Actos Dispensacionalmente Considerados - Introdução (IV)
O Livro Intermédio
Muito mais que um livro de história inspirado, o livro dos Actos apresenta uma clara linha de ensino e explica porque é que o cumprimento da profecia foi interrompido, há cerca de dezanove séculos, para tornar viável “a pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério”. Este livro tem sido denominado muito acertadamente “o livro intermédio”. No que diz respeito à estrutura das Escrituras este livro ajusta-se perfeitamente entre os quatro registos do ministério terreno do nosso Senhor e as epístolas de Paulo.
Nas palavras de Dean Howson:
“A melhor maneira de se ver num relance o valor e o significado deste livro do Novo Testamento, talvez seja imaginarmos o Novo Testamento sem os Actos dos Apóstolos. Que abismo se abriria então entre os Evangelhos e as epístolas!...Que discrepâncias, que contradições seriam descobertas entre os primeiros e o último!” (Hulsean Lectures, for 1862, P.221)
Ou citando Sir Robert Anderson de novo:
“Suponhamos novamente que as epístolas estivessem lá, mas os Actos dos Apóstolos deixados de fora, quão alarmante aparentaria o cabeçalho “Aos Romanos” que se nos depararia ao terminarmos o estudo dos Evangelhos: como explicaríamos a transição envolvida? Como explicaríamos a grande tese das epístolas, a saber que não há diferença entre Judeus e Gentios ...? Em vão procuraremos nos Evangelhos tal ensino. Não só o Velho Testamento meramente, mas os próprios Evangelhos estão separados aparentemente das Epístolas por um grande abismo. Vencer esse abismo é o propósito Divino para o qual o livro dos Actos dos Apóstolos foi dado à Igreja. A primeira porção do livro é o complemento e sequela dos Evangelhos; a sua narrativa final é introdutória à grande revelação do Cristianismo” (O silêncio de Deus, Pp.54,55).
Nosso Senhor em harmonia com o plano profético comissionou primeiramente os Seus doze apóstolos a ministrarem somente a Israel e mais tarde enviou-os a todas as nações começando com Israel, pois seria por meio da nação regenerada que a bênção fluiria (e um dia fluirá) às nações. Na verdade, Ele prometera aos apóstolos que no reino eles se assentariam sobre doze tronos, para julgarem as doze tribos de Israel.
Mas o que é isto que encontramos quando abrimos a Epístola aos Romanos? Os doze apóstolos, que foram comissionados pelo próprio Senhor para reinarem consigo no reino são totalmente ignorados. Um outro apóstolo fala.
“Paulo ...a todos os que estais em Roma, amados de Deus ...”
E que declarações ousadas são as que ele fez:
“Porque convosco falo Gentios, que enquanto for apóstolo dos Gentios, glorificarei o meu ministério” (Rom, 11:13).
“Mas irmãos, em parte vos escrevi mais ousadamente, como para vos trazer isto à memória, pela graça que por Deus me foi dada; que seja ministro de Jesus Cristo entre os Gentios ...” (Rom. 15:15,16).
Que autoridade tinha Paulo para assumir esta posição isolada? Os doze não tinham sido escolhidos antes dele? Não tinham sido enviados a “pregar o evangelho a toda a criatura”, antes que ele próprio tivesse sido salvo? Quem era ele para declarar: “Eu sou o apóstolo dos Gentios, glorificarei o meu ministério”?
Actos, o “livro intermédio” provê a resposta para estas e muitas outras questões que de outro modo seriam de solução impossível.
Se há algo que o Livro dos Actos torna claro como a água cristalina é o facto de que uma mudança revolucionária dispensacional tomou lugar desde o Pentecostes. Em vez de constituírem um modelo para seguirmos, pelo contrário, os Actos explicam porque é que o programa que ali começou cessou e confirmam a declaração das epístolas Paulinas de que o cumprimento profético para o presente deu lugar ao ministério do propósito e graça de Deus.
É o não conhecimento destes factos e da mensagem de Paulo aos Gentios que tem trazido à igreja professa a maldição de Gálatas 1:8,9. Os que procuram usar os Actos como um modelo para a sua fé e prática farão bem em ponderar seriamente essas palavras solenes:
“Mas, ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu, vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema”.
“Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo, também, vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho, além do que já recebestes, seja anátema”.
Embora devamos ir além do significado potencial da palavra “anátema” ou “maldito”, esta passagem revela quão sério é o desvio dos ensinos específicos de Paulo para nós, e esta passagem não é isolada. Paulo, pelo Espírito Santo, requer constantemente estrita fidelidade à mensagem e programa que o Senhor ressuscitado e glorificado lhe entregou por revelação e nós faremos bem em prestar atenção ás suas exortações:
“Conserva o modelo das sãs palavras, que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Jesus Cristo” (II Tim. 1:13).
“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idóneos, para também ensinarem os outros” (II Tim. 2:2).
“Considera o que digo, porque o Senhor te dará entendimento em tudo. Lembra-te de que Jesus Cristo, que é da descendência de David, ressuscitou dos mortos, segundo o meu evangelho; pelo que sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor; mas a palavra de Deus não está presa” (II Tim. 2:7-9).



