Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIII - ACTOS 8:36-40
O EUNUCO BAPTIZADO
“E indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja baptizado?
“E disse Filipe: É licito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
“E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o baptizou.
“E, quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco; e, jubiloso, continuou o seu caminho.
“E Filipe se achou em Azoto e, indo passando, anunciava o Evangelho em todas as cidades, até que chegou a Cesareia”. - Actos 8:36-40.
Muitos crentes sinceros que defendem o baptismo por imersão como confissão pública da fé em Cristo sustentam a sua crença com esta passagem das Escrituras. A maioria deles reconhece que “o baptismo de arrependimento para remissão de pecados” de João (Marcos 1:4) não tem qualquer lugar na dispensação da graça de Deus. Alguns chegam mesmo a ir tão longe que reconhecem que o baptismo em Pentecostes (quando o Corpo de Cristo é suposto ter começado) era também “para remissão de pecados” (Actos 2:38) e portanto não tem nenhum lugar no programa de Deus para os nossos dias. Relutantes, contudo, em se libertarem da prática, apontam casos como o do eunuco Etíope, o de Cornélio, o de Lídia e o do carcereiro de Filipos, defendendo que nestes casos temos exemplos de baptismo na água como Deus quer que nós hoje pratiquemos – tendo meramente como significado o facto de termos sido sepultados com Cristo.
Contudo estes casos não provam tudo o que os nossos amigos imersionistas parecem pensar provar. Nós trataremos de cada caso à medida que prosseguirmos com os nossos estudos dos Actos.
O SEU BAPTISMO FOI OPCIONAL?
Da passagem acima citada é argumentado que o eunuco Etíope não foi ordenado para se baptizar. Ele pediu para ser baptizado e foi-lhe dito que se ele cresse verdadeiramente ele podia. É esta base com que alguns têm argumentado que o baptismo na água nos nossos dias não é coercivo ou obrigatório mas permissível ou facultativo, e que o assunto deveria ser deixado com a consciência individual, que os crentes deveriam ser baptizados se “se sentissem guiados”, etc. Mas esta passagem de modo algum ensina estas coisas.
Primeiro, devemo-nos de lembrar que este incidente ocorreu antes que Paulo se tivesse convertido. Nessa altura ainda não tinha havido nenhum indício de qualquer mudança no programa Pentecostal ou nas instruções do Senhor do que “Quem crer e for baptizado será salvo” (Marcos 16:16).
Segundo, como já salientámos, muitos textos e versões omitem o vers. 37 e é discutível se ele pertence ao registo, mas mesmo que se encontre no original, não prova que o baptismo na água não era requerido para a salvação naquela altura. Se o escritor dissesse a uma pessoa perdida: “Tu também podes crer e ser salvo”, implicaria com isso que a pessoa poderia ser salva sem crer? Deixaria de ser verdade que ele deveria crer para ser salvo? As palavras, “É lícito (ou tu podes) se crês de todo o coração”, indicam simplesmente que se o eunuco não cresse verdadeiramente não haveria nenhum fim em baptizá-lo como a última parte de Marcos 16:16 clarifica. Tanto quanto as Escrituras revelam, o baptismo na água ainda era requerido para salvação nessa altura e Filipe meramente salientou ao príncipe Etíope que se ele cresse verdadeiramente, era privilégio seu servir-se dos meios1 de salvação.
O SEU BAPTISMO FOI UMA PROVA DE IMERSÃO?
Os imersionistas fazem muito do facto de Filipe e o eunuco terem descido à água e saído da água. Isto é tomado como uma implicação clara de que o eunuco foi imergido ou mergulhado. Mas se as palavras “descida” e “saída” provam que o eunuco foi imergido, também provam que o próprio Filipe foi imergido ao mesmo tempo, pois a passagem diz:
“ ... e desceram AMBOS à água, TANTO FILIPE COMO O EUNUCO ... “
Isto não prova que alguém tenha sido imergido. A passagem não diz “submergiram”, mas simplesmente “desceram” nem o eunuco foi baptizado por ter descido à água.
Os factos simples são que eles estavam num país quente e não traziam calçados sapatos como nós hoje usamos, mas sandálias, ou mesmo nada. A água naturalmente procura os baixios, assim seria necessário a Filipe e ao eunuco descerem do carro e da estrada desceram ao ribeiro ou ao lago, ao lado. Naquelas circunstâncias seria perfeitamente natural andarem na água e ao fazê-lo, lemos que “ele (Filipe) baptizou-o (o eunuco)”. Assim Filipe baptizou o eunuco após terem descido “à água”. Ele baptizou-o com a água para onde tinham descido. Não é dito sequer uma palavra que indique que Filipe tivesse baptizado o eunuco mergulhando-o na água.
Mesmo quando os nossos amigos Baptistas usam estas passagens para provar somente que aqui havia água suficiente para imergir o eunuco erram, pois a passagem não indica tal coisa. Se o ribeiro ou lago não tivesse água senão pelos tornozelos eles não podiam ter descido a ele.
