Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIII - ACTOS 8:32-35

FILIPE PREGANDO JESUS AO EUNUCO

     “E o lugar da Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro, e como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca.

     “Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; e quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra.

     “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo ou de algum outro?

     “Então Filipe, abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus.” - Actos 8:32-35.

     A passagem que o eunuco lia é a que agora conhecemos como capítulo 53 de Isaías. Provavelmente a versão bíblica que ele possuía era a Septuagita, a versão grega, pois o registo de Lucas da história cita da Septuagita quase palavra por palavra, e era esta, a grega, a linguagem universal do dia. Tudo isto era providencial, pois o próprio Filipe sem dúvida um grego1 podia conversar sem problemas com o eunuco ao discutir esta passagem das Escrituras.

     Para conseguir uma compreensão desta passagem foi necessário para o príncipe Etíope começar do início: “De quem diz isto o profeta?” Ah a sua visita a Jerusalém deixara-o precisamente com esta questão – a mais importante de todas – por responder, pois os líderes religiosos não criam, não podendo assim dizer que Cristo era o tema das Escrituras proféticas. Na verdade, até mesmo agora a Israel apóstata recusa ver Cristo em Isa. 53, dizendo que o profeta nesta passagem descreve os sofrimentos de Ezequias, ou talvez de Jeremias ou os seus próprios sofrimentos (de Israel).

     Mas onde os líderes de Israel tinham falhado, Deus enviou Filipe para instruir o Etíope na sua procura da verdade.

     “ENTÃO FILIPE, ABRINDO A SUA BOCA, E COMEÇANDO NESTA ESCRITURA, LHE ANUNCIOU A JESUS”.

     Sim, Jesus é o tema de Isa. 53. Ele é a chave para toda a Palavra de Deus. Pode-se olhar para toda a parte e encontrá-LO, pois todas as páginas da Bíblia têm uma relação vital com Ele.

     Durante o ministério terreno do Senhor, Ele disse aos Judeus:

     “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, E SÃO ELAS QUE DE MIM TESTIFICAM” (João 5:39).

     E mais tarde, depois da Sua ressurreição, quando Ele andava com os dois discípulos confundidos:

     “E, COMEÇANDO POR MOISÉS, E POR TODOS OS PROFETAS, EXPLICARA-LHES O QUE DELE SE ACHAVA EM TODAS AS ESCRITURAS” (Lucas 24:27).

     E assim Filipe, ao encontrar o rolo do eunuco aberto em Isa. 53, “começando nesta Escritura anunciou a Jesus”.

     Porém aqui devemos ter muito cuidado em não ir além do que está escrito. Por exemplo, tem sido dito que “o Evangelho não se encontra apresentado tão claramente em mais parte alguma como em Isa. 53”, e sob esta promessa tem sido defendido que Filipe pregou ao eunuco precisamente a mesma mensagem que Deus envia hoje aos perdidos.

     Mas se o Evangelho da graça de Deus encontra-se tão claramente apresentado em Isa. 53, o que Paulo poderia ter querido dizer quando afirmou:

     “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

     “O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, PARA SERVIR DE TESTEMUNHO A SEU TEMPO.

     “PARA O QUE (DIGO A VERDADE EM CRISTO, NÃO MINTO) FUI CONSTITUÍDO PREGADOR, E APÓSTOLO E DOUTOR DOS GENTIOS NA FÉ E NA VERDADE” (I Tim. 2:5-7).

     Se o Evangelho da graça de Deus se encontra apresentado tão claramente em Isa. 53, o que é que Paulo poderia ter querido dizer com “a fé que se havia de manifestar” (Gál.3:23)?

     Mais, se o Evangelho da graça de Deus já estava a ser pregado por Filipe sob os doze apóstolos, que necessidade havia de aparecer um outro apóstolo e que utilidade teriam os clamores de Paulo em passagens tais como a seguinte:

     “POR ESTA CAUSA EU, PAULO, SOU O PRISIONEIRO DE JESUS CRISTO, POR VÓS GENTIOS;

     “SE É QUE TENDES OUVIDO FALAR DA DISPENSAÇÃO DA GRAÇA DE DEUS, QUE PARA CONVOSCO ME FOI DADA;

     “COMO ME FOI ESTE MINISTÉRIO MANIFESTADO PELA REVELAÇÃO ... “ (Ef. 3:1-3).

     Na verdade, se Isa. 53 contém o Evangelho da graça de Deus, porque é que não foi esta a gloriosa mensagem do tema da alocução profética?

     Os que têm suposto que o Evangelho da graça de Deus é encontrado em Isa. 53 e que foi isso que Filipe pregou ao eunuco, não têm notado duas coisas, o alcance e o tom da profecia de Isaías.

     Quanto ao alcance da profecia, deve ser notado que Isaías fala estritamente como profeta Hebreu. Ele não fala de Cristo que morre pelo mundo, mas por Israel. O versículo 6 afirma: “TODOS NÓS (não “todos os homens”) andamos desgarrados como ovelhas ... mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de NÓS TODOS”. O estudante das Escrituras inteligente perguntará imediatamente: A quem é que o “todos nós” e o “nós todos” se refere? Esta questão é respondida claramente no versículo 8, onde o profeta continua a afirmar: “Pela transgressão do MEU POVO foi Ele atingido”.

     Assim Isaías, como profeta Hebreu, falou da morte do Messias pelo seu (de Isaías) povo e não deve ser esquecido que o eunuco se tinha unido a este povo como prosélito.

