Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO X- ACTOS 7:56-60
ESTÊVÃO APEDREJADO
“E disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem, está em pé à mão direita de Deus.
“Mas eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele.
“E, expulsando-o da cidade o apedrejavam. E as testemunhas depuseram os seus vestidos aos pés de um mancebo chamado Saulo.
“E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.
“E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu.” - Actos 7:56-60.
Dominado pela glória da visão celestial, Estêvão exclama que vê Cristo em pé, à mão direita de Deus. Os líderes, tão familiarizados com tais passagens como as que citámos dos Salmos, não se contêm mais. Num frenesim de raiva eles vociferam, fechando ao mesmo tempo os seus ouvidos para não ouvirem nada mais semelhante, e, correm juntos para ele, expulsando-o da cidade e apedrejando-o até à morte. Tão amargo é o ódio e tal é a conduta de homens que algum tempo antes se tinham queixado “Quereis lançar sobre nós o sangue desse Homem?” (Actos 5:28)!
Porém em impressionante contraste com o seu histerismo Estêvão, invocando o Senhor Jesus para receber o seu espírito, ajoelha-se e pede a Deus que lhes perdoe o seu pecado. E com isso, lemos, “adormeceu”1. Se a oração de Estêvão foi ou não respondida não teremos de esperar para ver.
A PARÁBOLA PROSSEGUIDA
Neste ponto devemos considerar uma das parábolas do Senhor recordadas por Lucas. É frequentemente chamada de “a parábola prosseguida”, devido ao comentário de Lucas:
“E, ouvindo eles estas coisas, ELE PROSSEGUIU e contou um parábola; PORQUANTO ESTAVA PERTO DE JERUSALÉM, E CUIDAVAM QUE LOGO SE HAVIA DE MANIFESTAR O REINO DE DEUS” (Lucas 19:11).
Nesta parábola o Senhor descreve como Pilatos e os outros governantes receberam a autoridade de César, e assemelha e compara este procedimento ao Seu próprio caso:
“Disse, pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois.
“E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.
“Mas os seus concidadãos aborreciam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós” (Lucas 19:12-14).
A analogia é simples e clara. Cristo tinha sido escolhido por Deus para reinar e ausentar-se-ia para longe – para o próprio céu – “a fim de receber para Si um reino e voltar”. Durante a Sua ausência os seus servos trabalhariam para Ele mas, como acontecia algumas vezes nos casos dos governadores chamados por César para serem investidos de autoridade, os Seus cidadãos odiá-Lo-iam e enviariam uma mensagem para Ele dizendo: “Não queremos que este Homem reine sobre nós”.
O resto da parábola descreve os procedimentos do Rei com os Seus servos e prediz a condenação dos Seus inimigos, mas basta dizer aqui que não há dúvida que Estêvão é o mensageiro referido. Foi a ele que a nação de Israel enviou a Deus com a mensagem: “Não queremos que este Homem reine sobre nós”.
O PECADO IMPERDOÁVEL
Que confusão tem havido sobre o tema o pecado imperdoável! Quantos – alguns em instituições mentais – têm sido obcecados pelo temor de terem cometido este pecado – e isso, enquanto os próprios ensinadores da Bíblia estão divididos quanto ao que é verdadeiramente o pecado imperdoável!
Decerto que os que conhecem o Evangelho da graça de Deus não incutirão temor nos corações dos seus ouvintes com a ameaça de um pecado imperdoável, pois
“ ... temos a redenção pelo Seu sangue, A REMISSÃO DAS OFENSAS, SEGUNDO AS RIQUEZAS DA SUA GRAÇA” (Ef. 1:7).
“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; MAS, ONDE O PECADO ABUNDOU SUPERABUNDOU A GRAÇA;
“PARA QUE, ASSIM COMO O PECADO REINOU NA MORTE, TAMBÉM A GRAÇA REINASSE PELA JUSTIÇA PARA A VIDA ETERNA POR SENHOR JESUS CRISTO NOSSO SENHOR” (Rom. 5:20,21).
