Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO X- ACTOS 7:54,55
O HOMICÍDIO DE ESTÊVÃO
A FÚRIA DOS LÍDERES E A VISÃO DE ESTÊVÃO
“E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele.
“Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus.” - Actos 7:54,55.
“Enfurecidos nos seus corações” com a acusação penetrante de Estêvão, os líderes de Israel “rangiam os dentes contra ele”. As palavras dele eram pesadas demais para aquilo que as consciências culpadas deles poderiam suportar. Eles cometeram homicídio nos seus corações.
Contudo ele agora, aparentemente absorto perante a fúria deles, fixa os olhos no céu1 vendo a glória de Deus e Jesus em pé à Sua mão direita.
Muita discussão se tem centrado à volta do facto de Cristo aqui estar em pé em vez de sentado. Marcos 16:19 diz claramente:
“Ora o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita da Deus.”
Mais, Hebreus 10 ensina que o Senhor se assentou à mão direita de Deus porque a obra da salvação estava consumada. Porque é que aqui Ele é visto em pé?
Alguns como única explicação, têm apresentado a teoria de que o Senhor se ergueu para receber no lar celestial o Seu mártir, Estêvão, contudo reflictamos um momento, e não antecipemos revelação, lendo Hebreus capítulo 10, o qual ainda não tinha sido escrito na altura em que fora Marcos 16.
Primeiro, quanto à posição do Senhor à mão direita do Pai, temos frequentemente feito a questão: Que espécie de trono o Filho ocupa agora com o Pai? É feito de marfim, de ouro de pedras preciosas? Qual o seu tamanho? Onde é que se encontra?
Tais questões salientam prontamente o facto de que a presente posição e glória do Senhor é algo infinitamente para além da compreensão humana. Alguém disse que se o Pai e o Filho se encontram agora sentados no céu, o Seu trono deve assentar em estrelas situadas a milhões de milhas. Certamente! Não afirma Isa. 66:1 que: “O céu é o Meu trono e a terra o Meu estrado ou escabelo dos Meus pés”? Como é que mentes finitas podem abranger isto?
Assim, a posição do Senhor à mão direita do Pai deve ter um significado maior que o meramente local, e o ponto de vista de que Ele aqui se ergue para saudar o Seu mártir Estêvão parece superficial, para dizer o mínimo. Deve haver um significado mais profundo. Na verdade, se esta teoria estivesse correcta, no mínimo, a visão teria sido dada a Estêvão após eles o terem tomado para o apedrejarem em vez do que o que se provou ter acontecido: que aquilo os enfureceu mais e os levou finalmente a tomarem-no e a apedrejarem-no (Ver vers. 56-58).
Na epístola aos Hebreus o Senhor é diversas vezes representado na posição de sentado, descansando da obra consumada da redenção. Diz o apóstolo:
“ ... HAVENDO FEITO POR SI MESMO A PURIFICAÇÃO DOS NOSSOS PECADOS, ASSENTOU-SE À DEXTRA DA MAJESTADE NAS ALTURAS” (Heb. 1:3).
Esta indicação duma redenção consumada, é contrastada vivamente com o facto de que o sacerdote do Velho Testamento efectuava a sua obra continuamente de pé. O mobiliário do tabernáculo incluía altares, uma pia, uma arca,2 um castiçal e um mesa, porém nenhuma cadeira, pois a obra do sacerdote nunca estava consumada. Por via de contraste a obra de Cristo a favor dos pecados fora consumada uma vez e para sempre.
“ ... TODO O SACERDOTE APARECE CADA DIA, MINISTRANDO E OFERECENDO MUITAS VEZES OS MESMOS SACRIFÍCIOS, QUE NUNCA PODEM TIRAR OS PECADOS:
“MAS ESTE, HAVENDO OFERECIDO UM ÚNICO SACRIFÍCIO PELOS PECADOS, ESTÁ ASSENTADO PARA SEMPRE À DEXTRA DE DEUS,
“ ...
“PORQUE COM UMA SÓ OBLAÇÃO APERFEIÇOOU PARA SEMPRE OS QUE SÃO SANTIFICADOS” (Heb. 10:11-14).
Que contrastes! Muitos sacrifícios; um só sacrifício! Aqueles “nunca podem”; este “para sempre”3! Todo o sacerdote “de pé diariamente”; Cristo “sentado”.
