Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIV - ACTOS 9 (Cont.)

O SIGNIFICADO DISPENSACIONAL DA CONVERSÃO DE SAULO

     Como vimos, o homicídio de Estevão e a ardente perseguição que se lhe seguiu constituíram uma declaração de guerra do homem contra Deus e o Seu Ungido (Sal. 2:2). Israel devia ter trazido bênção e salvação ao mundo com Cristo como Seu Rei, mas a nação tinha-se agora unido ao mundo em rebelião aberta contra Deus e ao apedrejar Estevão, “enviou uma mensagem” a Deus dizendo:

     “NÃO QUEREMOS QUE ESTE HOMEM REINE SOBRE NÓS” (Lucas 19:14).

     Esta mensagem foi devotamente endossada por Saulo, pois dos presentes quando essa mensagem foi enviada, apenas Saulo é salientado nominalmente com o comentário:

     “E TAMBÉM SAULO CONSENTIU1 NA MORTE DELE” (Actos 8:1).

     Distinguido assim no início pela sua inimizade amarga contra Cristo, o levantamento de Saulo em Israel foi inevitável e rápido, pois não devia ser esquecido que os líderes vinham sofrendo embaraço cada vez maior da parte daqueles que testemunhavam acerca de Cristo e da Sua ressurreição. Não demorou muito que o jovem zeloso obtivesse “autoridade dos principais dos sacerdotes” para “punir” e “encerrar na prisão” “em Jerusalém” todos os que seguiam Cristo. Reconhecido como líder do levantamento (Actos 8:3; Gál. 1:13) ele incrementou a perseguição até todos os discípulos, com excepção dos doze, serem aprisionados, mortos, ou fugirem de Jerusalém. Mas nem isto o contentou pois, obtendo mais “autoridade e comissão dos principais dos sacerdotes”, perseguiu os discípulos “mesmo até ás cidades estranhas”, trazendo tantos quanto pudesse “presos para Jerusalém para serem punidos”, e dando a sua “voz”, ou voto contra eles de modo a que pudessem ser mortos (Ver Actos 26:9-12; 22:5).

     Assim Paulo “prosperou na religião dos Judeus” por causa do seu ódio amargo contra Cristo (Gál 1:13,14; fil. 3:6). Ele era a personificação, o símbolo da rejeição a que nação de Israel votou o Messias.

     O que estava agora a acontecer ao propósito profético de Deus que visava trazer bênção e salvação aos Gentios por meio de Israel? Então o concerto Abraâmico? Como poderia a bênção fluir para os Gentios quando Israel, o canal por meio de quem ela deveria fluir, se unira aos Gentios na sua rebelião contra Deus?

     A resposta a esta questão é a história mais maravilhosa jamais contada: a história da graça fluindo do Calvário. Colocando temporariamente de parte o programa profético, Deus agora resolve em infinita graça salvar o líder da rebelião. Pelo poder do amor e das ternas palavras d’Aquele contra quem Saulo rangeu os dentes, o perseguidor implacável torna-se num momento, não só num dócil seguidor de Cristo, mas no vaso escolhido por meio de quem Deus dispensaria as riquezas da Sua graça a um mundo amaldiçoado pelo pecado.

     A rebelião do mundo deveria ter resultado no derramamento da ira de Deus (Sal.2:5; 110:1) mas Deus, sempre tardio em se irar, protelou o juízo e começou a introduzir a dispensação da graça.

     Poderia ser levantada a objecção se seria de acordo com a justiça de Deus revelar benignidade ao mundo em tal altura e até mesmo ao líder da sua insurreição contra Cristo. A resposta a esta objecção é encontrada no Calvário. Uma vez que Cristo morreu pelo pecado, porque não poderia Deus oferecer as riquezas da Sua graça a todos os que as recebessem pela fé, e ainda assim manter íntegra a sua justiça? E porque não poderia Ele oferecer salvação aos Gentios, inteiramente aparte de Israel? É por isto que a mensagem de Paulo é muito propriamente chamada “a pregação da cruz” (I Cor. 1:18-25). Assim como a graça é mais proeminente nas epístolas de Paulo do que em qualquer parte mais na Bíblia assim também o é a cruz, o sangue, a morte de Cristo. Em parte alguma mais - estas coisas são tão referidas. 

     “Em quem temos a redenção PELO SEU SANGUE, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef. 1:7).

     “Sendo justificados gratuitamente, pela sua graça, PELA REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS,

     “AO QUAL DEUS PROPÔS PARA PROPICIAÇÃO, PELA FÉ NO SEU SANGUE, PARA DEMONSTRAR A SUA JUSTIÇA PELA REMISSÃO DOS PECADOS ...

