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     Certa noite, após ter concluído o meu último culto, às vinte e duas horas, um homem pobre veio pedir-me que fosse orar pela sua esposa, dizendo que ela estava moribunda. Concordei de imediato, e a caminho da casa dele perguntei-lhe porque não chamara o padre, posto que o seu sotaque me indicava que ele era um irlandês. Segundo explicou, assim o fizera, mas o padre recusara-se a vir sem o pagamento adiantado de dezoito pence, que o homem não possuía, porquanto a família estava a passar fome.

     Imediatamente ocorreu-me que todo o dinheiro que eu tinha neste mundo era uma solitária moeda de meia coroa; além disso, ainda que me esperasse em casa a tigela na qual eu usualmente ia buscar o meu jantar, e mesmo apesar de haver o suficiente para meu pequeno almoço na manhã seguinte, nada me restava para almoçar no outro dia.

     O homem levou-me  por um miserável lance de escada até um quarto destroçado; e que visão se apresentou perante os nossos olhos! “Ah!”, pensei eu, “se eu tivesse dois xelins e seis pence, em vez de meia coroa, quão alegremente eu lhes daria um xelim e seis pence!” Todavia, uma desgraçada incredulidade impediu-me de obedecer ao impulso de aliviar a aflição deles a custo de tudo quanto eu possuía.

     “Pediu-me que viesse e orasse pela sua esposa”, disse eu ao homem. “Ajoelhemo-nos e oremos”. E ajoelhámo-nos. Mas, eu ainda não tinha aberto bem os meus lábios dizendo, “Pai Nosso, que estás no céu”, e a consciência acusou-me: “Ousas zombar de Deus? Tens a coragem de te ajoelhares e de chamares a Deus de Pai, tendo meia coroa no bolso?” Tal foi o conflito que me assaltou, que nunca antes nem depois experimentei igual. Como consegui terminar aquela forma de oração, não sei; nem sei dizer se as palavras tinham nexo ou não; contudo, levantei-me dali com profunda angústia na mente. O pobre pai voltou-se para mim e disse: “O senhor está a ver a triste condição em que nos achamos; se pode ajudar-nos, ajude-nos pelo amor de Deus!” Foi nesse momento que brilharam em minha mente as palavras: “Dá aquem te pedir”. Enfiei a mão no bolso e retirei lentamente dali a moeda de meia coroa. Entreguei-a ao homem, dizendo-lhe que aquilo que eu vinha procurando dizer-lhe era realmente verdade – que Deus é mesmo um Pai, e que se pode confiar n'Ele. A alegria voltou a encher o meu coração. Dali por diante pude declarar toda a verdade com autêntico sentimento, e o empecilho para a bênção desaparecera – desaparecera para sempre, conforme confio.

     Lembro-me bem de como naquela noite, quando me dirigia para casa, o meu coração sentia-se tão leve quanto o meu bolso. Quando comi a minha tigela de papa, antes de retirar-me para o meu quarto, não a trocaria nem pelo banquete de um príncipe. Ao ajoelhar-me ao lado do meu leito, lembrei ao Senhor, pela sua própria Palavra, que aquele que dá ao pobre empresta ao Senhor: roguei-Lhe que o meu empréstimo não fosse por muito tempo, pois doutro modo eu não teria o que almoçar no dia seguinte; então, sentindo paz interior e gozando de grande tranquilidade, passei uma feliz noite de descanso.

     Na manhã seguinte, a minha tigela de papa não faltou. Antes de terminá-la, ouvi o carteiro que batia à porta, e pouco depois a proprietária da pensão veio entregar-me um envelope, com a mão molhada coberta pelo avental. Pus-me a olhar para o envelope, mas não consegui ver de quem era a letra. Era a caligrafia de um estranho, ou uma caligrafia disfarçada, e o carimbo do correio estava borratado. De onde viera, eu não sabia dizer. Ao abrir o envelope, nada encontrei escrito; porém, dentro da folha de papel em branco havia um par de luvas. E, ao abri-las, para minha surpresa caiu meio soberano. “Louvado seja o Senhor!” exclamei. “Quatrocentos por cento por um empréstimo de doze horas, é um óptimo lucro. Quão satisfeitos ficariam os negociantes de Hull, se pudessem emprestar o seu dinheiro a uma taxa tão elevada!” E naquele exato instante tomei a resolução de que um banco que não pode falir, de agora em diante, é que receberia as minhas economias ou proventos, conforme fosse o caso – uma determinação da qual até hoje não me arrependi.

Hudson Taylor (1832-1905)
 
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