Decerto que não há aqui qualquer lugar para um pecado imperdoável. Tem sido dito muito bem que os pecadores que morrem em incredulidade nesta dispensação da graça irão para o lago de fogo com todos os seus pecados por perdoar, mas nenhum deles sendo imperdoável.
Os avisos do Senhor acerca do pecado imperdoável têm em vista a vinda do Espírito Santo. E isto não acontecia por o Espírito Santo ser um membro da Trindade mais importante que o Pai Santo ou o Santo Filho. Aconteceu simplesmente que com a vinda do Espírito Santo para instar com Israel, todos os três membros da Trindade teriam feito a sua parte para trazer a nação ao arrependimento e à salvação.
Ao longo de todos os tempos do Velho Testamento Israel tinha resistido ao Pai. O Pai, por Sua vez, tinha enviado o Filho, que ensinara e labutara entre eles, para também ser rejeitado. Agora o Filho enviaria o Espírito, e Israel teria a sua última oportunidade. Assim o Senhor disse:
“Portanto eu vos digo: Todo o pecado e blasfémia se perdoará aos homens: mas a blasfémia contra o Espírito não será perdoada aos homens.
“E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoado, mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro” (Mat.12:31,32).
Assim como o número sete, nas Escrituras, fala de perfeição, o número três significa completo ou consumado. O próprio Deus é uma trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. O número três também está estampado na criação. Nós próprios temos o número três estampado em nós, pois somos corpo, alma e espírito. O universo estrutural sustenta o mesmo número, sendo constituído por tempo, espaço e matéria, subdividindo-se estes em tríades. Tempo: passado, presente e futuro. Espaço: comprimento, largura e altura. Matéria: energia, moção e fenómeno.2 E as Escrituras ao tratarem do Universo, designam “as coisas que estão no céu, as que estão na terra, e as que estão debaixo da terra” (Fil 2:10).
Na homilética a norma é o sermão de três pontos. No negócio temos os “três dias de graça” como tempo limite e o leiloador tem o seu célebre “vai uma, vão duas – foi”! Mesmo no desporto o número três é proeminente. Qual o jovem que não sabe que tem um tempo máximo de três segundos, não de quatro nem cinco, para no basquetebol, se encontrar na área do “garrafão”? E a forma mais simples de uma corrida começa com um “aos seus lugares, prontos – parte!”
O número três é proeminente mesmo na disciplina paternal. Quando o escritor era ainda miúdo não era raro ouvir o seu pai dizer: “Esta é a segunda vez que te aviso. Se tenho de te avisar de novo - !!!”
E foi assim com a nação de Israel. Quando o Senhor avisou os líderes da nação de Israel que o pecado e a blasfémia contra o Espírito Santo não lhes seria perdoado foi simplesmente porque o Espírito Santo estava na eminência da sua descida e de dar-lhes a sua terceira e última oportunidade para o arrependimento. E após todo o seu pecado e blasfémia contra o Pai e o Filho, o Espírito Santo desceu em Pentecostes, operando entre eles tão poderosamente e confrontando-os com provas tão estarrecedoras dos direitos reais do Senhor que a sua rejeição contínua foi totalmente indesculpável e imperdoável.
Apesar disso continuaram na sua rebelião. Eles tinham resistido ao Pai e ao Filho, e agora Estêvão teve que lhes dizer: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo”.
TRÊS HOMICÍDIOS BRUTAIS
Todo o estudante da Palavra devia conhecer os três homicídios brutais à volta dos quais toda a história se resolve. Os três homicídios representavam a resposta da nação de Israel à tripla chamada de Deus ao arrependimento. Explicam o pecado imperdoável e formam o pano de fundo da dispensação da graça.
