Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO V - ACTOS 2:37,38

CONVICÇÃO E CONVERSÃO

     “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos?” - Actos 2:37.

     Chegamos agora ao clímax da cena Pentecostal. Pelo menos alguns dos ouvintes de Pedro são trazidos a um estado de convicção e perguntaram, “Que faremos?”

     Examinemos cuidadosamente esta passagem, pois se quisermos evitar confusão quanto à mensagem e programa de Deus para hoje, devemos compreender claramente a Sua mensagem e programa para aquele dia em que os doze apóstolos começaram a levar a cabo a “grande comissão” que lhes foi entregue.

     Notemos cuidadosamente primeiro a frase inicial do versículo 37.

     “Ouvindo eles isto.”

     Ouvindo o quê?

     Com precisão, o que é que Pedro tinha estado a pregar? Será que proclamou as alegres novas que nós agora pregamos, que “temos redenção por meio do Seu sangue, o perdão dos pecados segundo as riquezas da Sua graça?” Será que ofereceu aos seus ouvintes salvação pele fé no sangue d’Aquele que morrera recentemente no Calvário? Será que disse alguma coisa quanto a se ser reconciliado com Deus pela cruz, ou acerca da cruz ter aniquilado a inimizade entre Deus e o homem?

     Não! Ele acusou os seus ouvintes da crucificação de Cristo e avisou-os que a sua Vítima estava novamente viva. Devemos distinguir claramente entre a profecia e o mistério revelado mais tarde a Paulo, pois do ponto de vista profético foi a cruz que fez a inimizade entre Deus e as nações (especialmente Israel) e esta “controvérsia” teria de ser sanada antes que o mundo conhecesse a paz ou a prosperidade.

     Para que nenhum dos nossos leitores interprete mal este ponto, citamos novamente algumas declarações representativas na mensagem de Pedro:

     “VARÕES ISRAELITAS, ESCUTAI ESTAS PALAVRAS: A JESUS NAZARENO VARÃO APROVADO POR DEUS ENTRE VÓS COM MARAVILHAS, PRODÍGIOS E SINAIS, QUE DEUS POR ELE FEZ NO MEIO DE VÓS, COMO VÓS MESMOS BEM SABEIS” (Vers. 22,23).

     “A ESTE QUE VOS FOI ENTREGUE PELO DETERMINADO CONSELHO E PRESCIÊNCIA DE DEUS, TOMANDO-O VÓS, O CRUCIFICASTES E MATASTES PELAS MÃOS DE INJUSTOS”

     “DEUS RESSUSCITOU A ESTE JESUS, DO QUE TODOS NÓS SOMOS TESTEMUNHAS” (Vers. 32).

     “PORQUE DAVID NÃO SUBIU AOS CÉUS, MAS ELE PRÓPRIO DIZ: DISSE O SENHOR AO MEU SENHOR: ASSENTA-TE À MINHA DIREITA,

     “ATÉ QUE PONHA OS TEUS INIMIGOS POR ESCABELO DOS TEUS PÉS.

     “SAIBA POIS COM CERTEZA TODA A CASA DE ISRAEL QUE A ESSE JESUS, A  QUEM VÓS CRUCIFICASTES, DEUS O FEZ SENHOR E CRISTO” (Vers. 34-36).

     Foi claramente o propósito de Pedro convencer os seus ouvintes da sua culpa na crucificação de Cristo e traze-los ao arrependimento.

     E como é que ele respondeu ao seu atribulado, “Que faremos?” Ele simplesmente lhes disse para “crerem no Senhor Jesus Cristo”, como Paulo mais tarde disse ao carcereiro Filipense? De facto, não. A crença em Cristo estava envolvida, é certo, mas havia algo mais envolvido.


Os termos da salvação

     “E DISSE-LHES PEDRO, ARREPENDEI-VOS, E CADA UM DE VÓS SEJA BAPTIZADO EM NOME DE JESUS CRISTO, PARA PERDÃO DOS PECADOS; E RECEBEREIS O DOM DO ESPÍRITO SANTO.” - Actos 2:38.

     É-nos difícil de compreender como é que homens honestos podem continuar a mudar o simples significado deste versículo para o fazer harmonizar com o Evangelho da graça de Deus, como se o baptismo aqui nada tivesse a ver com a salvação. Seria igualmente tão legítimo então interpretar Heb. 11:4 como significando que o sacrifício de Abel nada tinha a ver com a sua salvação.