     “ ... PARA QUE ELE SEJA JUSTO, E JUSTIFICADOR DAQUELE QUE TEM FÉ EM JESUS” (Rom. 3:24-26).

     Foi a conversão de Paulo que demonstrou, e o seu ministério e mensagem que proclamaram, estes grandes factos. A sua conversão assinalou o princípio da nova dispensação. Notemos que dizemos o princípio, pois a dispensação da graça, com a sua revelação, emergiu gradualmente (Ver Actos 26:16; II Cor 12:1). O estudioso cuidadoso das Escrituras não esperará encontrar o programa Pentecostal repentinamente abolido, com a dispensação da graça substituindo-o repentinamente na sua plenitude.

     Pouco depois da conversão de Saulo, por exemplo, Ananias instruiu-o: “Levanta-te, e baptiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor” (Actos 22:16). Isto aconteceu porque o baptismo na água era requerido na dispensação em que Saulo foi salvo. O significado da sua conversão e comissão pela revelação de Cristo a ele ainda não tinham sido revelados. Apesar disso está claro nas Escrituras que Saulo foi salvo a caminho de Damasco, antes do seu baptismo com água. Ele não foi salvo por ter aceite a mensagem dos doze ao arrepender-se e ser baptizado. Ele tinha sido o maior inimigo deles e o guia dos pecadores, conduzindo Israel e o mundo em rebelião contra Deus, e foi salvo e reconciliado por graça soberana. Nisto ele constituiu símbolo, e isto deveria revelar como o Evangelho da graça de Deus foi gradualmente introduzido e, por meio dele e gradualmente retirada a ordem Pentecostal.

     Do seu próprio caso ele diz:

     “A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e opressor; mas ... a graça de nosso senhor superabundou ...

     “ESTA É UMA PALAVRA FIEL, E DIGNA DE TODA A ACEITAÇÃO, QUE CRISTO JESUS VEIO AO MUNDO, PARA SALVAR OS PECADORES, DOS QUAIS EU SOU PRINCIPAL” (I Tim. 1:13-15).

     E do caso da humanidade diz:

     “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; MAS, ONDE O PECADO ABUNDOU , SUPERABUNDOU A GRAÇA;

     “PARA QUE, ASSIM COMO O PECADO REINOU NA MORTE, TAMBÉM A GRAÇA REINASSE PELA JUSTIÇA, PARA QUE A VIDA ETERNA, POR JESUS CRISTO, NOSSO SENHOR” (Rom. 5:20,21).

     Assim a conversão de Saulo assinalou o princípio da revelação do mistério do propósito e graça de Deus. O próprio facto de que um outro apóstolo estava a ser levantado, completamente aparte dos doze, indica claramente que Deus começara a introduzir a nova dispensação: “a dispensação da graça de Deus” (Ef. 3:2,3).

     A respeito disto o Dr. Arno C. Gabelien escreveu no seu livro sobre “The Gospel of Mathew” (O Evangelho de Mateus):

     “Os leitores superficiais da Palavra de Deus não fazem nenhuma diferença entre o Evangelho do Reino e o Evangelho da graça ... “ (Vol. II, P. 189).

     Porém a distinção é importante, como I. R. Dean, no seu “Coming Kingdom” (Reino Futuro), salienta. Diz o Sr. Dean:

     “Porque é que seria necessário Paulo ter uma nova revelação do Evangelho se ele tivesse de pregar o mesmo evangelho que João Baptista e Cristo e os Seus discípulos pregaram? Em que jaz a diferença?

     “João Baptista e Cristo e os Seus discípulos ofereceram a Israel um Messias ... O Evangelho de Paulo não oferece a Israel, de modo algum, um Messias; Deus agora não está a oferecer a ninguém um Messias” (P. 210).

     Dean está certo, pois em vez de oferecer agora um Messias aos homens, Deus está a oferecer reconciliação por graça a todos os homens, num mundo onde o Messias, o Rei, foi e permanece rejeitado.

     “PORQUE DEUS ENCERROU A TODOS DEBAIXO DA DESOBEDIÊNCIA, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA.

     “Ó PROFUNDIDADE DAS RIQUEZAS, TANTO DA SABEDORIA, COMO DA CIÊNCIA DE DEUS! QUÃO INSONDÁVEIS SÃO OS SEUS JUÍZOS, E QUÃO INEXCRUTÁVEIS OS SEUS CAMINHOS !” (Rom. 11:32,33).

1 A palavra original implica mais que uma mera concordância passiva. Em Rom. 1:32 é traduzida por “ter prazer” e em I Cor. 7:12,13 duas vezes por “terem prazer”, na American Revised Version (Versão Revista Americana).



 

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