     Tudo isto não nega o facto de que os Gentios também estavam perdidos quando Deus nos encontrou, ou que Cristo também morreu por nós. Simplesmente esse facto ainda não tinha sido tornado conhecido. Nem Filipe expôs ao eunuco as verdades de Romanos, Gálatas ou Efésios, mas as Escrituras do V. T. à luz do que até ali tinha sido revelado.

     O tom da profecia de Isaías também merece um cuidado notório. Não é de modo algum a alegre proclamação de que Cristo morreria pelos pecadores e de que eles poderiam encontrar salvação por meio da fé na Sua obra consumada. Existe antes um tom de desapontamento e de espanto no facto de Ele dever ter de sofrer pelos seus pecados embora na verdade, o profeta declare que Deus O há-de recompensar e que Ele ainda há-de ver os resultados gloriosos da sua humilde submissão.

     Uma ilustração aqui, pode ajudar a tornar esta distinção clara. Certo crente impertinente numa congregação, digamos, cometeu um erro que prejudicou certo crente inocente. Os anciãos da assembleia sabem quem é o culpado, mas o crente falsamente acusado fez um acordo com os anciãos, em que fica estabelecido que ele, o inocente, sustentará a pena pelo erro do outro, visando tocar assim o coração do culpado e ensinar-lhe assim uma lição importante. Entretanto os anciãos procuram trazer o culpado à convicção, levando-o a reconhecer o pecado de ter levado um crente inocente a sofrer em seu lugar.

     Esta ilustração é certo que tem as suas limitações mas, pode servir para ilustrar como Cristo e a Sua crucificação estavam a ser pregadas naquele tempo.

     Alguns supõem que a substituição – que na verdade é ensinada em Isa. 53 – é o apogeu da verdade cristã, quando de facto não é senão precisamente o começo. Na ilustração acima é certo que houve substituição, mas os anciãos vão ter com o culpado e dizem-lhe, “Temos boas novas para si. Um inocente sofreu em seu lugar?” Muitos inocentes têm sofrido por muitos culpados, mas na generalidade as pessoas regozijam-se com esse facto? Na verdade não. Nem os doze nem Filipe proclamavam a cruz desse modo. Não havia nada que gloriar na cruz como em Gál. 6:14. Deus estava antes a chamar o Seu povo a arrepender-se das suas obras ímpias e a ser baptizado, e a reconhecer Jesus como seu Messias (Ler cuidadosamente Actos 2:23, 32, 36, 38; 3:13-15, 19-21; 4:10-12; 5:30,31 e cf. João 1:31).

     Os que não têm compreendido completamente este facto importante deveriam reflectir e ver que as Escrituras ensinam claramente que a nação de Israel será salva somente quando reconhecer o seu pecado contra Cristo; quando convicta da sua culpa e tocada pela Sua gentil submissão, ela rebentar em confissão contrita, e humildemente O reconhecer como seu Messias.

     “ ... E olharão para Mim, a quem traspassaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigénito; e chorarão amargamente por Ele, como se chora amargamente pelo primogénito.

     “Naquele dia será grande o pranto em Jerusalém ... “ (Zac. 12:10,11).

     “E se alguém lhe disser: Que feridas são essas nas Tuas mãos? Dirá Ele: São as feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos” (Zac. 13:6).

     “E o Senhor será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o Senhor, e um será o seu nome” (Zac. 14:9).

     É este então o propósito de Deus na cruz, como revela a profecia do V. T. e não deve ser confundido com “o mistério”, esse propósito mais profundo, mais glorioso, “escondido de todos os séculos e gerações” mas tornado conhecido em devido tempo por meio de Paulo (Col. 1:26).2

Antes do principal dos pecadores ter sido salvo e enviado com o Evangelho da graça de Deus o mundo nunca ouviu o que é propriamente designada de a “pregação da cruz”, isto é, como boas novas. Antes de Paulo Deus nunca ofereceu a salvação por meio da fé no sangue derramado de Cristo.

     Assim, ao expor Isaías 53, Filipe levou o eunuco, não a confiar no sangue derramado de Cristo (ainda que nós agora saibamos que ele foi salvo por meio desse sangue), mas a reconhecer O há pouco crucificado como “O Cristo, o Filho de Deus” (Ver Mat. 16:16; João 1:49; 11:27; 20:30,31, etc). Se o versículo 37 pertence ao registo3 este facto é ainda mais realçado.

     Como sabemos a proclamação dos direitos reais de Cristo, foi interrompida desde então pela “dispensação da graça de Deus” e a cruz é agora vista sob uma luz mais plena e gloriosa. Deus agora envia a salvação e bênção aos Gentios inteiramente à parte de Israel e das suas promessas do concerto, somente por meio dos merecimentos do Senhor crucificado, ressuscitado e exaltado.

     “EM QUEM TEMOS A REDENÇÃO PELO SEU SANGUE, A REMISSÃO DAS OFENSAS, SEGUNDO AS RIQUEZAS DA SUA GRAÇA” (Ef. 1:7).


1 O seu nome e as circunstâncias relacionadas com a sua designação como diácono indicam que fosse provavelmente Grego – um Judeu que falava Grego.

2 Uma discussão mais profunda deste rico tema será encontrado no livro do autor: o duplo propósito de deus.

3
 Alguns textos e versões omitem Actos 8:37.

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