Foi João Baptista, o último dos profetas do Velho Testamento, que foi enviado como o percursor de Cristo para chamar Israel ao arrependimento. Ele foi decapitado por Herodes, “rei dos Judeus” ímpio e licencioso. Depois de João, o próprio Cristo clamou: “Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo”. A Ele eles crucificaram. Depois, em Pentecostes, foi dada uma terceira oportunidade a Israel, até que de novo derramaram sangue, apedrejando Estêvão até à morte.
Deveria ser também notado que a culpa deles, como também a sua amargura, inimizade, aumentou com o segundo e terceiro homicídios. Quanto à decapitação de João Baptista, eles permitiram-na.3 Quanto à crucificação de Cristo, eles exigiram-na (Lucas 23:23,24). Quanto ao apedrejamento de Estêvão, eles mesmo lançaram-no fora da cidade com as suas próprias mãos e apedrejaram-no ali.
E foi assim que aquela geração em Israel cometeu o pecado imperdoável que o Senhor avisou que não seria perdoado, quer naquele século, quer no vindouro.4
UM JOVEM CHAMADO SAULO
Contudo havia entre eles pelo menos um blasfemador que não estava incluído no aviso do Senhor, pois não tinha estado sob o ministério de Cristo. Tratava-se de Saulo, que tinha vindo a Jerusalém oriundo de Tarso na Cilicia.
Saulo estava um tanto na mesma posição que os líderes Judaicos tinham estado antes da crucificação de Cristo. Nessa altura eles não sabiam que Jesus era o Cristo. É verdade que eles podiam, sim, deviam ter sabido. Porém o facto permanece que eles não sabiam. O próprio Senhor dissera-lhes: “Quando levantardes o Filho do Homem, ENTÃO conhecereis quem Eu sou” (João 8:28). Isto concorda com a oração do Senhor na cruz: “Pai, perdoa-lhes PORQUE ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM” (Lucas 23:34). Isto também concorda com a declaração de Pedro aos “varões de Israel”: “E agora irmãos, eu sei que O FIZESTES POR IGNORÂNCIA, como também os vossos príncipes” (Actos 3:17).
Agora, certamente, os líderes sabiam que Jesus era o Cristo e o seu pecado era imperdoável, mas Saulo de Tarso não tinha estado entre eles quando Cristo estava na terra. Ele não sabia. É verdade de que ele também podia e devia ter sabido, mas permanece de novo o facto de que ele não sabia. Ouçamos as suas próprias palavras inspiradas:
“E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério;
“A mim, que dantes fui BLASFEMO, E PERSEGUIDOR, E OPRESSOR; MAS ALCANCEI MISERICÓRDIA, PORQUE O FIZ IGNORANTEMENTE, NA INCREDULIDADE” (I Tim. 1:12,13).
Aqui encontramos Saulo entre os homicidas de Estêvão onde cedo se tornaria o líder da rebelião de Israel e do mundo contra Deus e o Seu Cristo. Não será que a nação de Israel foi suficientemente longe na sua obstinada rejeição do Messias?
1 Não existe qualquer fundamento nesta passagem para a doutrina contrária às Escrituras do adormecimento da alma. É o corpo que é referido como adormecido (Dan. 12:2, etc.) porque descansa do seu trabalho e dor e será de novo erguido um dia.
2 Ver o livro revelador de Nathan R. Wood: “O segredo do Universo”.
3 Se Israel tivesse respondido à chamada de João ao arrependimento Herodes nunca sequer teria ousado colocá-lo na prisão. Isto explica porque o Senhor não fez nada para libertar João da prisão, mesmo apesar disso ter ofendido João. Não era a Sua acção a favor do injusto aprisionamento de João, mas a acção deles prendendo-o, que testificava contra eles, todos os momentos que ele passou na prisão (Ler cuidadosamente Lucas 3:18-20; 7:19-29 e Mat. 14:1-11).
4 Lembremo-nos que este presente século de graça era ainda um mistério quando isto foi pronunciado; assim esse “século futuro ou vindouro” refere-se à era do reino vindouro.



