Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO II - ACTOS 1:8

Mas retornemos ao Monte das Oliveiras para ouvirmos as palavras de despedida do Senhor aos onze apóstolos.


A COMISSÃO DE DESPEDIDA

     “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que há-de vir sobre vós e ser-Me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” - Actos 1:8.

     Estas palavras de despedida do Senhor para com os onze apóstolos são ao mesmo tempo a grande comissão com que o Livro dos Actos desabrocha. Assim, é de importância vital uma compreensão clara das mesmas.

     Muito significado tem sido naturalmente atribuído aos vários registos dos mandamentos que o Senhor, ordenou na Sua despedida, porém é triste que nesta data tão avançada já da história da Igreja a maioria dos Fundamentalistas esteja ainda tão em desacordo quanto a se todos, alguns, ou nenhuns desses registos, digam respeito a esta presente dispensação. Por outras palavras, os Fundamentalistas do século XX, como um todo, ainda estão indecisos quanto ao que é realmente a nossa guia de marcha!


ESCOLHENDO COMISSÕES

     Muitos dos principais expositores, da passada geração, presumindo erroneamente que o Senhor, antes de ascender ao céu, certamente teria deixado instruções para nós levarmos a cabo, e ao mesmo tempo incomodados com certos elementos contidos nos registos das Suas palavras de despedida que são incompatíveis com o Evangelho da graça de Deus, têm-se entregue ao que poderíamos denominar de “escolhendo comissões”.

     Confrontados com várias dificuldades nas várias explicações da comissão tais como o legalismo de Mateus 28:20, a salvação baptismal e os sinais miraculosos de Marcos 16:16-18, a autoridade para remir pecados em João 20:23 e o “a Jerusalém primeiro” de Lucas 24:47 e Actos 1:8, eles têm concluído que o Senhor deve ter dado várias comissões diferentes; que num espaço de poucos dias Ele deu aos mesmos homens duas ou mais comissões diferentes, certos de que começariam a levá-las a cabo logo que o Espírito Santo viesse, e o resto seria levado a cabo por uma outra geração no futuro.

     E assim escolheram para nossa obediência a comissão ou comissões que lhes pareceram apresentar menores dificuldades – só que eles nunca concordaram na escolha! 


UMA SÓ COMISSÃO

     Estamos convencidos que o que temos em Actos 1:8 não é uma das várias diferentes comissões entregues pelo Senhor nos quarenta dias que cá andou antes da Sua ascensão, mas um dos vários diferentes aspectos da mesma comissão.

     Para dizer o mínimo, a teoria que afirma que elas são diferentes comissões é forçada e artificial – é também francamente um meio de escapar à dificuldade.

     Esquecendo, de momento, qualquer tentativa em os aplicar à época em que vivemos, não é certamente estranho que os diferentes registos da comissão contenham detalhes diferentes; isto, se acerca dos registos não houver suspeita de conluio da parte dos escritores inspirados.

     Além disso, apesar dos registos serem diferentes de modo algum são contraditórios. Apesar de poderem parecer colidir com o que posteriormente ocorreu, não colidem contudo entre si. Os registos simplesmente completam-se uns aos outros.

     Nos próprios registos não existe qualquer indício de que o Senhor entregou duas ou mais diferentes comissões. Muito menos existe qualquer indício de que Ele tivesse dado mandamentos aos apóstolos que, não eles, mas uma outra geração de crentes deveria obedecer. As Suas palavras também são claramente dirigidas a eles, dizendo-lhes onde deveriam ir e o que deveriam fazer.

     Que todos esses registos sincronizam como uma grande comissão para eles está certamente implicado em Actos 1:2 e 3, onde lemos que o Senhor “foi recebido em cima depois de ter dado mandamentos aos apóstolos que escolhera” tendo sido “visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus”.

     A questão permanece em como é que pode ser demonstrado, se é que de alguma forma isso seja possível, que a “grande comissão” se harmoniza com a mensagem e programa revelados por Deus para esta presente dispensação como nos são apresentados nas epístolas de Paulo.

     Porém antes de responder a esta questão existe ainda uma outra fase do problema que têm de ser discutidos.


