Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XII - ACTOS 8:9-17
“E estava ali um certo homem, chamado Simão que anteriormente exercera naquela cidade a arte mágica, e tinha iludido a gente de Samaria, dizendo que era um grande personagem.
“Ao qual todos atendiam, desde o mais pequeno até ao maior, dizendo: Este é a grande virtude de Deus.
“E atendiam-no a ele, porque já desde há muito tempo os havia iludido com artes mágicas.
“Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Cristo, se baptizam, tanto homens como mulheres.
“E creu até o próprio Simão; e sendo baptizado, ficou de continuo de Filipe; e vendo os sinais e as grandes maravilhas que se faziam, estava atónito.” - Actos 8:9-13.
A “FÉ” DE SIMÃO
Simão Mago, como o chamamos devido à magia que ele praticava, exercia quase um controle completo sobre estes Samaritanos antes da vinda de Filipe. Lemos que ele “iludia” o povo, isto é, literalmente, ele arrebatava-os dos seus sentidos, clamando que ele próprio era “uma grande personagem”. E ele exercera este poder sobre eles durante muito tempo, de modo que “todos eles atendiam, desde o mais pequeno até ao maior”.
Porém, como o Senhor, pelas Suas palavras e obras, tinha atacado o reino de Satanás, assim também Filipe. O domínio de Simão sobre o povo estava a ser quebrado quando por todo o lado tanto homens como mulheres criam em Cristo e eram baptizados. Na verdade o próprio Simão estava convencido que Filipe tinha algo maior do que ele. Ele também creu e foi baptizado e, continuando com Filipe, maravilhava-se dos milagres que ele realizava.
Contudo não é necessário dizer que a fé de Simão era meramente intelectual. Tratava-se da espécie de fé abordada em João 2:23-25:
“E estando Ele em Jerusalém pela páscoa, durante a festa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no Seu nome.
“Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia.
“E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem.”
E então o registo continua a dizer como o Senhor tratou com um homem que possuía esta espécie de fé e lhe disse: “Necessário te é nascer de novo”.
Foi assim com Simão Mago. Exteriormente parecia como os restantes – eles tinham crido e ele também – mas ele não tinha confiado no Messias de coração. Isto é evidente do facto que Pedro presentemente teve de lhe dizer: “o teu coração não é correcto à vista de Deus”. Simão tinha crido meramente no sentido de ter dado consentimento mental, ao ser convencido da verdade pelos clamores de Filipe. Mas esta não é a fé que salva. A fé que salva é a de coração; ela confia. As seguintes passagens sustentam testemunho deste facto:
“ ... se crês de todo o CORAÇÃO ... “ (Actos 8:37).
“Lídia ... o Senhor lhe abriu o CORAÇÃO ... “(Actos 16:14).
“Se com a tua boca ... e em teu CORAÇÃO creres ... “ (Rom. 10:9).
“VISTO QUE COM O CORAÇÃO SE CRÊ PARA A JUSTIÇA ... “(Rom. 10:10).
Esta é uma lição importante para se aprender, pois mesmo hoje ainda há multidões que crêem, intelectualmente, que a Bíblia é a Palavra de Deus, que são pecadores, que necessitam de ser salvos. Crêem mesmo que Cristo morreu por eles, mas não estão salvos, porque não confiaram n’Ele; não se entregaram a Ele para a salvação. De acordo com a Palavra de Deus a única fé que Ele pode aceitar é um coração confiante.
A CHEGADA DE PEDRO E JOÃO
“Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João.
“Os quais, tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo.
“(Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram baptizados em nome do Senhor Jesus.)
“Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo.” - Actos 8:14-17.
A história de Simão Mago é aqui brevemente interrompida com a chegada de Pedro e João oriundos de Jerusalém. Os doze, ao ouvirem em Jerusalém que os Samaritanos tinham recebido a Palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Porquê? E porque é que os que tinham crido e sido baptizados não receberam o Espírito Santo de acordo com o programa da “grande comissão” (Marcos 16:16,17) e Pentecostes (Actos 2:38)?
A resposta a esta pergunta é de novo encontrada no relacionamento existente entre Judeus e Samaritanos. Como vimos, o cisma entre Jerusalém e Samaria tem de ser curado antes que Cristo possa reinar. Israel e Judá, as dez tribos e as duas, têm de ser reunidas (Ezeq. 37:15-19) pois Cristo reinará sobre todas as doze tribos. Os apóstolos reconheciam isto, pois não lhes prometera o Senhor doze tronos no reino? (Mat.19:28). Não bastava que as duas facções fossem reunificadas. Tinham sido as dez tribos que se tinham afastado e tinham feito de Samaria a sua capital e tinham estabelecido o seu próprio templo no Monte Gerizim. Agora tinham que renunciar a tudo isto e reconhecer Jerusalém como a sede de autoridade, pois seria ali que Cristo e os doze reinariam.
Entretanto este facto também está gravado na mente dos crentes, pois embora os Samaritanos tivessem crido e sido baptizados, contudo não receberam o Espírito Santo antes que os dois apóstolos tivessem vindo de Jerusalém e tivessem orado por eles e lhes tivessem imposto as mãos.
Dois apóstolos bastavam para isto, pois está escrito: “Pela boca de duas testemunhas, ou pela boca de três testemunhas, será confirmada toda a palavra” (Deut. 17:6; 19:15; II Cor.13:1) e Pedro e João, juntamente com Filipe, constituíam três testemunhas. Na realidade o Senhor tinha especificado que quaisquer dos apóstolos, desde que fossem pelo menos dois poderiam actuar oficialmente por Ele na Sua ausência:
“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
“Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por Meu Pai, que está nos céus.
“Porque onde estiverem DOIS ou TRÊS reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mat.18:18-20).1
Assim os crentes em Samaria reconheciam a autoridade dos doze em Jerusalém e, se o reino tivesse sido aceite, ter-se-iam tornado uma nação única com os Judeus. Como o não foi, a restauração do Reino Unido de Israel sob o Messias espera um dia futuro.
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