebraica são fortemente enfatizadas no livro dos Actos. Este facto é significante, pois logo no início, aqui, como representante de Judeus e Gentios, ele é enviado tanto a uns como a outros para trazê-los das trevas para a luz e comunicar-lhes uma herança entre os santificados.
Saulo não foi enviado para operar sob a comissão dada aos doze. Na verdade, o Senhor levantara-o como um outro apóstolo, inteiramente aparte dos doze, para que através dele Ele pudesse “pela cruz, reconciliar ambos (Judeus e Gentios) com Deus, em um Corpo, matando com ele as inimizades” (Ef. 2:16).
Aqui neste ponto serão apropriadas algumas passagens de Paulo versus Pedro de William R. Newell:
“Por conseguinte”, diz Newell, “Paulo é veemente e positivo. ‘Perante Deus’, ele clama, ‘eu não minto! Eu não tenho qualquer relação, como também não tem o Evangelho que eu prego, com os outros apóstolos. Tudo o que eu ensino foi uma revelação directa que recebi de Jesus Cristo à qual se deve dar ouvidos, pois eu falo com a própria autoridade do Senhor. O Senhor apareceu-me não para me converter – pois o Senhor poderia ter-me convertido através da pregação de alguém – mas para fazer-me sua testemunha para esta dispensação” (Pp. 31, 32).
“A falha ou recusa em discernir o Evangelho Paulino como sendo distinto e uma nova revelação e não ‘um desenvolvimento do Judaísmo’, contribui para a maioria da confusão na maioria das mentes das pessoas hoje em dia no que diz respeito precisamente ao que o evangelho é” (P. 6).
“ ... a nenhum dos doze apóstolos Deus revelou o grande corpo de doutrina para esta época” (P. 4).
“ ... Agradou-Lhe escolher Paulo para ser o grande divulgador e revelador de o que o Evangelho é precisamente para esta dispensação” (P. 6).
Estas verdades importantes foram enfatizadas pela maioria dos nossos grandes ensinadores Bíblicos há uma geração. Tivessem continuado a sê-lo e os resultados para a Igreja teriam sido enriquecedores. O Sr. Newell estava certo quando escreveu:
“O constante testemunho de Paulo quanto ao facto de que ele possuía uma mensagem especial de Deus não pode ser subestimado. Nenhum outro apóstolo fala de “o meu Evangelho”! E é de acordo com a revelação dada a Paulo que os homens são estabelecidos”.
Isto não significa que Paulo recebeu todos os detalhes da sua nova comissão duma só vez, ou que todas as glórias da nova dispensação foram imediatamente reveladas pois, como já vimos, o Senhor disse:
“Mas levanta-te, e põe-te sobre os teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr ministro e testemunha, TANTO DAS COISAS QUE TENS VISTO COMO DAQUELAS PELAS QUAIS TE APARECEREI AINDA” (Actos 26.16).
Com a conversão de Saulo, então, temos o despontar, o começo, da dispensação da graça e podemos esperar vê-la a revelar-se gradualmente a partir daqui.
1 Cf. Actos 22:6; 26:13.
2 Actos 26:14.
3 Esta última frase não é encontrada na maioria dos textos Gregos em Actos 9, mas em Actos 26:14 é colocada imediatamente após a questão de abertura onde, evidentemente, pertence.



