16-05-11 - Brigas dos pais afectam os relacionamentos dos filhos até à vida adulta
Pode não se dar conta, mas as discussões de casal diante dos filhos podem marcá-los para sempre.Foi exactamente isso o que aconteceu com Paula (que prefere não revelar o nome), relações-públicas que mora em São Paulo (Brasil) e tem 30 anos. Emocionada, ela garante não acreditar mais no amor. Para ela, um dos motivos da sua vida amorosa ser tumultuosa é resultado dos exemplos que teve em casa: constantes confrontos dos pais e a separação dos dois.
“Eles acabaram com o casamento deles e eu com o meu, no ano seguinte. Fiquei tão passada ao descobrir uma traição do meu pai que acabei por tornar meu o problema deles. Conclusão: o meu ex não aguentou tanta pressão”, resume. Namorando há três anos com outra pessoa, Paula diz ter a impressão de que a relação não vai resultar. “Quando me lembro das brigas que presenciei na minha infância e na adolescência, acho que não casarei, nem terei filhos”, diz ela, que afirma lutar contra esses pensamentos, mas dizendo que é difícil não associar a família a um ambiente conturbado.
Para Lidia Weber, professora e pesquisadora da UFPR, tendo um pós-doutoramento em desenvolvimento familiar, o comportamento dos pais tem sido um dos principais temas de pesquisa no relacionamento familiar nos últimos tempos, em todo o mundo.
“Sabemos, com certeza, que não basta ter óptimas práticas educativas. Os pais também devem ter bom relacionamento entre si”, explica a especialista. “Uma abordagem integrativa e interdisciplinar inclui três relações de influências mútuas numa família: mãe-filhos, pai-filhos e relação conjugal.”
Segundo Lidia, quanto mais os pais brigam entre si, mais a criança tem tendência de apresentar comportamentos denominados anti-sociais (brigar, mentir, praticar bullying, gritar etc.).
“Conflitos simples entre os pais não são apontados como problemas se o casal consegue resolver as diferenças. Porém, se as brigas continuam, podem levar a sinais de depressão, ansiedade e outros problemas transferidos para as crianças”, explica.
A professora realizou uma pesquisa –junto da sua assistente de mestrado em Educação, Gisele Stasiak– com 40 crianças entre 6 e 7 anos de idade, pais e professores. O estudo revelou dados curiosos sobre a influência conjugal na vida dos filhos. Veja o que foi detectado:
COMPORTAMENTO DAS CRIANÇAS DIANTE DA RELAÇÃO CONJUGAL DOS PAIS
Quanto melhor a interacção familiar, menos stressante é a relação entre pais e filhos.
Quanto mais as crianças percebem a desarmonia dos pais, menos regras os adultos colocam e mais elas são consideradas "difíceis" por eles.
Quanto mais as crianças percebem um clima conjugal negativo, menor o índice de capacidades sociais.
Quanto mais stressante a vida do casal, mais frequentes as punições físicas em relação às crianças.
Crianças cujos pais têm uma relação harmónica têm melhores relacionamentos com os amigos.
Discussões para o bem
Kátia Teixeira, psicóloga da Equipa de Diagnóstico e Atendimento Clínico de São Paulo (EDAC), defende o valor da experiência das brigas conjugais para crianças e jovens em formação. “Acredito que o problema não está na discussão, mas, sim, em como ela é conduzida.
As discussões fazem parte dos relacionamentos. Se um casal diverge em algo, não precisa de omitir aos filhos. Mas essa conversa deve acontecer com respeito, sem ofensas, humilhações e, especialmente, sem violência, seja ela física ou verbal”, defende. “Casais que não se respeitam potenciam o surgimento de conflitos nos filhos.”
Lidia diz que os filhos podem aprender muito com as crises. "As pessoas brigam e reconciliam-se, podem ter opiniões diferentes e mesmo assim amarem-se; podem amar-se e brigar de vez em quando... É importante aceitar a opinião de outros e saber perdoar", explica ela. "Brigas ruins são compostas por insultos pessoais, expressões de hostilidade, insultos e agressão física. Discussões que levam a aprender mostram expressões verbais de apoio ao outro, compreensão e empatia; cumplicidade e compromisso para resolução do problema”, diferencia.
SEIS DICAS DOS TERAPEUTAS PARA NÃO TRAUMATIZAR OS FILHOS
1. Evite ao máximo brigar seriamente na frente dos filhos, especialmente crianças pequenas, que acham isso assustador.
2. Lembre-se de que as crianças são sensíveis, observadoras e perceptivas. Elas sentem facilmente tensões, segredos e mal-estar. Como não sabem as causas, podem achar que são culpadas pelos desentendimentos dos pais.
3. Leve em conta que brigar na frente dos filhos não é um bom comportamento; os pais devem ir para outro compartimento ou esperar que os filhos adormeçam.
4. Se os seus filhos presenciaram uma briga séria, é preciso que eles vejam a resolução da situação. Assim, aprenderão que conflitos são normais e podem ser resolvidos através da comunicação. Deixe claro que as crianças não são culpadas de nada.
5. Se saiu do sério, explique que a falta de controlo foi um erro, num momento de nervosismo, e peça desculpas.
6. Nunca, sob hipótese alguma, inclua os filhos numa briga. Também nunca peça – jamais - que eles tomem partido de um ou de outro.
DEPOIMENTOS REAIS
A professora Lidia Weber fez a seguinte pergunta às crianças entrevistadas: "Se você pudesse fazer três pedidos, quais faria para mudar ou melhorar a sua casa, os seus pais ou a sua escola?" Veja algumas respostas:
“Queria que os meus pais deixassem de gritar comigo e a minha mãe deixasse de me insultar.” (menina de 6 anos - caso 32)
“Queria que os meus pais não me batessem mais.” (menina de 7 anos - caso 21)
“Queria que os meus pais deixassem de brigar entre eles e o meu irmão não brigasse tanto comigo.” (menino de 5 anos - caso 37)
Fonte: UOL



