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A vida é um bem sagrado que não permite manipulação e comercialização
As igrejas devem erguer a sua voz, junto às da sociedade civil, no processo de fortalecimento da bioética* e enfatizar que a dignidade da vida humana não é propriedade nem conquista, mas uma dádiva de Deus.
A vida é um bem sagrado, que tem uma profundidade insondável. Bem por isso, ela não pode ser transformada em coisa ou objecto que possa ser manipulado, vendido ou comprado. Uma certa lógica comercial transformou os seres vivos e o próprio ser humano em objecto, cujo valor é regulado pela oferta e pela procura do mercado.
O prazer de viver é o imperativo categórico da sociedade de consumo e o sofrimento é considerado uma condição inaceitável. É precisamente esta ideia de que podemos comprar felicidade ao comprar bens de consumo que é profundamente predatório, destruidor do meio ambiente.
Existe hoje a possibilidade de reprodução da vida em laboratório, sendo possível, agora, fecundar o óvulo sem a presença do homem. Pais lançam mão da reprodução assistida. “A noção de procriação é substituída pela prática da re-produção, como sendo um processo industrial.
Empresas transformam-se em proprietárias de linhagens genéticas de pessoas, animais e plantas, através da biopirataria, e cientistas alertam que novas doenças estão a ser definidas ou exageradas por especialistas, muitas vezes financiadas pelos próprios laboratórios. A ganância é uma força poderosa que move a indústria farmacológica.
Embora reconhecendo que a ciência promoveu avanços para a humanidade, e que muitas conquistas científicas devem-se aos conhecimentos acumulados pela biologia e pela medicina, a possibilidade de manipulação genética, vinculada à exploração comercial de seres vivos, sinaliza para uma relação perversa entre ciência, comércio e criação.
É necessário, portanto, despertar a consciência de que aquilo que funciona tecnologicamente e é útil para o mercado não é necessariamente justificável sob a perspectiva da ética cristã. Os avanços científicos não se constituem num problema meramente técnico, mas antes de tudo ético.
Sob a óptica bíblica, a vida não é propriedade, como quer o mercado, nem objecto, como pode a ciência supor, mas é dádiva de Deus. E esse deve ser o ponto de partida para o agir responsável.
As igrejas precisam, pois, informar-se constantemente acerca dos avanços científicos, para que possam promover reflexão bíblica a esse respeito e posicionar-se, na esfera pública, quanto a propostas de ordenamento legal da pesquisa e dos avanços científicos.
O alcance das acções das igrejas pode ser limitado, mas ainda assim significativo, e, registe-se que, a bioética é um instrumento em prol da vida.
A bioética não se preocupa somente com as questões médicas, mas com a sobrevivência do planeta e com o futuro da humanidade. Aborda, bem por isso, temas como a fome, a discriminação racial, o combate à violência e o combate à destruição do planeta.
* Bioética é o estudo transdisciplinar entre biologia, medicina e filosofia - dessa última, especialmente as disciplina da ética, da moral e da metafísica. O termo foi construído a partir das palavras gregas bios (vida) e ethos (relativo à ética). As suas directrizes filosóficas surgiram após a tragédia do holocausto, na II Guerra Mundial, quando o mundo ocidental, chocado com as práticas abusivas de médicos nazis em nome da ciência, criaram um código para limitar os estudos relacionados.
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