Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XIII - ACTOS 8:26-31

FILIPE E O PRÍNCIPE ETÍOPE

UMA COMISSÃO ESPECIAL PARA FILIPE

     “E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai para a banda do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta.

     “E levantou-se e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros e tinha ido a Jerusalém para adoração,

     “Regressava, e assentado no seu carro lia o profeta Isaías.

     “E disse o Espírito a Filipe. Chega-te e ajunta-te a esse carro.

     “E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías e disse: Entendes tu o que lês?

     “E ele disse: Como poderei entender, se alguém me não ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse.” - Actos 8:26-31.

     A personagem saliente na grande campanha evangelística em Samaria é enviada agora ao deserto1 e aparentemente sem qualquer explicação.

     Contudo a obediência tem a sua recompensa e chegando ao seu destino é dito a Filipe para se aproximar do carro de alguém que descobre ser um poderoso e respeitado príncipe – “um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros.”


UMA ALMA FAMINTA

     A simplicidade e sinceridade deste grande etíope contrasta grandemente com a hipocrisia e impiedade de Simão o feiticeiro.

     À luz de Actos 11:19 e 15:14 parece que o eunuco era um prosélito ao Judaísmo. Ele percorreu toda aquela longa jornada até Jerusalém a fim de adorar.

     A visita do eunuco a Jerusalém devia ter sido uma grande bênção espiritual para ele. Deverá aqui ser recordado que Salomão ao dedicar o templo tinha orado para que tal acontecesse:

     “E assim também ao estrangeiro, que não for do Teu povo Israel, mas viver de terras remotas por amor do Teu grande nome, e da Tua poderosa mão, e do Teu braço estendido, vindo eles e orando nesta casa.

     “Então ouve Tu desde os céus, do assento da Tua habitação, e faz conforme a tudo o que o estrangeiro Te suplicar, a fim de que todos os povos da terra conheçam o Teu nome, e Te temam, como Teu povo Israel, a fim de receberem que pelo Teu nome é chamada esta casa que edifiquei” (II Crón. 6:32,33).

  Assim orou Salomão e numa passagem adjacente a essa que o príncipe eunuco estava agora a ler havia uma promessa específica que bem podia ter emocionado o seu coração:

     “E não fale ao filho do estrangeiro que se houver chegado ao Senhor, dizendo: De todo me apartará o Senhor do seu povo; nem tão pouco diga o eunuco: Eis que eu sou uma árvore seca.

     “Porque assim diz o Senhor a respeito dos eunucos, que guardam os meus sábados, e escolhem aquilo que me agrada, e abraçam o meu concerto.

     “Também lhes darei na Minha casa e dentro dos Meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará.

     “E aos filhos dos estrangeiros, que se chegarem ao Senhor, para O servirem, e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos Seus, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem o Meu concerto.

     “Também os levarei ao Meu santo monte, e os festejarei na Minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no Meu altar; porque a Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Isa. 56:3-7).

     Quanto a este particular eunuco não somos deixados sem luz quanto à sua condição espiritual.

     1. Ele tinha ido a Jerusalém para adorar, não meramente para assistir a uma festa religiosa, como é muitas vezes dito dos Judeus.

     2. A sua sinceridade nesse acto é evidenciada pelo facto de aqui, de regresso a casa, encontrarmo-lo absorvido com os escritos de Isaías, ainda profundamente interessado nas coisas de Deus.

     3. Mesmo a leitura que fazia na Bíblia era mais do que uma mera formalidade, pois lia quando viajava.

     4. Ele estava profundamente interessado em obter mais luz, pois continuou a ler apesar de não compreender muita coisa.


A BANCARROTA DE ISRAEL

     Tudo isto falava bem do eunuco mas constituía um pobre testemunho da condição espiritual de Israel dos seus líderes.

     O grande templo de Jerusalém, que devia ser uma casa de oração para todas as nações tinha-se tornado há muito num “covil de ladrões”. Os líderes espirituais de Israel, que agora deveriam estar a anunciar as boas novas do Messias a todas as nações tinham-se tornado ladrões. Eles tinham fechado a porta aos que queriam entrar no reino e tiraram as chaves (Mat. 23:13; Lucas 11:52).

     O eunuco poderia ter recebido ajuda do “pequeno rebanho” de seguidores do Messias, mas os “lavradores maus” de Israel expulsaram-nos de Jerusalém pela “grande perseguição” e os apóstolos encontravam-se sem dúvida escondidos (Actos 8:1,2; 9:1).

     Sim, Deus tinha dito a Abraão: “E na tua semente serão benditas todas as nações da terra” (Gén.28:18) e tinha prometido que “E as nações caminharão à tua luz e os reis ao resplendor que te nasceu” (Isa. 60:3) mas aqui a nação favorecida não podia ajudar sequer este homem que já tinha reconhecido Jeová como o verdadeiro Deus! O eunuco não volta de Jerusalém a regozijar-se pela luz e bênção obtidas entre o povo de Deus, mas volta ainda a procurar, a procurar a verdade. Que cena patética! Regressar da “casa dos banquetes” ainda faminto e sedento! Isto lembra-nos duas significativas passagens no evangelho de João:

     João 6:4,5: “E a páscoa, A FESTA DOS JUDEUS, estava próxima.

     “Então Jesus levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com Ele, disse a Filipe: ONDE COMPRAREMOS PÃO PARA ESTES COMEREM?”

