Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO X- ACTOS 6:11-15

Estevão acusado falsamente

     “Então subornaram uns homens, para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus.

     “E excitaram o povo, os anciãos e os escribas; e investindo com ele, o arrebataram e o levaram ao conselho.

     “E apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei.

     “Porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno há-de destruir este lugar e mudar os costumes que Moisés nos deu.

     “Então todos os que estavam assentados no conselho, fixando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo.” - Actos 6:11-15.

     Seria de supor que os inquiridores de Estevão, ao receberem respostas plenas e vendo-se incapazes de o rebaterem, reconhecessem a verdade e aceitassem Jesus como seu Messias. Mas a depravada natureza humana não reage assim. O orgulho deles tinha sido ferido. Incapazes de lhe responderem, começaram a persegui-lo.

     O vergonhoso quadro que agora testemunhamos é um testemunho da depravação da natureza humana. Estes homens, tendo vindo a Jerusalém provavelmente, em princípio, com motivos dignos e aspirações elevadas, agora quedam-se – precisamente como os seus líderes tinham feito antes deles – a privadamente incitarem homens desonrosos a cometerem perjúrio ao levantarem falsos testemunhos diante do Sinédrio contra Estevão.

     É verdade que havia segmentos de verdade nas suas acusações, mas a verdade pervertida pode ser mais danificante do que a mentira mais descarada.

     Estevão não tinha proferido palavras blasfemas quer contra Moisés quer contra Deus. Porém perante acusação geral, o povo e os anciãos e os escribas aprisionam-no e trazem-no diante do Concílio.

     Aqui, levantam-lhe falsos testemunhos acusando-o de proferir palavras blasfemas contra o templo e a lei.

A acusação específica:

     “Porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno há-de destruir este lugar e mudar os costumes que Moisés nos deu” (Actos 6:14).

     A acusação de que “esse Jesus Nazareno” (notemos o desprezo para com Cristo) destruiria o templo, era praticamente a mesma como a que tinha sido traduzida precisamente contra o próprio Cristo (Ver Mat. 26:61). Porém nem o Senhor nem Estevão fizeram qualquer declaração.

     Na verdade, com o coração pesado, o Senhor predissera que o templo seria destruído (Lucas 19:41-44, etc), porém nunca deu a entender que Ele próprio o destruiria. Também foi verdade que Ele falara do Seu corpo como “este templo”, mas longe de dizer que Ele o havia de destruir, Ele disse que se eles o destruíssem Ele reedificá-lo-ia novamente em três dias! (Ver João 2:19).

     Há alguns que supõem que a acusação acerca da mudança de costumes que Moisés tinha instituído tinha de facto algum fundamento. Supõem que Estevão provavelmente predissera a dispensação da graça que agora gozamos. Porém isso não pode ser, pois a presente dispensação da graça era um mistério, escondido em Deus antes de ser revelado a e por meio de Paulo (Ef. 3:1-3, etc).

     Se Estevão tivesse na verdade falado de algumas mudanças na dispensação Judaica só poderia ter sido no mesmo sentido que o Senhor falou de tais mudanças. Por exemplo, vemos o Senhor citar da lei de Moisés no Seu Sermão da Montanha e repetidamente acrescentar as palavras: “Eu porém vos digo”, etc. Contudo isto não implicava nenhum menosprezo para com a lei de Moisés, nem qualquer sugestão de se alterar os seus preceitos ou inferiorizar os seus padrões. O facto é simplesmente que, sob o reino Messiânico, um padrão ainda mais elevado seria mantido. Haveria na verdade uma mudança, mas só no sentido de que o povo de Deus, pelo Espírito, obedeceria espontaneamente de coração, à lei! Mesmo o seu próprio profeta Jeremias profetizara uma tal mudança.

     “Eis que dias vêem, diz o Senhor, em que farei um concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá.

     “Não conforme o concerto que fiz com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egipto; porquanto eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor.

     “Mas este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias. Diz o Senhor: POREI A MINHA LEI NO SEU INTERIOR E A ESCREVEREI NO SEU CORAÇÃO; E EU SEREI O SEU DEUS E ELES SERÃO O MEU POVO” (Jer. 31:31-33).

     Que perigo jaz envolto na rejeição da verdade! Os líderes de Israel tinham-se colocado há pouco tempo em encruzilhadas morais. Em vez de reconhecerem a verdade, permitiram que o orgulho egoístico os afundasse cada vez mais no abismo da culpa e condenação em que nós agora os encontramos. E agora estes Helenistas – provavelmente a maior parte destes estudantes de teologia – enveredam pela mesma senda perigosa. Incapazes de responderem à verdade e ainda também demasiado obstinados para a aceitarem, perseguem e acusam falsamente aquele que a proclama.

     O mesmo se passa nos nossos dias. Quando os líderes religiosos, embora rodeados por milhares de pessoas sinceras, continuam a rejeitar o grande corpo de doutrina que Deus tem revelado para nós hoje é raro passar-se muito tempo sem que eles sejam vistos a atacarem e a perseguirem os seus oponentes. Incapazes de lhes responderem com a Palavra, e não querendo curvarem-se perante a mesma, eles quedam-se aos métodos de Satanás ao oporem-se àquilo em que deveriam ser campioníssimos.

     Mas Deus não estava na disposição de deixar Israel com uma única desculpa por ter rejeitado Cristo. Assim, quando o grande júri e os acusadores Helenistas fixaram todos a atenção em Estevão, a sua face foi transformada sobrenaturalmente “como se fosse a face de um anjo”. Era este homem de Deus, miraculosamente transformado, que estava agora a responder às acusações que lhe eram feitas.

     Este dia era decisivo para a história de Israel. João Baptista chamara Israel ao arrependimento. Eles decapitaram-no. O próprio Senhor retomara o apelo onde João o deixara. Crucificaram-no. Pedro e os onze em Pentecostes chamaram novamente Israel ao arrependimento, e agora Estevão, cheio do Espírito Santo e transformado divinamente diante deles, fará o apelo final. Qual será a resposta?

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