A GRANDE COMISSÃO E OS ONZE

     Mesmo entre os que não vêem a nossa grande comissão em qualquer dos registos dos mandamentos de despedida do Senhor há muitos que aprovam o ponto de vista de que os diferentes registos nos evangelhos e nos Actos são realmente comissões diferentes.

     A dificuldade deles não reside, graças a Deus, no harmonizar os registos com o programa revelado para esta época, mas harmonizá-los com o que os próprios apóstolos de facto fizeram.

     Eles por exemplo, salientam que a comissão registada em Mateus 28 ordena o baptismo “no nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, enquanto que nos Actos não vemos uma única vez os apóstolos usarem esta “fórmula”. Em vez disso vemos que os crentes são baptizados “no nome do Senhor Jesus”. Assim concluem que a comissão registada em Mateus, apesar de ser dirigida aos apóstolos, de modo algum dizia respeito realmente a eles, mas a uma futura geração de crentes.

     Contudo ao se estabelecer uma construção forçada e fictícia sobre uma passagem das Escrituras tão clara, parece-nos que uma tal dificuldade aparente constitui ainda um pobre fundamento. Detalhes difíceis de se explicar devem dar lugar ao significado claro e natural de um contexto.

     Foi esta mesma dificuldade quanto à “fórmula”, que levou o Dr. Haldeman, que baptizava no nome da Trindade, a recusar participação na igreja a todo aquele que tivesse sido baptizado pelo Dr. Pettingill, no nome do Senhor Jesus.

     Mas será que existirá aqui, de algum modo, qualquer dificuldade? Com que autoridade podemos nós chamar à frase de Mateus 28:19 uma fórmula de palavras que devem ser repetidas no baptismo? De certo que as Escrituras em lado algum a chamam de fórmula. Nós aqui devemos ter cuidado em não cair numa mera tradição. De acordo com Mateus 28 os apóstolos deveriam baptizar no nome do Deus trino, e não é o Senhor Jesus Cristo a personificação da Divindade?

     “PORQUE NELE HABITA CORPORALMENTE TODA A PLENITUDE DA DIVINDADE” (Col. 2:9)

     Além disso, um cuidadoso estudo do uso da frase “no nome de” e especialmente da palavra “em” (que aparece na contracção “no” – nota do tradutor – “em”2 “o” = “no”); no Grego eis, revelará que a frase não significa necessariamente de alguma forma “na pessoa de”, mas antes “como representativo de”, ou “pela autoridade de”.

     O facto de que os onze não foram – tanto quanto o registo revela – a todo o mundo, também constitui um problema para alguns que apesar disso defendem que a comissão registada nos Actos foi dada para somente os apóstolos obedecerem e que dever-se-ia ler: “Ser-Me-eis testemunhas ... até aos limites da terra”, em vez de “até aos confins da terra”. Esta dizem eles, é a solução para o seu problema, pois se é verdade que não existe qualquer registo que revele que os apóstolos foram até aos confins da terra, é verdade contudo que eles atingiram os limites da terra, isto é, a terra da Palestina:

     Contudo certamente que Lucas 11:31 e Actos 13:47 estão traduzidos correctamente na Versão de Almeida por “confins da terra”. Nessas passagens, a mesma fraseologia e precisamente a mesma palavra em questão (Gr. ge), são usadas e é certamente evidente que a rainha do Sabá não veio visitar Salomão oriunda dos limites da terra da Palestina e também é evidente que o Senhor não foi designado para ser salvação somente para os limites da Palestina!

     Em Actos 1:8 a tradução da palavra Grega ge por terra, como sendo terra da Palestina, e não globo terrestre, é semelhantemente à escolha de comissões dos vários registos, um meio de escape à dificuldade – um uso ilegítimo de subtileza. “Até aos confins da terra” está incontestavelmente correcto e harmoniza perfeitamente com o “todas as nações”, com o “todo o mundo” e com o “toda a criatura” dos  outros registos.


A SOLUÇÃO

     A solução simples para o problema é que apesar da chamada “grande comissão”, como aparece registado tanto nos Evangelhos como no Livro dos Actos, ter sido na verdade dada aos onze, não é de modo algum a nossa comissão. A razão porque eles a não levaram a cabo não foi porque o não quisessem fazer mas porque o não puderam. Foi devido a Israel rejeitar obstinadamente o Messias.