     Uma vez perguntámos a um pregador que cria que o Corpo de Cristo principiou em Pentecostes se ele ensinava os seus ouvintes convictos a arrependerem-se e a serem baptizados para a remissão de pecados. Ele disse: “Sim, mas não nesses termos!” E assim os nossos irmãos Fundamentalistas também clamam levar a cabo a “grande comissão”, ensinando que “Aquele que crê e é baptizado será salvo” – mas não nesses termos!

     Este vergonhoso forçar e torcer de passagens das Escrituras tão claras para fazer conformar o programa Pentecostal ao programa de Deus para hoje e para fazer com que as palavras de Paulo sancionem as práticas Pentecostais, deve parar se os Fundamentalistas quiserem fazer algum progresso no seu estudo da Palavra.

     Nós concordamos que Pedro em Pentecostes e Paulo mais tarde, se referiram ambas à cruz e à ressurreição, mas a questão é, como?

     Paulo gloriava-se na cruz (Gál. 6:14) oferecendo-a como o grande remédio para todos os nossos pecados. Isto Pedro não fez e não podia ainda fazer em Pentecostes. Não obstante as prévias declarações proféticas acerca da cruz, não temos “a pregação da cruz” – a crucificação pregada como boas novas para salvação – antes de chegarmos a Paulo.

     Em que termos então, é que Pedro ofereceu aos seus ouvintes a salvação quando eles entraram no estado de profunda convicção?

     “ARREPENDEI-VOS, E (não somente “os que se sentem guiados”, mas) CADA UM DE VÓS SEJA BAPTIZADO EM NOME DE JESUS CRISTO, (e não meramente “como um testemunho da vossa sepultura com Cristo”, mas) PARA PERDÃO DOS PECADOS; E (isto é, “E ENTÃO” e não até então) RECEBEREIS  O DOM DO ESPÍRITO SANTO”.

     Quão diferente tudo isto é do “Evangelho da graça de Deus”, que mais tarde foi confiado ao apóstolo Paulo e a nós! Contudo, a mensagem de Pedro harmonizava-se perfeitamente com a “grande comissão”: “Quem crer e for baptizado será salvo”, (Marcos 16:16).

     Na verdade, os requisitos aqui para a salvação não são diferentes dos que tinham sido previamente estabelecidos por João Baptista, pois lemos em Marcos 1:4, que

     “João baptizava no deserto, e pregava O BAPTISMO DO ARREPENDIMENTO, PARA REMISSÃO DOS PECADOS”.

     A única diferença entre a proposição de Pedro e a de João residia no desenvolvimento histórico. O Espírito Santo já tinha vindo e Pedro podia acrescentar: “e recebereis o dom do Espírito Santo”. Porém não houve qualquer mudança no significado da ordenança, pois no baptismo de João eles também tinham de vir “confessar os seus pecados” (Mat.3:6). Tanto o baptismo de João como o de Pedro significavam uma confissão de pecado e uma consequente purificação.

     As palavras de Pedro em Pentecostes têm sido tratadas com a maior infidelidade por parte daqueles que querem defender as suas teorias sobre o baptismo na água.

     Temos diante de nós um livro popular escrito por um dos principais Fundamentalistas da passada geração intitulado: Baptism, what Saith the Scriture? (Baptismo, o que dizem as Escrituras?). Neste livro o autor procura distinguir o baptismo de João, em que “o Judeu expressava o seu arrependimento e a sua necessidade de perdão” (p.12) e o "baptismo Cristão," que, segundo ele, "não tinha sido instituído antes da ressurreição do Senhor" (p. 10).

     Ao insistir na necessidade do “baptismo Cristão”, este autor diz:

     “E se estas considerações não são suficientes não é a mensagem de Pedro em Actos 2:38 imperativa no que a isto diz respeito? – ‘Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado’, etc.” (p.21).

     Porque é que este autor substitui um “etc.” pelas palavras claras, “em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo?”

     Tal abuso da Palavra escrita é imperdoável, pois o autor conhecia bem este versículo e ele sabia também que se o tivesse citado no seu contexto teria provado que o baptismo na água não é para os cristãos hoje.

     Diante de nós está um outro opúsculo intitulado: About Baptism (Sobre o Baptismo), por um outro líder fundamentalista. Este escritor faz praticamente a mesma coisa. Procurando estabelecer uma diferença no significado do baptismo antes e depois da ressurreição, ele diz:

     “Quer-se dirigir, por favor, ao livro dos Actos, ao segundo capítulo? Nesta altura João já tinha partido; fora decapitado; Cristo tinha ascendido à glória; e o Espírito Santo viera, e os discípulos estão a pregar.

