Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO VIII - ACTOS 5:1-11

UM ANTEGOSTO DO JUÍZO NO REINO

     “Mas um certo varão chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade;

     “E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher, e, levando uma parte a depositou aos pés dos apóstolos.

     “Disse, então, Pedro: Ananias, porque encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade?

     “Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Porque formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens mas a Deus.

     E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram.

     “E, levantando-se os mancebos, cobriram o morto, e, transportando-o para fora, o sepultaram.

     “E, passando um espaço de quase três horas, entrou, também, a sua mulher não sabendo o que havia acontecido.

     “E disse-lhe Pedro: Diz-me, vendestes por tanto aquela herdade? Ela disse: Sim, por tanto.

     “Então Pedro lhe disse: Porque é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí, à porta, os pés dos que sepultaram o teu marido, e também te levarão a ti.

     “E logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os mancebos, acharam-na morta, e a sepultaram junto do seu marido.

     “E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas.” - Actos 5:1-11.


O CASO DE ANANIAS E SAFIRA

     Por vezes supõe-se que o pecado de Ananias e Safira assinala o princípio do ruir do comunismo divino praticado no princípio dos Actos.

     Isso não é verdade, pois embora estes dois enganadores se tenham desviado seriamente do programa dado por Deus, foram imediatamente fulminados pela morte e o programa continuou inalterado.

     Nem se deve pensar que Ananias e Safira foram mortos simplesmente por terem mentido. Todos os filhos de Adão têm sido culpados de proferirem mentiras – muitas vezes muito maiores do que esta em questão – e não têm sido fulminados pela morte.

     O que acontece é que temos aqui um antegosto das condições que prevalecerão no reino, quando qualquer desvio da ordem divina será visitada por um juízo imediato.

     Ananias e Safira não foram mortos apenas por desonestidade, mas por desonestamente manterem ilicitamente em sua posse parte dos bens, violando assim os padrões do reino. Eles foram fulminados pela morte por tentarem unir-se à Igreja Messiânica enquanto retinham enganosamente em seu poder parte dos bens. Notemos cuidadosamente a fraseologia do versículo 3:

     “Disse, então, Pedro: Ananias, porque encheu Satanás o teu coração, PARA QUE MENTISSES AO ESPÍRITO SANTO, E RETIVESSES PARTE DO PREÇO DA HERDADE?


O SEU PROBLEMA

     Como Ananias e Safira entraram em contacto com os crentes em Jerusalém devem ter observado que o modo de vida deles era abençoado e maravilhoso, para além de tudo o que se conhecia até então. Seria como o céu na terra pertencer àquele grupo.

     Contudo, aparentemente, eles tinham os seus olhos colocados na honra que naturalmente seguir-se-ia àqueles que davam tudo numa tal causa. Eles “amavam o louvor dos homens”.

     Porém – ainda amavam mais o dinheiro. Eles não estavam preparados para, com todas as suas possessões, participar da porção dos seguidores do Messias. Eles eram como o jovem rico, com a única diferença de serem menos honestos, pois ele pelo menos retirou-se triste (Ver Mat. 19:16-22) enquanto Ananias e Safira tentaram ganhar as vantagens do programa Messiânico sem contudo pagarem o preço.


A SUA SOLUÇÃO

     Nós podíamos ter concluído que Ananias e Safira foram tentados a reter parte do preço da sua propriedade depois de a terem vendido, mas os versículos 2, 4 e 9 parecem indicar muito claramente que o seu pecado foi deliberado e planeado.

     Assim, para que não fossem privados das bênçãos gozadas pela feliz multidão em Jerusalém, Ananias e Safira concordavam com o seguinte plano:

     Eles possuíam uma propriedade. Eles vendê-la-iam – realmente venderam-na – e então trariam uma boa parte do preço aos apóstolos, guardando o restante para si, embora ocultando este último facto.

     A venda da sua propriedade causaria a desejada impressão nos discípulos, e quanto ao que eles guardariam para si, eles não tinham de dar satisfação aos outros acerca do seu negócio. De facto, mesmo que Pedro perguntasse se eles tinham “vendido a terra por tanto “eles poderiam responder: “Sim, por tanto”, pois eles tinham-na vendido por tanto – e mais!

     Quantos crentes desde esse dia têm seguido o exemplo desse casal astuto! Como se Deus não soubesse o que possuíam e o quanto dessa possessão Lhe estavam a dar!