     Os onze (aumentados para doze após a ascensão, Actos 1:26) teriam alegremente feito discípulos de todas as nações, mas eles tinham recebido directivas claras para principiarem com a nação de Israel. A razão para isto será clarividente para aqueles que se lembram que de acordo com os grandes concertos Abraâmico e Davídico e segundo toda a profecia as nações seriam abençoadas por meio dessa nação. Foi por isso que os apóstolos trabalharam fervorosamente para trazerem Israel aos pés do Messias. Ouçamos Pedro, quando ele insta com eles no Pórtico de Salomão:

     “Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.

     “Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso, vos abençoasse e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades (Actos 3:25,26).

     Porém Israel desdenhou do apelo e Deu pôs de parte a nação rebelde até um futuro dia.

     Contudo, aprendemos de Rom. 11:15 que “A SUA REJEIÇÃO” abriu o caminho à “RECONCILIAÇÃO DO MUNDO”.

     A esta admirável declaração deveriam ser acrescentadas duas outras passagens, Rom.11:32 e Ef. 2:16:

     “PORQUE DEUS ENCERROU A TODOS DEBAIXO DA DESOBEDIÊNCIA, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA”.

     “E PELA CRUZ RECONCILIAR AMBOS COM DEUS EM UM CORPO, MATANDO COM ELA AS INIMIZADES”.


A NOSSA GRANDE COMISSÃO

     “Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rom. 5:20).

     Foi quando o pecado atingiu o auge, quando Israel se uniu aos Gentios na sua rebelião contra Deus e declarou guerra ao Messias, o Ungido de Deus, que Deus na Sua infinita graça estendeu a mão para salvar o líder de rebelião e fez dele o grande apóstolo da graça.

     A ele, e por intermédio dele a nós, foi entregue a maior comissão de todas.

     “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, E NOS DEU O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO;

     “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; E PÔS EM NÓS A PALAVRA DA RECONCILIAÇÃO.

     “De sorte que somos embaixadores de parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos pois da parte de Cristo que vos reconcilieis com Deus.

     “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fossemos feitos justiça de Deus” (II Cor. 5:18-21).


MANEJANDO BEM  A PALAVRA DA VERDADE

     Sejamos então cuidadosos em manejar bem a Palavra da verdade de tal modo que sejamos aprovados por Deus, obreiros que não têm de se envergonhar. Certifiquemo-nos que compreendemos a Sua vontade para nós, não vá Ele acusar-nos de sermos possuidores de zelo sem conhecimento, devido à indiferença para com a Sua Palavra.

     O legalismo de Mateus 28:20, a salvação baptismal, e os sinais miraculosos de Marcos 16:16-18, a autoridade para remissão de pecados de João 20:23 e o “a Jerusalém primeiro” de Lucas e dos Actos, harmonizam conjuntamente dum modo perfeito com o programa que os doze apóstolos seguiram durante o período Pentecostal, mas não harmonizam com a nossa grande comissão e onde quer que os homens os tentem praticar hoje em dia seguir-se-ão a frustração e a confusão. A maior parte dos Fundamentalistas fala meramente em “obedecer à grande comissão” mas não obedecem – na verdade não podem obedecer – a qualquer dos registos da mesma.

     Porém a nossa comissão gloriosa é perfeitamente apropriada no dia em que vivemos. Na nossa oferta de salvação não existe nada para a vista, nem baptismo com água nem sinais miraculosos. As obras para a salvação não são requeridas, ou mesmo permitidas, pois “agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus”. Nem a nossa mensagem está relacionada com a terra, nomeadamente por exemplo, que devemos principiar na capital de uma nação e partir dali para fazer discípulos de outras nações, É simplesmente uma mensagem para pobres pecadores perdidos em toda a parte, que lhes oferece reconciliação com Deus pela graça, por meio da fé no Seu Filho rejeitado.

Esta é a nossa comissão. Levemo-la a cabo fielmente!


1  Ver o fascículo do autor: Isto é Aquilo, ou uma discussão mais complexa do assunto no seu livro: Coisas que Diferem, ou Os fundamentos de dispensacionalismo

2 Instrumentalmente, pelo baptismo na água (Actos 2:38).

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