É significante o facto de no ver. 13 o apóstolo não incluir o “até” do Salmo 110:1, pois Ele apenas contempla a obra de Cristo efectuada uma vez por todos, a redenção consumada na qual Ele descansa “para sempre”.
Porém se o Senhor não se ergueu para receber Estêvão, e se a Sua posição em pé não denota qualquer elemento de imperfeição na Sua obra de redenção o que é que então significa?
Ao respondermos a esta questão devemos de novo levar o leitor a não antecipar revelação ao considerar a experiência de Estêvão. Até esta altura nada, absolutamente nada, tinha sido dito acerca de Cristo se ter assentado à mão direita de Deus porque Ele tinha consumado a obra da redenção. A proclamação da obra consumada de Cristo, ou “a pregação da cruz” como é chamada, pertenceria à “dispensação da graça de Deus” e ao “mistério” mais tarde confiado por revelação a Paulo (Ver I Cor. 1:18-25; Ef. 3:1-3). Profeticamente, a posição do Senhor à mão direita do Pai tinha um significado muito diferente e, lembra que, os crentes nos dias de Estêvão tinham um pano de fundo profético. O mistério do presente propósito de Deus ainda não tinha sido revelado.
Quem é que pode ler Marcos 16:19 sem se recordar do Salmo 110:1 que ocupa um lugar tão proeminente nos Evangelhos e nos Actos?
“DISSE O SENHOR AO MEU SENHOR: ASSENTA-TE À MINHA MÃO DIREITA, ATÉ QUE PONHA OS TEUS INIMIGOS POR ESCABELO DOS TEUS PÉS.”
É claro que aqui a obra consumada da redenção não é de modo algum referida. Pelo contrário o Senhor é convidado à mão direita do Pai porque tem “inimigos na terra” que não O querem. Contudo Ele deve permanecer sentado com o Seu Pai como um Exilado real somente “até” o tempo em que os Seus inimigos hão-de ser colocados debaixo dos Seus pés.
Não é de admirar encontrarmos tantas vezes nos Salmos o clamor: “Levanta-te, oh Deus” e “Levanta-te, oh Senhor”. É em relação com o juízo dos inimigos de Cristo e o livramento do remanescente fiel que encontramos o Pai e o Filho erguendo-se em passagens proféticas tais como as seguintes:
“LEVANTA-TE SENHOR, NA TUA IRA; EXALTA-TE POR CAUSA DO FUROR DOS MEUS OPRESSORES ...” (Sal. 7:6).
E uma vez que a rebelião de Israel não era senão o clímax da rebelião do mundo contra Deus e o Seu Cristo (Actos 4:23-28) lemos mais:
“LEVANTA-TE SENHOR; NÃO PREVALEÇA O HOMEM; SEJAM JULGADAS AS GENTES PERANTE A TUA FACE” (Sal. 9:19).
Israel, com a persistente rejeição do seu Messias, trouxe a ira de Deus sobre si e as outras nações? O Pai e o Filho rejeitados ergueram-se para ferirem o mundo em juízo? Cristo estava em vias de vingar os Seus discípulos perseguidos? Certamente que as condições estavam reunidas para o derramamento da ira de Deus, tanto quanto a profecia revela.
Graças a Deus, “onde o pecado abundou superabundou a graça” (Rom.5:20). Deus, em amor e misericórdia incomensuráveis ainda protelou o juízo e introduziu a presente dispensação da graça. Mas não nos adiantemos na nossa história.
1 Do mesmo modo que eles fixaram os olhos nele (Ver 6:15). Também tanto a fraseologia de 6:15 como de 7:55, no original, é a mesma que a de 1:10, onde vemos os onze fixarem os olhos no (eis) céu.
2 No último versículo de Génesis a palavra é traduzida por “caixão”. A arca era simplesmente um caixão para o concerto da lei (Ver Ex. 25:10,16; Deut. 10:1,2, I Reis 8:9). Era coberta com o “propiciatório” e aspergida com o sangue.
3 A tradução correcta do original como o revelam as melhores versões É, “Mas Este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados PARA SEMPRE, está assentado à dextra de Deus”, e não “Mas Este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado PARA SEMPRE à dextra de Deus”. – Nota do tradutor.



