Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XII - ACTOS 8:4-8 (Cont.)

A MAIS NINGUÉM A NÃO SER AOS JUDEUS

     Os que defendem que a dispensação da graça de Deus e a Igreja deste século começou historicamente em Actos 2 ou antes, ensinam geralmente que temos nesta passagem a saída dos discípulos para as nações sob a Grande Comissão com “o Evangelho da graça de Deus”, pois não lemos que eles “foram por toda a parte pregando a Palavra?”

     Mas reveste-se de cegueira o ensino que afirma que temos aqui o cumprimento da comissão dada aos doze, pois como vimos, sob essa comissão Jerusalém deveria ser primeiramente trazida aos pés do Messias, e estes discípulos tinham precisamente fugido de Jerusalém temendo pelas suas vidas. E reveste-se mesmo de maior cegueira o ensino de que estes discípulos foram proclamar o Evangelho da graça de Deus às nações, pois Actos 11:19, declara explicitamente:

     “E OS QUE FORAM DISPERSOS PELA PERSEGUIÇÃO QUE SUCEDEU POR CAUSA DE ESTÊVÃO CAMINHARAM ATÉ À FENÍCIA, CHIPRE E ANTIOQUIA, NÃO ANUNCIANDO A NINGUÉM A PALAVRA, SENÃO SOMENTE AOS JUDEUS”.

     Até esta altura no registo de Actos, a cena tem sido totalmente Judaica. Em Actos 1 os apóstolos esperam em Jerusalém pela vinda do Espírito Santo (1:4). Entretanto escolhem o sucessor de Judas de modo a que hajam os doze homens para reinar sobre as doze tribos de Israel quando o reino for estabelecido (1:15-26; cf. Mat. 19:28). No dia de Pentecostes, um dia de festa Judaica, Pedro ergue-se com os onze e oferece o arrependimento a Israel, declarando que Deus ressuscitou Cristo de entre os mortos para se assentar no trono de David (2:29-32). Se estava presente algum Gentio na audiência de Pedro decerto que ele o ignorou, pois ele dirigiu-se apenas aos da sua nacionalidade (2:14,22,36). Na realidade, escassos dias depois vemos Pedro oferecer a Israel a bênção milenar e o retorno de Cristo, rogando-lhes que se arrependessem, uma vez que é por meio deles, a semente de Abraão, que as nações hão-de ser abençoadas (3:19-26).

     Tudo isto enquanto os discípulos continuam diariamente unânimes no templo (2:46). Eles são muito cuidadosos em não principiarem uma seita separada do Judaísmo. Cristo é oferecido não como Mediador entre Deus e os homens, mas como Messias de Israel. Pedro e João são vistos entrarem no templo na hora designada para a oração (3:1). Multidões são curadas em Jerusalém (5:16) um grande número de sacerdotes crê (6:7) e é o Sinédrio Judaico que chama os apóstolos para prestarem contas pelo que têm feito e ensinado (4:5-7; 5:17-27; 6:10-13). Na verdade é a acusação severa de Estêvão contra os líderes Hebreus que traz a grande perseguição de Actos 8:1 e são os líderes Judaicos que o apedrejam até à morte (7:54-60):

     Actos 8:4 não indica qualquer mudança no carácter Judaico destes capítulos, pois como salientámos, “foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, não somente aos Judeus” (Actos 11:19).

     Como é que então se pode argumentar dizendo que a Igreja deste século, o Corpo de Cristo, está em vista neste ponto do registo dos Actos, ou que os discípulos foram pregar o Evangelho da graça de Deus? O Corpo de Cristo é – alguma vez poderia ter sido – composto de “somente Judeus”? O Evangelho da graça de Deus é para “somente Judeus”? (Ver Rom.11:32; II Cor. 5:14-16; Ef. 2:14-16;3:1-6).


OS JUDEUS E OS SAMARITANOS

     Tão espalhada se tem tornado esta interpretação errónea do princípio dos Actos, que mesmo a Scofield Reference Bible (Bíblia Anotada de Scofield) contém a seguinte nota sobre o ministério de Filipe em Samaria:

     “Por os Judeus terem rejeitado o testemunho de Estêvão, o Evangelho começa agora a sair para “todas as nações”. Uma pessoa depreende dali que a salvação já estava a ir para os Gentios, por meio da queda de Israel, mas isso não é verdade. Os Samaritanos nas Escrituras não são considerados Gentios, embora na verdade os Judeus da Judeia os tenham em estima pior que aos Gentios.

     As dez tribos, devemo-nos lembrar, separaram-se de Judá e de Benjamim na apostasia sob Reboão. Depois disso as duas tribos passaram a ser chamadas geralmente por Judá e as dez por Israel.

     Renunciando a Jerusalém e ao templo, as dez tribos fizeram de Samaria a sua capital; assim Israel também é referida como Samaria no V. T. (I Reis 13:32; II Reis 17:24,26,28; Ezeq. 16:53, etc).