O RESULTADO

     Mas esta não era a altura para se tratar desonestamente com dinheiro, pois intrinsecamente ligado aos “poderes ou virtudes do século vindouro” estava o dom de ciência ou conhecimento, e a sua mentira foi imediatamente detectada.

     Exactamente no momento que Pedro repreendeu Ananias (que entrou primeiro por ter mentido ao Espírito Santo e ter retido parte do preço da sua terra, Ananias caiu morto. Quer isto fosse provocado pelo choque ou por meios puramente naturais, foi o dedo de Deus que operou e isso teve um efeito sobre o grupo como um todo.

     Toda a cena é de juízo. Nada é dito acerca de dor ou lamentação, mas antes que “grande temor houve em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas”, e quanto ao defunto Ananias, lemos simplesmente que,

     “E, LEVANTANDO-SE OS MANCEBOS, COBRIRAM O MORTO, E, TRANSPORTANDO-O PARA FORA, O SEPULTARAM” (Ver. 6).

     Tinham passado quase três horas depois que isto aconteceu, quando Safira entrou (Ver. 7). Seria interessante especular sobre o que é que ela poderia ter estado a fazer durante aquele espaço de quase três horas, porém sabemos que ela teve muito mais tempo para considerar a sua acção e que mesmo lhe foi dada uma oportunidade adicional para se arrepender, quando Pedro lhe perguntou: “Diz-me, vendeste por tanto aquela herdade?” (Ver. 8).

     Alguém poderia pensar que o ser questionada quanto ao montante da venda tê-la-ia enervado, porém a sua atitude foi totalmente estranha e contrária àquilo que fazia a Igreja Messiânica ser um sucesso esmagador. Ela mentiu descaradamente e disse: “Sim, por tanto”.

     No caso dela Pedro avisou-a do juízo que a esperava embora, como acontecera ao seu marido, não pronunciasse sentença de morte sobre ela. E uma vez mais os mancebos entraram, transportaram o seu corpo morto e sepultaram-no juntamente com o do seu marido, e como resultado “houve um grande temor sobre toda a Igreja” (Ver. 11).

     E Pedro agiu correctamente, pois o reino Messiânico seria pouco superior ao presente estado de coisas se pela máscara e engano fosse permitido que uns armazenassem para si enquanto outros davam o seu tudo para o bem comum.

     Assim o carácter do reino seria (e será) de absoluta equidade e justiça. 

     “Eis que vêm os dias, diz o Senhor; em que levantarei a David um Renovo justo; E SENDO REI, REINARÁ, E PROSPERARÁ, E PRATICARÁ O JUÍZO E A JUSTIÇA NA TERRA.” (Jer. 23:5).

     “ ..... E ELE AS REGERÁ COM A VARA DE FERRO ... “ (Apoc. 19:15).

     “E SAIRÃO, E VERÃO OS CORPOS MORTOS DOS HOMENS QUE PREVARICARAM CONTRA MIM ... “ (Isa. 66:24).


A LIÇÃO PARA NÓS

     Como sabemos, a proclamação do reino foi interrompida pela dispensação da graça de Deus. Em vez de prosseguir imediatamente com o plano profético esmagando a rebelião do mundo contra Cristo, exaltando-O como Rei, etc, Deus protelou graciosamente o juízo e suspendeu o estabelecimento do reino enquanto oferece reconciliação a todos os homens em toda a parte inteiramente pela graça por meio da fé nos méritos do Cristo rejeitado.

     É evidente que a história de Ananias e Safira não se pode ajustar à presente dispensação. Mas contudo, oh como muitos filhos de Deus se tornam perigosamente infiéis – para não dizer desonestos – pelo modo como dispensam as sua possessões, estando condenados a perderem a recompensa no tribunal de Cristo!

     Neste século, simplesmente porque não nos é ordenado vendermos tudo o que temos, e darmos aos pobres, segue-se daí, que estamos justificados a ajuntar e a acumular avarentamente para nós tudo o que podemos, enquanto a causa de Cristo e os outros à nossa volta padecem necessidades?

     Quantos crentes, especialmente em tempos de prosperidade, se tornam obcecados pelo dinheiro! Prosperam na profissão; o rendimento aumenta e antes que estejam apercebidos disso dedicam quase todo o seu tempo e energia para conseguirem ganho terreno enquanto espiritualmente definham e murcham.