     Actos 2:38, ‘Então Pedro disse-lhes, Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado ...’”.

     Evidentemente, que se este escritor consumasse o versículo em vez de o ter interrompido, todo o seu argumento teria caído por terra. Como é que homens de Deus respondem a si mesmos e a Deus ao tratarem assim tal passagem? É isto que nos preocupa. Será que eles têm alguma explicação para isso nas suas próprias mentes, ou será que o seu zelo pela cerimónia da água os tem cegado a ponto de tratarem assim desonestamente as Sagradas Escrituras?

     Os dois líderes Fundamentalistas acima1 referidos não têm estado sós neste assunto. Numa discussão aberta sobre este tema em 1943 nós produzimos seis livros escritos por imersionistas, todos eles tratando do mesmo modo este importante versículo.

     Nesta mesma discussão um pastor exclamou: “Quer com isso dizer-nos que em Pentecostes Pedro não pregou o Evangelho da graça de Deus?”

     Nós respondemos que foi exactamente isso que quisemos dizer, perguntando-lhe o que era o Evangelho da graça de Deus. Ele pareceu surpreso com a questão e replicou substancialmente que era simplesmente que nós éramos pecadores, que Cristo tinha morrido pelos nossos pecados e que todo aquele que cresse no Seu sangue derramado seria salvo eternamente, tudo pela graça por meio da fé.

     Concordámos com isso e perguntámos-lhe se podia descortinar isso na mensagem Pentecostal de Pedro. Ele olhou por algum tempo para a passagem e finalmente disse: “Bem, Pedro diz aqui: ‘Acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’, mas sei o que dirá sobre isso”. 

     “O que é que direi?”, perguntei.

     “Bem” respondeu, “dirá que quando eles invocaram, Pedro disse-lhes para se arrependerem e serem baptizados para a remissão dos pecados”.

     Exactamente! É isso que o registo diz!

     As chaves do reino foram entregues a Pedro; “E evangelho da graça de Deus” a Paulo (Mat. 16:19; Actos 20:24; Ef. 3:1-3) e Pedro só aprendeu do Evangelho da graça de Deus e da demora quanto ao regresso de Cristo quando o aprendeu mais tarde da parte  de Paulo (Ver Gál.2:2,7,9; II Ped.3:9,15).

     Enquanto não virmos isto claramente - enquanto não virmos que o Evangelho da graça de Deus pertence ao grande mistério revelado somente após Israel ter rejeitado o seu Rei tanto na incarnação como na ressurreição – permaneceremos emaranhados na confusão desesperada que tem confundido aqueles que ainda estão a tentar servir Deus gostosamente sob a comissão errada.

     Que vasta diferença entre Pedro em Pentecostes, exigindo arrependimento e baptismo para a remissão dos pecados, e Paulo mais tarde, que proclamava a justiça de Cristo para a remissão dos pecados! (Rom.3:21-28).

     Paulo também se refere à “justiça (de Cristo) pela remissão dos pecados dantes cometidos”, em Rom.3:25. Era agora revelado que o sangue dos animais e as lavagens de água em si não tiravam os pecados, mas antes a morte de Cristo no Calvário, que agora, em devido tempo, tinha sido manifestada e proclamada como o grande remédio para o pecado.

     “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem;

     “O qual Se deu a Si mesmo em preço de redenção por todos, PARA SERVIR DE TESTEMUNHO PARA A SEU TEMPO.

     “Para o que (digo a verdade em Cristo, não minto) fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos Gentios na fé e na verdade” (I Tim. 2:5-7).

     “MAS AGORA SE MANIFESTOU SEM A LEI A JUSTIÇA DE DEUS ...

     “Isto é a justiça de Deus pela fé em Cristo Jesus para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.

     “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;

     “Sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.

     “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no Seu sangue, PARA DEMONSTRAR A SUA JUSTIÇA PELA REMISSÃO DOS PECADOS DANTES COMETIDOS ...

     “PARA DEMONSTRAÇÃO DA SUA JUSTIÇA NESTE TEMPO PRESENTE, PARA QUE ELE SEJA JUSTO E JUSTIFICADOR D’AQUELE QUE TEM FÉ EM JESUS.

     “ONDE ESTÁ LOGO A JACTÂNCIA? É EXCLUÍDA ...” (Rom.3:21-27).

     Aleleuia!


1 Dr. H. A. Ironside e Pastor Edward Drew.

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