Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO X- ACTOS 7:1-16

A CHAMADA DE ABRAÃO E O CONCERTO ABRAÂMICO

     “E disse o sumo-sacerdote: Porventura é isto assim?

     “E ele disse: Varões irmãos, e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Haran.

     “E disse-lhe: Sai de tua terra e dentre a tua parentela, e dirige-te à terra que Eu te mostrar.

     “Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Haran. E dali depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para esta terra em que habitais agora.

     “E, não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé; mas prometeu que lhe daria a posse dela, e depois dele à sua descendência, não tendo ele filho.

     “E falou Deus assim: Que a sua descendência seria peregrina em terra alheia, e a sujeitariam à escravidão e a maltratariam por quatrocentos anos.

     “E eu julgarei a nação que os tiver escravizado, disse Deus: E depois disto sairão, e Me servirão neste lugar.

     “E deu-lhe o pacto da circuncisão; e assim gerou a Isaac e o circuncidou ao oitavo dia; E Isaac a Jacob; e Jacob aos doze patriarcas.” - Actos 7:1-8.

     Estevão começa por salientar que “o Deus da glória” aparecera a Abraão e aos patriarcas, fizera grandes promessas a respeito da semente de Abraão e dera-lhe o concerto da circuncisão – tudo muito antes do concerto Mosaico. Certamente que isto não queria dizer que a lei agora podia ser ignorada, mas lembrava-os que Deus tinha escolhido Abraão e a sua semente antes da dádiva da lei de Moisés e preparava-os  para uma consideração dos clamores de Cristo.

     Estevão também salienta que a princípio a Palavra de Deus a Abraão também não parecia verídica. Quanto à terra prometida, Deus “não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé” ainda que Ele a tivesse “prometido que lha daria por possessão, e à sua semente depois dela”. E quanto à “sua semente”, Deus prometeu que a terra de Canaã seria para a semente de Abraão, “quando ele ainda não tinha nenhum filho”. Os ouvintes de Estevão lembrar-se-iam claramente dos detalhes dessa história, que Abraão estava quase com cem anos de idade e Sara quase com noventa quando ainda esperavam, crendo que Deus lhes daria a semente prometida.

     Este exórdio da mensagem de Estevão visava induzir os seus ouvintes a atentarem cuidadosamente e a considerarem inteligentemente os clamores de Cristo. Os Judeus esperavam que o Messias viesse como um líder vitorioso para libertá-los do jugo Romano e ficaram desiludidos por Ele ter insistido que eles se arrependessem. Como Ele não apelou à sua imaginação nem aos seus sonhos – antes para o que eles não desejavam – eles não acreditaram que Ele fosse o Messias.

     As observações preliminares de Estevão deveriam levá-los a parar e a pensar, pois inicialmente também parecia incrível que Abraão algum dia fosse pai de uma grande nação. E quanto à sua semente possuir a terra de Canaã a razão teria argumentado: “Vejamos primeiro se ele tem alguma semente”. E mais, a promessa da possessão da terra deve ter parecido verdadeiramente perdida para a sua semente anos mais tarde ao continuarem quatrocentos longos anos escravizados no Egipto. Contudo em todo o caso a Palavra de Deus provou ser verdadeira e agora os líderes de Israel, em vez de continuarem a rejeitar obstinados e cegamente este “Jesus Nazareno” fariam bem em examinar cuidadosamente as Escrituras e introspeccionarem-se à luz da Palavra de Deus para verem se na verdade Ele seria ou não o Cristo.


JOSÉ E OS SEUS IRMÃOS

     “E os patriarcas, movidos de inveja, venderam a José para o Egipto; mas Deus era com ele.

     “E livrou-o de todas as suas tribulações, e lhe deu graça e sabedoria ante Faraó, rei do Egipto, que o constituiu governador sobre o Egipto e toda a sua casa.

     “Sobreveio então a todo o país do Egipto e de Canaã fome e grande tribulação; e nossos pais não achavam alimentos.

     “Mas tendo ouvido Jacob que no Egipto havia trigo, enviou ali nossos pais, a primeira vez.

     “E na segunda vez foi José conhecido por seus irmãos, e a sua linhagem foi manifestada a Faraó.

     “E José mandou chamar a seu pai Jacob, e toda a sua parentela, que era de setenta e cinco almas.

     “E Jacob desceu ao Egipto, e morreu, ele e nossos pais.

     “E foram transportados para Siquem, e depositados na sepultura que Abraão comprara por certa soma de dinheiro aos filhos de Hemor, pai de Siquem.” - Actos 7:9-16.

     Certamente que aqui José é apresentado como um tipo de Cristo. Ele também foi odiado pelos seus irmãos e entregue à morte, porém mais tarde foi exaltado e tornado Governador e Salvador dos seus irmãos .

     A declaração de Estevão de que “na segunda vez foi José conhecido por seus irmãos”, é particularmente significante, pois apesar de Israel ter rejeitado Cristo na Sua primeira vinda, Pedro e os apóstolos estavam agora a oferecer o Seu retorno, que introduziria “os tempos de refrigério” se Israel se arrependesse1. Na verdade eles predisseram que Ele voltaria para ocupar finalmente o trono fosse qual fosse a atitude de Israel agora (Actos 20:20, 30, 36; 3:21-23).

     Notemos no crescente poder de argumentação do sagaz Estevão. Ele ainda não tinha sequer mencionado Cristo, pois se o fizesse enfurecê-los-ia de tal modo que não o ouviriam, mas todos os Judeus no Sinédrio sabiam o que ele queria dizer. Com a mera repetição desta história familiar ele estava a dizer: “Não confiem demasiado pensando que destruíram Cristo, ao crucificá-lo no madeiro. Os irmãos de José também pensavam que o tinham destruído, quando o lançaram na cova. Porém estavam errados, e algum tempo depois tiveram de enfrentar face a face quem tinham rejeitado”.


1 Deveria ser notado aqui que não existe nenhuma discrepância entre Actos 7:14 e Gén. 46:27, pois na passagem de Génesis os aludidos são os da “casa de Jacob”, isto é, “os que vieram dos seus lombos”, enquanto que Actos 7:14 é aludida a sua “parentela”.

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