     Talvez tenham principiado por dizer a si mesmos que conseguindo maiores riquezas poderiam fazer mais para o Senhor, mas geralmente isso não acontece assim, pois quanto mais se tornam absorvidos na aquisição de riqueza, menos pensam na sua obrigação para com o Salvador que morreu por eles.

     Que outros não tão constrangidos por Deus como eles, façam grandes sacrifícios pela causa de Cristo parece causar-lhes pouco impacto. Eles chegam a aparentar aos outros que estão a fazer a sua parte na obra do Senhor, quando no seu íntimo sabem que estão a viver para o ego. Quão pobre é o rico que na sua loucura pensa somente em derrubar os seus celeiros edificando outros maiores! Planeia e afadiga-se quase exclusivamente para esta vida!

     Sob o programa Pentecostal tinha que se entregar tudo aos discípulos de Cristo. Sob a lei era-se obrigado, pelo menos a trazer os dízimos, porém com a oferta de todas as riquezas da graça de Deus, muitos filhos de Deus aparentemente sinceros nem sequer Lhe retribuem isso, tão ocupados estão em conseguir riquezas para si.

     E isto apesar de Deus dizer através do nosso apóstolo para nós que vivemos hoje em dia:

     “PENSAI NAS COISAS QUE SÃO DE CIMA, E NÃO NAS QUE SÃO DA TERRA” (Col. 3:2).

     “PORQUE O AMOR DO DINHEIRO É A RAÍZ DE TODA A ESPÉCIE DE MALES” (I Tim. 6:10).

     Quanto à mordomia sob a graça o apóstolo diz:

     “E digo isto: QUE O QUE SEMEIA POUCO, POUCO, TAMBÉM, CEIFARÁ, E, O QUE SEMEIA EM ABUNDÂNCIA, EM ABUNDÂNCIA CEIFARÁ.

     “Cada um contribua, segundo propôs no seu coração, não com tão com tristeza, ou por necessidade, PORQUE DEUS AMA AO QUE DÁ COM ALEGRIA” (II Cor. 9:6,7).

     “PORTANTO ... TAMBÉM ABUNDEIS NESTA GRAÇA” (II Cor. 8:7).

     Sim, o contraste entre o casal ego-centrado e os discípulos cheios do Espírito Santo ainda nos fala hoje. Os discípulos pensavam nos outros; Ananias e sua mulher em si mesmos.

     Aqueles que em alguma medida são responsáveis na obra do Senhor têm tido muitas vezes o coração apertado por duas razões: 1) por alguns que podem dar tão pouco, fazerem tão grandes sacrifícios e 2) por alguns que podem ajudar em tão grande escala o fazerem tão pouco.

     O próprio Paulo preocupava-se com estas coisas. Oprimia-o o facto dos Macedónios instarem insistentemente com ele para que aceitasse ofertas que eles mal podiam dispensar (II Cor. 8:1-5) enquanto os Coríntios, que financeiramente se encontravam em muito melhor situação, demoraram mais de um ano a enviar uma oferta que tinham prometido, tendo sido necessário enviar Tito a Corinto para os despertar para a sua responsabilidade a este respeito (II Cor. 8:6-10).

     Aqueles que não possuíam recursos para dar muito o apóstolo escreveu:

     “PORQUE, SE NÃO HÁ PRONTIDÃO DE VONTADE, SERÁ ACEITA SEGUNDO O QUE QUALQUER TEM, E NÃO SEGUNDO O QUE NÃO TEM” (II Cor. 8:12).

     Porém aqueles que queriam sempre ajudar mas nunca o faziam, ele escreveu:

     “NÃO DIGO ISTO COMO QUEM MANDA, MAS PARA PROVAR, PELA DILIGÊNCIA DOS OUTROS, A SINCERIDADE DO VOSSO AMOR.

     “PORQUE JÁ SABEIS QUE A GRAÇA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, QUE, SENDO RICO, POR AMOR DE VÓS SE FEZ POBRE, PARA QUE PELA SUA POBREZA ENRIQUECESSEIS.

     “AGORA, PORÉM, COMPLETAI, TAMBÉM, O JÁ COMEÇADO, PARA QUE, ASSIM COMO HOUVE A PRONTIDÃO DE VONTADE, HAJA TAMBÉM O CUMPRIMENTO, SEGUNDO O QUE TENDES” (II Cor. 8:8,9,11).

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