     Depois da conquista dos Sírios, na qual Israel foi levada para o cativeiro, o rei da Síria enviou para lá colonos para repovoarem a terra. Estes casaram-se com os das dez tribos que ainda permaneciam na terra e trouxeram-nos a um nível espiritual moral ainda mais baixo. Contudo, o Senhor enviou leões ao seu meio para os devorar até que o rei da Síria achou necessário enviar um dos sacerdotes Hebreus a Samaria para ensinar-lhes “a maneira do Deus da terra” (II Reis 17.25-28).

     Após o cativeiro Babilónico os Judeus não permitiam que os samaritanos os ajudassem a reedificar o templo em Jerusalém. (Esdras 4) e em face disso os Samaritanos edificaram um templo rival no Monte Gerizim (cf. João 4:20).

     Uma vez que os Samaritanos tinham renunciado a Jerusalém e à sua autoridade, os Judeus não queriam nada com eles, mas é importante lembrarmo-nos que independentemente das suas heresias, Samaria representava as dez tribos, guardavam a lei de Moisés, adoravam o Deus verdadeiro e esperavam pela vinda do Messias.

     Certamente que havia um grande número de indivíduos das dez tribos que não alinhava com a grande apostasia nem se misturava com os Sírios, e vivia na Judeia, Galileia e outros lugares dentro e fora da Palestina. Assim o termo Israel mais tarde começou de novo a ser aplicado a todos os das doze tribos que eram fiéis ao sacerdócio designado por Deus e ao templo em Jerusalém. Do mesmo modo, os Israelitas das dez tribos vieram a ser chamados Judeus, juntamente com os das dez tribos de Judá e de Benjamim.

     Se algo é claro nas Escrituras proféticas é que um dia a ferida entre as dez tribos e as duas será totalmente sarada e que todas as dez tribos de Israel serão restauradas e exaltadas no reino (Ezeq. 37:15-19; Jer. 31:31-34; etc).

     Assim na proclamação do reino como temos registado nos quatro Evangelhos e nos Actos, o termo Israel refere-se a todas as doze tribos (Ver Mat. 19:28; Actos 1:6; etc). Paulo usou mais tarde o termo do mesmo modo (Actos 26:7; 28:20).

     O ministério de Filipe entre os Samaritanos, portanto, não se tinha desviado do programa do reino profético, nem constituía a proclamação do evangelho aos Gentios por meio da incredulidade de Israel. Filipe foi aos Samaritanos procurar ganhá-los para o verdadeiro Messias, que devia reinar em Jerusalém sobre todas as doze tribos de Israel.

     Não foi antes do levantamento dum outro apóstolo – Paulo – que o Evangelho da graça de Deus foi proclamado e a salvação enviada aos Gentios por meio da queda de Israel. Isto também explica o elemento miraculoso nesta passagem, pois essas demonstrações estavam associadas ao reino e cessaram apenas quando Israel, como nação, foi colocada de parte.

     Então não constituía prejuízo algum os apóstolos e os discípulos manterem-se a ministrar apenas entre o povo de Israel, mas revelava uma compreensão clara do Concerto Abraãmico e do programa profético, no qual a bênção das nações dependia da bênção e exaltação da nação de Israel.


FILIPE E OS SAMARITANOS

     E agora, como para enfatizar o aspecto nacional da rebelião de Israel, vemos estes Samaritanos envergonharem os líderes em Jerusalém quando unânimes dão ouvidos a Filipe e confiam em Cristo como seu Messias. Já uma vez antes os Samaritanos em Sicar tinham respondido assim quando o Próprio Cristo apareceu no seu meio (João 4:39-42).

     Quem teria pensado que os líderes de Israel, sim, os próprios Fariseus e escribas, rejeitariam o Seu Messias enquanto os filhos da apóstata Samaria O aceitariam alegremente! Mas tem sido sempre assim.

     A verdade não é propriedade de alguns favorecidos que podem olhar de soslaio com desprezo para os que a não possuem. A verdade é a Palavra de Deus crida. Quão frequentemente os que se encontram nas circunstâncias mais desfavoráveis crêem nela e ceifam, devido a isso, resultados benditos, enquanto os que se erguem no lugar de privilégio supõem não ter mais a aprender, rejeitam-na e sofrem as consequências!


E HOUVE GRANDE ALEGRIA NAQUELA CIDADE

     Certamente! É sempre este o resultado de se crer em Deus. Quando o retorno de Cristo foi adiado por causa da incredulidade de Israel, Pedro ainda podia escrever aos crentes da dispersão:

     “AO QUAL NÃO O HAVENDO VISTO, AMAIS; NO QUAL, NÃO O VENDO AGORA, MAS CRENDO, VOS ALEGRAIS COM GOZO INEFÁVEL E GLORIOSO” (I Ped. 1:8).

     E a nós que cremos em Deus neste “presente século mau”, Paulo pelo Espírito diz:

     “ORA O DEUS DE ESPERANÇA VOS ENCHA DE TODO O GOZO E PAZ EM CRENÇA, PARA QUE ABUNDEIS EM ESPERANÇA PELA VIRTUDE DO ESPÍRITO SANTO” (Rom. 15:13).

     Mas chegamos agora ao caso de Simão, o feiticeiro, e colhemos um vislumbre da inaudita impiedade de que o coração humano é capaz, mesmo quando rodeado por uma atmosfera de bênção e gozo espirituais.


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