     João 7:37: “E NO ÚLTIMO DIA, O GRANDE DIA DE FESTA, JESUS PÔS-SE EM PÉ, E CLAMOU DIZENDO: SE ALGUÉM TEM SEDE VENHA A MIM, E BEBA”

     Contudo o profundo desejo do eunuco em encontrar a verdade não foi trabalho em vão. Quando estudamos a Palavra com paciência e fé, Deus está sempre perto para ajudar. Ele nunca deixará em trevas os que ardentemente buscam luz. Neste caso ele já tinha chamado Filipe de Samaria para lhe dar a assistência necessária.


FILIPE E O EUNUCO

     Deve ser cuidadosamente notado que Filipe apresentou-se ao príncipe Etíope com a questão: "Compreendes tu o que lês?” A questão da crença viria mais tarde (vers. 37) pois como pode alguém crer numa declaração, cuja significação não entenda? Este ponto é frequentemente desprezado por crentes fervorosos. Eles dizem: “Eu não compreendo isso, mas eu creio nisso”, quando eles querem dizer: “Eu não compreendo como pode ser isso, mas creio nisso” ou “não posso compreender isso, mas creio que é real”. Há uma grande diferença. Tomemos por exemplo, o caso do anjo a falar a Filipe nesta passagem. Nós não podemos compreender como um anjo pode conversar com uma pessoa, mas cremos que aconteceu, simplesmente porque o Livro o afirma. Mas nós não poderíamos crer nesta passagem se não compreendessemos o significado dela.

     É de importância vital que compreendamos que as Escrituras ensinam de modo a que possamos crer no que Deus disse,2 pois a “fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Rom. 10:17). O tipo de “fé” que alguns advogam hoje é pura superstição, que dispensa totalmente a necessidade de investigação e estudo das Escrituras. Porém a fé que as Escrituras invocam é sempre baseada numa compreensão inteligente do que é dito. Como o Espírito enfatiza tanto isto!

     Marcos 6:34: “E Jesus saindo, viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porquanto eram como ovelhas que não têm pastor; E COMEÇOU A ENSINAR-LHES MUITAS COISAS.

     Efés. 1:17,18: “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o ESPÍRITO DE SABEDORIA E DE REVELAÇÃO.

     “TENDO ILUMINADO OS OLHOS DO VOSSO ENTENDIMENTO PARA QUE SAIBAIS qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos.”

     Col. 1:9,10: “Por esta razão, nós também desde o dia em que o ouvimos, não cessámos de orar por vós e de pedir que SEJAIS CHEIOS DO CONHECIMENTO DA SUA VONTADE, EM TODA A SABEDORIA E INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL;

     “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo; frutificando em toda a boa obra e CRESCENDO NO CONHECIMENTO DE DEUS”

     Col. 1:9,10: “Porque quero que saibais quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodiceia, e por quantos não viram o meu rosto em carne;

     “Para que os seus corações sejam consolados e estejam unidos em caridade, e enriquecidos DA PLENITUDE DA INTELIGÊNCIA, PARA CONHECIMENTO DO MISTÉRIO DE DEUS – CRISTO;

     “EM QUEM ESTÃO ESCONDIDOS TODOS OS TESOUROS DA SABEDORIA E DA CIÊNCIA.”

     Contudo há aqui uma outra lição. À questão de Filipe: “Compreendes tu o que lês?” o eunuco replicou: “Como poderei entender, se alguém me não ensinar?” e com isso “ele desejava que Filipe subisse e com ele se assentasse”.

     É verdade que Deus poderia ter revelado a este príncipe as boas novas do Messias sem qualquer instrumentalidade humana, mas raras vezes o fez. Ele usa os homens para comunicarem o Evangelho uns aos outros. Quão supremamente importante, então, é que nós, que fomos enviados a proclamar a mensagem de Deus aos perdidos, tenhamos uma compreensão inteligente da Palavra e especialmente do evangelho da graça de Deus! Não foi em vão que o Espírito inspirou Paulo a escrever:

     “PROCURA APRESENTAR-TE A DEUS APROVADO, COMO OBREIRO QUE NÃO TEM DE QUE SE ENVERGONHAR, QUE MANEJA BEM A PALAVRA DA VERDADE” (II tim. 2:15).

     Se é necessário que compreendamos o que Deus tem dito a fim de crermos, quanto mais a fim de ensinarmos!

     Muitos que são muito zelosos em ganhar almas para Cristo aparecerão todavia envergonhados perante Deus com a sua obra ficando aquém da Sua aprovação quando “a obra de cada um se manifestar ... e o fogo provar qual seja a obra de cada um “ (I Cor. 3:13).

     Filipe tratou com o Etíope dum modo exactamente de acordo com a dispensação em que vivia, porém se hoje fossemos tratar com as almas exactamente do mesmo modo sofreríamos com toda a certeza perda no tribunal de Cristo. Nos dias de Filipe Deus ainda estava a tratar com Israel como nação e os direitos reais de Cristo estavam a ser proclamados. Porém não muito depois dessa altura Israel perdeu a sua posição favorecida e o estabelecimento do reino foi suspenso enquanto Deus introduzia a dispensação da graça.


1 O versículo 26 deveria ser lido, “um anjo do Senhor”. Não existe qualquer artigo no original. Contudo alguns têm suposto que, uma vez que os anjos são espíritos (Heb. 1:4), “o espírito” do versículo 29 refere-se ao mesmo anjo. Nós rejeitamos esse ponto de vista, pois embora os anjos sejam descritos como sendo espíritos, em casos como este, seriam indubitavelmente designados pelo apelido, anjo (Mensageiro).

2 Ver o opúsculo do autor intitulado: A TUA FÉ NA PALAVRA DE DEUS – é Supersticiosa ou Inteligente?



 

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