Todo o argumento sem fundamento dos imersionistas vem duma falha completa em não reconhecerem o carácter distinto da mensagem e ministério de Paulo, e de uma completa incompreensão daquelas maravilhosas passagens em que ele assegura aos crentes hoje que eles foram sepultados com Cristo no baptismo (Rom. 6:.4; Col. 2:12). Incapazes de associarem estas passagens com algo mais elevado que o baptismo na água, supõem que está aludida uma sepultura real na água, contudo esta teoria da “sepultura na água” não é bíblica, como não é apropriada nem digesta, pois nem nas Escrituras nem na experiência comum os homens são sepultados na água.
O SEU BAPTISMO FOI UM TESTEMUNHO PÚBLICO?
Também é ensinado do registo do baptismo do eunuco que uma vez que (como é suposto) o baptismo não era então mais requerido para a salvação, tornou-se a partir dali simplesmente num testemunho público da fé em Cristo.
É verdade, é certo, que tudo o que fazemos testifica o que somos. Ir à reunião ou a um baile é um testemunho. Deambular pelas ruas intoxicado é um testemunho. A questão real em jogo é esta: O baptismo na água foi dado aos membros do Corpo de Cristo como um testemunho? Era esse o seu grande propósito? O baptismo, sentimos, dá amplas provas de que não.
Filipe e o Etíope estavam no deserto e ali não havia nenhum indício da presença de uma única testemunha do facto. Tem sido argumentado, e bem, que um homem tão proeminente como o principal tesoureiro da Etiópia, deveria ter muitos assistentes com ele. Concordamos! Nós também pensamos assim; mas certamente que nós não baseamos a nossa teologia num “deveria ter” ou num “pensamos”!
Embora pareça provável que outros estivessem presentes no baptismo do Etíope as Escrituras não fornecem um único indício de que uma única testemunha estivesse presente. Porquê? Se o seu baptismo visasse ser um testemunho público O Espírito Santo não teria tomado um cuidado especial em mencionar as testemunhas? Quando Paulo e Silas oravam e cantavam louvores à meia-noite na prisão de Filipos lemos que “os presos ouviam-nos” (Actos 16:25). Esse foi um testemunho real e efectivo. E era esse o modo bíblico de “com a boca se fazer confissão” (Rom. 10:10) primeiro a Deus, “para salvação”, e depois ao homem.
Suponhamos que uma pessoa, nesta dispensação da graça, é baptizada com água, vai para um lugar longínquo e vive uma vida descuidada e inconsistente; qual é a importância e valor do baptismo? De nada, certamente. Agora suponhamos que ao ter sido baptizada ia para um lugar distante e vivia uma vida pia, consistente com a vida cristã. Qual é a importância e valor do seu baptismo agora? Esta questão deveria ser seriamente considerada e corajosamente respondida. A resposta certamente que também é nenhuma, pois foi a sua vida pia, e não o seu baptismo que apresentou um testemunho real àqueles que o rodeavam. Quantos “convertidos baptizados” há que não podem mesmo dar uma única palavra de testemunho pelo seu Senhor entre os perdidos!
É verdade que nesta época o baptismo dos crentes na água é um testemunho – um mau testemunho. É uma injúria à obra consumada de Cristo. É uma confissão de falta de apreciação da posição do crente em Cristo – “nos fez agradáveis (ou, aceitáveis) a Si no Amado”, “completos n’Ele”, crucificados, sepultados, ressuscitados e assentados à mão direita de Deus nos celestiais, e ali abençoados com todas as bençãos espirituais EM CRISTO (Ef. 1:3,6; 2:1-6; Col. 2:10-13). Acrescentar ao programa divino da graça o que uma vez foi requerido para a salvação é sempre um mau testemunho.
Mas as verdades de Efésios e Colossensses ainda não tinham sido tornadas conhecidas quando Filipe baptizou o eunuco. Nessa altura Cristo ainda estava a ser proclamado como o Messias de Israel, o Filho de Deus, a cujos pés Israel e as nações se curvarão. Ao ser baptizado o eunuco confessou Cristo como tal e reconheceu a sua própria necessidade de purificação (Ver Marcos 1:4, 16:16; João 1:31, etc).
OS SINAIS QUE SE SEGUEM
Os que querem fazer deste incidente um modelo para os nossos dias não deviam olvidar o milagre com que a história encerra, pois logo após o baptismo do eunuco o Espírito arrebatou Filipe para um outro lugar. Isto não se encontra em harmonia com o programa de Deus para hoje, mas coincide com a “grande comissão” aos onze, onde descobrimos que os sinais miraculosos deveriam seguir-se aos que cressem e fossem baptizados. Não é desprovido de significado o facto de onde quer que lemos de baptismo na água no livro dos Actos encontrarmos a ocorrência dum milagre no contexto próximo.
Porém a aceitação da mensagem de Deus para aqueles dias da parte do eunuco, a sua confissão do pecado e o seu reconhecimento de Cristo como Filho de Deus, trouxeram-lhe a luz e paz que ele procurava e “jubiloso continuou o seu caminho!”. A humilde conversa de Filipe com ele conseguiu mais do que os discursos dos talentosos líderes religiosos de Jerusalém.
1 Nós não usamos o termo meios como os Luteranos e os Católicos Romanos fazem na sua doutrina da regeneração baptismal. Nós defendemos simplesmente que quando Deus requeria o baptismo na água para a salvação, era necessário submeter-se a esse rito para se ser salvo, mesmo que o baptismo em si nada efectuasse.



